[quote] A teoria das janelas quebradas é fruto da imaginação dos criminologistas James Q. Wilson e George Kelling. Os dois argumentaram que o crime é o resultado inevitável da desordem. Se uma janela está quebrada e não é consertada, quem passa por ali conclui que ninguém se importa com aquilo e que não há ninguém no controle. Em breve, outras janelas aparecerão quebradas, e a sensação de anarquia se espalhará do prédio para a rua, enviando a mensagem de que ali vale tudo. Segundo Wilson e Kelling, em uma cidade, problemas relativamente insignificantes, como pichação, desordem em locais públicos e mendicância agressiva, são o equivalente das janelas quebradas – convites para crimes mais graves.

“Assaltantes e ladrões, sejam oportunistas ou profissionais, acham que suas chances de serem presos ou até identificados diminuem se atuarem em ruas onde as vítimas em potencial já estão intimidadas pelas condições reinantes. Talvez o ladrão pense que, se a vizinhança não é capaz de evitar que um pedinte incomode as pessoas nas ruas, é menos provável ainda que chame a polícia para identificar um possível assaltante ou interferir se a agressão realmente acontecer.”

Essa é uma teoria epidêmica do crime. Ela diz que o crime é contagiante – assim como uma tendência de moda – e pode começar com uma janela quebrada e se espalhar por toda a comunidade.

(Malcolm Gladwell, em “O Ponto da Virada”, ed. Sextante)

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[quote]O que antes era um ponto de ônibus cheio de lixo e mal cuidado, virou uma espécie de varanda agradável. “Antes as pessoas jogavam lixo e até animais mortos, a gente tentava limpar e não adiantava. Aí entendi que era melhor mudar o ambiente. Mudei o piso, flores, gramas, coloquei o jornal para ler nos tempos de espera e as pessoas não estão destruindo nada. Mudando o ambiente, a gente muda o comportamento da pessoa”, disse o professor, especialista em tecnologia de alimentos.

(…) As intervenções foram feitas há duas semanas e, para a surpresa de muitos, o ambiente permanece intacto e imune ao vandalismo. “É uma coisa que pertence a todos nós e todos podemos cuidar. As pessoas estão elogiando e até colocando revistas para os outros lerem”, disse Ahmed.

(retirado da notícia “Professor reforma ponto de ônibus por conta própria” em Campinas, publicada em 18/04/2013)

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[quote]E essa é a diferença entre os professores de moral e os místicos religiosos: os professores de moral continuam propondo: “lute contra a escuridão – lute contra o ódio, lute contra a raiva, lute contra o sexo, lute contra isso, lute contra aquilo!” Toda a abordagem deles é “lute contra o negativo”, enquanto o mestre real, verdadeiro, ensina-lhes a lei positiva, aes dhammo sanantano – a lei eterna: “Não lute contra a escuridão“. E o ódio é escuridão, e o sexo é escuridão, e o ciúme é escuridão, e a ganância é escuridão e a raiva é escuridão.

Traga a luz

Como se traz a luz? Torne-se silencioso, sem pensamentos, consciente, alerta, ciente, desperto – é assim que se traz a luz. E, no momento em que você fica alerta, consciente, o ódio não vai existir mais. Tente odiar alguém com consciência… (…) Tente odiar alguém conscientemente e você descobrirá que é impossível. Ou a consciência desaparece e, então, você pode odiar; ou, se você estiver consciente, o ódio desaparece. Os dois não podem existir juntos.

(Osho)

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Tente odiar com consciência… Tendo em mente que a palavra “consciência”, como é aqui empregada por Osho, e consequentemente por mim, se refere a um estado de alerta, atenção plena, de consciência no presente, desperta, no agora. O ódio existe no passado ou em relação ao passado, ou em relação ao futuro. Sem tal referência (pensamentos ocupados ou preocupados) a passado ou a futuro, no estado de atenção presente, tal escuridão não pode existir. A consciência é a luz.

Apenas uma janela quebrada!

Pois.

Recentemente recebi a indicação de um documentário muito interessante, entitulado “Doing Time, Doing Vipassana” (“Tempo de Espera, tempo de Vipassana”), produzido em 1997, e que retrata a experimentação com cursos de meditação Vipassana (a “meditação do Buda”), num dos presídios mais conhecidos da Índia, e também um dos piores do mundo, a Penitenciária de Segurança Máxima de Tihar.

Tudo começa quando um novo inspetor geral de prisão, ou melhor, inspetora, Kiran Bendi, é indicada para trabalhar na penitenciária de Tihar. Quando Kiran chega nesta prisão, em 1993, o ambiente era caótico, como é característico em tais lugares. Como estamos falando da Índia, podemos multiplicar essas condições caóticas, tendo em vista, por exemplo, que o número de presos do tal presídio, no momento do documentário, era de 10.000 detentos. Deste número, 9.000 estavam lá somente aguardando o julgamento, ou seja, ainda sequer haviam recebido suas penas, algo que poderia ocorrer em alguns dias ou mesmo em alguns anos!

Kiran Bendi - 1993

Kiran Bendi – 1993

Enfim. O documentário retrata a iniciativa de Kiran Bendi de modificar as condições do presídio e dos presos. Primeiramente, ela realiza uma reforma no ambiente, melhorando, “normalizando” o ambiente para os presos. A lógica dela é simples e por isso sábia: eventualmente, os presos retornarão ao mundo, sairão da prisão. Portanto, fazê-los sentirem-se “normais”, mesmo na cadeia, ou se possível melhorá-los como seres humanos, é muito mais construtivo e benéfico, tanto para os próprios presos, como para sociedade que voltará a  recebê-los em algum momento. É, de fato, o melhor para todos: poder liberar um preso que jamais voltará para a cadeia, não porque aprendeu a fugir ou se esconder melhor da polícia, mas porque não há mais necessidade de prendê-lo: ele não oferece mais riscos, não prejudica ou fere mais ninguém. É um ser humano diferente.

O documentário em si trata da utilização da meditação Vipassana nos detentos de Tihar, experimento que já havia sido utilizado em outra prisão da Índia, nos anos 1970, com resultados excelentes. Kiran observa que apesar da alteração ambiental que efetuou nas instalações da penitenciária, ainda faltava alguma coisa. Era necessário fortalecer os espíritos daqueles presos, eles precisavam do “alimento psicológico”. E a meditação surgiu pra suprir essa carência.

Enquanto assistia a este documentário, não pude deixar de me lembrar de outros estudos e experiências que relacionavam  mudanças de ambiente ou contexto, com mudanças de comportamento/atitude. No documentário não foi explorado a parte da mudança ambiental, que apenas é citada, o foco é a mudança psicoemocional nos presos pela prática da meditação. Por isso, resolvi falar um pouco sobre isso neste post, pois acredito que é uma ideia ainda mal entendida e mal explorada, tendo em vista os resultados rápidos e praticamente revolucionários que costuma proporcionar.

A primeira citação que introduz este post, se refere a teoria das janelas quebradas. É uma teoria, já bem estudada e experimentada, que demonstra o poder do ambiente, do contexto sobre o ser humano. Aqui, acho importante ressaltar algumas coisas. Primeiro, que não se está dizendo que a culpa é só ou totalmente do ambiente. De fato, o componente psicológico de cada indivíduo é também importante. Só que na maioria dos casos, não é mais importante que o componente ambiental. E por ambiental, não se está falando de “sociedade, política, problemas sociais, injustiças, diferenças econômicas” e etc.  Se a questão ambiental fosse essa, então seriam necessários grandes passos, grandes revoluções e muitos anos ou gerações para solucionar os problemas da criminalidade no mundo. Quase uma utopia, que de certa forma é um pensamento bem cômodo, pois nos permite colocar a culpa em tudo o que quisermos e jogarmos o problema sempre pra frente. Mas na prática, nada disso é necessário. Já foi demonstrado, não apenas em estudos mas em grandes casos, como o da cidade de Nova York nos anos 90, que a mudança de pequenos detalhes já é capaz de fazer quase um “milagre” nesse sentido. Segundo, precisamos ter em mente que 99% da população vive sob o ritmo hipnótico dos próprios condicionamentos, apenas reagindo aos estímulos externos que se apresentam ou perdido nos próprios devaneios e imaginação, filtrando a realidade de acordo com as próprias crenças e “programação”. Sonâmbulos de olhos abertos, aparentemente “conscientes”. Mas só é possível ação de verdade, quando se está consciente (em estado de atenção, no presente, no agora). Uma pessoa consciente NÃO é influenciada pelo ambiente a ponto de mudar sua personalidade ou apresentar um “desvio de caráter” temporário em função de uma situação ou contexto que estimula trapaça ou que sabe que poderá se safar impune. Em todas as outras, ou seja, a esmagadora maioria de nós, o ditado “a ocasião faz o ladrão” é a regra. Quanto mais “inconsciente” o ser humano, mais sensível ao contexto/ambiente/situação. Não é fácil admitir isso, mas a verdade liberta… Inclusive, sobre esse assunto, recomendo a leitura do artigo Comportamento Indiscreto, no blog parceiro de Eduardo O. Carvalho.

Então, deixa eu contar aquele caso de Nova York, que ilustra o que estou dizendo. Vou tentar ser resumida, e ao final do post, recomendarei algumas leituras para quem quiser saber mais detalhes sobre essas ideias.

Nova York, anos 80. A criminalidade tinha adquirido proporções epidêmicas. A média anual de assassinatos era de 2 mil, e de crimes graves, 600 mil. Em 1984, havia um incêndio por dia no sistema metroviário da cidade, e um descarrilamento a cada duas semanas. Os vagões do metrô, por sinal, eram nojentos: chão coberto de lixo, pichações, paredes e tetos imundos. O metrô não era apenas subterrâneo, era submundo… Não havia aquecimento nos vagões no inverno, nem resfriamento no verão. O calote na bilheteria era tão comum, que dava um prejuízo anual à empresa Transit Authority (responsável pelo metrô), de U$ 150 milhões.

Metrô de Nova York (anos 80)

Metrô de Nova York (anos 80)

Nesse sistema metroviário, a média era de 15 – 20 mil delitos graves por ano. Todos os dias, estimava-se que 170 mil pessoas davam um jeitinho de entrar no metrô sem pagar. Enfim, o caos imperava nas ruas. Só que, “de repente”, em 1990, do ponto mais alto da “epidemia”, esta deu uma guinada e entrou em declínio vertiginoso. O número de assassinatos caiu em dois terços, os delitos graves, foram reduzidos pela metade. Outras cidades americanas também observaram quedas na criminalidade, mas nenhuma nem chegou perto do que ocorreu a Nova York. Mas o que aconteceu? Então. Não houve nenhum transplante de população, por outra mais pacífica ou “evoluída”. Não houve nenhuma campanha para ensinar os futuros bandidos o que é certo e o que é errado. Não surgiu novo messias nem a volta de um antigo. A economia continuava estagnada por lá (apesar de ter começado a melhorar no restante do país), e a cidade continuava a atrair cada vez mais jovens, portanto, a cidade não estava ficando “mais velha” (como ocorria em outras). As mesmas pessoas com problemas psicológicos e tendências criminosas continuavam lá, tanto na época do auge da epidemia de crimes, quanto no declínio. Porque não estavam “exercendo” suas “tendências sociopatas”? O que mudou?

[quote]O ímpeto de adotar uma forma específica de comportamento não vem de certo tipo de indivíduo, e sim de uma característica do ambiente. (Malcom Gladwell)[/quote]

Metrô de Nova York

Metrô de Nova York

Mudou o ambiente! Mudou o contexto. George Kelling, um dos criminologistas autor da teoria das janelas quebradas, foi nomeado como consultor da Transit Authority, a empresa responsável pelo metrô. Ali, ele colocou em prática a teoria. Nomearam um novo diretor para o metrô, David Gunn, para supervisionar a reconstrução do sistema metroviário. Pois, a maior e primeira preocupação de Gunn foi com relação às pichações dos vagões. Para ele, elas eram o “símbolo do colapso do sistema”. O que ele fez? Montou uma estação de limpeza e começou a sumir com as pichações, vagão por vagão, linha a linha. Não permitiam que vagões sujos se “misturassem” aos vagões limpos, e não permitiam retrocesso: os vagões limpos não voltariam a ser alvo de vandalismo. Nenhum vagão passava por eles com algum rabisco que fosse. Se não pudessem limpar, o vagão era retirado temporariamente de serviço. A segunda fase da recuperação do metrô contou com William Bratton, que chefiou a polícia de trânsito. Como os índices de crimes graves continuava alto no metrô, a primeira iniciativa dele foi terminar com a alegria dos caloteiros. Parece estranho, pois teoricamente ele deveria estar preocupado com os delitos mais graves, e não com gente pulando a roleta, não é mesmo? Mas aí que está a grande sacada dele: o calote nas passagens, apesar de pequeno, poderia ser uma pequena expressão de desordem que convidava a crimes mais graves. Além disso, a simples visão de algumas pessoas pulando a roleta para não pagar, também estimulava outras (muitas inclusive que talvez jamais pensariam em burlar a lei) a fazer o mesmo, já que “nada acontecia” mesmo.

Moral da história: começaram a prender os caloteiros, e deixavam-os de pé na plataforma, para que o público pudesse vê-los.  A mensagem ficava clara, não? Alguém estava no controle, alguém se importava. A polícia de trânsito se tornou uma especialista nas “pequenas trapaças”, e com isso, foi descobrindo caloteiros mais perigosos. Uns anos depois, Bratton foi nomeado chefe do Departamento de Polícia de Nova York. E qual foi sua prioridade? Os crimes contra a qualidade de vida: “caras do rodinho” (que abordam os motoristas e exigem dinheiro pra limpar o pára-brisa), e qualquer outra pessoa que tivesse comportamento semelhante a um saltador de roleta ou pichador, bêbados na rua, gente urinando em muro, jogando garrafa vazia na calçada… enfim. Situações que parecem “insignificantes”. E o que aconteceu? Os índices de criminalidade nas ruas começaram a cair drasticamente, do mesmo modo que ocorreu no metrô! Ou seja, os delitos menores, que para muitos seriam insignificantes, mas que atentavam contra a qualidade de vida, foram o “algo a mais”, o ponto de virada determinante para que os crimes violentos começassem a ser “varridos” das ruas.

Percebam: não foram modificações de condições extremas (por exemplo: educação, desigualdades sociais, questões econômicas) que produziram a virada nessa história. Só o fato de não permitirem vagão sujo circulando ou caloteiro no vagão, já foi o suficiente para que as pessoas, tanto as bem como as mal-intencionadas apresentassem um comportamento coerente (como reação) com o ambiente em que estavam. O caso de Nova York não é único! Recentemente, em Campinas, foi noticiado situação semelhante (e que cito no início do post) em que um professor resolve reformar um ponto de ônibus alvo de muito vandalismo, e o transforma numa “sala de espera”. Estranhamente, o ponto se tornou “imune” a vândalos. Outros estudos, um inclusive realizado na Holanda, com indivíduos alugando bicicletas em lugares sujos e pichados e outros em lugares limpos e conservados, mostrou que os que buscavam a bicicleta em lugar sujo, tendiam a “colaborar” com a sujeira, jogando papel no chão com maior frequência.

Ponto de ônibus em Campinas, reformado pelo professor Ahmed Atia El Dash

Ponto de ônibus em Campinas, reformado pelo professor Ahmed Atia El Dash

Mas, como a mudança no ambiente é apenas um lado da história, aqui entra a importância da meditação (e por tabela, do autoconhecimento), no sentido de desenvolver a autoconsciência e a atenção plena. Não é uma questão de escolaridade (e não estou dizendo que a educação não seja importante, é claro que é, é por meio dela que se tem acesso a tudo isso que estamos falando aqui, por exemplo), pois mesmo em países considerados “primeiro mundo”, com baixos índices de analfabetismo ou de pouca escolaridade, o ambiente terá o mesmo efeito, bastará um momento de “dormindo acordado” (“inconsciente de si” ou no “ritmo hipnótico” que mencionei anteriormente) para que você reaja de um modo que poderá ter dificuldade para explicar para si mesmo, por que agiu daquele jeito. Portanto, é sempre uma questão de consciência presente! Por isso, a iniciativa de ensinar a meditação Vipassana no presídio foi uma ideia excelente. Pessoas que cometem crimes, além de possivelmente possuírem problemas ou transtornos psicológicos, por isso mesmo já demonstraram que são mais “sensíveis” ao contexto do que outras. A meditação, nesse sentido, atua de dentro pra fora, aumentando o grau de autoconsciência dessas pessoas, ampliando a atenção delas de si mesmas e do funcionamento de suas mentes, diminuindo as possibilidades de reagirem automaticamente às circunstâncias ou situações, permitindo que façam escolhas diferentes do que estão ou foram condicionadas ao longo da vida, a fazerem. Ou seja, a meditação as traz de volta para o “centro”, e as coloca no controle de si mesmas.

É, ou não é algo para se pensar?

Mas vamos ao documentário:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

 

Leituras interessantes:

– “O Ponto da Virada”, de Malcom Gladwell. Editora Sextante.

– “Psicologia da Evolução Possível ao Homem”, de P. D. Ouspensky. Editora Pensamento.

– http://eduardocarvalho.net/ – diversos artigos em psicoterapia e autoconhecimento, com ênfase na evolução humana, por meio da autoconsciência.

– http://cerebro-online.blogspot.com.br/2010/03/o-ambiente-e-sua-influencia-no.html – sobre o estudo na Holanda com as bicicletas e também com envelopes com dinheiro.