A cidade de Machu Picchu, no Peru, era um local de peregrinação para os incas e uma versão em escala reduzida de uma paisagem mítica, de acordo com um novo e controvertido estudo. O trabalho apresenta conclusões que desafiam a percepção convencional de que a cidade de Machu Picchu representava parte do patrimônio pessoal do soberano inca Pachacuti, que a fez construir por volta de 1460.

“Acredito que boa parte do espaço sagrado dos incas ainda não tenha sido reconhecido como tal”, afirmou o responsável pelo novo estudo, Giulio Magli, astrofísico do Instituto Politécnico de Milão, na Itália.

Machu Picchu foi construída no topo de uma cadeia montanhosa a uma altitude de 2.700 metros

Machu Picchu foi construída no topo de uma cadeia montanhosa a uma altitude de 2.700 metros

Origem misteriosa

Construída no topo de uma cadeia montanhosa a uma altitude de 2.700 metros com relação ao nível do mar, depois da conquista dos territórios incas pela Espanha Machu Picchu passou décadas perdida para a história. O local conquistou notoriedade depois de uma visita em 1911 pelo explorador histórico norte-americano Hiram Bingham, que conduziu no Peru trabalhos arqueológicos financiados em parte pela National Geographic Society. (A National Geographic Society dos Estados Unidos é a proprietária da revista National Geographic.)

Hoje um destino popular para turistas de todo o mundo, o propósito original de Machu Picchu se tornou fonte de muita especulação e debate. De acordo com Magli, Machu Picchu aparentemente foi concebida e construída especificamente como um local de peregrinação, no qual os fieis poderiam reencenar de maneira simbólica uma importante jornada supostamente empreendida pelos seus ancestrais.

Uma difícil jornada reproduzida em pedra?

Na mitologia dos incas, o primeiro Inca foi criado na Ilha do Sul, localizada no Lago Titicaca, na Bolívia. De lá, o povo inca empreendeu uma jornada assustadora realizada nas profundezas da terra, e só emergiu dos subterrâneos em um lugar chamado Tampu-tocco, próximo ao local em que viria a ser construída a futura capital dos incas, Cusco. Os primeiros incas em seguida teriam viajado ao topo de uma colina vizinha, chamada Huanacauri, onde um deles foi transformado em pedra, em um local que viria a se tornar um importante santuário.

Magli argumenta que certas estruturas existentes em Machu Picchu simbolizam marcos importantes nessa jornada mitológica. Por exemplo, uma pilha desordenada de pedras representa um “vazio” subterrâneo que os primeiros incas tiveram de atravessar.

“Pacha-Mama, ou a Mãe Terra, está associada à ideia de desordem”, disse Magli.

De maneira semelhante, uma das praças de Machu Picchu representa Tampu-tocco, e uma pirâmide de pedra construída no local serve para representar a colina de Huanacari, acrescentou o estudioso italiano.

Orientação divina?

Os visitantes que chegam a Machu Picchu o fazem por intermédio de um portão construído na ponta sudeste do complexo. A disposição das edificações os induz a seguir em direção ao noroeste. Magli afirma que essa ordem de movimentação não é fruto do acaso. Em seu estudo, publicado pelo site arXiv.org, ele argumenta que o eixo sudeste-noroeste que serve de orientação à estrutura de Machu Picchu tem por objetivo reproduzir o percurso do sol pelo firmamento, na região habitada pelos incas, de acordo com a trajetória média anual percorrida pelo astro.

O eixo sudeste-noroeste também representa a direção percorrida pelos incas em sua primeira e mítica jornada – uma vez mais, provavelmente influenciada pela movimentação do sol, que era cultuado como divindade entre os incas.

Como local sagrado, Machu Picchu provavelmente estaria aberta tanto aos cidadãos comuns quanto à nobreza inca, mais ou menos como acontecia em outro local conhecido de peregrinação dos incas, a Ilha do Sol, afirma Magli.

“Até onde se pode saber, a peregrinação à Ilha do Sol estava aberta a todos, ainda que nem todos os visitantes fossem admitidos ao mais secreto dos santuários”, disse o estudioso. “É possível que coisa semelhante acontecesse também em Machu Picchu”.

O arqueólogo Richard Burger, da Universidade Yale, não está convencido quanto à tese. Magli “consegue provar o argumento de que os movimentos celestiais eram importantes para determinar o posicionamento de determinadas edificações”, afirma o arqueólogo, que não participou do estudo.

Ainda assim, “os argumentos apresentados por Magli não são incompatíveis com a interpretação de Machu Picchu como um retiro tropical para a corte real, da mesma maneira que a presença de arte e arquitetura de origem religiosa em Versalhes não pode ser definida como incompatível com as funções do complexo como palácio real”.

Outras fotos:

Fonte: National Geographic/Terra