Eu estava à procura de uma terceira teoria.

Uma que não fosse fantasiosa a ponto de negar evidências fósseis concretas ou que tentasse adaptar datações contraditórias a um mito de criação que deveria ser lido como poesia, nunca como prosa, e que portanto jamais deveria ser considerado meramente em seu sentido literal.

Uma que não fosse reducionista, que não resumisse a vida a uma mera luta por sobrevivência, as criaturas vivas à máquinas sem sentido, e o nosso inegável mundo interior, a nossa mente, a nossa Consciência a reles e medíocres epifenômenos do cérebro (a todos aqueles que se veem dessa forma, só tenho a lamentar).

Acredito que o físico teórico nuclear indiano, Amit Goswami, pode ter encontrado uma forma de unir evolução e design inteligente, tendo como fundamento para uma nova biologia, a física quântica, e não mais a física clássica. A ideia do autor é não só conciliar ciência e espiritualidade, mas preencher as imensas lacunas que continuam a assombrar ambas as TEORIAS – Darwinista e do Design Inteligente.

Goswami explica a evolução da vida pelo que chama “primado da Consciência”. Basicamente ele parte da premissa que a Consciência é a base da existência, não a matéria; e que, na verdade, tudo é, de fato, consciência. Desse modo ele evita o dualismo (mente x matéria) e cria um novo paradigma para uma nova biologia, assentado nos princípios da Física Quântica. Lembrando que toda vez que Goswami fala em “Deus”, ele não fala do “Deus” como entendendido e conceituado pelas religiões. O “Deus” da evolução criativa é um princípio organizador, não físico e não material;  jamais um fantasmão barbudo e legislador, que pode ser “encontrado” em algum endereço metafísico que essa ou aquela religião diz ser a única a conhecer…

Nem preciso dizer que o livro dele é considerado “pseudociência”, não é? Mas ao invés de se limitar por essas interpretações suspeitas e prematuras, nada como estudar as ideias que Goswami apresenta no livro por contra própria, certo? Então. A ideia desse post é trazer alguns dos argumentos apresentados pelo autor e, assim, despertar a curiosidade do leitor, de forma a abrir a mente para outras possibilidades. Por que, convenhamos, é um saco ter só duas opções… 😉

Pois. Para os que estão cansados da dicotomia Darwin x Deus, transcrevo abaixo alguns trechos introdutórios que considerei instigantes do livro “Evolução Criativa das Espécies“, que fica aqui como uma recomendação não só de leitura, mas de reflexão. Evidentemente que os trechos em questão servem apenas como aperitivo, todos os argumentos expostos abaixo são exaustiva e gradualmente explicados pelo autor no livro já mencionado.

Evolução Criativa das Espécies

Para conhecer melhor as ideias de Amit Goswami, recomendo também assistir a excelente entrevista que ele deu para o programa Roda Viva, que você pode ver clicando aqui.

Eventuais grifos são meus!

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“A teoria da evolução de Darwin é a base da biologia, mas todo biólogo moderno – em seus momentos de total honestidade – ouve estalidos dessa base ranger.

O darwinismo é uma teoria de evolução contínua. Mas, agora, é um segredo público o fato de que algumas lacunas fósseis – descontinuidades nas linhagens fósseis evolucionárias – representam uma séria ameaça à comprovação plena da teoria de Darwin. Sabe-se também que a teoria de Darwin e a existência de Deus são ideias mutuamente excludentes. No entanto, se, na melhor hipótese, a teoria de Darwin é uma teoria incompleta da evolução, capaz apenas de explicar suas eras contínuas, há espaço para que Deus faça seu retorno.

As teorias do desígnio inteligente procuram reviver Deus, seja de forma explícita, como no criacionismo, seja implícita, apontando a inteligência e deixando o indivíduo inferir a existência de um desenhista, mas terminam negando também a evolução. Que modo engenhoso de evitar as lacunas fósseis: sem evolução, não há lacunas fósseis para se explicar. Infelizmente, há muitas evidências críveis a favor da ancestralidade evolucionária do ser humano para que esse desvio funcione.”

(pág 15)

“Embora os teóricos do desígnio inteligente não percebam, existe uma forte evidência experimental do desígnio e propósito da vida: a evolução da vida vai da simplicidade para a complexidade. Analisando apenas os dados fósseis, qualquer pessoa inteligente pode distinguir entre momentos passados e futuros. Em outras palavras, o registro fóssil da evolução biológica proporciona uma inconfundível flecha do tempo. Os teóricos do desígnio inteligente não perceberam a importância deste fato por causa de sua noção preconcebida de que sequer existe evolução.

Os darwinistas, todavia, tentam compreender a tendência evolucionária na direção da complexidade e da inteligência. Mas suas tentativas baseiam-se no conceito do determinismo genético – segundo o qual a evolução é determinada e movida pela necessidade de sobrevivência dos genes (Dawkins, 1976). Esta ideia permite que os biólogos atribuam todo e qualquer indício seguro de inteligência da vida – sentimentos, significados e, com certeza, a própria consciência, apenas citando alguns – a epifenômenos adaptativos do impulso genético pela sobrevivência às mudanças ambientais. O conceito é muito fraco, por dois motivos. Primeiro, foram apresentados fortes argumentos teóricos, mostrando que as moléculas das quais os genes constituem parte não têm a capacidade de processar sentimento, significado ou consciência. Então, como essas qualidades podem se desenvolver por adaptação a partir do nada? Segundo, a maior parte dos biólogos acredita que a biologia esteja essencialmente ligada à física, mas recentemente a própria física, sob a pressão de fortes dados experimentais, abandonou o determinismo estrito e cedeu espaço para uma ocasional escolha consciente.

(…)

A simpatia que uma parcela do público americano sente pela teoria do desígnio inteligente não tem origem meramente religiosa. Ela pode ser localizada no desconforto sentido diante das atitudes implícitas no evolucionismo darwiniano ou, mesmo, no próprio materialismo científico. Como esses pontos de vista podem ser levados a sério se eles agridem a inteligência do ser humano, sua capacidade de processar sentimento e significado, e sua própria consciência, rotulando-os como uma dança sem sentido e epifenomenal de partículas elementares e de seus conglomerados, os genes? As pessoas também se sentem desconfortáveis porque o darwinismo não diz nada de significativo acerca do futuro da evolução humana. Será que a evolução leva a uma inteligência maior? O darwinismo é equívoco: a evolução pode levar a organismos mais ou menos complexos, a uma inteligência mais ou menos acentuada. Não se pode prever; o resultado fica por conta do acaso e da necessidade de sobrevivência.”

(pág. 17)

“Muita gente descarta de antemão a ideia do desígnio inteligente porque ‘todo mundo sabe’ que Darwin e seus seguidores mostraram que a evolução deixa de lado o desígnio inteligente e o desenhista. É certo que a tão elogiada teoria de Darwin tenta explicar a evolução sem evocar o conceito do desígnio inteligente. Contudo, também é verdade que, segundo a teoria de Darwin, a evolução é contínua e deveria produzir um registro fóssil contínuo de toda a evolução. Infelizmente, os registros fósseis mostram lacunas gritantes em muitos pontos importantes. Em outras palavras, a evolução não é apenas contínua, como também descontínua (Eldredge & Gould, 1972). A evolução foi comparada a uma prosa com pontuação: os sinais de pontuação são descontinuidades em um texto que, de outro modo, seria contínuo. O darwinismo não pode oferecer uma explicação plenamente crível para essa descontinuidade. Neste livro (Evolução Criativa das Espécies), leva-se a descontinuidade na evolução biológica muito  a sério e mostra-se que, como os conhecidos saltos descontínuos das próprias experiências criativas da espécie humana (Harman & Reingold, 1984), as lacunas fósseis são assinaturas da criatividade biológica. E a criatividade é um sinal definitivo de inteligência. Deste modo, mostra-se que a evolução prova o desígnio inteligente.”

“Todo biólogo deve estar dolorosamente ciente de que a biologia é uma ciência incompleta. Ela precisa de novos princípios organizadores, princípios não físicos e não materiais, para explicar três mistérios perenes: a diferença entre vida e não-vida (Davis, 1988), o desenvolvimento de um embrião até a forma biológica adulta (Sheldrake, 1981) e, como enfatizado aqui e por Eldredge & Gould (1971), os pontos descontínuos da evolução. Infelizmente, não é politicamente correto para um biólogo admitir essas deficiências em público.”

(pág 19)

“A principal evidência científica para a evolução biológica são os dados fósseis. Segundo o darwinismo, a história da evolução é contínua: a transição entre uma espécie anterior a uma posterior é incremental e contínua, e os dados fósseis deveriam refletir isso. Infelizmente, esta premissa não prosperou; sabe-se das famosas lacunas fósseis já mencionadas, lacunas que aparecem quando os dados fósseis são vistos como uma cronologia dos ancestrais evolucionários. O próprio Darwin conhecia esse problema, mas tinha confiança – justificadamente – em que investigações posteriores iriam apresentar os fósseis intermediários que ocupariam as lacunas. Com efeito, de vez em quando se ouve falar na descoberta de intermerdiários, mas, segundo a teoria de Darwin, milhares e milhares desses intermediários já deveriam ter sido descobertos até o momento. Tais descobertas não aconteceram. Assim, as lacunas fósseis suscitam dúvidas legítimas sobre a veracidade do darwinismo (e de sua encarnação posterior, o neodarwinismo) como a teoria completa da evolução.”

(pág. 21)

“Na ciência, os resultados experimentais constituem o juiz supremo; se os dados falseiam as previsões de uma teoria, deve-se abrir mão da teoria, ou, no mínimo, modificar adequadamente seu escopo. Assim, analisem-se os dados.

Os biólogos afirmaram que o criacionismo não suporta bem esse teste científico supremo. Esta afirmativa é correta. De acordo com a teoria do criacionismo, Deus criou o mundo há 6 mil anos, em apenas seis dias. Demonstrou-se, acima de qualquer dúvida, que esta afirmativa é falsa; há muitos dados geológicos e até físicos (datação radioativa) que mostram, de forma convincente, que a Terra tem aproximadamente 5 bilhões de anos.

Mas os criacionistas fizeram a afirmativa, igualmente válida, de que a teoria da evolução de Darwin é falsa por causa das lacunas fósseis. Uma das principais previsões teóricas de Darwin era que as lacunas acabariam sendo preenchidas à medida que se aprimorassem as investigações empíricas; muitos biólogos posteriores expressaram otimismo similar. O fato é que se aprimoraram as técnicas de investigação empírica, e, assim como se pode afirmar com precisão a idade da Terra, pode-se afirmar com precisão que as lacunas fósseis são bem reais: estão aí para ficar.

É claro que alguns elementos intermediários acabaram causando sensação. Por exemplo, nos relatos de intermediários feitos pelo biólogo J.G.M. Thewissen e seus colaboradores (1994), fez-se muito alarido em torno do fóssil intermediário de um animal que podia se mover tanto em terra como na água, uma baleia terrestre, por assim dizer. Mas quantos casos desse tipo existem hoje? Uma busca minuciosa pelos campos da internet mostra apenas cinquenta casos de intermediários em toda a linhagem de peixes, anfíbios e répteis de umas 42 mil espécies.

A descoberta de intermediários é importante porque desacredita o criacionismo em favor do evolucionismo; infelizmente, evolucionismo e darwinismo não são a mesma coisa. Repete-se: segundo as previsões teóricas do darwinisnmo e de suas versões posteriores, deveria haver milhares e milhares de casos registrados de intermediários, preenchendo a maioria das lacunas fósseis. Isso não aconteceu, e, portanto, a questão das lacunas fósseis não pode ser refutada simplesmente por uns poucos casos de descoberta de fósseis de transição.”

(pág. 25)

“Para alguns biólogos, o fato de os dados fósseis terem lacunas sugere claramente que há dois ritmos de evolução, um lento e outro rápido. A ideia é que, durante os períodos rápidos de evolução, não há tempo suficiente para a formação de fósseis, daí as lacunas fósseis. Na descrição bastante evocativa de Niles Eldredge e Stephen Jay Gould, a evolução é como uma prosa contínua, modulada por sinais de pontuação – vírgulas e pontos. O darwinismo é uma teoria da evolução no ritmo lento; só pode explicar a prosa contínua. Então, qual o mecanismo por detrás do ritmo rápido da evolução, dos sinais de pontuação? Cria-se um mistério. Em vez de lidar com o mistério, os biólogos tradicionais procuram febrilmente teorias para justificar as lacunas fósseis, sem terem de introduzir o inconveniente ritmo rápido. Sem ritmo rápido, sem novos mecanismos. O lento e confiável par darwinista do acaso e da necessidade terão de bastar.”

(pág. 29)

Só os cálculos de probabilidade já tiram do darwinismo a capacidade de explicar a evolução, seja micro, seja macro. (…) (Robert) Shapiro (biólogo) mostrou que o número máximo de eventos aleatórios disponíveis em 1 bilhão de anos de evolução é de 2,5 x 1051. O astrofísico Arne Wyller (2003), com base em premissas muito conservadoras, deduziu que, para criar o bilhão de espécies multicelulares que já existiram na Terra até hoje (segundo o biólogo de Harvard, Richard Lewontin), teriam sido necessários mais de 10¹°°°°°°°°°°°° eventos aleatórios. Este número, obviamente, é muito, muito maior do que o número máximo de eventos aleatórios disponíveis, segundo os cálculos de Shapiro.”

(pág. 30)

“Na física quântica, os objetos são representados como possibilidades (uma onda de possibilidade); entretanto, quando um observador observa, as possibilidades entram em colapso e se tornam realidade (por exemplo, a onda se torna uma partícula após o colapso). Esse é o efeito do observador. Mais importante ainda, o colapso quântico de possibilidades em uma realidade é descontínuo, e, assim, a descontinuidade dos sinais de pontuação da evolução se acomoda instantaneamente, caso sejam vistos como exemplos de criatividade quântica – o colapso descontínuo da possibilidade quântica em uma realidade. Esta premissa forma o núcleo da teoria da evolução criativa.

E, principalmente, a causação descendente introduzida pelo colapso quântico é consistente com uma filosofia, o idealismo monista, que evita o dualismo e transcende o materialismo. Sob a égide desta filosofia, a consciência se firma como a base da existência, na qual a matéria existe como ondas de possibilidades. A causação descendente do evento do colapso consiste na consciência que escolhe a realidade em meios às possibilidades.

(pág. 32)

Suponha-se que se postule que a consciência é a base de toda existência e que tudo é feito de consciência. Então, a matéria consiste de possibilidades da própria consciência. O colapso de uma onda de possibilidade quântica de matéria para a realidade material que o ser humano experimenta, consiste na consciência que escolhe entre suas próprias possibilidades, e o dualismo não emerge.”

(pág. 43)

“Em sua natureza básica, a consciência é cósmica, a primeira e única. O ego é uma individualidade ilusória, separada, que surge por causa da identificação da consciência com o cérebro e seu subsequente condicionamento.”

(pág. 46)

“A teoria darwiniana da evolução baseia-se na seleção natural e a natureza seleciona os organismos mais aptos a sobreviver. Na visão materialista um organismo é apenas um feixe de moléculas que são completamente especificadas por suas propriedades físicas e químicas. Em nenhum ponto dessas propriedades o indivíduo irá encontrar uma propriedade chamada capacidade de sobrevivência. Nenhuma parcela de matéria inanimada tentou sobreviver ou, de algum modo, tentou manter sua integridade sob quaisquer circunstâncias. Mas os corpos vivos exibem uma propriedade chamada capacidade de sobrevivência.

Agora, o paradoxo. Um darwinista diria que a capacidade de sobrevivência da forma viva advém da adaptação evolucionária mediante a seleção natural. Mas a seleção natural em si depende da sobrevivência do mais apto. É possível perceber a circularidade do argumento? A sobrevivência depende da evolução, mas a evolução depende da sobrevivência.”

(pág. 58)

“A evolução começa com uma célula viva, a primeira que provoca todo o processo. A vida não poderia ter se originado duas vezes, em relação a isso, todos os biólogos concordam. A célula não-nucleada torna-se nucleada, depois multicelular, ramificando-se pelos três reinos – fungos, plantas e animais. Cada uma dessas transformações é um gigantesco salto quântico de criatividade. No reino animal, a transformação criativa produz primeiro os invertebrados, depois os vertebrados, começando pelos peixes. Dos peixes vêm os anfíbios, depois os répteis. Estes dão um salto quântico até os ramos das aves e dos mamíferos.

Vê-se, de certo modo, uma única vida evoluindo em muitos ramos, transformando-se por meio de muitos saltos quânticos e, ao mesmo tempo, mantendo-se nos vários estados diferentes de homeostase testemunhados na biosfera da Terra, sua biota. Chama-se essa consciência quântica, identificada com essa vida única em evoluçã na Terra, de consciência Gaia.”

(pág. 182)