“Aí está o esboço de uma fábula que será popular entre os jovens de toda a parte: um homem viaja muito, está quase sempre sozinho. Procura consolo espiritual e evita serviços chatos. É mais inteligente que os pais e a maioria das pessoas que ele conhece. Topa com diversas pistas, estranhamente encantadoras, de que o consolo espiritual pode mesmo ser encontrado.”

(Kurt Vonnegut)

Prof. Campbell, 1984

Prof. Campbell, 1984

Já em outros posts falei um pouco sobre Joseph Campbell: num, traduzi uma lista de livros que ele recomendava aos seus alunos de faculdade, e noutro trouxe os “mandamentos para se ler mitos“. Porém, esses posts serviam mais aos que já conhecem ou estão familiarizados com a obra de Campbell do que àqueles que nunca ouviram falar dele.

Pois bem! O prof. Campbell é muito conhecido no hemisfério norte, particularmente nos EUA, onde nasceu. Ficou famoso por ser um estudioso de mitos que entendeu a mitologia de uma maneira muito mais profunda e universalista. O seu trabalho ficou mundialmente conhecido com a publicação de “O Herói de Mil Faces” em 1949, (livro de cabeceira de roteiristas, produtores e diretores de cinema e televisão, o mais conhecido sendo George Lucas) onde ele esboça pela primeira vez a sua teoria do “Monomito” (termo esse que pegou emprestado de James Joyce, um de seus autores favoritos), que é também conhecida como a “Jornada do Herói”. Segundo Campbell, todos os mitos seguem a estrutura do “monomito”, em algum grau. A tal estrutura é dividida em três fases: Partida (ou separação), Iniciação e Retorno. É a história básica do herói que recebe o “chamado para a aventura”, parte em busca do desconhecido, aprende coisas especiais/novas durante sua jornada, e depois retorna, para compartilhar com os outros o que aprendeu. É simples, porém extremamente eficaz: todo mundo se identifica com o herói que tem sua história contada a partir dessas três fases.

Mas neste post não pretendo discorrer sobre a tese de Campbell. A minha idéia aqui é dar um gostinho do que se pode encontrar em suas obras, especialmente a famosa entrevista que o jornalista Bill Moyers fez com o professor nos anos 80. Esta entrevista,  foi publicada tanto em livro como em DVD e se chama “O Poder do Mito“, e é considerada a melhor maneira de ser “iniciado” na obra de Campbell. Aqui, trago alguns trechos da entrevista, escolhidos por mim (sei que há muitos anos tem na internet uma seleção de trechos, mas o que trago aqui são algumas das partes que mais gostei do livro) para quem quiser saber por que deveria se importar com mitologia, e mais ainda, ler Joseph Campbell!

“A grande questão é quando você estará apto a dizer um sim sincero à sua aventura.”

(Joseph Campbell)

“Nós precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para que possamos ter a vida que espera por nós.”

(Joseph Campbell)

Vamos ao prometido:

– “Para ele, (Joseph) mitologia era a ‘canção do universo’, ‘a música das esferas’ – música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Ouvimos seus refrões, ‘quer quando escutamos, com altivo enfado, a ladainha ritual de algum curandeiro do Congo, quer quando lemos, com refinado enlevo, traduções de poemas de Lao Tsé, ou rompemos a casca de um argumento de S.Tomás de Aquino, ou apreendemos, num relance, o sentido radiante e bizarro de uma lenda esquimó.” (Bill Moyers)

“No Japão, durante um congresso internacional sobre religião, Campbell entreouviu outro delegado norte-americano, um filósofo social de Nova York, dizendo a um monge xintoísta: ‘Assistimos já a um bom número de suas cerimônias e vimos alguns dos seus santuários. Mas não chego a perceber a sua ideologia. Não chego a perceber a sua teologia.’ O japonês fez uma pausa, mergulhando em profundo pensamento, e então balançou lentamente a cabeça: ‘Penso que não temos ideologia’, disse. ‘Não temos teologia. Nós dançamos.” (Bill Moyers)

“A mitologia tem muito a ver com os estágios da vida, as cerimônias de iniciação, quando você passa da infância para as responsabilidades do adulto, da condição de solteiro para a de casado. Todos esses rituais são ritos mitológicos. Todos têm a ver com o novo papel que você passa a desempenhar, com o processo de atirar fora o que é velho para voltar com o novo, assumindo uma função responsável.” (Campbell)

“… Isto se chama desenvolvimento de uma religião. É como se vê na Bíblia. No início, Deus era apenas o mais poderoso entre vários deuses. Era apenas um Deus tribal, circunscrito. Então, no século VI, quando os judeus estavam na Babilônia, foi introduzida a noção de um Salvador do mundo, e a divindade bíblica migrou para uma nova dimensão. A única maneira de conservar uma velha tradição é renová-la em função das circunstâncias da época. No tempo do Velho Testamento, o mundo era um pequeno bolo de três camadas, que consistia de algumas centenas de milhas em torno dos centros do Oriente Próximo. Ninguém tinha ouvido falar dos astecas ou dos chineses. Quando o mundo se altera, a religião tem que se transformar.” (Campbell)

“A mitologia é a música. É a música da imaginação, inspirada nas energias do corpo. Uma vez um mestre zen parou diante de seus discípulos, prestes a proferir um sermão. No instante em que ele ia abrir a boca, um pássaro cantou. E ele disse: ‘O sermão já foi proferido.'” (Campbell)

“A única mitologia válida hoje é a do planeta – e nós não temos essa mitologia. Aquilo que mais se aproxima de uma mitologia planetária, pelo que sei, é o budismo, que vê todas as coisas como tendo a natureza do Buda. O único problema é chegar ao reconhecimento disso. Não há nada a fazer. A tarefa é apenas reconhecer e então agir em relação à irmandade de todas as coisas.” (Campbell)

“Todos os homens são dotados de razão. Esse é o princípio fundamental da democracia. Como toda a mente é capaz de adquirir um conhecimento verdadeiro, não é preciso que uma autoridade especial, ou uma revelação especial, lhe diga como as coisas deveriam ser.” (Campbell)

“… Os Hindus, por exemplo, não acreditam em revelação especial. Eles falam de um estado em que os ouvidos se abriram para a música do universo.” (Campbell)

“A história que temos no Ocidente, na medida em que se baseia na Bíblia, baseia-se numa visão de universo que pertence ao primeiro milênio antes de Cristo. Não está de acordo nem com nossa concepção do universo, nem com nossa concepção de dignidade humana. Pertence inteiramente a algum outro lugar.” (Campbell)

Uma coisa que se revela nos mitos é que, no fundo do abismo, desponta a voz da salvação. O momento crucial é aquele em que a verdadeira mensagem de transformação está prestes a surgir. No momento mais sombrio, surge a luz.” (Campbell)

“Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda a vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer-se a si mesma! A vida vive de vidas, e a conciliação da mente e da sensibilidade humanas com esse fato fundamental é uma das funções de alguns daqueles ritos brutais, cujo ritual consiste basicamente em matar – por imitação daquele primeiro crime primordial, a partir do qual se gestou este mundo temporal, do qual todos participamos. A conciliação entre a mente humana e as condições da vida é fundamental em todas as histórias da criação. Quanto a isso, todas se parecem muito.” (Campbell)

“- E o que sugere a idéia de reencarnação? (pergunta Moyers)

– Sugere que você é mais do que pensa. Existem dimensões do seu próprio ser e um potencial de realizações e ampliação da consciência que não estão incluídos no conceito que você faz de si mesmo. Sua vida é mais profunda e ampla do que você a concebe, aqui. O que você está vivendo é só uma fração infinitesimal daquilo que realmente se abriga no seu interior, aquilo que lhe dá vida, alento e profundidade. E você pode viver em termos dessa profundidade, e quando chega a essa experiência, você percebe, instantaneamente, que é disso que falam todas as religiões.” (Campbell).

“Nem em corpo nem em alma habitamos o mundo daquelas raças caçadoras do milênio paleolítico, a cujas vidas e caminhos de vida, no entanto, devemos a própria forma de nossos corpos e a estrutura das nossas mentes. Lembranças de suas mensagens animais devem estar adormecidas, de algum modo, em nós, pois ameaçam despertar e se agitam quando nos aventuramos em regiões inexploradas. Elas despertam com o terror do trovão. E voltam a despertar, com uma sensação de reconhecimento, quando entramos numa daquelas grandes cavernas pintadas.” (Campbell)

“Os índios se dirigiam a todo ser vivente como ‘vós’ – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como ‘vós’, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um ‘vós’ não é o mesmo que vê uma ‘coisa’. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em ‘coisas’.” (Campbell)

Nossa vida desperta o nosso caráter. Você descobre mais a respeito de você mesmo à medida que vai em frente. Por isso é bom estar apto a se colocar em situações que despertem o mais elevado e não o mais baixo da sua natureza. ‘Não nos deixei cair em tentação’. ” (Campbell)

“Siga a sua felicidade e o Universo abrirá portas para você onde antes só havia paredes.”

Joseph Campbell