Posts Tagged ‘Filosofia’

Existe um koan zen (um koan é uma pequena história ou frase  que inicialmente aparenta ser paradoxal, mas sua função é alterar a nossa percepção da realidade), um dos meus preferidos, que diz: “A própria mente desencaminha a mente, acautele-se contra a mente.” (Inclusive, citei este mesmo koan em outro post, “Criando a própria vida“, sobre o poder dos nossos pensamentos na criação de nossa realidade). Novamente, este koan tem tudo a ver com o texto abaixo, “A vida não é uma aula de filosofia“, de Osho, traduzido por mim. Neste texto ele fala de como estamos sempre criando confusões por causa de nossa mania de estar sempre querendo ter respostas para tudo. E pior: por acharmos que precisamos ter respostas… um texto para muita reflexão… ou não!

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Resolver os seus problemas significa lhe dar uma resposta que intelectualmente o satisfaça; e para dissolver o seu problema é dar-lhe um método que o faça se tornar consciente de que não há problema algum: (observação minha: there is no spoon… “a colher não existe”… Matrix roubando a cena… ;-) ) os problemas são criações nossas e não há necessidade de resposta alguma.

A consciência iluminada não possui respostas.

A sua beleza é o não ter respostas.

Todos os seus questionamentos foram dissolvidos, desapareceram. As pessoas pensam o contrário: elas pensam que o homem iluminado precisa ter uma resposta para tudo. A realidade é que ele não tem resposta alguma. Ele não tem perguntas. Sem perguntas, como ele pode ter respostas?

Gertrude Stein, uma grande poeta, estava morrendo, rodeada pelos seus amigos, quando de repente ela abriu os olhos e perguntou: “Qual é a resposta?”

Alguém disse: “Mas nós não temos a pergunta, como poderemos ter a resposta?”

Ela abriu os seus olhos, uma última vez e disse: “Ok, então qual é a pergunta?” e então morreu. Uma estranha última declaração.

É belíssimo descobrir as últimas palavras de poetas, pintores, dançarinos e cantores. Eles possuem algo tremendamente significativo dentro deles.

Primeiro ela perguntou: “Qual é a resposta?”… como se a pergunta não pudesse ser diferente para seres humanos diferentes. A pergunta precisa ser a mesma; não há necessidade de articulá-la. E ela estava com pressa, então ao invés de seguir o caminho apropriado - fazer a pergunta e então ouvir a resposta - ela simplesmente perguntou, “Qual é a resposta?”

Mas as pessoas não compreendem que cada ser humano está na mesma posição: a mesma pergunta é a pergunta de todos. Então alguma pessoa estúpida perguntou, “Mas nós não temos a pergunta, como poderemos ter a resposta?”

Parece lógico, mas não é: é simplesmente estúpido -e para uma pessoa morrendo… Mas a pobre mulher abriu seus olhos mais uma vez. Ela disse, “Ok, qual é a pergunta?” E então fez-se silêncio.

Ninguém conhece a pergunta, ninguém conhece a resposta. Na verdade não há nenhuma pergunta e não há nenhuma resposta; há somente um modo de viver em confusão, na mente. E lá há milhões de perguntas e milhões de respostas, e cada resposta acarreta em centenas de perguntas a mais, e não há fim para isso.

Mas há um outro modo de vida: viver em consciência - e aí não há resposta e não há pergunta.

Se eu estivesse presente quando Gertrude Stein estava morrendo diria a ela, “Este não é o momento para se incomodar com perguntas e respostas. Lembre-se de que não há pergunta e que não há resposta: a existência é totalmente silenciosa à respeito de perguntas e respostas. Ela não é uma aula de filosofia. Morra sem nenhuma pergunta e sem nenhuma resposta; simplesmente morra silenciosa, consciente e pacificamente.”

Do livro: The Path of the Mystic.

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17
Jul

Quem é você?

   Postado por: admin    in Lei da Atração, Osho, Psicologia, Religião

Osho, falando sobre tudo o que acreditamos “ser”.

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QUEM É VOCÊ?

A mente é passado, é memória, todas as experiências acumuladas, num certo sentido. Tudo o que você já fez, tudo o que já pensou, tudo o que já desejou, tudo o que já sonhou - tudo, seu passado inteiro, sua memória - mente é memória. E, a menos que se livre da memória, você não conseguirá dominar a mente.

Como se livrar da memória? Ela está sempre ali, seguindo você. Na verdade, você é a memória, então como se livrar dela? Quem é você sem as suas lembranças? Quando eu pergunto “Quem é você?”, você me diz seu nome - isso é uma lembrança. Seus pais lhe deram um nome um tempo atrás. Eu pergunto “Quem é você?”  e você me fala de sua família, do seu pai, da sua mãe - isso é uma lembrança. Eu pergunto “Quem é você?” e você me conta o que estudou, seu nível de instrução, que fez mestrado em Artes ou que tem doutorado ou que é engenheiro ou arquiteto. Isso é uma lembrança.

Quando eu pergunto “Quem é você?”, se você de fato olhar para dentro, só terá uma resposta: “Não sei”. Tudo o que disser será apenas uma lembrança, não você de verdade. A única resposta verdadeira, autêntica, só pode ser “Não sei”, pois conhecer a si próprio é a última coisa que você faz. Eu posso dizer quem sou, mas não digo. Você não pode dizer quem é, mas se apressa em dar a resposta. Aqueles que sabem quem são guardam silêncio sobre isso. Pois, se toda a memória for descartada e toda a linguagem for descartada, então quem eu sou não pode ser dito. Eu posso olhar dentro de você, posso dar a você um gesto; posso ficar com você, com todo o meu ser - essa é a minha resposta.

Mas a resposta não pode ser expressa em palavras, pois tudo que é expresso em palavras faz parte da memória, da mente, não da consciência.

Como se livrar das lembranças? Observe-as, testemunhe-as. E lembre-se sempre: “Isso aconteceu comigo, mas isso não sou eu.” É claro que você nasceu numa determinada família, mas isso não é você; aconteceu com você, é um acontecimento externo a você. Alguém lhe deu um nome; você o tem usado, mas ele não é você. É claro que você tem uma forma, mas a forma não é você; ela é só a casa em que por acaso você está. A forma é só o corpo em que por acaso você está. E o corpo lhe foi dado por seus pais - é uma dádiva, mas não é você.

Observe e tenha discernimento. Isso é o que no Oriente chamam de vivek, discernimento - você usa o tempo todo a sua capacidade de discernir. Continue fazendo isso - chegará um momento em que você terá eliminado tudo o que não é você. De repente, nesse estado, você se olha pela primeira vez e encontra seu próprio ser. Continue jogando fora todas as identidades que não são você - a família, o corpo, a mente. Nesse vazio, quando tiver jogado fora tudo o que não for você, de repente seu ser vem à tona. Pela primeira vez você encontra si mesmo, e esse encontro passa a ser o domínio.

Livro: Consciência - A Chave para Viver em Equilíbrio - Osho.

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Consciência: a Chave para Viver em Equilíbrio

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Uma Farmácia para a Alma

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9
Jul

Qual pílula você tomou?

   Postado por: admin    in Mitologia, Psicologia, Psicologia Profunda, Religião

Matrix. Quase dez anos depois de sua estréia, esse filme continua a impressionar. Sei que existem gazilhões de resenhas e artigos sobre ele, mas não adianta. Por mais que se fale de Matrix, nunca se fala o suficiente. Assisti-o novamente há poucos dias, num canal de tv a cabo. Dublado. Por mais que odeie dublagem, nem isso consegue estragar Matrix. Acredito que Joseph Campbell ficaria orgulhoso se tivesse tido a oportunidade de assistir a esse filme. Penso que os irmãos Wachowski realmente conseguiram (re)criar um mito moderno, utilizando a sabedoria antiga e os arquétipos tão cristalizados em nosso inconsciente coletivo. Lembro que na época que estreou, pelo menos aqui no Brasil, foram poucos os que realmente compreenderam o filme logo de cara (e, não duvido que tenha gente que ainda não compreende). Não é de se espantar. O filme é capaz de revelar mensagens e provocar insights profundos mesmo depois de assistido 20 vezes. Os outros dois filmes da trilogia não conseguiram chegar nem aos pés do primeiro. Se duvida do que estou dizendo, experimente assistí-lo novamente. E leia o texto abaixo. É o melhor texto que já li sobre o filme. Se já conhecia essa interpretação, experimente lê-la novamente. É sempre surpreendente.

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Tradução Mística do filme Matrix

Matrix

Esse filme é o que se pode chamar de uma revelação, no sentido de re-velar, ou seja velar de novo, apresentando antigos ensinamentos numa linguagem nova, utilizando para isso, com uma certa mistificação, o elemento tecnológico do mundo moderno, a Internet.

Dessa forma, através de uma nova contextualização, o filme resgata para nossa civilização, de uma forma alegorizada, verdades universais contidas no Tao Te King; Bhagavad-Gita, em todos os Vedas, enfim, verdades que de outro modo se perderão, se não encontrarmos uma linguagem que nos permita comunica-las às novas gerações.

Nele fica nítido que um dos arquétipos do herói mitológico, muito utilizado na época do Jesus bíblico, geralmente associado a determinados imperadores, heróis, ou semideuses, permeia toda a trama, no caso em questão, o arquétipo utilizado é o do messias, ou ungido, que podemos resumir da seguinte forma: Um redentor esperado, de nascimento virginal, a traição por parte de um de seus companheiros, a luta contra as forças do mal, a morte e a ressurreição, e finalmente a ascensão aos céus.

O filme, analisado hoje, começa com Trinity, a iniciadora em conexão com o mundo real através de uma linha telefônica, no Heart O’ The City Hotel. Essa linha do ponto de vista simbólico, eqüivale a vibração do Anahata, ou Chacra Cardíaco, que permite-nos, uma vez ativado, sintonizar nossa consciência com nosso átomo primordial. No atual estado evolutivo da humanidade, esse chacra só pode ser dinamizada pelo elemento feminino.

O número que vemos em exposição na tela do console manipulado pelo personagem Trinity, é 506, equivale ao Arcano 11, (5+0+6= 11), ou seja a lâmina da força. Nesta lâmina do Tarô, vemos uma mulher abrindo com as mãos nuas, a boca de um leão. No filme, Trinity representa a Shakti, a força que penetrando no Chacra Cardíaco do iniciado, promove a consciência.

O ser que está na Senda Iniciática, representado pelo personagem principal, utiliza um pseudônimo, o equivalente ao nome secreto empregado em algumas escolas. Neo, lido anagramaticamente, eqüivale a Noé, One (um), ou Eon, que em grego significa ciclo, era ou período, simbolizando a ligação desse personagem com um novo começo, algo novo, uma nova era.

Ele, Neo, recebe a primeira instrução de sua iniciadora, Trinity, que lhe diz como se estalasse os dedos, “Acorde, Neo”, da mesma maneira que os iniciadores repetem isso aos discípulos, durante toda a sua jornada na Senda.

O personagem principal do filme, como todos os outros que se iluminaram antes dele, procurava a resposta para nas palavras de Trinity, “A pergunta que nos impulsiona”.

Quando finalmente trava contato, com Morfeu, seu Mestre, este diz a Neo, que “há duas formas de sair daí, uma é pelo andaime, outra é levado por eles”, ou seja uma vez que o indivíduo, desperta para as Leis ocultas que determinam os acontecimentos nos planos da manifestação, elevando sua consciência a um nível superior as pessoas comuns, só há duas maneiras dele continuar seu desenvolvimento, uma é subindo, outra é capturado pelas forças, que representam os processos personalísticos que nos controlam.

Neo hesita, devido a seu medo e desconfiança, gerados pelo sentimento de auto-preservação e acaba capturado pelos elementos personalísticos.

Mas tarde, vemos Neo, de volta a sua vida comum, supostamente liberto, sendo levado ao encontro de Morfeu, para sua iniciação. Porém, antes dele entrar no vestíbulo onde o Mestre o espera, Trinity a iniciada que o guia, como uma Ariadne que guiou Teseu no labirinto de Creta, lhe dá um conselho semelhante ao que é dado a todo discípulo em prova; “Seja sincero. Ele sabe mais do que você imagina.”. Só então, ela lhe abre a porta da sala onde o Mestre lhe espera.

Durante o diálogo que se segue, Morfeu observa que ele, Neo, é; “Um homem que aceita o que vê”. Entendemos melhor essa afirmação quando consideramos que o nome “real” do personagem Neo no filme, é Thomas A. Anderson, Thomas é equivalente a Tomás ou Tomé, demonstrando o relacionamento do personagem a São Tomé, o apóstolo que precisava ver para crer. Vale notar, que o sistema iniciático adotado por Morfeu, relaciona-se, na sua forma extremamente simples e objetiva, a iniciação mental, praticada nas escolas em sintonia com o atual estado de consciência da humanidade, focado mental concreto, e que portanto não trabalham mais com o sistema de iniciação astral, ou fenômenico, utilizada em escolas mais primitivas.

Morfeu, ensina sobre A Matrix - (Ma = m = Maya, que significa ilusão em sânscrito e Trix = Tri = Três). Matrix, tem o mesmo significado das tradicionais Três Mayas, Três Véus, ou Três Ilusões, a ilusão física, a ilusão psíquica e a ilusão espiritual, que segundo o hinduismo ocultam a realidade.

Ele, o Mestre, apresenta seus ensinamentos na forma de questões do tipo “Você deseja saber o que ela é ?”, ao receber resposta afirmativa de Neo, continua “A Matrix, está em todo lugar. A nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela, ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai a igreja, quando paga seus impostos. É o mundo colocado diante dos seus olhos para que não veja a verdade”.

Ao questionamento seguinte do discípulo (Neo), sobre o que é a verdade, ele continua implacavelmente, dizendo que a verdade é “Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente. Infelizmente é impossível dizer o que é a Matrix (ou a Maya). Você tem de ver por si mesmo.”, nesse momento então ele oferece a Neo, uma pílula azul, para conservar o sonho, a Maya, e outra vermelha para mudar sua percepção da realidade. A cor da primeira pílula, o azul é associada ao conservadorismo,no mesmo sentido do sangue real, ou azul das antigas monarquias européias. A cor da segunda é vermelha, relacionado as transformação revolucionárias violentas, associado a mudanças radicais. Morfeu, o Mestre, tem a chave que abre as portas para o real, mas Neo, o discípulo, tem que fazer a escolha.

Durante a iniciação ele morrerá para um mundo de sonhos e nascerá para o mundo real, despertando plenamente para a verdadeira natureza, do mundo físico, do mundo psíquico e do mundo espiritual, compreendendo dessa forma a tríplice natureza unitária da realidade. Para entendermos melhor o que ocorre com Neo a partir daí, é importante considerarmos o que é dito no Bhagvad-gita, por Sri Krisna, quando se dirige a seu discípulo Arjuna e lhe diz “Ó Arjuna, o Senhor Supremo está situado no coração de todo mundo, e dirige as divagação (os sonhos) de todas as entidades vivas, que estão sentadas como numa máquina, feita de energia material”. (Bhagavad-Gita - Como Ele É, texto 61, capítulo 18, pág. 706. - A.C. B. Swami Prabhupada).

No filme, já no mundo real, a bordo do Nabucondonossor, observamos a analogia da lei que afirma que são necessários sete discípulos, para formar um Mestre, temos os personagens; Trinity, Apoc, Switch, Dozer, Tank, Mouse e Cypher, como os sete discípulos, tendo como representante da consciência do Mestre, a figura do líder Morfeu, ou Morpheus (Personagem mitológico, deus do sono grego).

Na nave, ou arca, chamada no filme de Nabucondonosor, percebemos referência o ano 2069 (2+0+6+9 = 17), correspondente ao Arcano 17, a Estrela, símbolo relacionado a egrégora da Obra, em que estão empenhados esses divinos rebeldes. Avançando um pouco mais, vemos que na segunda parte da iniciação de Neo, Morfeu lhe informa que no começo do século 21, número que no Tarô iniciático de JHS, corresponde a lâmina do Louco, os homens criaram a I.A. (Inteligência Artificial), um tipo de consciência singular, que gerou uma raça inteira de máquinas, ou de seres mecanizados. Bem semelhante ao que acontece em nossos dias, onde os seres humanos vão sendo “robotizados”, num processo de massificação que antigamente era chamado costume, mas que na atualidade tem o nome de moda. Tornando-se cada vez mais inconscientes, num mundo dominado por padrões de comportamento.

Segundo Morfeu, encantados com sua própria grandeza, os homens celebravam sua realização, porém na guerra que adveio após tal sucesso, eles queimarão o céu, ou seja, fecharão as portas para as energias solares, positivas, transformando o mundo num deserto tecnológico de trevas, sem Deus, onde os seres mecânicos se tornaram os senhores. Da era de ouro porém, só restou Sião, “a última cidade humana”, Sião ou Sinai, é na tradição israelita o Monte sagrado onde Moisés teria recebido as Tábuas da Lei do próprio Deus.

Segundo o personagem Tank, Sião fica localizada nas entranhas da Terra, próximo ao seu núcleo incandescente, o Sol Central do planeta. Relacionando-se claramente assim, aos mistérios dos Mundos Subterrâneos, especificamente a cidade subterrânea de Shamballa (Sião = S = Shangrilla, Shamballa das tradições transhimalaianas). Shamballa, é um núcleo de integração de consciências espirituais elevadíssimas, que vibra no interior da terra, representado alegoricamente como uma cidade. Dessa forma, Sião representaria o lugar onde realmente somos o que somos e do qual fomos enviados a face da terra, onde conforme diz o personagem Tank, será festejado o fim da guerra maniqueísta entre os filhos da Luz e os filhos das trevas, representados pelos homens e pelas máquinas.

Só o líder, ou o Mestre, de cada nave, ou Arca, recebe as senhas, ou as chaves, para penetrar em Sião, assim Morfeu, é também um pontífice (Pontifex = construtor de ponte), construindo a ponte entre o mundo ilusório e o mundo real, entre Matrix e Sião.

Já na terceira fase do processo iniciático (treinamento) que Morfeu submete seu discípulo, ele declara a Neo, “Quero libertar sua mente, Neo. Mas só posso te mostrar a porta. Você tem de atravessa-la”.

Apesar do personagem de Morfeu declarar no filme, que os seres humanos não estão prontos para “acordar”, isso não faz das pessoas adormecidas inimigas. Suas palavras contundentes, expõem o que é dito nos Vedas, quando os sábios afirmam que todos; pais, mães, irmãos, avôs, avós, amigos, namorados, cônjuges, etc. são “soldados ilusórios”, que promovem nosso apego a Maya, pois enquanto adormecidos, os seres humanos fazem parte do “sistema ilusório”, portanto possuem em sua estrutura processos personalísticos que eles mesmos desconhecem, mas que tomam conta de sua consciência em algumas ocasiões, para defender seus preconceitos e manter sua existência ilusória.

Esses processos personalísticos que nos prendem a ilusão, são representados no filme pelos agentes da Matrix,
programas sencientes que entram e saem em qualquer software conectado ao sistema deles. Fazendo eco as palavras dos sábios nos Vedas, Morfeu diz, que “Qualquer um ainda não libertado, é um agente em potencial da Matrix. Eles são todos e não são ninguém”. Os processos personalísticos, relacionam-se aos sete pecados capitais, “… eles são os porteiros, protegem todas as portas e tem todas as chaves.”. Às vezes, os seres humanos são vencidos por esses agentes da Matrix, alguns até pactuam com eles, como é o caso de Cypher. Ele é aquele viu a verdade, despertou para a realidade mais prefere a ilusão e a mentira. Ele, Cypher, diz ter percebido após nove anos (número equivalente aos degraus da escada de Jacó, que simbolicamente leva o homem do mundo terreno ao mundo espiritual), que “A ignorância é maravilhosa”. Dessa forma, pensam os magos negros, aqueles que fazem opção por Avidya, pela ignorância, que voltam as costas à Luz e mergulham
voluntariamente na escuridão.

Os que assim procedem, sempre acusam aos que lhes mostraram o caminho, de fraquezas e incapacidade, que eles mesmos possuem. Corroídos pelo ódio, pela luxúria e pela inveja, afirmam terem sido enganados, por seus Mestres, que quando fazem realmente jus a esse nome, tentaram sempre, guia-los na Boa Senda. Cypher, representa o traidor, que trai a sua própria natureza humana, ao submeter-se ao domínio das máquinas. Ele oferece a si mesmo, como pasto para as forças negativas que passa a servir, em troca de prazeres ilusórios. Age assim no intuito de satisfazer seus impulsos baixos, suas Nidhanas.

O iniciado, seguidor dos Mestres da Grande Fraternidade Branca, até que se torne verdadeiramente um Adepto, enquanto estiver encarnado, sentirá os apelos de seus veículos inferiores. Isso ocorre porque nesse estado, ainda possui elementos básicos em sua composição ainda por equilibrar e que por isso mesmo exigem satisfação. Apesar disso ele não os nega, mas os transmuta, canalizando-os para realizações reais que o libertem cada vez mais da ilusão da Maya, tornando-os elementos impulsionadores de sua evolução. Num determinado ponto do filme, inclusive, um dos membros da tripulação Mouse, fala com Neo sobre isso, dizendo-lhe, que “Negar os nossos impulsos é negar aquilo que faz de nós humanos”. Ciente disso, o verdadeiro iniciado é extremamente consciente de seus impulsos, não os recalcando hipocritamente para as regiões do subconsciente, onde irão se acumulando, como esqueletos no armário, de onde continuarão a atuar sem nenhum controle, disciplina ou educação, até invadirem como uma enchente de um rio bravio, a consciência, dominando-a e arrastando-a as maiores perversões. Por isso o verdadeiro iniciado, sabe que deve vigiar seus sentidos, para através de um sistema iniciático sério, de uma disciplina superior, não recalcar, mas trabalhar, transformar suas Nidhanas, ou tendências negativas, em Skandhas, ou características positivas.

Num determindado nível dessa etapa da iniciação de Neo, Morfeu o conduz até o Oráculo. Vemos que a entrada do elevador é guardada por um cego, que vê. Ele, o cego, que responde ao sinal que Morfeu lhe faz com a cabeça, representa os iniciados, guardiões da Luz, cegos para o mundo ilusório, mas iluminado para a realidade. Já dentro do elevador o Mestre diz então a Neo, para tentar “Não pensar em termos de certo e errado.”, pois para os que chegam ao Oráculo, certo e errado, bem e mal, feio e bonito, todos os pares de opostos se anulam. Às portas do Oráculo, Morfeu, o Mestre diz ao seu discípulo, “Só posso te mostrar a porta. Você tem de atravessá-la”, indicando assim que cada passo do discípulo em prova é dado por sua própria conta, pois na Senda da Iluminação ninguém caminhará, ou tomará as decisões por ele.

Porém, quando Neo coloca a mão na maçaneta da porta, esta lhe é aberta, mais uma vez por uma sacerdotisa. Essa atuação constante do elemento feminino, demonstra a necessidade da interação dinâmica de ambas as polaridades humanas, de acordo com certas regras esotéricas..

Assim macho e fêmea, interagem ciclicamente no processo iniciático de crescimento espiritual, através do entrelaçamento das forças de Fohat e Kundalini. Ao integrarem-se dessa forma, ambas as energias dão origem ao Andrógino Divino, um ser verdadeiramente equilibrado, mas que conserva as características do corpo que ocupa, se masculino, vive e relaciona-se como homem, se feminino, vive e relaciona-se como mulher, podendo em alguns casos fazer opção pelo Brahmacharya, ou voto de castidade. O resultado da integração dinâmica das polaridades cósmicas, é totalmente diferente das expressões caóticas homossexuais ou bissexuais, dois tipos que representam seres decaídos, em oposição ao Andrógino Divino, que é a perfeição evolutiva humana. Já dentro da sala do Oráculo, Neo encontra várias crianças, especialmente um menino, uma espécie de pequeno monge, do qual aprende alguns mistérios, sobre esse mundo ilusório, num episódio que lembra bem aquela passagem bíblica, onde o Cristo bíblico, ensina que aquele que não se tornar como estas crianças, não entrará no reino dos céus. Dentro do Oráculo, uma cozinha, onde a Pitonisa, ou profetisa (novamente uma mulher), manipulando um forno moderno, quebra as expectativas do discípulo. A cozinha nos faz lembrar o laboratório dos alquimistas e o forno o Athanor, ou forno utilizado pelos alquimistas, Adeptos da Arte Real.

Num determinado ponto de sua conversa ela, a Pitonisa, cita-lhe o celebre axioma socrático, “Conhece-te a ti mesmo”, que via-se as portas do oráculo de Delfos, o qual essa etapa do filme representa. Só que as portas do Oráculo de Delfos, as palavras citadas no filme, estavam escritas em grego e de forma mais integral exortavam, “Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.”.

A mulher que representa a Pitonisa do Oráculo, lhe afirma de forma metafórica, que “Ser o escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode te dizer se você está. Você simplesmente sabe. Não tem dúvida, nenhuma”. Assim ao lhe falar sobre o escolhido, ela descreve o processo de iluminação avatárica, pois este não é uma coisa que se busca e que se consegue, ou que fica-se esperando, ele simplesmente é, como algo que simplesmente acontece, e nesse ponto do filme, Neo, não é o escolhido. A Pitonisa, afirma que ele tem o dom, isso diríamos nós todos temos, mas ele parece que “está esperando por algo”. Quando Neo lhe indaga, a respeito do que poderia estar esperando ela lhe responde ” Sua próxima vida talvez”. Dessa forma, Neo age como a maioria das pessoas, que iniciam-se na Senda, e que protela para a próxima vida a iluminação, esperando, pensando que; Afinal ela não é para agora, quem sabe mais tarde…

Ao sair do Oráculo, Neo, encontra-se com Morfeu e este lhe adverte, “Que o que foi dito era para você e apenas para você”, assim é com tudo que é comunicado nas verdadeiras iniciações Assúricas, com aquilo que é falado do iniciador para o iniciando, de boca-para-ouvido, de maneira sutil e discreta, quase que imperceptivelmente.

Quando porém, os agentes de Matrix capturam Morfeu, um representante dos processos internos personalísticos, intelectualiza a existência humana e de forma convincente, compara o seu desenvolvimento humano sobre a terra, que na maioria das vezes, foi totalmente controlado pela personalidade caótica, ou seja por esses mesmos processos internos, ao o de um vírus. Dessa maneira, o agente se coloca como a cura para o mal, que segundo ele é representado pela maior de todas as criações de Deus na Terra, o Ser Humano, ignorando em seu discurso, o desenvolvimento do Espirito Humano, capaz dos maiores gestos de sacrifício, altruísmo e fraternidade, única esperança para o planeta. Esse Espirito Humano, quando plenamente desenvolvido, subjuga a natureza animal e mecânica e converte o Homem, na expressão de Deus na face da Terra. Esse espírito humano, quer o chamemos, Deus, Bramam, Ala, Jeová, Tao, opõe-se aos processos mecânicos, instintivos e animalescos, que controlam os seres ainda inconscientes, atuando de forma a libertar a Centelha Divina, promovendo o nascimento do Avatar, ou como é expresso no filme do Escolhido. Vemos isso, quando Neo toma a decisão de sacrificar-se, dando-se em holocausto pelo seu amigo e Mestre Morfeu.

Apesar de conhecermos intelectualmente o exposto acima, as esclarecedoras palavras de Morfeu, após ser resgatado devem ser consideradas; “Cedo ou tarde, você vai perceber, como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho“.

Num determinado ponto do fim do filme a personagem Trinity, reproduz um dos mais antigos mitos da humanidade, ao trazer Neo de volta a vida, fazendo com que ele obtenha sucesso na última e derradeira iniciação conhecida por nós como Morte.

Quase no final do filme, vemos através das palavras do personagem principal, que o Avatar não significa um fim, mas um começo, de algo novo, ilimitado, sem fronteiras, um novo ciclo, livre de Maya, sem ilusão, onde tudo é possível ao ser desperto. Ele dirigi-se a Matrix, a estrutura geradora da ilusão, declarando-se decidido a “…mostrar a essas pessoas o que [Matrix] não quer que elas vejam. Vou mostrar a elas um mundo sem você. Um mundo sem regras, sem controles. Um mundo onde tudo é possível.”.

Sua última frase, dirigida a Matrix, a Maya, a Ilusão, ou melhor dizendo, dirigindo-se aquilo que torna possível esse processo de auto-hipnose, nossa personalidade, pode ser considerada como dirigida a cada um de nós. Ele fala calmamente sobre a decisão que deixa a cada um dos espectadores, “Para onde vamos daqui, é uma escolha que deixo para você.”.

O filme termina, com Neo saindo do chão e voando, reproduzindo o arquétipo da ascensão, ou da subida aos céus, que simboliza a realização plena do iniciado, já tornado um verdadeiro Adepto, fazendo parte agora de outro processo evolutivo, relativo ao desenvolvimento dos deuses.

Lembre-se: Tudo que ofereço é a verdade. Nada Mais.” Morfeu

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Matrix: Bem-vindo ao Deserto do Real

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A Pílula Vermelha

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Simulacros e Simulação

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3
Jun

Quando Nietzsche chorou

   Postado por: admin    in Livros & Literatura, Psicanálise, Psicologia, Vídeos

Recentemente assisti ao filme, baseado no famoso livro de mesmo nome, “Quando Nietzsche Chorou” (de Irvin D. Yalom). Para dizer a verdade nem sabia que o livro já tinha virado filme, assisti “acidentalmente” (liguei a TV, virei um pouco os canais e parei num filme… parecia tão familiar… continuei vendo… “nossa essa história não me é estranha”… de repente, aparece o título do filme…). Pois bem, navegando no Youtube encontrei a cena final, muito tocante, que está logo abaixo. O filme não é uma grande produção, os atores não são famosos, e há algumas atuações sofríveis (com destaque para a da atriz que faz Bertha Pappenheim… que ficou um tanto artificial e forçada). Mesmo assim vale a pena assistir, a história pelo menos é muito boa (quem leu o livro sabe)!

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RECOMENDADO:

Audiolivro - Quando Nietzsche chorou

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Quando Nietzsche Chorou - Filme

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Humano, demasiado Humano - Livro

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A partir de uma lista oficial de livros recomendada pelo prof. Joseph Campbell às suas alunas da faculdade Sarah Lawrence, encontrada no site da Fundação Joseph Campbell ( http://www.jcf.org ), criei esta lista com os títulos que encontrei publicados em Português. A maioria dos livros aqui citados podem ser encontrados em livrarias virtuais. Na lista aparece primeiro o nome do autor, seguido do nome da obra e a editora. Esta mesma lista disponibilizei no fórum oficial em língua portuguesa da Fundação: http://www.jcf.org/forum/viewforum.php?forum=36 .

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1- OVÍDIO - Metamorfoses - Editora: Hedra

2 - JAMES GEORGE FRAZER - O ramo de ouro - Editora: LTC

3 - EMILE DURKHEIM - As Formas Elementares da Vida Religiosa - Editora: Martins Fontes.

4 – SIGMUND FREUD - Interpretação dos Sonhos - Editora: Imago
Moisés e o Monoteísmo - Editora: Imago
Totem e Tabu - Editora: Imago
É interessante talvez olhar as Coleções Completas de Freud, também publicadas pela Imago.

5 – CARL GUSTAV JUNG - O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinesa. Editora: Vozes
Para quem se interessa por Jung, a Editora Vozes também publicou uma coleção de obras dele (não está completa).
Dos livros de Jung, eu recomendo (para os leigos):
MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES – Editora Nova Fronteira
O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS – Editora Nova Fronteira

6 - W.Y. EVANS-WENTZ – O livro tibetano dos mortos. - Editora: Pensamento

7 - BHAGAVAD GITA – Editora: Companhia das Letras ou Martin Claret

8 - ALAN W. WATTS - O Espírito do Zen. Editora: Cultrix.

9 - EUGEN HERRIGEL – A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen – Editora: Pensamento

10 - LAO TSE - Tao Te Ching: o Livro do Caminho e da Virtude – Editora: Mauad

11 - SUN TZU – A Arte da Guerra – Editora: Martin Claret

12 - CONFUCIO – Os Analectos – Editora: L&PM, Martins Fontes.

13 - FRIEDRICH NIETZSCHE – A Origem da Tragédia – Editora: Centauro, Madras.

14 – Bíblia – Novo Testamento, Evangelho de Lucas.

15 - ESQUILO - Prometeu Acorrentado – Editora: Martin Claret.

16 - EURIPEDES - Alceste Electra Hipólito – Editora: Martin Claret

17 - SOFOCLES - Édipo Rei; Antígona – Editora: Martin Claret

18 – PLATÃO – Fedro – Editora: Martin Claret

19 – O Alcorão

20 – Beowulf – Pode ser encontrado a história desse herói no livro: Mitos Universais: Mitos e Lendas dos Povos Europeus, de Jean Lang, Editora: Landy

21 - Edda em Prosa: Textos da Mitologia Nórdica de Snorri Sturluson. Editora: Numen
Edda em Verso ou Poética – não achei livros em português, mas na internet até que tem bastante informações.

22 – O Mabinogion – Não achei livros, mas achei um site com a tradução completa desse texto para o português: http://www.livrosparatudo.org/6D626E673130/

23 - WILHEM KARL GRIMM & JACOB LUDWIG KARL GRIMM - Contos de Grimm. – Editora: Cia das Letrinhas.

24 - FRANZ BOAS – Antropologia Cultural – Editora: Jorge Zahar

25 – THOMAS MANN - Morte em Veneza e Tonio Kröger – Editora: Nova Fronteira

26 - HERMAN MELVILLE - Taipi, Paraíso de Canibais - Editora: L&PM.

27 - LEO FROBENIUS – A Gênese Africana: Contos, Mitos e Lendas da África. - Editora: Landy.

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