À exemplo do artigo “O Imperativo Noético e os Mitos da Ciência” que traduzi há poucos meses aqui para o Inconsciente Coletivo, trago novamente outro artigo retirado da sempre interessante newsletter do IONS – Institute of Noetic Sciences, dessa vez a respeito das pesquisas de Jim B. Tucker sobre possíveis memórias de vidas passadas apresentadas por crianças. Ele é um dos pesquisadores que mantém vivo o trabalho de Ian Stevenson.

Nem preciso dizer o quanto a pesquisa realizada por Jim é intrigante e academicamente polêmica, tanto que já foi tema de inúmeras reportagens e documentários. Na internet, tem um documentário em que ele explica um pouco da sua pesquisa e mostra alguns dos casos que estuda:

http://www.youtube.com/watch?v=B1VYo2cYb2k

O restante do documentário pode ser visto na Videoteca do Inconsciente Coletivo, clicando aqui. Ou também num post anterior que escrevi sobre o assunto, Lembranças de Vidas Passadas.

Então. O artigo de hoje é na verdade uma entrevista realizada por Dean Radin, que é um pesquisador e autor conhecido na área de Parapsicologia, que também foi por diversas vezes presidente da Parapsychological Association (PA). É autor do livro “Mentes Interligadas” e “The Conscious Universe”. Além disso, Dean é um dos cientistas seniores do IONS.

Pois vamos ao que interessa! Os grifos em rosa no texto são meus. Abaixo, compilei duas mini-biografias de Tucker e Stevenson, e em seguida se inicia a entrevista com Tucker.

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Ian Pretyman Stevenson (Montreal, 31 de Outubro de 1918 — Charlottesville, 8 de Fevereiro de 2007) foi um médico psiquiatra canadense. A sua pesquisa incluía o tema da reencarnação, a experiência de quase-morte (EQM), aparições ou visões no leito de morte, a problemática do relacionamento entre mente e cérebro, e a continuidade da personalidade após a morte. Interessou-se, ainda, pela memória que as crianças possuíam de vidas passadas. O astrofísico e divulgador da Ciência, Carl Sagan, expressou que o trabalho deste psiquiatra era um dos poucos estudos sobre um fenômeno paranormal que merecia ser analisado. Stevenson publicou apenas para as comunidades científica e acadêmica, e seus mais de 200 artigos e vários livros – trazendo ricos detalhes de pesquisa e argumentos acadêmicos – podem ser técnicos demais para um público leigo. Sua pesquisa, com mais de 3.000 estudos de caso, fornece evidências discutidas por Stevenson, apoiando a possibilidade de reencarnação, apesar de ele mesmo ter sido sempre muito cauteloso ao se referir a elas como “casos sugestivos de reencarnação” ou “casos do tipo de reencarnações”.[WIKIPEDIA]

 

Dr. Tucker é Professor Associado de Psiquiatria e Ciências Neurocomportamentais da Universidade da Virgínia. Ele está continuando o trabalho de Ian Stevenson na UVA Division of Perceptual Studies com crianças que relatam memórias de vidas anteriores. Seus principais interesses de pesquisa são crianças que parecem se lembrar de vidas anteriores, e lembranças pré-natais e de nascimento. Ele é o autor de Vida Antes da Vida:. Uma Investigação Científica de Memórias Infantis de vidas Passadas, que apresenta uma visão geral de mais de 40 anos de pesquisa de reencarnação na Division of Perceptual Studies. Tucker, psiquiatra infantil credenciado, trabalhou por vários anos nesta pesquisa com Ian Stevenson antes de assumir o lugar deste em virtude da aposentadoria de Stevenson em 2002.

 

Memórias Infantis de Vidas Passadas

Entrevista original IONS – Tradução livre e adaptada de Karina – Inconsciente Coletivo.net

Nota do Editor: No diálogo a seguir, retirado e editado da série de teleseminários “Essentials of Noetic Science” do Instituto de Ciências Noéticas, o cientista sênior do IONS, Dean Radin, conversa com Jim Tucker, professor associado de Psiquiatria e Ciências Neurocomportamentais da Universidade de Virgínia, que também trabalhou no Departamento de Perceptual Studies, fundado por Ian Stevenson em 1967.  Stevenson foi um psiquiatra, melhor conhecido pelos seus estudos de reencarnação com crianças; Tucker tem continuado o trabalho que Stevenson iniciou. O seu mais recente livro é “Vida Antes da Vida“. Nele, Tucker contesta a noção de que a consciência é somente o resultado do funcionamento do cérebro e sugere que a consciência pode ser considerada separada do cérebro, o que fornece os fundamentos para as alegações de reencarnação.

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Radin: Jim, você poderia começar nos dizendo como você se envolveu nesta área de pesquisa atraente e incomum ?

Tucker: Você mencionou que Ian começou sua visão em 1967, mas ele realmente começou este trabalho em 1961, quando realizou sua primeira viagem para estudar estes casos. Ian era um psiquiatra com uma carreira de sucesso acadêmico, ele foi presidente do Departamento de Psiquiatria aqui na Universidade de Virgínia, enquanto ainda no final dos seus trinta anos. Mas Ian sempre teve interesse em parapsicologia e sobre a questão da sobrevivência após a morte. Ao longo dos anos, ele coletou 44 casos de pessoas que relataram memórias de vidas anteriores, de várias fontes, tais como jornais, revistas e periódicos. Quando ele colocou todos juntos, encontrou muitas semelhanças, incluindo o fato de que muitos deles eram crianças relatando essas memórias. Ian se perguntou se os casos atuais de tais crianças ainda poderiam ser encontrados e escreveu sobre tudo isso em um artigo.

Logo depois, Ian ouviu falar sobre alguns casos na Índia e fez sua primeira viagem para lá em 1961. Ele ouviu cerca de cinco casos, mas uma vez que chegou à Índia, encontrou 25 casos. Ian descobriu que as memórias de vidas passadas eram muito mais comuns do que ninguém jamais havia conhecido antes. Ele tornou-se cada vez mais interessado e, eventualmente, deixou o cargo de presidente do Departamento de Psiquiatria para formar o Departamento de Estudos da Percepção e trabalhar sobre estes casos em tempo integral. Ian fez isso por várias décadas e publicou numerosos livros e artigos acadêmicos sobre o assunto.

Quando eu estudava aqui na Universidade de Virgínia, em psiquiatria no final dos anos 80 e início dos 90, eu ouvi sobre o trabalho de Ian, mas naquele momento eu não estava intrigado por ele. Após a minha formação, eu parti para a clínica particular e casei novamente. Minha esposa estava muito intrigada a respeito de reencarnação, médiuns, e as coisas que eu realmente nunca tinha pensado muito, e por causa de seu interesse, eu comecei a realizar muitas leituras. Aconteceu de eu estar lendo um dos livros de Ian quando soube que sua divisão havia recebido uma nova concessão para estudar os efeitos das experiências quase-morte sobre as vidas de quem as havia tido. Procurando por uma espécie de passatempo, além de minha prática médica, eu liguei para ele, e por um par de anos, ajudei entrevistando pacientes. Eventualmente, Ian perguntou se eu estaria interessado em fazer uma viagem para a Ásia com um de nossos colegas para estudar alguns destes casos. Eu estava muito interessado, e depois disso, entrei para o departamento por meio período e em 2000 passei para o período integral. Eu venho fazendo isso desde então.

Radin: Dado o seu envolvimento por tantos anos agora, eu suponho que você continua a encontrar algo interessante nas histórias que ouve. O que você pode dizer tanto sobre a sua primeira viagem para a Ásia ou viagens subsequentes que lhe deu a percepção ao estudar esses casos de que há algo de real acontecendo?

Tucker: Bem, os fenômenos certamente foram muito impressionantes. Estas crianças fazem declarações sobre alguém que morreu antes de elas nascerem, que acabam por ser notavelmente precisas. Algumas crianças falam sobre serem membros falecidos da família. Outros descrevem se sentirem estranhos em outros locais e compartilham detalhes que as pessoas que vão lá descobrem estar certos – alguém tinha vivido e morrido ali exatamente como a criança descrevia.

Eu também estive impressionado com o componente emocional: é claro que para muitas destas crianças este não é um jogo de faz de conta, mas sim muito importante e significativo para elas. Elas falam sobre as pessoas que sentem falta. Algumas das crianças choram diariamente para serem levadas por alguém que eles dizem ser a sua família real. Recentemente, estudei um caso americano interessante em que a mãe tinha ouvido falar sobre esses fenômenos anos antes de ter seu filho, e ela pensou então que seria “ótimo” ter um filho com memórias de vidas passadas. Mas quando ela teve um filho que realmente se lembrou da sua vida passada, ela descobriu que não era nem um pouco ótimo, porque é traumático para a criança falar sobre as pessoas e os lugares que ela sente falta. Seu filho chora todas as noites por causa da vida que ele costumava ter. Este caso foi inclusive filmado para um documentário.

Radin: Conte mais sobre esse caso.

Tucker: Há outros casos americanos que são igualmente fortes. Em um deles, a criança falou sobre uma vida em Hollywood, o que obviamente pode soar como uma fantasia. O menino tinha quatro anos de idade na época. Ele deu um monte de detalhes sobre sua vida anterior: dançando no palco, em seguida, se tornando um ator, então, um agente, tendo uma grande piscina, viajando ao redor do mundo em um barco grande, e assim por diante. Sua mãe tentou conseguir memórias mais específicas, então ela arranjou alguns livros de filmes antigos de Hollywood para o menino vasculhar e ver se mais alguma memória seria provocada. Quando se depararam com uma imagem de um velho filme de George Raft, o menino olhou para ele e disse: “Oh, esse é o filme que eu fiz com o George.” Ele então apontou para o homem da foto e disse: “Este sou eu, mãe. Esse é quem eu fui”. Descobriu-se que o cara que ele apontou foi um extra que não tinha linhas no filme. Foi um processo considerável identificar quem era essa pessoa, mas ele acabou por ser um cara que tinha sido um bailarino no palco antes de ir para Hollywood para se tornar um ator. Ele acabou por ter uma casa grande e uma piscina, ele se tornou um agente, e ele realmente viajou pelo mundo em um barco grande, o Queen Elizabeth – temos fotos dele no barco. Nem todos os detalhes surgiram neste caso, mas muitos deles sim. Os críticos dizem que é apenas coincidência.

Radin: O que você faz com ou como você interpreta as coisas que uma criança diz que não fecham com os fatos? Ou será que esses detalhes não podem ser confirmados?

Tucker: Havia um monte de coisas que não puderam ser confirmadas neste caso, porque um monte de pessoas que conheceram esse cara não estão mais por aí. Fomos capazes de falar com sua filha, que era muito jovem quando ele morreu, mas que ainda sabia o essencial da vida dele. Muitos detalhes permanecem que podem ou não ser verdade, e, como com a maioria dos casos, a criança compartilhou algumas coisas que estavam simplesmente incorretas. Mas então, quando qualquer um de nós fala sobre bem do início da nossa infância desta vida, nós também podemos aparecer com coisas que estão incorretas. Talvez por isso não devemos esperar 100 por cento de precisão com os detalhes de vidas passadas.

Este menino em particular, também parece ter alguma habilidade psíquica. Ele surgiu com algumas previsões específicas sobre as pessoas, como quando ele disse a sua avó que ela iria contrair catapora, e algumas semanas mais tarde ela teve um surto de herpes zóster. Então pode ser que ele consiga acessar o material de uma variedade de lugares para além da vida passada desta pessoa somente. Ele certamente está conectado emocionalmente com aquela vida em específico.

Radin: É lamentável que as habilidades psíquicas e memórias de reencarnação se sobreponham, porque isso torna mais difícil de saber ou interpretar a informação que está surgindo.

Tucker: Isso mesmo. Há alguns argumentos contra isto (reencarnação) como sendo puramente material psíquico. Por um lado, certamente não é a experiência das crianças presentes, elas estão relatando não apenas informações, mas experiências passadas do ponto de vista de uma pessoa. Além disso, a maioria das crianças não apresentam quaisquer outras habilidades psíquicas além de todos esses detalhes sobre uma pessoa específica. Isto não desmente que poderia ser psíquico, super-psi, ou o que você quiser chamar essas coisas, mas acho que isso, nesse aspecto, torna mais questionáveis os casos que parecem ser uma criança lembrando de uma vida passada.

Radin: Então, se você, um psiquiatra infantil, fosse pedir a crianças pequenas para inventar a melhor história que pudessem sobre serem reencarnações, é possível dizer, pela resposta emocional delas ou algo do tipo, se a criança está inventando a história?

Tucker: Os pais costumam dizer que conseguem perceber a diferença – que não é o mesmo que as histórias de cantilenas ou faz-de-conta que as crianças contam. As histórias são muito mais sérias, objetivas, e, algumas vezes, emocionais. Assim como as experiências de quase-morte, você deve olhar para o efeito que a história tem sobre a pessoa, e certamente estas memórias aparentes podem ter um efeito emocional considerável nas crianças que as possuem.

Radin: Originalmente, esses casos foram relatados na Índia por causa do apoio cultural a reencarnação, mas há casos em todos os países do mundo.

Tucker: Sim, em todos os países onde os casos foram procurados, eles foram encontrados – todos os continentes, exceto na Antártida, onde ninguém olhou. Eles são certamente mais fáceis de encontrar em culturas que acreditam na reencarnação, por isso há muitos casos da Índia, Sri Lanka, Tailândia, Birmânia, e lugares como aqueles. Mas os casos também são encontrados nas culturas que não possuem a crença popular na reencarnação, como os Estados Unidos, e agora com a Internet, as pessoas podem facilmente nos encontrar na universidade. Nós ficamos sabendo o tempo todo de pais cujos filhos estão relatando essas coisas. Alguns dos casos são muito mais fortes do que outros, mais detalhados do que outros, mas certamente esses fenômenos vão além de lugares onde há a crença na reencarnação. A maioria das famílias nos Estados Unidos dizem que não acreditavam em reencarnação antes de as crianças começarem a relatar estas coisas.

Radin: O que já se sabe sobre os dados demográficos de onde a reencarnação veio? Estou pensando especificamente na localização geográfica; por exemplo, eu não sei de casos da Índia em que alguém relatou ter tido uma vida anterior em outro país.

Tucker: Bem, há alguns, mas eles geralmente têm uma conexão com esse país. Por exemplo, na Índia, havia o que Ian chamava “casos de bombardeiro loiro”, em que as crianças falaram sobre ter sido, digamos, um piloto britânico que foi morto durante a Segunda Guerra Mundial ou algo assim. Ian também encontrou um par de dúzias de casos na Birmânia, as crianças birmanesas disseram que tinham sido soldados japoneses que haviam sido mortos na Birmânia durante a Segunda Guerra Mundial. Os japoneses eram desprezados na Birmânia, então é difícil imaginar que os pais estariam incitando as crianças a dizer o que elas estavam dizendo. Além disso, as crianças apresentaram inclinações japonesas: por exemplo, queixando-se de um alimento birmanês picante e pedindo para comer peixe cru em seu lugar. Homens birmaneses vestem uma roupa especial, que é essencialmente uma saia, mas essas crianças se recusaram e queriam usar calças ao invés. É um pouco mais fácil de ver as características comportamentais desses casos, quando há uma distinção internacional.

Mas você está certo: é incomum para uma criança falar sobre uma vida em outro país – e muitas vezes nós não perseguimos esses casos. Digamos que estamos estudando uma criança na Tailândia que diz: “Eu costumava viver na África.” Não há muito o que podemos fazer para pesquisar esses relatos a menos que o caso forneça detalhes muito específicos. Nós recebemos alguns relatos desse tipo de crianças norte-americanas, mas novamente há pouco o que podemos fazer.

Outra coisa a se ter em mente é que os nossos casos tendem a envolver vidas passadas recentes. O intervalo médio entre a morte da pessoa anterior e o nascimento da criança é de apenas 16 meses. Nestes casos de reencarnação, a pessoa volta rápido e razoavelmente por perto. Sim, existem exceções, como o menino que eu falei anteriormente, havia 50 anos entre as vidas naquele caso. Mas é muito mais comum que eles sejam mais recentes. “Negócios inacabados” é um termo subjetivo, no entanto, muitos destes casos realmente parecem envolver negócios inacabados. Cerca de 70 por cento deles envolverá uma morte por meios não naturais, geralmente uma morte violenta. Muitos deles envolvem os jovens, crianças ou adultos muito jovens. Pode ter havido um forte impulso para retornar – o que nos dá como a reencarnação poderia funcionar. Então, por qualquer razão, eles parecem voltar rapidamente, e eles voltam com memórias intactas. Mas estes casos não podem ser generalizados para o resto da população. Que a grande maioria das crianças fala sobre uma vida no mesmo país não significa necessariamente que outras pessoas teriam as mesmas restrições.

Radin: Mas isso implica que se é verdade para algumas crianças, provavelmente é verdade para todos, quer nos lembremos ou não.

Tucker: Eu vou e volto sobre isso, para dizer a verdade. Estes casos fornecem evidências de que pode haver sobrevivência após a morte, mas eu não acho que estes casos requerem necessariamente, talvez nem sequer implicam, que a sobrevivência após a morte tem que ser neste mesmo mundo em que estamos agora. Esses casos mostram que isso pode acontecer, mas se o nosso mundo é, essencialmente, criado a partir da consciência – o que eu acredito – então eu não vejo nenhuma razão porque outros mundos não poderiam ser criados a partir da consciência também. Assim, a consciência que cada um de nós possui iria continuar de alguma forma, mas não necessariamente de volta a este mundo.

Radin: Você acredita que o mundo é feito de consciência?

Tucker: Não necessariamente feito, mas que cresce a partir da consciência.

Radin: Descreva isso com um pouco mais de detalhes.

Tucker: Bem, isso entra na física quântica, que, confesso, não entendo completamente.

Radin: Ninguém entende.

Tucker: Eu não sei o quanto entrar em detalhes, mas há a idéia de que a observação é necessária para o colapso da função de onda – basicamente, os eventos não ocorrem até que sejam observados. E isso é verdade no nível quântico não apenas para os eventos atuais, mas para eventos passados também. O passado tem que ser observado antes de entrar em realidade. Eles dizem que existem tantas interpretações da teoria quântica como existem físicos quânticos. Minha interpretação é que se a observação é necessária para eventos físicos existirem, então algo tem que estar fazendo a observação. Eu acho que o argumento pode ser levantado – e pessoas como o físico Henry Stapp têm mais ou menos feito isso – de que a consciência é necessária para o colapso da função de onda, ou essencialmente para que os eventos ocorram. A idéia de que eventos do passado não existem até que sejam observados é semelhante ao mundo dos sonhos, onde as pessoas não existem nesse mundo até que nós as observemos. É mais ou menos o mesmo em nosso universo físico: as coisas realmente não existem até que sejam observadas. Eu acho que um argumento muito forte pode ser feito de que o mundo físico pode muito bem ser uma criação da mente também.

Radin: Não necessariamente da mente pessoal, mas de algo maior que isso?

Tucker: Bem, essa é uma pergunta. A idéia de William James é que a consciência flui através de nossas mentes individuais, que o nosso cérebro não cria a consciência que flui através dele. Então, é como se cada um de nós servisse de portal para seres de consciência. E todos nós viemos de uma fonte? Não há nenhuma maneira de saber disso com certeza. Agora outra: Sob a superfície, nós estaremos todos conectados mesmo que parecemos estar separados? Envolver-me neste trabalho fez-me curioso sobre um monte de coisas. Dez anos atrás, eu não sabia quase nada sobre física quântica, agora eu sei o suficiente para ter uma opinião. Além disso, quanto mais você olhar para os vários aspectos da parapsicologia – experiências de quase-morte, casos de reencarnação, médiuns, místicos, aparições – com certeza parece que a consciência pode sobreviver sem um recipiente físico, isto é, o corpo e o cérebro.

Radin: Quando foi que casos de vidas passadas com marcas correspondentes a uma vida passada apareceram, e estes ocorrem em crianças também?

Tucker: Eles ocorrem em crianças, como marcas de nascença ou defeitos de nascimento que correspondem a feridas, geralmente a ferida fatal, do corpo da pessoa anterior. Como um médico com um interesse particular em medicina psicossomática, Ian ficou bastante intrigado por esta conexão entre o mental e o físico. Então, quando ele começou a ouvir sobre esses casos lá nos anos sessenta, ele ficou muito interessado neles. Ele levou cerca de vinte anos para finalmente escrever sobre isso, mas eventualmente publicou uma obra de 2000 páginas tratando da biologia da encarnação para mais de 200 desses casos. Muitos deles não são os usuais defeitos ou a marca de nascença que muitas pessoas têm, mas casos bastante horríveis de membros amputados, os dedos deformados, e coisas assim. Há também casos distintos, por exemplo, onde a pessoa anterior foi baleada e morta e depois a criança nasce tanto com a pequena ferida arredondada de entrada no lugar certo como também uma ferida de saída maior, de forma irregular, no lugar certo. Tais marcas de nascença distintivas ou defeitos de nascimento correspondem às declarações que uma criança faz sobre a pessoa anterior. Quando podia, Ian iria buscar relatórios de autópsia para confirmar um acerto, e quando estes não estavam disponíveis, já que muitas vezes não estavam, ele iria buscar relatos de testemunhas oculares para determinar o quão bem as marcas correspondem às feridas que a pessoa anterior sofreu.

Marcas de nascença
[Esquerda:] Máculas hipocrômicas no peito de um jovem indiano que, quando criança, disse que se lembrava da vida de um homem, Maha Ram, que foi morto por uma espingarda que disparou à queima-roupa. [Direita:] Os círculos mostram os ferimentos principais de espingarda em Maha Ram, extraídos do relatório da autópsia do falecido. — Do arquivo do dr. Ian Stevenson —

Radin: Se formos tomar esses casos pelo seu valor aparente, como nós iremos mesmo começar a interpretar o que a conexão mente-corpo significa? Isso faz com que o corpo seja extremamente fluido em termos de como será construído.

Tucker: Quando comecei a participar deste trabalho, eu tinha dificuldade para engolir essa idéia. Mas a maneira que eu penso nela agora é que sabemos a partir de outros trabalhos que as imagens mentais podem ter efeitos específicos no corpo – por exemplo, em estigmas ou em alguns casos de hipnose. Há um caso famoso que você provavelmente está ciente de  que um cara reviveu um evento traumático, onde seus braços tinham sido amarrados, e ao reviver o evento, ele desenvolveu o que parecia ser marcas de cordas em seus braços. Então, há momentos em que você obtém esses efeitos muito específicos do corpo a partir de imagens mentais. Bem, se uma consciência que experimenta ser baleada sobrevive, pode levar essa imagem mental com ela para um feto em desenvolvimento, e  o feto em desenvolvimento pode ser um corpo físico particularmente suscetível que pode ser afetado pela imagem mental. Assim, quando a criança nasce, os sinais de nascença vêm com ela.

Defeito de nascença
Orelha severamente malformada (microtia) em um menino turco que disse que se lembrava da vida de um homem que foi ferido mortalmente no lado direito da cabeça por uma espingarda descarregada a curta distância.

Radin: É este  o caso também de crianças que relatam vidas passadas que retém um talento que a pessoa anterior tinha – alguma habilidade indentificável na música ou dança, por exemplo?

Tucker: Isto tende a ser uma questão mais subjetiva. Há a questão, é claro, de onde as crianças prodígio obtém suas habilidades. Mas eu não estou ciente de nenhum caso de prodígios tipo Mozart que também tem memórias de vidas passadas. Em nossos casos, as crianças não são prodígios, emboram tendem a aprender as coisas mais rapidamente do que as outras, como um instrumento musical ou outro idioma. Infelizmente, às vezes não há ninguém por perto que possa dizer se é um idioma real – na Birmânia, por exemplo, não haveria ninguém que pudesse falar japonês que saberia que uma criança está realmente falando isso. Mas tem havido alguns casos bem documentados de crianças falando em uma língua desconhecida. De qualquer forma, essas habilidades podem surgir, mas não em plena força. É como se você não jogar basquete por 40 anos e recomeçar a jogar novamente; você atira melhor do que nunca atirou, mas irá requerer um monte de prática para ficar bom nisso novamente.

Radin: Então, dado que estamos chegando ano que vem aos 50 anos desde que Ian iniciou sua pesquisa, o que está no horizonte além de continuar a recolher mais casos interessantes?

Tucker: Uma coisa que eu tenho tentado fazer, e recentemente tenho tido mais sucesso com isso, é coletar casos americanos, porque penso que é muito fácil para as pessoas descartarem os casos asiáticos como fenômeno cultural. Eu penso que os casos americanos sejam mais difíceis de se ignorar.

A outra coisa em que estamos trabalhando é em um banco de dados de computador. Para cada um de nossos casos, nós os codificamos em 200 variáveis e então os colocamos na base de dados. Infelizmente, 200 variáveis levam muito tempo para serem codificadas. Então, este é um estudo de vários anos, e nós temos cerca de 1.800 deles no banco de dados, de um total de 2.500 que foram estudados.Com este tipo de banco de dados, é possível identificar padrões que você não pode realmente ver em um caso individual. Por exemplo, uma coisa que nós observamos é a crítica de que os pais super-entusiásticos criam os casos. Nós examinamos a codificação para a reação inicial dos pais de um caso para ver quão bem ele corresponde ao quão forte é o caso, e vimos que não corresponde de modo algum. Uma vez que temos toda a coleção, nós podemos executar estatísticas sobre basicamente qualquer área desses casos que nos intriga.