Há alguns anos atrás, enquanto assistia a um documentário do canal National Geographic, – a respeito da tribo  Korowai, uma tribo canibal da Papua Nova Guiné que constrói suas casas em árvores, e que, até os anos 1970, sequer sabia da existência de outras civilizações além de sua própria – vi pela primeira vez um vídeo (que infelizmente não encontrei na internet) feito por dois antropólogos que haviam recém-descoberto uma outra tribo melanésia, acredito que nos anos 1920 (a data pode estar incorreta, estou puxando de memória – se alguém souber, me avise!). O vídeo em questão mostrava os membros da tribo venerando uma réplica feita em madeira de um avião… Segundo os antropólogos, os nativos tinham avistado essa “máquina voadora” pela primeira vez ( um avião de guerra), e acharam que fosse de algum deus. Assim, construíram a escultura daquilo que acreditavam ser algo divino, e criaram cultos e rituais relacionados a essa nova divindade. Foi, no mínimo, chocante. Mas desde então o assunto passou a me perseguir. As implicações filosóficas do fato são muito interessantes. Entretanto, esse post não pretende ser uma pesquisa “profunda” sobre o assunto. A ideia aqui é estimular a curiosidade e provocar reflexão.

Mas, antes de ir para o que interessa (rs), deixe-me enrolá-los um pouco com alguns dados (as informações foram retiradas e adaptadas da Wikipedia):

– A Melanésia é uma região da Oceania, que compreende os territórios das ilhas Molucas, Nova Guiné, ilhas Salomão, Vanuatu, Nova Caledônia e Fiji.

Melanesia

– Acredita-se que os melanésios tenham uma origem em comum com os aborígenes australianos.

– “Melanésia” vem do grego, e significa “ilha dos negros” – o nome foi dado por causa da cor de pele predominante dos habitantes das ilhas.

– O avião, que foi inventado no início do séc. XX, teve durante a Primeira Guerra Mundial sua primeira fase de testes em grande escala, em que se demonstrou ser uma poderosa máquina de guerra. Após a Primeira Guerra, o avião passou por inúmeros avanços tecnológicos.

Em 1919, a primeira travessia transatlântica utilizando uma aeronave foi realizada pelos britânicos John Alcock e Arthur Whitten Brown.

A primeira travessia aérea do Atlântico Sul foi realizada em 1922, pelos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Na década de 1940 aviões a jato militares já estavam em operação.

– Os aviões tiveram papel fundamental durante a Segunda Guerra Mundial, tendo presença em todas as batalhas mais importantes e conhecidas da guerra.

Pois. Agora que já temos algumas informações a respeito da região e alguns dados sobre a história da aviação, podemos passar para o tema desse post:

O Culto à Carga

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Segundo o antropólogo Kirk Huffman, “um culto à carga surge quando o mundo exterior, com todos os seus bens materiais, repentinamente desce sobre tribos indígenas remotas“.

Em outras palavras, o culto à carga diz respeito aos efeitos que, principalmente, a Segunda Guerra teve sobre os nativos de algumas ilhas do Pacífico. Basicamente, aviões europeus, americanos e/ou japoneses eram avistados pelas pessoas dessa região que, por nunca terem visto nada parecido, passavam a acreditar que eram “deuses” ou algo de “deus”. Sendo assim, criavam esculturas de aeronaves, rituais e adaptavam sua mitologia aos novos “deuses”.

Entretanto, acredita-se que os cultos à carga tenham iniciado na ilha Fiji por volta dos anos 1880, nessa época relacionado a navios estrangeiros, mas que o padrão permaneceu praticamente o mesmo. Se diz “culto à carga” porque quando os navios (e posteriormente aviões) chegavam nas ilhas, os tripulantes costumavam distribuir entre os nativos “presentes”, que nada mais eram que objetos que carregavam na embarcação (a carga propriamente dita). Os habitantes das ilhas, por desconhecerem os bens materiais que ganhavam, achavam que os estrangeiros eram “grandes homens”, seus ancestrais, que haviam retornado com “as riquezas profetizadas”.

Uma das histórias de culto à carga mais famosas é da ilha Tanna.

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A história é famosa, porque é o culto à carga mais persistente. A maioria desses cultos desapareceu nos últimos sessenta anos.

Basicamente, o que temos na ilha Tanna é o culto de “John Frum”.  John Frum (corruptela de “John from”, ou “John de”, que deve ter sido uma tentativa de comunicação por parte de um indivíduo, tentando se apresentar e dizer de onde vinha…) foi algum homem branco, americano, que apareceu pela ilha nos anos 1930, trazendo objetos, ferramentas, doces e outros “presentes civilizados”, e que, por causa disso, acabou se tornando um “messias” para a tribo. Em Tanna, o dia em que se comemora o feriado de John Frum é 15 de fevereiro.

Nessa ilha os habitantes hasteiam bandeiras americanas, utilizam o simbolismo cristão da cruz (John Frum seria um equivalente a Jesus para eles), possuem réplicas de aviões, aeroportos, rádios etc. Segundo os sacerdotes da tribo, John Frum um dia retornará com ainda mais riquezas para serem distribuídas ao povo. Eles acreditam que ele viva no vulcão sagrado da ilha, Yasur.

Nas palavras de um dos anciãos da tribo: “John prometeu que traria cargas de avião e de navio  da América para nós, se nós rezássemos para ele… Rádios, TVs, caminhões, barcos, relógios, geladeira, remédios, Coca-Cola e muitas outras coisas maravilhosas.”

 

Os membros da ilha de Tanna dançam em honra de John Frum todo 15 de Fevereiro. Os líderes do clã viram o Messias Yankee pela primeira vez no final dos anos 1930. A sua última aparição foi durante a Segunda Guerra Mundial, vestido de branco como um marinho não-identificado da marinha.

Os membros da ilha de Tanna dançam em honra de John Frum todo 15 de Fevereiro. Os líderes do clã viram o Messias Yankee pela primeira vez no final dos anos 1930. A sua última aparição foi durante a Segunda Guerra Mundial, vestido de branco como um marinheiro não-identificado da Marinha.

Na internet é possível encontrar alguns vídeos mostrando um pouco do culto à carga da ilha de Tanna, como os abaixo (estão em inglês, mas as imagens valem por mil palavras…):

É interessante notar que muitos utilizam o exemplo do culto à carga como argumento de que foi dessa maneira que surgiram as religiões. Isso realmente é bem provável, porém não torna tudo menos fantástico. Se analisarmos que muitas religiões e mitologias antigas falavam de “carruagens de fogo” vindas do céu, citavam deuses estranhos – também vindos do céu – que vez ou outra apareciam com ensinamentos ou regras, das estranhas semelhanças nas mitologias e construções antigas de povos que supostamente nunca se encontraram, realmente dá o que pensar. Por que se é desse jeito que civilizações “primitivas” reagem àquilo que não conseguem entender ou explicar, então a nossa História “oficial” é mesmo muito mal contada.

 

Modelos de aeronaves pré-colombianos. Estariam nossos antigos criando réplicas de antigos "deuses" que viam nos céus?

Modelos de aeronaves Pré-Colombianos. Estariam esses povos criando réplicas de antigos "deuses" que viam nos céus? Seguindo a lógica fornecida pelo "culto à carga", é mais do que possível...

 

Devemos levar em conta que a tendência natural dos seres humanos mais “primitivos” é a de tornar mágico tudo aquilo que não compreendem. Portanto, quando viam um avião, por exemplo, obviamente não tinham como explicar sua existência de outra maneira que não fosse algo oriundo da esfera “espiritual” ou criado por deuses. Da mesma forma quando viam europeus, americanos e japoneses. Para eles só podiam ser deuses vindo de alguma outra terra distante.

Cruz de John Frum - Tanna, 1967

Cruz de John Frum - Tanna, 1967

Mas, voltando ao culto à carga, em específico o de John Frum, os pobres habitantes da ilha continuam a esperar pelo seu Messias. É por isso que constróem réplicas de aeronaves e aeroportos. Entretanto, o mais interessante nessa história toda é que os nativos são céticos com relação às explicações que os próprios americanos dão a toda essa confusão. Mesmo dizendo que os aviões são meios de transporte construídos por nós, que nada possuem de “divino”, os fiéis não acreditam. Muitos pensam que os americanos e outros que tentam esclarecê-los são demônios ou espíritos ruins, tentando afastá-los de sua fé.

Algumas imagens das festividades do feriado de John Frum:

Banda "Cargo"

Banda "da Carga"

Um fiel da "carga"

Um fiel da "carga"

Menino com a bandeira americana

Menino com a bandeira americana

Marchando pela carga

Marchando pela carga

Segundo o Chefe Isaac, um dos principais “sacerdotes” do culto de John Frum, John é um “espírito que sabe tudo”. Ele sai do vulcão Yasur de vez em quando e aconselha o Chefe Isaac. Ainda segundo o Chefe, John Frum é mais poderoso do que Jesus Cristo… Qualquer semelhança com o que os fiéis e religiosos atuais (e antigos) dizem de seus respectivos “messias” não é mera coincidência!

Chefe Isaac

Chefe Isaac, de azul

A maioria dos antropólogos acredita que a história de John Frum esteja relacionada a um homem branco (provavelmente fictício, já que ter um aliado branco para eles é grande coisa) que apareceu aos nativos interessado em convencê-los a se rebelar contra a colonização e a cristianização, que começava a acontecer na ilha. Muitos dos anciãos da ilha dizem que John era um homem branco mas falava a língua deles, e que não havia dito, na época de sua primeira aparição, que era americano.  Eles dizem ainda que John disse aos nativos que tinha vindo resgatá-los dos missionários e dos oficiais coloniais, e que não deviam dar ouvidos a  nada do que os homens brancos diziam. Deveriam voltar aos modos antigos.

O Chefe Isaac chegou a visitar os EUA (que, podemos dizer, equivaleria ao “paraíso” para eles), em 1995. Mas, quando perguntado sobre o que achou, desconversa e aponta os problemas que viu (pobreza, violência, infelicidade) – diz que não via a hora de retornar para casa.

Independente de qual for a verdade, no que diz respeito à existência ou não de John Frum, ele realmente provocou impacto na ilha.

Uniformes e medalhas são usados para encorajar John Frum a retornar

Uniformes e medalhas são usados para encorajar John Frum a retornar

Os fiéis se preparam para o dia de John Frum

Os fiéis se preparam para o dia de John Frum

Uma réplica de avião

Uma réplica de avião

À espera de John Frum

À espera de John Frum

Em Tanna inclusive existem duas ramificações para o culto de John Frum. Uma é liderada pelo já supracitado Chefe Isaac, e a outra pelo “Profeta Fred”. Os dois, que até 1999 eram aliados, se tornaram inimigos. Isso aconteceu porque “Deus” apareceu ao Profeta Fred e disse a ele para ir para casa e ensinar o “novo caminho” da fé em Frum.  O movimento criado por Fred é chamado de “Unidade”, e mistura os modos antigos dos nativos (kastom), cristianismo e John Frum.

Os dois movimentos já inclusive “guerrearam” entre si.

Em 1943, militares norte-americanos, preocupados com o crescimento do culto, chegaram a ir até Tanna para tentar convencer os nativos de que as forças americanas nada tinham a ver com “John Frum”. Em vão. O culto não só continuou, como se fortaleceu, quando as tropas que foram até lá retiraram toneladas  de carga que havia caído no mar, no local que os nativos consideravam o “Ponto de Um Milhão de Dólares” (um lugar lendário em que o suprimento de carga era interminável).

Recentemente, quando perguntaram ao Chefe Isaac por que eles ainda esperavam por John Frum, que havia prometido trazer muita carga ao povo mas não aparecia há mais de 60 anos, ele respondeu espantado:

“Vocês cristãos têm esperado 2.000 anos pelo retorno de Jesus à terra, e não perderam a esperança!”

É… pois é.

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Fontes:

In John They Trust

Cargo Cult – Wikipedia

Cargo Cult lives in South Pacific