“Em vez de usar palavras, talvez uma maneira melhor seja colocar você frente a frente com Deus, de modo que possa vê-lo. E se você ficar frente a frente com Ele, verá a você mesmo. Acredite ou não, mas você verá a si mesmo porque você é a manifestação de Deus. E se você pudesse enxergar o que está movendo o seu corpo, então estaria vendo o verdadeiro Deus. Olhe para sua mão. Movimente os dedos. A força que os move é aquilo que os toltecas chamam de intenção e que eu chamo de vida, infinito ou Deus.

A intenção é o único ser vivo que existe e a força que move tudo. Você não é os seus dedos. Você é a força que os move. Os dedos lhe obedecem. Você pode dar a explicação que quiser: ‘Isso é o meu cérebro, os meus nervos…’ Mas se você for em busca da verdade, saberá que a força que move os seus dedos é a mesma que faz uma flor desabrochar; que move o vento ou cria um tornado; que faz as estrelas se movimentarem através do universo; ou faz os elétrons se moverem ao redor dos átomos. Só existe um ser vivo, e você é este ser. Você é a força que se manifesta de infinitas maneiras ao longo de todos os universos.

(Don Miguel Ruiz)

O trecho acima eu retirei do livro “O Quinto Compromisso: Um guia prático para o Autodomínio“, que foi lançado há uns poucos meses no Brasil, pela editora BestSeller. Já estou para falar desse livro há um tempo, mas me parecia que o momento certo para isso precisava surgir. Surgiu hoje!

bestseller O Quinto Compromisso é uma continuação do livro “Os Quatro Compromissos“, o primeiro campeão de vendas do autor, Don Miguel Ruiz. Mas, você não precisa ter lido Os Quatro Compromissos (eu recomendo muito!) para entender o Quinto… Na verdade, nesse último o autor retoma os compromissos do livro anterior e aprofunda cada um, apresentando por fim, o quinto compromisso. Para quem já leu “Os Quatro Compromissos” talvez a primeira parte do novo livro possa parecer repetitiva. Mas a segunda parte realmente merece ser conferida! Para quem não conhece o primeiro título, esse lançamento é igual e altamente recomendável!

Antes de falar mais especificamente do que se trata o Quinto Compromisso, é preciso falar um pouco dos Quatro que o antecedem, e de onde surgiu toda essa história.

Don Miguel Ruiz é um nagual, ou mestre tolteca. Nasceu (em 1952) e foi criado em uma cidade rural no México, pela sua mãe que era uma curandeira, e seu avô, um nagual. Sua família havia antecipado que ele também seria um nagual, que iria abraçar os séculos de legado de seus antepassados e que iria difundir a filosofia esotérica tolteca. Mas, inicialmente a vida o levou em outra direção, e don Miguel, atraído pela vida e visão “moderna” do mundo, se formou em Medicina e se tornou cirurgião. Foi nos anos 1970, ao sofrer um acidente de carro batendo de frente a um muro de concreto, que ele teve uma experiência chocante que o fez rever todos os seus conceitos e retornar para a sabedoria antiga de seus ancestrais: fora de seu corpo, pode ajudar seus amigos – que também estavam no carro – a se salvarem. donmiguel

Don Miguel começou a ensinar a filosofia tolteca com sua mãe, em 1987. A princípio, ele trabalhava com a tradição focada na cura, mas percebeu que se sentia melhor compartilhando sua sabedoria pela tradição oral. Dali em diante, o número de estudantes de seus ensinamentos aumentava cada vez mais. Por causa das dificuldades que ele observava em vários de seus alunos para aquietarem suas mentes, don Miguel resolveu condensar sua sabedoria – de forma prática e objetiva – no livro “Os Quatro Compromissos”. Esse livro permaneceu na lista de mais vendidos do jornal The New York Times por mais de 8 anos.

Mas, do que afinal se trata Os Quatro Compromissos (e por tabela O Quinto Compromisso)?

Bem, os ensinamentos de Don Miguel visam a libertação pessoal. Libertação das crenças limitadoras, condicionamentos, julgamentos, culpa, e todo e qualquer outro sentimento/pensamento que não conduza à felicidade e a realização do ser. Mas para podermos nos libertar disso tudo, precisamos compreender como a psicologia humana funciona.

Inicialmente, nós não temos muita escolha. Somos criados de acordo com um sistema, à imagem e semelhança de nossos pais, avós, professores, sacerdotes etc – Don Miguel se refere a isso como “domesticação”. Quando crianças, aceitamos o que os adultos ao nosso redor nos mostram e ensinam, e acreditamos que tudo seja verdade, afinal eles são as nossas únicas referências. Mas quando ficamos mais velhos, o nosso senso crítico se aguça um pouco mais, e podemos desenvolver um pouco a nossa percepção e decidir o que preferimos aceitar e o que preferimos rejeitar. Só que claro, o nosso senso crítico segue a lógica (chamada pelo autor de “O Juiz”) do nosso sistema de crenças inicial, e de acordo com o que temos de condicionamentos já estabelecidos (a nossa domesticação), é assim que iremos filtrar e reagir ao que o mundo nos mostra. Don Miguel chama isso de “sonho pessoal”; é a sua interpretação da realidade, de acordo com o modo que você foi condicionado e que você se condicionou (sim, porque apesar de seus pais terem iniciado o seu processo de condicionamento, você  o continua e ainda o passa para frente!). Ele chama de sonho exatamente porque não tem nada a ver com a realidade, é só uma percepção distorcida desta; tanto que existem tantas “realidades” quanto existem pessoas no mundo. Está todo mundo sonhando, e a maioria das pessoas sequer se dá conta disso. A nossa cultura comum (religiões, ciências, regras, costumes, tradições) passa a ser então o “sonho do mundo”.

Toda a nossa vida é norteada por compromissos que fazemos: com nós mesmos, com nossa família, amigos, igreja, Deus etc. É claro que os mais importantes são os compromissos que fazemos com nós mesmos. O problema é que normalmente criamos esses compromissos (crenças) a partir do medo, e por isso eles nos limitam, drenam nossa energia e nos colocam para baixo. Por causa deles o nosso “sonho pessoal” é um verdadeiro pesadelo. Utilizando a metáfora usada por Don Miguel, somos os artistas de nossa vida, mas ao invés de pintarmos uma bela obra, pintamos o nosso inferno pessoal. Tudo porque alimentamos e vivemos de acordo com crenças irreais e equivocadas: sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre o mundo, sobre a vida. Essas crenças, ou compromissos, nos afastam de nosso ser autêntico e nos mantêm presos ao sonho.

Os Quatro Compromissos propostos por ele nada mais são do que atitudes, que se praticadas, expandem a consciência e libertam (acordam) desse sonho (pesadelo) pessoal, e consequentemente do “sonho do mundo”. São eles:

– Seja impecável com a sua palavra: fale com integridade. Diga somente o que quer dizer. Evite utilizar a palavra para falar contra si mesmo (coisas como “Estou gordo (a)”, “Sou burro (a) mesmo”, “Ninguém me entende”, “Nada dá certo para mim”, etc) ou para fazer fofoca dos outros (o que acontece ou deixa de acontecer aos outros não é problema seu, e sua vida não tem como ficar melhor ou mais feliz se você investe seu tempo e energia especulando ou comentando sobre a vida de terceiros…).

Não leve nada para o lado pessoal: nada que os outros façam é por sua causa. O que os outros dizem e fazem é projeção de suas próprias realidades, do sonho deles. Quando você é imune à opinião e a ação dos outros, você não será vítima de sofrimentos desnecessários. E aqui o autor tem a grande sacada de não limitar o compromisso de não levar nada para o lado pessoal apenas às opiniões e ações negativas. Quando alguém te elogia ou te agrada você também não deve levar para o lado pessoal. Afinal, tudo é projeção. Tanto as coisas ruins que te dizem, como  as boas.

Não tire conclusões: encontre a coragem de fazer perguntas e de expressar o que você realmente quer. Comunique-se com os outros o mais claramente possível, de modo a evitar desentendimentos, tristeza e drama. Com somente esse compromisso, você pode transformar completamente a sua vida.

Sempre faça o seu melhor: o seu melhor irá mudar de momento a momento; será diferente quando você está saudável e oposto quando estiver doente. Sob qualquer circunstância, simplesmente faça o seu melhor e você irá evitar o auto-julgamento, a culpa e o arrependimento.

O quinto compromisso

Don Miguel, num primeiro momento, começa falando que tudo é um sonho, que todos vivemos em nossos mundos virtuais particulares, criando realidades artificiais que acreditamos serem reais. Pensamos que nossas crenças são as mais corretas, que nossos condicionamentos são os ideais, e por causa disso nos tornamos algozes e vítimas de nós mesmos. Mas no Quinto Compromisso ele passa a enfatizar que na verdade, tudo que acreditamos, pensamos, dizemos e consequentemente sentimos, são de fato mentiras. São mentiras porque não dizem respeito a realidade, mas sim a interpretações da realidade. E para nos explicar isso ele nos mostra como a nossa linguagem, os símbolos (palavras) que criamos para nos comunicar, são muitas vezes falhos e provocam mais confusão do que esclarecimento sobre a realidade e sobre nós mesmos. Palavras são realmente limitações e por isso são bem menos eficientes na comunicação do que gostamos de acreditar que sejam. Se já não bastasse isso, de acordo com o local onde você está, os símbolos serão diferentes (como por exemplo idiomas diferentes), o que tende a aumentar ainda mais a incompreensão entre os que vivem apegados ao sonho do mundo. Para compreender o poder que a palavra tem, basta colocar em prática o primeiro compromisso proposto por Don Miguel: “seja impecável com sua palavra”, e observar os efeitos que essa atitude reflete em sua vida.

Existe uma grande banalização com relação a noção de “verdade” (assim como de “amor”, “Deus”). A maioria das pessoas pensa inclusive que existem inúmeras “verdades”. Tem até essa moda de dizer “essa é a sua verdade, a minha é outra verdade” etc. Mas quando dizem isso, ou pensam isso, na realidade ninguém está pensando ou falando de fato de “verdade”, estão apenas emitindo opiniões, pontos de vista. Interpretações da realidade estão sujeitas a erro e a relatividade. A Verdade não. Uma flor não deixa de ser uma flor porque eu a prefiro chamar de nuvem ou de mesa. A verdade da flor é o que ela é. Nós temos tantos conceitos, teorias – conhecimento – em nossas mentes que passamos a confundir as nossas ideias com a realidade em si. Passamos a achar que a palavra (ou o conceito) que utilizamos para nomear algo, é aquele algo. A nossa visão de realidade depende de acordos, de compromissos que fazemos com nós e com os outros (se a maioria dizer que a flor é “flor”, e concordarmos com isso, então isso se torna real para nós). E por causa disso brigamos muito: com os outros, com nós mesmos. Cada um vai ter o seu modo de falar/pensar/interpretar, não é?

Então. É aqui que entra o Quinto Compromisso:

Seja cético. Mas Aprenda a Escutar.

Não acredite em nada que os outros digam, não acredite nem no que você diz nem no que eu digo. Nesse momento, a dúvida é a sua melhor amiga. É ela que ajudará você a definitivamente se desapegar do seu sonho pessoal e do sonho do mundo. É ela que possibilitará que você distingua a verdade em meio as mentiras. Mas porque o “aprenda a escutar”? Porque ouvir o que as pessoas dizem, mesmo não acreditando – “tomando como seu” – no que está sendo dito, é uma forma de compreendê-las. Você passará a entender como elas utilizam os símbolos, que história elas contam para si mesmas (o sonho pessoal delas), e dessa forma você passa a se comunicar melhor.

“A verdade não precisa que você acredite nela ou não. As mentiras precisam que você acredite nelas. Se você fizer isso (duvidar), elas não sobreviverão ao seu ceticismo e simplesmente desaparecerão.”

O quinto compromisso lhe ajuda ainda a não se apegar ao seu sonho pessoal, mesmo que esse sonho seja um paraíso. Você é o criador, o artista que está pintando a sua vida; e se ela é uma linda obra-prima, ótimo! De qualquer forma não se apegue, porque mesmo isso é ilusório, mesmo isso é só mais uma história. O seu ser autêntico, a única realidade, está muito além de tudo isso.

Eu não quero entregar demais a mensagem do livro, por mais que me empolgue falar sobre ele, mas quero deixar claro o tipo de ceticismo que Don Miguel propõe. Atualmente se dizer cético possui diversas conotações: para uns é o mesmo que se dizer “inteligente” ou “intelectual”, para outros é sinônimo de cinismo, ignorância (no sentido de duvidar porque não conhece), para outras pessoas a palavra já é quase um palavrão. Por isso, finalizo esse post com as sábias palavras de Don Miguel sobre o uso do ceticismo:

(…) o ceticismo pode tomar duas direções. Uma delas é fingir que se é cético, porque acha que é inteligente demais para ser crédulo. “Vejam como eu sou inteligente. Não acredito em nada.” Isso não é ceticismo. Ser cético é não acreditar em tudo o que você ouve, e você não acredita porque não é verdade, só isso. A maneira de ser cético é apenas estar ciente de que toda a humanidade acredita em mentiras. Você sabe que os homens distorcem a verdade porque estamos sonhando, e nosso sonho é apenas um reflexo da verdade.

Todo artista distorce a verdade, mas você não precisa julgar o que alguém diz ou chamar a pessoa de mentirosa. Todos nós falamos mentiras de um jeito ou de outro, e não é por querer. É por causa daquilo que acreditamos, é por causa dos símbolos que nós apreendemos e da maneira como nós aplicamos todos eles. Uma vez que você esteja ciente disso, o quinto compromisso faz muito sentido, e isso pode fazer uma grande diferença na sua vida.

As pessoas irão até você para contar a história pessoal delas. Vão contar o ponto de vista delas, o que elas acreditam ser verdade. Mas você não julgará se isso é verdade ou mentira. Você não julga, mas respeita. Você ouve a maneira como os outros expressam os símbolos deles, ciente de que qualquer coisa dita por eles é distorcida pelas crenças que eles possuem. Você sabe que o que eles estão lhe dizendo não é mais do que uma história, e sabe disso porque pode sentir. Você simplesmente sabe. Mas também sabe quando as palavras vêm da verdade, e sabe disso sem precisar de palavras, e essa é a questão principal.

(Don Miguel Ruiz – pg. 95)

 

Seja cético. Mas Aprenda a Escutar.