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9
Oct

O Comum e o Extraordinário

   Postado por: admin    in Osho, Psicologia

Carl Gustav Jung, o famoso psiquiatra suíço, (criador da Psicologia Analítica) dizia que “todos nascemos originais e morremos cópias”. Nada mais verdadeiro. As pessoas freqüentemente tendem a se enganar achando que são “mais uma” em meio a multidão. Na verdade, é este exato pensamento que as faz sofrer e as faz permanecer estagnadas em suas limitações auto-impostas. Em parte querem ser mais especiais dos que os outros (muitas vezes sentem que é assim), em parte querem apenas ser comuns, como todo mundo. A questão é que você nunca se sentirá feliz, seja se achando mais especial do que os outros, seja se achando comum. Você só se sentirá feliz de verdade quando finalmente se der conta de que é extraordinário… como todo mundo, e ao mesmo tempo, à sua maneira.

E vejamos o que Osho diz sobre isso:

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“Osho, por favor, ajude-me a ser feliz, a ser comum. Eu descobri que todas as minhas preocupações, conflitos e tormentos, têm a ver com esse desejo de ser especial e nada mais.

“Sudha, é impossível ajudá-la, porque você não é comum - ninguém o é, ninguém pode ser. Todo mundo é único e extraordinário. O problema surge quando você começa a tentar ser aquilo que você já é. Aí você fracassa. Se você fosse comum, não haveria nenhuma dificuldade em alcançar o extraordinário. Haveria toda possibilidade. Mas, o peixe está no oceano e ele está tentando estar no oceano. O fracasso será total, ele está condenado a fracassar.

Como você pode ser comum? Toda essa existência é extraordinária. Cada grão de areia numa praia é extraordinário, cada folhinha de grama é extraordinária. E eu não estou falando apenas de lótus e rosas - naturalmente, elas também são extraordinárias - mas uma flor comum de um capim não é comum. Tudo o que existe é divino, como pode ser comum?

Não tente ser comum, caso contrário você vai fracassar e você irá criar miséria para si mesma. Eu mesmo não posso ajudar, eu não posso ir contra o Tao, contra a lei fundamental da vida. Deus só cria o extraordinário. Toda essa existência é especial. Essas gotas de chuva, essa manhã, as pessoas ao seu redor - este momento é extraordinário, ele não pode ser repetido novamente, não, nunca, nem mesmo em toda a eternidade ele poderá ser repetido novamente. Você nunca encontrará essas gotas de chuva caindo novamente, esse som, essa manhã, essas pessoas. Toda essa situação é extraordinária. Ela só acontece uma vez.

Em todo o mundo você não encontrará uma outra Sudha. Você pode seguir procurando, e não apenas neste momento presente, mesmo no passado ou no futuro, e nenhuma Sudha jamais será repetida. É assim que nós somos. E se você começar a tentar ser extraordinária, você estará em dificuldades.

Aceite a si mesma como você é, e aceite o todo como ele é - se você puder compreender que tudo é extraordinário - então você terá se tornado comum.

Sudha, não é que você queira ser extraordinária, você quer ser especial comparada com as outras pessoas. Isso também é absurdo, nenhuma comparação é possível. Como você pode ser comparada com outro alguém? Ninguém é como você. Você não compara um cachorro com um papagaio, ou compara? Não há qualquer similaridade, não há qualquer semelhança, como você pode comparar um cachorro com um papagaio? Ou uma árvore com um homem? Ou uma pedra com um rio? Na verdade, dois indivíduos não são iguais, por isso eles são incomparáveis. Você é você e o outro é o outro.

Compreender isso é ser ambos: comum e extraordinário. Extraordinário no sentido de que a existência somente cria pessoas únicas, e comum no sentido de que todo mundo é extraordinário. Não há nada extraordinário em ser extraordinário, todo mundo é. A comparação desaparece e quando não há comparação, não existe possibilidade de ego.
Você me pede: por favor, ajude-me a ser feliz… Eu só posso ajudá-la a não ser miserável. Eu não posso ajudar você a ser feliz. Mas se você não for miserável, você será feliz. Mas nenhum caminho direto é possível para fazê-la feliz. Se isso fosse possível, eu já teria feito você feliz há muito tempo atrás. Eu não sou miserável, eu já teria dado isso a você se fosse possível. Mas não há qualquer possibilidade.

A felicidade não é algo que possa acontecer com você a partir de fora. Uma vez que você pare de ser miserável, a felicidade acontece, a felicidade brota dentro do seu ser. Ela simplesmente cresce a partir de você, você começa a florescer e os obstáculos são removidos.

E esse parece ser o seu maior obstáculo: você quer ser extraordinária. Eu lhe declaro: Sudha, você é extraordinária. Mas lembre-se de que todo mundo também é. Por isso, agora não há necessidade de se preocupar. Eu lhe garanto, você não precisa provar isso. Deixe que esse obstáculo desapareça. Aceite a sua qualidade de ser extraordinária, curta isso, celebre isso. Walt Whitman diz ‘Eu celebro a mim mesmo, eu canto a mim mesmo…’ Celebre e cante. Você é extraordinária. Deus não fez outra pessoa como você e nunca fará outra pessoa como você. Somente por uma vez Deus existe como você, em você, nessa forma. Essa forma não se repete.

Então, o que está faltando? Toda a sua miséria está surgindo porque você está tentando se tornar extraordinária. E essa já é a qualidade do seu ser. Tornar-se, não se aplica neste caso. E então, de repente, você verá… Se você puder ver o ponto… Não pense a respeito disso, simplesmente veja o ponto - ele é tão cristalino - e um grande fardo sobre o seu peito irá desaparecer. Assim, você é extraordinária! Respire fundo, relaxe e, de repente, a felicidade está ali.

Felicidade não é alguma coisa que tenhamos que fazer ou produzir por ela. Ela é natural, ela é espontânea. Eu posso ajudá-la a não estar na miséria. A miséria é criação sua, enquanto a felicidade é criação de Deus. Miséria é um presente que você tem dado a si mesma, enquanto felicidade é um presente que Deus tem lhe dado. Mas você se agarra à miséria e quando você se agarra, você a alimenta com esse agarrar.Abandone isso. Comece a dançar e cantar e celebrar. Ponha um fim nisso agora. E não diga ‘amanhã’, porque o amanhã nunca vem. E não diga ‘eu vou pensar mais sobre isso’. Pensar não vai ajudar. Isso é um fato simples. Ou você compreendeu ou você perdeu o ponto.

Deixe-me repetir de novo: todo mundo é extraordinário, assim, ninguém precisa tentar. Não sofra com essa inferioridade desnecessária. E se sofrer com isso, você poderá seguir sofrendo anos e anos, e você continuará criando, e você continuará encontrando novas maneiras e meios. Alguém tem um nariz mais comprido que o seu, aí você se sentirá inferior. Alguém tem o cabelo louro, aí você se sentirá inferior. Alguém tem aqueles belos olhos, aí você se sentirá inferior. Alguém é mais inteligente, aí você se sentirá inferior. Alguém é um pouco mais alto, aí você se sentirá inferior. Se você continuar procurando e buscando miséria, ela estará disponível. Você pode encontrá-la em qualquer pessoa com quem você cruze, você encontrará uma coisa ou outra que está faltando em você. Mas é essa sua maneira de ver as coisas que cria a miséria.

Esqueça todo mundo e simplesmente olhe dentro de você, as dádivas que Deus tem lhe dado. E a gratidão irá surgir. Na verdade não existe razão alguma, nenhuma razão para essa existência existir, nenhuma razão para essa chuva, para essa manhã, para essa melodia, para essa bela canção que as nuvens estão cantando ao seu redor. Se essas coisas não estivessem aí, nós não poderíamos reclamar. Se essas coisas não estivessem aí, nós não poderíamos solicitar que elas estivessem. Essas coisas simplesmente estão aí, sem a nossa solicitação. Elas estão aí. Nós nem mesmo temos que bater na porta, e a porta está aberta. E milhões de dádivas estão sendo derramadas sobre você, simplesmente olhe para essas dádivas e você se surpreenderá. Você se surpreenderá ao ver como você tem perdido essas coisas. Só a alegria de respirar é suficiente para estar agradecido, só a alegria de encontrar um amigo é suficiente para estar agradecido, só a alegria de se sentar em silêncio, sem nada fazer… A alegria de uma manhã ou de um entardecer, a alegria de uma noite… Simplesmente siga procurando por essas alegrias e você as encontrará.

Você só encontra aquilo que você procura.

Você tem estado procurando por miséria, daí você ter criado misérias. Hoje está chovendo e amanhã não estará chovendo, então amanhã você poderá se sentir miserável. Você dirá: ‘porque não está chovendo hoje?’ E quando estava chovendo, você não estava agradecido.

Comece a se sentir agradecido. A felicidade estará cada vez mais próxima, quanto mais você se tornar agradecido. A gratidão funciona como um magnetismo. A mente reclamante repele a felicidade, ela fecha as portas. Tudo depende de você. Eu posso mostrar para você o caminho, mas é você que terá que caminhar nele. Buda disse ‘os budas podem apenas apontar o caminho, eles não podem caminhar por você. Você terá que caminhar. Eu estou mostrando a você o caminho, mas você se tornou muito esperta, eficiente em criar miséria para você mesma. Mude a direção de sua energia, canalize-a em direção à alegria, à beleza… esse cuco cantando lá longe. E pouco a pouco você verá tantas coisas que sempre estiveram ali, mas que você não as estava vendo. Seus olhos estavam cheios de miséria, por isso você estava perdendo tudo isso. Seus olhos estavam anuviados, eles estavam nebulosos, nevoentos. É por isso que você estava perdendo tudo isso.

E a pessoa pode perder por uma pontinha, a pessoa pode perder por um pequeno pensamento. Um pequeno pensamento pode se tornar uma barreira e você pode perder toda a beleza do vasto Himalaia. Você pode estar ali, observando os belos picos do Himalaia e o sol se pondo sobre as neves do Himalaia espalhando um dourado por toda parte, e um pensamento vem à sua mente e o Himalaia desaparece, o pensamento anuvia você. Você se lembra de alguma coisa: no outro dia alguém havia insultado você e isso foi o bastante. Ou você começa a fazer planos para o futuro: ‘amanhã eu vou ter que partir’ e, aí, o Himalaia desaparece. E o pensamento era tão pequeno, e o Himalaia tão grande… Mas mesmo um pequeno pensamento pode impedir. O pensamento está tão próximo de você e ele pode se colocar no meio. Uma simples partícula de pó pode cair em seus olhos, e só uma pequena partícula, quase invisível, pode tornar você cego, e você não consegue abrir os olhos e não pode ver o sol brilhando.

Sudha, faça apenas uma coisa: comece a abandonar esse conceito de inferioridade, esse conceito de que você tem que ser extraordinária. Veja que mesmo essa sua pergunta contém isso. Você assinou a pergunta assim: …uma buda comum, Sudha. Mesmo ali, o ego está reivindicando que ‘eu não sou algum buda comum. Eu sou um buda comum”. Você consegue perceber? ‘Os budas são pessoas extraordinárias. Eu não sou como eles. Eu sou um buda comum.’ Isso é reivindicar ser extraordinário.

Ajude-me a ser comum.

Você quer ser extraordinariamente comum. O ego pode continuar jogando, jogos sutis. Você terá que olhar completamente, do início ao fim. Simplesmente lembre-se de duas coisas: uma, que você já é aquilo que quer ser, então não há necessidade de fazer qualquer coisa para isso. Você pode chamar isso de comum ou pode chamar de extraordinário, não faz qualquer diferença. Você já é isso e você não conseguirá ser nada além disso. Como você chama isso, não importa. Se você está amando a palavra ‘comum’ então todo mundo é comum. Se você estiver amando a palavra ‘extraordinário’ então todo mundo é extraordinário. Lembre-se de mais uma coisa: o que quer que seja que você esteja reivindicando para você, você terá que reivindicar para o todo.E esse é o problema, você gostaria de ser especial, não ser como todo mundo.

Aconteceu…
Existe uma bela parábola…

Um homem adorava Deus por muito anos e sempre ele pedia ’satisfaça apenas um de meus desejos.’ Deus já devia estar cansado, aborrecido. Um dia ele apareceu e lhe disse ‘OK, você não me deixa em paz. De manhã, de noite, você segue batendo na mesma tecla ’satisfaça um de meus desejos’. ‘OK, eu estou aqui, qual é o seu desejo?’

E o homem disse: ‘o que quer que eu peça, deverá imediatamente ser dado a mim, esse é o meu desejo.’ O homem era muito esperto! Deus, em sua inocência, deve ter pensado que ele iria pedir uma só coisa, mas ele pediu tudo. Ele disse que só tinha um pedido e que era “o que quer que eu peça deverá ser dado imediatamente a mim.’ Mas você não pode derrotar Deus, porque a esperteza nunca derrota a inocência. Deus disse ‘perfeitamente certo, será como você pede, mas lembre-se de uma coisa: o que quer que você pedir, ao seu vizinho será dado em dobro.’

Agora o homem estava acabado. Meses se passaram e Deus retornava sucessivas vezes. ‘Você nada pede…?’ Ele parou de rezar e Deus continuava retornar várias vezes, de manhã, de tarde e ele dizia ‘O que? Você ainda não pediu?’ E o homem ficou muito cheio de Deus. Ele pensou e pensou, mas qualquer coisa que ele tivesse, os vizinhos teriam em dobro. ‘Isso não terá fim’. Ele sempre quis ter um belo palácio, “mas qual é o sentido agora? Os vizinhos terão grandes palácios em dobro.’ Uma simples idéia estava esmagando ele, estava matando ele. Ele perdeu toda a alegria de viver. Agora não havia qualquer possibilidade de um dia ser feliz, e esse Deus voltava de manhã e de tarde para torturá-lo. Assim, um dia ele disse: ‘OK, me dê um belo palácio dourado.’Imediatamente a sua choupana se tornou um palácio dourado, e ele viu que toda a cidade ficou cheia de palácios dourados - palácios maiores, palácios duplos, todos dourados - e o seu era o mais pobre de todos.

Ele procurou então por um advogado, porque a quem você recorre quando algum problema legal surge? O advogado lhe disse: ‘não se preocupe.’ E naturalmente Deus não poderia vencer um advogado. O advogado lhe disse: ‘você peça: faça agora um grande poço em frente à minha casa, sem um muro.’ Assim um grande poço apareceu diante de seu palácio e dois poços apareceram diante dos palácios dos demais. O advogado disse: ‘agora peça: faça com que um dos meus olhos desapareça.’ O homem disse: ‘o que você está dizendo?’ E o advogado disse: ’simplesmente espere. Lei é lei.’ Um de seus olhos desapareceu e ambos os olhos de seus vizinhos desapareceram. Agora, toda a cidade ficou cega… e com dois poços diante de cada palácio dourado… as pessoas começaram a cair nos poços e as pessoas começaram a morrer. E o homem ficou muito feliz. Ele disse ‘agora o meu desejo foi satisfeito’.

Assim, eu sei, Sudha, que você estará em dificuldades, pois eu declaro que você é extraordinária, mas todo mundo, todos os seus vizinhos, inclusive o Pramod, são duplamente extraordinários.

E, por favor, não procure por um advogado!”

LIVRO RECOMENDADO:

Intuição: o Saber Além da Lógica

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Osho:

Querido Osho,

O que eu quero?

“Krishna, ninguém sabe exatamente o que quer porque ninguém está consciente nem mesmo de quem é. A questão do querer é secundária, a questão básica é: quem é você? A partir disso, as coisas poderão ser resolvidas – quais são seus desejos, suas vontades, suas ambições.

Se você é um ego, então naturalmente você quer dinheiro, poder, prestígio, quer lutar com outras pessoas, você será competitivo – ambição significa competição. Você estará continuamente pisando na garganta dos outros e eles estarão continuamente pisando na sua. Então a vida se torna aquilo que Charles Darwin disse: a sobrevivência dos mais aptos. Na verdade o uso que ele faz da expressão “os mais aptos” não é correto. Na verdade, o que ele chama de mais apto, é o mais esperto, o mais animalesco, o mais inflexível, o mais estúpido, o mais feio. Charles Darwin não diria que Buddha é o mais apto, ou Jesus, ou Sócrates. Essas pessoas seriam mortas facilmente e aqueles que os tivessem matado iriam sobreviver. Jesus não conseguiria sobreviver. Certamente, de acordo com Darwin, Jesus não é a pessoa mais apta. Poncios Pilatos é muito mais apto, está mais no caminho certo. Sócrates não era o mais apto, mas as pessoas que o envenenaram, que o condenaram à morte, eram. O uso que ele faz da expressão ‘o mais apto’ é muito infeliz.

Se você está vivendo no ego, Krishna, então a sua vida será uma luta; ela será violenta e agressiva. Você criará miséria para os outros e para si mesmo, porque a vida de conflito não consegue ser nada além disso. Assim, tudo depende de você, de quem você é. Se você está no ego, ainda pensando em si em termos de ego, então você terá uma certa qualidade fétida. Mas, se você chegou a compreender que você não é o ego, então a sua vida terá uma fragrância. Se você não conhece a si mesmo, você está vivendo na inconsciência, e uma vida de inconsciência só pode ser uma vida de equívocos. Você pode ouvir Buda, você pode me ouvir, você pode ouvir Jesus, mas você interpretará de acordo com a sua própria inconsciência – você interpretará mal.

O cristianismo é a má interpretação de Jesus, assim como o budismo é a má interpretação de Buda, assim como o jainismo é a má interpretação de Mahavira. Todas essas religiões são interpretações errôneas, distorções, porque as pessoas que seguem Buda, Mahavira, Krishna, são pessoas comuns sem consciência. O que elas fazem é preservar os escritos e matar o espírito.

Um filósofo estava caminhando ao redor de um parque e notou um homem sentado em posição de lótus, com os olhos abertos olhando para o chão. O filósofo viu que o homem estava totalmente absorvido em seu olhar fixo ao chão. Depois de observá-lo por um longo tempo, o filósofo não mais resistiu e foi até o estranho camarada perguntando, ‘O que você está procurando? O que está fazendo?’

O homem respondeu sem deslocar o seu olhar fixo, ‘Eu estou seguindo a tradição Zen de sentar silenciosamente, nada fazer e então a primavera vem e a grama cresce por si mesma. Eu estou observando a grama crescer, mas ela ainda não cresceu coisa alguma.’

Não é preciso observar a grama crescer – mas isso é o que sempre acontece. Jesus diz uma coisa e as pessoas escutam, mas elas escutam apenas as palavras e dão àquelas palavras os seus significados.
Uma mãe levou seu filhinho ao psiquiatra e por mais de três horas ela lhe contou toda a história de seu filho. O psiquiatra estava ficando cansado, cheio, mas a mulher estava tão absorvida na sua fala que nem mesmo lhe deu oportunidade de impedi-la. Uma frase seguia a outra sem qualquer intervalo.

Finalmente o psiquiatra teve que dizer,’Por favor, pare agora! Deixe-me perguntar algo ao seu filho!’
E ele perguntou ao filho, ‘Sua mãe está reclamando que você não ouve o que ela lhe diz. Você tem alguma dificuldade de audição?’

O filho disse, ‘Não. Eu não tenho dificuldade de audição – os meus ouvidos estão perfeitamente bem – mas no que se refere a escutar, você pode julgar por si mesmo. Você consegue escutar a minha mãe? Ouvir eu posso: eu tenho que ouvir. Eu estava observando-o – você estava incomodado. Não há como não ouvir, mas escutar – pelo menos eu sou livre para escutar ou não. Se eu escuto ou não, é uma questão minha. Se ela grita comigo, ouvir é natural, mas escutar é uma questão totalmente diferente.’

Você ouviu, mas você não escutou, e todo tipo de distorção se juntou ao redor. As pessoas seguem repetindo aquelas palavras sem qualquer idéia do que elas estão repetindo.

Você me pergunta, Krishna, ‘O que eu quero?’ Eu é que devo lhe perguntar, ao invés de você me perguntar, porque depende de onde você está. Se você estiver identificado com o corpo, então o seu querer será diferente; então comida e sexo serão suas únicas vontades, seus únicos desejos. Esses são dois desejos animais, os mais baixos. Eu não os estou condenando ao chamá-los de mais baixos, eu não os estou avaliando. Lembre-se, eu estou apenas afirmando um fato: o mais baixo degrau da escada. Mas se você estiver identificado com a mente, os seus desejos serão diferentes: música, dança, poesia, e depois existem mil coisas.

O corpo é muito limitado; ele tem uma polaridade simples: comida e sexo. Ele se move como um pêndulo entre esses dois, comida e sexo, nada mais existe para ele. Mas se você está identificado com a mente, então ela tem muitas dimensões. Você pode estar interessado em filosofia, em ciência, em religião – você pode estar interessado em muitas coisas que consegue imaginar.

Se você estiver identificado com o coração, então os seus desejos serão de uma natureza ainda mais elevada, mais do que a mente. Você se tornará mais estético, mais sensitivo, mais alerta, mais amoroso.

A mente é agressiva, o coração é receptivo.
A mente é masculina, o coração é feminino.
A mente é lógica, o coração é amor.

Assim, depende de onde você está ligado: no corpo, na mente ou no coração. Esses são os três mais importantes locais nos quais a pessoa pode funcionar. Mas também existe um quarto local em você; no oriente ele é chamado de turya. Turya simplesmente significa o quarto, o transcendental. Se você está consciente de sua transcendentalidade, então todos os desejos desaparecem. Então a pessoa apenas é, sem qualquer desejo, sem nada para ser pedido, para ser atendido. Não existe futuro ou passado. Então a pessoa vive neste momento completamente satisfeita, realizada. No quarto, o seu lótus de mil-pétalas desabrocha; você se torna divino.

Você está perguntando, Krishna, ‘O que eu quero?’ Isso simplesmente mostra que você nem mesmo sabe onde está, onde você está ligado. Você terá que investigar dentro de si mesmo – e isso não é muito difícil. Se é comida e sexo que toma a maior parte de você, então eli é onde você está identificado; se é algo que diz respeito ao pensar, então é a mente; se diz respeito a sentimentos, então é o coração. E, naturalmente, Krishna, não pode ser o quarto; senão a pergunta nunca teria surgido.

Assim, ao invés de responder a você, eu gostaria de lhe perguntar onde você está. Investigue.

Eu devo lhe perguntar, ‘Onde você está? Qual o tipo de identificação? Onde você está ligado?’ Somente então as coisas podem ficar claras – e isso não é difícil. Mas acontece muitas vezes das pessoas formularem belas perguntas, particularmente os indianos, Krishna. Elas podem estar ligadas ao centro sexual delas, mas elas perguntam a respeito do samadhi. Elas perguntam, ‘O que é nirvikalpa samadhi, onde todos os pensamentos desaparecem, aquela consciência sem pensamentos? O que é isso? O que é nirbeef samadhi, o sem semente, onde mesmo as sementes para qualquer futuro estão completamente queimadas? Qual é o estado supremo onde não se necessita de retorno à terra, ao útero, as vida novamente?’ Essas são apenas perguntas tolas que eles estão formulando; eles não estão formulando as perguntas deles. Eles não estão preocupados com a verdadeira situação deles. Eles estão formulando belas perguntas, metafísicas, esotéricas, para mostrar que eles são seres da mais alta qualidade, que eles são eruditos, que eles conhecem as escrituras, que eles são buscadores, que eles não são pessoas comuns, eles são extraordinários, religiosos. Isto está conduzindo os indianos a uma bagunça cada vez maior.

É sempre bom perguntar algo que seja relevante para você ao invés de perguntar algo que não lhe diz respeito.As pessoas me perguntam se Deus existe ou não, e elas nem mesmo sabem se elas existem ou não.

Krishna, é sempre bom formular perguntas sobre questões que existem de fato, porque elas podem ser de alguma ajuda para você. Se você estiver sofrendo de um resfriado comum e for ao médico perguntando sobre câncer… pois como um homem como você pode sofrer de uma coisa usual como um resfriado comum…? Todas as pessoas ordinárias sofrem de resfriado comum, por isso que ele é chamado de resfriado comum. Mas você é uma pessoa fora do comum – você não é nenhum Tom, Harry ou Dick. Você é tão especial que você tem que sofrer de alguma coisa muito especial; assim você pergunta sobre o câncer. E se o médico ajudá-lo a curar o câncer, você vai ter mais problemas – aquele tratamento não vai ser adequado para você de maneira alguma. Ele vai criar mais complicações em você porque aqueles remédios podem matá-lo, pois nada existe para a ação deles; não existe câncer em você e eles não podem ser úteis para um resfriado comum.

Na verdade, para um resfriado comum, não existe medicação. Se você tomar remédio, o resfriado comum desaparece em sete dias; se você não tomar remédio, ele desaparece em uma semana! Na verdade, ele é tão comum que a ciência médica não se preocupa com ele. Quem vai cuidar de uma coisa tão pequena? As pessoas se preocupam com a ida à lua. Quem se preocupa com pequenas questões como um resfriado comum, ou o vazamento de uma caneta-tinteiro? As canetas-tinteiro ainda vazam! As pessoas já chegaram à lua, mas ainda não foram capazes de fazer uma caneta-tinteiro com cem por cento de garantia de que não vai vazar.

Simplesmente olhe para dentro de si mesmo, Krishna. Onde exatamente está o seu problema?
Um general visitando um hospital de campanha perguntou a um dos soldados carregados na maca, ‘O que está errado com você?’
‘Senhor,’ respondeu o soldado, ‘Eu tive furúnculos.’
‘Qual tratamento você teve?’
‘Eles me esfregaram com tintura de iodo, senhor.’
‘E isso ajudou?’ perguntou o general.
“Sim, senhor!’ respondeu o soldado.
Em seguida, o general dirigiu-se ao soldado da outra cama e descobriu que o sujeito tem hemorróidas. Ele também foi esfregado com tintura de iodo; isso ajudou e ele não teve outras demandas. O general perguntou então ao terceiro soldado, ‘O que está errado com você?’
‘Senhor, eu tive as amigdalas inchadas. Esfregaram-me tintura de iodo e, sim, isso ajudou.’
‘Algo mais você gostaria?’ perguntou o preocupado general.
‘Sim, senhor!’ respondeu o soldado. ‘Eu gostaria de ter sido o primeiro a ser esfregado com a tintura.’

Primeiro você tem que ver a sua situação, onde você está; somente então você poderá dizer o que você quer. Se você estiver sendo esfregado com tintura de iodo depois daqueles dois camaradas – um que tinha furúnculos e o outro que tinha hemorróidas – e você está sofrendo apenas com amigdalas inchadas, então o problema está claro!

Investigue, olhe para o lugar exato onde você está. No que me diz respeito, todo desejo é completo desperdício, todo querer é errado. Mas se você está identificado com o corpo, eu não posso dizer isso para você, porque isso estará muito longe do seu alcance. Se você está identificado com o corpo, eu lhe direi, mude um pouco para desejos mais elevados, os desejos da mente, e depois um pouco mais alto, para os desejos do coração, e depois finalmente ao estado sem desejos.

Desejo algum jamais será satisfeito. Esta é a diferença entre a abordagem científica e a abordagem religiosa. A ciência tenta satisfazer os seus desejos e, naturalmente, a ciência tem sido bem sucedida ao fazer muitas coisas, mas o homem permanece na mesma miséria. A religião tenta acordá-lo para a grande compreensão para que você possa ver que todos os desejos  intrinsecamente não conseguem ser satisfeitos.

É preciso ir além de todos os desejos e somente assim haverá contentamento. Contentamento não é o fim de um desejo, contentamento não é a satisfação do desejo; porque o desejo não pode ser satisfeito. Com o tempo, quando você chegar à satisfação do seu desejo, irá descobrir que mil e um outros desejos surgiram. Cada desejo se ramifica em muitos desejos novos. E isso acontecerá repetidas vezes e toda a sua vida será desperdiçada.

Aqueles que sabem, aqueles que vêem – os budas, os despertos – todos concordam em um ponto. Isso não é uma coisa filosófica, é factual, o fato do mundo mais interior: o contentamento acontece quando todos os desejos tiverem sido abandonados. É com a ausência de desejos que o contentamento surge dentro de você. – na ausência. Na verdade, a própria falta de desejos é contentamento, é preenchimento, é gozo, é florescimento.

Krishna, mova-se dos desejos mais baixos para os desejos mais elevados, dos desejos brutos para os desejos mais sutis, e depois para o mais sutil, porque é fácil o pulo do mais sutil para o não-desejo, para o estado sem desejo. O estado sem desejo é nirvana.

Nirvana tem dois significados. É uma das mais belas palavras; idioma algum pode orgulhar-se dessa palavra. Ela tem dois significados, mas esses dois significados são como dois lados de uma mesma moeda. Um significado é a cessação do ego e o outro significado é a cessação de todos os desejos. Isso acontece simultaneamente. O ego e os desejos estão intrinsecamente juntos, eles estão inseparavelmente juntos. No momento em que o ego morre, os desejos desaparecem, ou vice-versa: no momento em que os desejos são transcendidos, o ego é transcendido. E ser sem desejos, ser sem ego, é conhecer a felicidade suprema, é conhecer o êxtase eterno.

Krishna, sannyas é isso: a busca pelo êxtase eterno, a qual começa mas nunca termina.

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Meditação: a primeira e última liberdade

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Recebi este texto de Osho (um cara que não era santo, não era messias, não era profeta, não era avatar, apenas um homem muito sábio e esclarecido) sobre o tema da Felicidade x Infelicidade. É um “problema” que ultimamente tem sido muito presente na minha vida, e acredito que mais gente por aí irá se identificar…

A Recompensa em Infelicidade

A miséria tem muitas coisas para lhe dar que a felicidade não pode dar. De fato, a felicidade tira muitas coisas de você. A felicidade tira tudo aquilo que você sempre teve, tudo aquilo que você sempre foi, a felicidade lhe destrói.

A miséria nutre seu ego e a felicidade é basicamente um estado sem ego. Este é o problema, o ponto crucial do problema. Eis porque as pessoas acham muito difícil serem felizes.

Eis porque milhões de pessoas no mundo tem que viver na miséria… decidiram viver na miséria. Ela lhes dá um ego muito muito cristalizado. Sendo miserável, você é Feliz, mas você não é. Na miséria, a cristalização; na felicidade você fica dissolvido.

Se isso for entendido, então as coisas ficam muito claras. A miséria lhe torna especial. Felicidade é um fenômeno universal, não há nada especial sobre ela. As árvores são felizes e os animais são felizes e os pássaros são felizes. Toda existência é feliz, exceto o homem. Sendo miserável, o homem se torna muito especial, extraordinário.

A miséria torna você capaz de atrair a atenção das pessoas. Quando você é miserável você é assistido, simpatizado, amado. Todo mundo começa a cuidar de você. Quem vai querer magoar uma pessoa miserável? Quem tem ciúmes de uma pessoa miserável? Quem vai querer ser contra uma pessoa miserável? Isso poderia ser muito maldoso.

A pessoa miserável é cuidada, amada, assistida. Há um grande investimento na miséria. Se a esposa não for miserável o marido simplesmente tende a esquecê-la. Se ela for miserável o marido não pode se permitir a negligenciá-la. Se o marido for miserável toda a família, a esposa, as crianças, estão ao seu redor, preocupados com ele; isso dá grande conforto. A pessoa sente que ela não está só, a pessoa tem uma família, amigos.

Quando você está doente, depressivo, na miséria, os amigos vêm visitá-lo, vêm confortá-lo, vêm consolá-lo. Quando você está feliz, os mesmos amigos ficam com ciúmes de você. Quando você está realmente feliz, você vai ver que o mundo todo se voltou contra você.

Ninguém gosta de uma pessoa feliz, porque a pessoa feliz fere os egos dos outros.

Os outros começam a sentir, “Então você ficou feliz e nós ainda estamos rastejando na escuridão, na miséria e no inferno. Como você ousa ser feliz quando estamos todos em tal miséria!”

É claro que o mundo consiste de pessoas miseráveis e ninguém é bastante corajoso para ir contra o mundo inteiro; é muito perigoso, arriscado demais. É melhor se apegar à miséria, isso mantém você como parte da multidão. Feliz, você é um indivíduo; miserável, você é parte da multidão – Hindu, Maometano, Cristão, Indiano, Árabe, Japonês.

Feliz? Você sabe o que a felicidade é? Ela é Hindu, Cristã, Maometana?

A felicidade é simplesmente felicidade. A pessoa é transportada para um outro mundo. A pessoa não faz mais parte do mundo que a mente humana criou, a pessoa não é mais parte do passado, da feia história. A pessoa não é mais absolutamente parte do tempo. Quando você está realmente feliz, alegre, o tempo desaparece, o espaço desaparece.

Albert Einstein disse que no passado os cientistas costumavam pensar que haviam duas realidades – tempo e espaço. Mas ele disse que essas duas realidades não são duas – elas são duas faces de uma única realidade. Dessa forma ele cunhou a palavra espaçotempo, uma única palavra. O tempo não é nada mais senão a quarta dimensão do espaço.

Einstein não era um místico, senão ele poderia ter introduzido a terceira realidade também – o transcendental, nem espaço nem tempo. Isso também está lá, eu o chamo de testemunha. E uma vez que esses três estão lá, você tem toda a trindade. Você tem todo o conceito do trimúrti, as três faces do divino. Assim você tem todas as quatro dimensões. A realidade é quadrimensional: três dimensões de espaço e a quarta dimensão do tempo.

Mas há algo mais, que não pode ser chamado de quinta dimensão, porque não é a quinta realidade, é o todo, o transcendental.

Quando você está feliz você começa a se mover para o transcendental.

Isso não é social, isto não é tradicional, não tem nada a ver com a mente humana, de forma alguma.

Osho, Extraído de: The Book of Wisdom

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