É interessante como passamos boa parte das nossas vidas priorizando coisas que, de fato, pouco contribuem realmente para a nossa realização existencial.

Ninguém vai reclamar, no leito de morte, de não ter adquirido mais imóveis, de não te feito mais horas extras, de não ter investido em ações, de não ter acumulado (mais) títulos acadêmicos… Não. Quando a morte é uma realidade próxima e inegável (na verdade, esta é a natureza da morte: uma realidade sempre próxima e inegável. Entretanto, quando tudo está “bem” ou “normal” nós tendemos a esquecer que somos mortais e a morte é sempre problema dos outros), a vida adquire a sua verdadeira e única perspectiva:  você está sendo ou alguma vez foi fiel a quem você realmente é? Ou talvez seria melhor dizer: você está ou alguma vez esteve preocupado em saber quem, de fato, você é?

Na inconsciência nós tendemos a seguir o ritmo hipnótico do mundo sem nem nos darmos conta do que existe, muito mais, além. Se tivermos  a “sorte” de podermos nos deparar com a morte com algum intervalo para conscientização e, consequentemente, arrependimentos, pelo menos assim, na marra, temos alguma chance de entender o que a vida ou a existência NÃO é. Mas nem todo mundo vai poder ter um tempo antes de morrer para perceber certas verdades. Para muitos, a morte chegará inesperadamente. E aí?

Acho que é interessante aprender com quem se conscientizou de alguma coisa antes de morrer, como no caso dos doentes terminais.

Aqui vão algumas coisas que aprendi:

  • Observe que o foco dos arrependimentos não é tanto em relação ao que se fez, mas sim ao que se deixou de fazer. O problema, por exemplo, não é “ter trabalhado demais”, mas o que não se permitiu fazer, e que gostaria muito mais de ter feito, mas que não fez porque priorizou outras questões ou achou que não era tão ou mais importante do que o trabalho…
  • Já comentei isso em outras oportunidades e repito: você sempre se arrependerá mais do que não fez (seja por medo, insegurança, timidez, riscos etc) do que daquilo que fez. Por mais que o que tenha feito tenha dado totalmente errado. Experiências ruins ensinam muito. Inclusive a acertar…
  • Não pense que somente é importante dizer o quanto gosta ou como se sente em relação as pessoas. Dizer o que não gosta ou não concorda, também faz parte do “ser sincero e verdadeiro”… Seja fiel a si mesmo, oponha-se quando assim sentir que é o certo.
  • Respeite a caminhada evolutiva das outras pessoas, mas lembre-se de também respeitar a sua. Só quem sabe se ajudar pode realmente ajudar alguém…
  • Quando estiver em dúvida sobre o que deseja fazer na sua vida, seja escolher uma carreira, mudar de profissão ou ainda realizar mudanças no seu trabalho/profissão, pergunte-se: “o que me empolga?” É desta sua resposta que virá a resposta. Mantenha-se aberto e receptivo.
  • A idade vai lhe forçar a algum amadurecimento, independente do que você quer ou faça, mas não se iluda pensando que ter mais “experiências” ou “anos de vida” vai automaticamente lhe tornar mais amadurecido. O que te faz amadurecer não é a quantidade de experiências que lhe acontecem, mas o que você consegue aprender com elas (ou desaprender…). O mundo está cheio de seres humanos idosos que ainda não compreenderam a vida…
  • A prática é infinitamente mais importante que a teoria. A vida só existe na prática. Procure ser alguém que sabe, ao invés de alguém que somente conhece. Como saber alguma coisa? Vivendo.
  • Tudo o que você “sabe a seu respeito” é informação de terceiros. De toda essa informação fornecida pelo outros, a que você acredita é a que passa a comandar a sua vida. Se te disseram que você é inteligente e você acreditou, você passa a ser inteligente. Se disseram que era burro, idem. Mas nenhuma dessas pessoas realmente estava falando a seu respeito, estavam apenas projetando seus próprios ideais e sombras em você. Só você pode saber quem você é. Esta é uma busca individual e interior.
  • Um bom critério para identificar o que é verdadeiramente importante para a sua existência ou não é se perguntar: eu poderei levar isso comigo quando morrer? Se estiver meio em dúvida com relação a resposta, converse com pessoas em estado terminal…
  • As suas escolhas sempre serão as certas se você procurar estar consciente de tudo que elas envolvem: responsabilidades, consequências, circunstâncias, contexto, efeitos, riscos. Se estando consciente de tudo (bom e ruim), você ainda permanece com a escolha, ela é a certa. Quando uma escolha é consciente, não há necessidade de aprovação dos outros.  

A notícia abaixo sobre o  livro, é da BBC Brasil, os grifos são meus:

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“O principal arrependimento de muitas pessoas é o de não ter tido coragem de fazer o que realmente queriam”, diz autora

Uma enfermeira australiana lançou um livro com uma lista de cinco principais arrependimentos de pessoas que estão prestes a morrer.

Bronnie Ware, que é especialista em cuidados paliativos e doentes terminais, afirma que reuniu em seu livro “confissões honestas e francas de pessoas em seus leitos de morte”, confissões que, segundo ela, mudaram sua vida.

“Encontrei uma lista grande de arrependimentos, mas, no livro, me concentrei nos cinco mais comuns”, disse a autora à BBC.

O principal arrependimento de muitas pessoas é o de não ter tido coragem de fazer o que realmente queriam e não o que outros esperavam que fizessem“, acrescentou.

Outro arrependimento comum é de não terem trabalhado um pouco menos, o que fez com que perdessem muitas coisas em suas vidas“, disse Ware.

O livro de Ware, intitulado The Top Five Regrets of the Dying – A Life Transformed by the Dearly Departing (“Os Cinco Maiores Arrependimentos à Beira da Morte”, em tradução livre) relata as experiências da autora durante anos de trabalho em cuidados de doentes terminais.

Os pacientes de Ware, geralmente, eram pessoas que já não tinham chances de recuperação e podiam morrer a qualquer momento.

A enfermeira afirma que isto permitiu que ela compartilhasse com estes pacientes “momentos incrivelmente especiais porque passei com eles as últimas três a doze semanas de suas vidas”.

Texto viral

Ware conta que a ideia para o livro surgiu depois que um artigo que publicou em seu blog transformou-se em um texto viral, espalhando-se pela web.

As pessoas amadurecem muito quando precisam enfrentar a própria mortalidade“, afirmou.

“Cada pessoa experimenta uma série de emoções, como é esperado, que inclui negação, medo, arrependimento, mais negação e, em algum momento, aceitação.”

A enfermeira garante que cada um dos pacientes que tratou “encontrou sua paz antes de partir”.

Ware disse à BBC que, durante os anos em que trabalhou com estes pacientes, percebeu também que muitos se arrependiam de não terem tido “coragem para expressar seus sentimentos”.

E isso se aplica tanto aos sentimentos positivos quanto aos negativos.

“Muitos diziam: ‘queria ter tido coragem de falar que não gostava de uma coisa’, ou então que queriam ter tido coragem de falar às pessoas o que realmente sentiam por elas”, afirmou.

Amigos

Bronnie Ware também destacou outro arrependimento que notou entre seus pacientes: o de ter perdido o contato com os amigos.

A enfermeira afirmou que os amigos são importantes no fim da vida, uma vez que os parentes que acompanham um doente terminal também enfrentam muita dor.

Uma pessoa no leito de morte, segundo Ware, sente falta dos amigos, mas, muitas vezes, a perda de contato ao longo dos anos impede um reencontro.

A enfermeira também chama a atenção para o fato de que as pessoas se arrependem do que não fizeram. Na maioria dos casos observados por ela, as pessoas não pareciam se arrepender de algo que tinham feito.

A autora afirma que espera que seu livro “ajude as pessoas a agir hoje e a não deixar as coisas para amanhã e se arrepender depois”.