Foi lançado recentemente nos EUA (em 18/05/13) a nova versão do manual psiquiátrico, o DSM (Manual de Estáticas de Diagnósticos), versão V (cinco).

Um pouco antes deste lançamento, foi noticiado em alguns sites o posicionamento digamos “não favorável ao manual psiquiátrico” por parte do NIHM, o Instituto de Saúde Mental dos EUA, em uma postagem no blog do instituto, de autoria de Thomas Inse, presidente da dita instituição. Para ver a postagem original (em inglês), clique aqui.

Pois, basicamente Thomas explica que:

[quote]Enquanto que o DSM tem sido descrito como uma “bíblia” para o campo (da psiquiatria), ele é, na melhor das hipóteses, um dicionário, criando um conjunto de classificações e definindo cada uma delas. A força de cada uma das edições do DSM tem sido sua “confiabilidade” – cada edição tem assegurado que os médicos utilizem os mesmos termos, das mesmas maneiras. O ponto fraco é a falta de validade. Ao contrário de nossas definições de doença isquêmica do coração, linfoma ou SIDA (AIDS), os diagnósticos do DSM são baseados em um consenso sobre grupos de sintomas clínicos, e não em qualquer medida objetiva de laboratório. No restante da medicina, isto seria equivalente à criação de sistemas de diagnóstico com base na natureza da dor no peito ou na qualidade da febre. De fato, o diagnóstico baseado em sintomas, uma vez comum em outras áreas da medicina, tem sido amplamente substituído na metade do século passado, conforme temos entendido que os sintomas só raramente indicam a melhor opção de tratamento.[/quote]

Em certo momento, ele chega mesmo a dizer: “Pacientes com transtornos mentais merecem algo melhor”.

É verdade… Mas… o que seria esse “algo melhor”? Bem, é aí que está a “jogada”…

Pílulas da felicidade

Apesar de ser uma iniciativa muito interessante, no sentido de enfraquecer um pouco a influência ou importância deste manual, o que de certa forma poderia incentivar a busca por outras formas de entender a “doença mental”, é exatamente aí que a “alegria acaba”. Segundo Inse, o DSM não é suficiente para os pesquisadores, para uma fundamentação científica – leia biológica – para tais transtornos. E a proposta dele, e do Instituto (que é “o principal organismo de financiamento à ciência psiquiátrica nos Estados Unidos, com orçamento anual de US$ 1,4 bilhão”) é a de que por meio do projeto  RDoC (Critérios no Domínio da Pesquisa – criado em 2009), se crie do zero, um novo sistema diagnóstico,  de forma a tornar a psiquiatria mais objetiva, mais “científica”. E por ciência estão dizendo biologia, e por doença mental estão dizendo doença cerebral

dsm-5

Nas palavras de Bruce Cuthbert, diretor do NIHM, a respeito dos objetivos do RDoc e do futuro do diagnóstico de doenças mentais:

[quote]”Em vez de dizer que um paciente tem depressão, ansiedade ou stress pós-traumático, diremos que o seu problema é, por exemplo, uma disfunção nos circuitos cerebrais que regulam as emoções. O mesmo para as doenças psicóticas, como esquizofrenia. Diremos, por exemplo, que o problema do paciente é um transtorno de disfunção das sinapses. E então falaremos de grupos de genes que regulam ou que afetam a estrutura das sinapses. Pode ser que a combinação desses genes, e não mais a soma dos sintomas, nos deem ideias diferentes sobre esquizofrenia ou transtorno bipolar.”[/quote]

É ou não é um futuro um tanto apavorante?

Em outras palavras, o caso todo foi apenas do “sujo falando do mal lavado”. A intenção de querer tornar os critérios de diagnóstico mais científicos pode até ser boa, mas por favor, dizer que a causa ou razão de uma ansiedade é uma “disfunção nos circuitos cerebrais”, por exemplo, ou se limitar em culpar algum gene por isso, é praticamente dizer para uma pessoa que ela não teve nada a ver com o problema, que ele não poderia ter sido evitado (porque afinal é cerebral ou talvez genético) e que tudo se resolve com remédio ou tratamento medicamentoso, o que na minha opinião, é a consequência mais grave de tal tipo de postura. Quando na verdade, somente uma minoria da população poderia se encaixar num diagnóstico (de leitura puramente biológica) desse.

E, a meu ver, quem paga (e pagará) o preço da “lavação” continua sendo o futuro da humanidade…

“Patologização excessiva do comportamento humano” é quase um elogio nesse caso….

Coloco abaixo, duas notícias (da Folha de São Paulo) sobre o assunto. Eventuais grifos são meus. E para quem quiser saber mais:

Em busca do diagnóstico perfeito

– Instituto de Saúde Mental dos EUA “abandona” o DSM-5: o que isto significa?

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Novo manual de psiquiatria é lançado nos EUA em meio a críticas

O livro que orienta a atividade de psiquiatras do mundo inteiro ganha amanhã (18/05) uma nova versão num lançamento com certo sabor de derrota.

A quinta edição do DSM (Manual de Estatísticas de Diagnósticos) promete tornar mais coerentes os critérios de definição de transtornos mentais, mas deve deixar de nortear pesquisas que conectam a prática clínica à ciência de ponta feita nessa área da medicina.

A festa de lançamento do livro ocorre no encontro anual da APA (Associação Psiquiátrica Americana), que começa amanhã em San Francisco e vai até quarta-feira (22).

A declaração que criou um clima de desconforto para o evento, porém, partiu da periferia de Washington, onde fica o NIMH (Instituto Nacional de Saúde Mental), o principal organismo de financiamento à ciência psiquiátrica nos Estados Unidos, com orçamento anual de US$ 1,4 bilhão.

Às vésperas do encontro, o diretor da instituição, Thomas Insel, disse que pretende distanciar do DSM o esforço de pesquisa básica em saúde mental.

A ideia é criar, no longo prazo, um novo sistema diagnóstico dentro de um projeto capitaneado pela instituição, o RDoC (Critérios no Domínio da Pesquisa, sigla em inglês). É preciso pôr o manual da APA de lado por um pouco e começar o esforço do zero, diz o diretor. Do contrário não haveria modo de tornar a psiquiatria um ramo da medicina mais objetivo, mais baseado em biologia e mais científico.

“Não podemos ter sucesso se usarmos como ‘padrão ouro’ as categorias do DSM”, escreveu Insel no blog do instituto duas semanas atrás. Segundo ele, é preciso tentar ligar a neurobiologia com itens de diagnóstico mais simples, como um tipo específico de alucinação, e não com categorias de doenças impostas de cima para baixo, como a esquizofrenia. “O sistema de diagnóstico tem de ser construído sobre dados de pesquisas emergentes, não sobre as categorias atuais baseadas em sintomas.”

Seu texto ainda trazia uma mensagem que despertou preocupação na força-tarefa encarregada de atualizar o manual. “Muitos pesquisadores ligados ao NIMH, já estressados com cortes de orçamento e com a dura disputa por verbas de pesquisa, não acolherão essa mudança com bons olhos”, alertou. “Alguns considerarão o RDoC um exercício acadêmico divorciado da clínica prática. Mas essa mudança será bem recebida por pacientes e suas famílias…”

A declaração provocou reação por parte da APA, que reconhece ter sido incapaz de criar um sistema diagnóstico baseado em neurobiologia, promessa que vinha sido feita desde a década de 1970.

As alterações da quinta edição do DSM em relação à quarta não contemplam esse objetivo. Apesar de alguns transtornos terem sido excluídos e outros criados, a base do manual ainda está nos sintomas, e não na neurobiologia. Segundo a associação, porém, é preciso manter firme a prática clínica tradicional enquanto não há ciência suficiente para uma transição cuidadosa.

“Esforços como o RDoC são vitais para o progresso contínuo de nossa compreensão coletiva sobre transtornos mentais, mas eles não podem nos servir aqui e agora, e não podem suplantar o DSM-5”, escreveu David Kupfer, chefe da força-tarefa do DSM, num comunicado oficial. “O resultados do RDoC podem um dia culminar nas descobertas genéticas e neurocientíficas que vão revolucionar nossa área. Mas, até lá, devemos entregar a nossos pacientes uma outra nota promissória dizendo que algo vai acontecer alguma hora?”

Anteontem, a APA e o NIMH tentaram aplacar o clima de animosidade emitindo um comunicado conjunto.

“Todas as disciplinas médicas avançam por meio do progresso da pesquisa em caracterizar doenças e transtornos. O DSM-5 e o RDoC representam arcabouços complementares, e não concorrentes, para esse objetivo”, diz o documento.

As entidades também ressaltaram a importância de existir uma referência sólida de critérios para uso por planos de saúde e por governos. O Brasil usa a Classificação Internacional de Doenças, da OMS (Organização Mundial de Saúde), que é virtualmente igual ao DSM. Há um comitê de “harmonização” que trata de eliminar a incompatibilidade entre os dois sistemas.

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Médica americana explica seu apoio à nova ‘bíblia’ da psiquiatria

A nova versão do DSM (Manual de Estáticas de Diagnósticos) da Associação de Psiquiatria Americana, lançada no último sábado (18/5), conseguiu uma proeza: ser atacado tanto pela corrente de uma psiquiatria mais baseada na biologia quanto pelos defendem uma abordagem mais “humanizada” e psicológica das doenças mentais.

Normalmente, as duas correntes discordam quanto às formas de diagnosticar e tratar distúrbios psiquiátricos.

Os defensores da “ciência dura” criticam a classificação de doenças da quinta versão do manual por essa ser baseada nos sintomas (como era o DSM-IV), e não em marcadores biológicos, como substâncias que podem ser detectadas no sangue ou alterações anatômicas comprovadas por exames de imagem.

A crítica do outro lado, que envolve psicólogos e algumas linhas da psiquiatria, além de sociólogos, educadores e parte da opinião pública, é que o manual representa uma patologização excessiva dos comportamentos humanos.

Um exemplo disso seria a classificação de depressão para pessoas em luto recente.

Entre os novos distúrbios criados pelo manual, um dos mais controversos é a chamada “desregulagem perturbadora do humor”. Os critérios, usados para diagnosticar pessoas entre seis e 18 anos, são “acessos de raiva com intensidade ou duração muito desproporcional à situação”.

Outra nova doença é a compulsão alimentar, que já era reconhecida como sintoma de transtornos alimentares, mas agora é um distúrbio por si só, segundo o manual. Significa ter pelo menos 12 episódios de comilança em um período de três meses.

Para os críticos, esses critérios têm o potencial de transformar crises de birra infantil, gulodice ou tristeza humana justificada e necessária em casos médicos que podem ser resolvidos com medicamentos.

Em um artigo publicado na revista eletrônica “Slate”, a psiquiatra e psicóloga americana Marla Deibler relativiza essa crítica e parte em apoio ao DSM-V.

Seu argumento é que, ao criar novas categorias de distúrbios, o manual evita que as pessoas sejam diagnosticadas com alguma doença mais grave. Por exemplo, a criança tão birrenta que faz com que os pais procurem ajuda psiquiátrica tem mais chances de ter “apenas” uma desregulagem pertubadora do humor e não ser precocemente diagnosticada como bipolar.

Outra vantagem do novo manual, ainda segundo Deibler, é ajudar os médicos a tratarem pessoas que os procuram porque alguns sintomas têm impactos negativos na sua vida. A categoria “compulsão alimentar”, então, seria útil para diagnosticar aqueles que estão sendo prejudicados pelo hábito, e não para enxergar uma patologia em qualquer frequentador de rodízios de carne.

Para Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, os novos critérios não vão influenciar a prática em consultórios de psiquiatria no Brasil.

“O DSM-V não muda nada. Oficialmente, nem são os critérios seguidos aqui “, diz o psiquiatra.

O país usa a CID (Classificação Internacional de Doenças) da Organização Mundial da Saúde. A versão atual, CID 10, é muita parecida com o DSM anterior.

“A CID 11 está sendo preparada, deve sair em 2015. Mas não acredito que todos os critérios do novo manual da Associação Americana de Psiquiatria serão transpostos para essa versão”, diz Silva.

Esse distanciamento que o psiquiatra prevê entre os manuais classificadores é algo que já está acontecendo nas instituições americanas relacionadas à psiquiatria. Um pouco antes do lançamento do manual, o diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA declarou que não pretende usar os critérios do DSM-V na pesquisa básica em saúde mental.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria afirma que, por trás de toda essa polêmica, estão os interesses de diferentes grupos.

“Para a indústria dos exames, interessa defender a versão mais biológica, porque podem vender mais ressonâncias magnéticas, tomografias etc. Para a indústria farmacêutica, interessa vender remédios e para psicólogos, tratamentos não medicamentosos. E para a Associação Americana de Psiquiatria, interessa toda essa polêmica: vão vender mais exemplares do manual “, diz.

Fonte: Folha de São Paulo