E a “polêmica” chega ao Brasil…

O paper do Dr. Bem está dando o que falar nos EUA. Com  61 páginas, o trabalho entitulado: “Feeling the Future: Experimental Evidence for Anomalous Retroactive Influences on Cognition and Affect” (ou em tradução livre minha: “Sentindo o Futuro: Evidência Experimental para Influências Retroactivas Anômalas na Cognição e Afeto”) conclui, a partir de uma série de nove estudos envolvendo mais de 1.000 pessoas que os eventos no futuro podem influenciar os eventos do passado (fenômeno  chamado de “retrocausação”).

Mas não pretendo defender nem criticar a pesquisa do Dr. Bem, até porque, acho que tem gente muito mais preparada para tal já fazendo isso. O que quero promover nesse post é novamente uma reflexão sobre o problema dos paradigmas, da ilusão pegajosa de “conhecimento real” que nos fazem acreditar que temos a respeito de qualquer coisa,  e de como as nossas crenças se interpõem ao saber, e consequentemente afetam a nossa realidade…

No mesmo momento que tive acesso ao paper do supracitado doutor, tive acesso também a um excelente artigo publicado no The New Yorker e produzido por um escritor norte-americano que escreve sobre psicologia, neurociência e temas científicos. O nome dele é Jonah Lehrer, e o artigo tem como título: “A verdade desaparece: Há algo de errado com o método científico?” Nem preciso dizer que o artigo de Jonah cai como uma luva nessa “polêmica” do Dr. Bem, assim como em qualquer outra “descoberta” científica ou “prova” científica, independente de ser de parapsicologia ou não. Basicamente, Jonah nos conta a respeito de alguns problemas constragedores de replicabilidade (o teste da replicabilidade é a base da pesquisa moderna: sabendo que os cientistas estão sujeitos a se deixarem levar pelos resultados que desejam ou que esperam, e desse modo, influenciarem os resultados que obtêm, o teste de replicabilidade tem como objetivo corrigir esse problema. Assim, cientistas diferentes, de laboratórios diferentes, replicam o experimento e publicam seus resultados. Se a maioria conclui a mesma coisa, ótimo, temos uma “prova”, se não, a pesquisa deve ser revisada ou quem sabe até descartada). Então. O tal problema da replicabilidade é conhecido como “efeito declínio”: é quando acontece uma queda progressiva nos resultados positivos de um experimento que inicialmente tinha sido um “sucesso”. Ou como nos diz Jonah (traduzido por mim):

“Mas agora todos os tipos de descobertas bem-estabelecidas e multiplamente confirmadas começaram a parecer cada vez mais incertas. É como se os nossos fatos estivessem perdendo sua veracidade: alegações que foram consagradas em livros didáticos subitamente são improváveis. Esse fenômeno ainda não tem um nome oficial, mas está ocorrendo em uma ampla gama de campos, da psicologia à ecologia. No campo da Medicina, o fenômeno parece estar extremamente espalhado, afetando não apenas os antipsicóticos mas também terapias que variam de stents cardíacos à Vitamina E e antidepressivos: Davis (John Davis – professor de psiquiatria da Universidade de Illinois, Chicago) possui uma análise a ser publicada demonstrando que a eficácia dos antidepressivos diminiu tanto quanto três vezes em décadas recentes.”

O artigo segue nos contando “causos” de cientistas que obtiveram resultados (iniciais) excelentes em suas pesquisas, que ficaram famosos em suas áreas, e que depois nem eles mesmos conseguiam replicar o próprio sucesso inicial! Mesmo não conseguindo encontrar erros em suas pesquisas, mesmo fazendo tudo exatamente como deveria ser feito… A pergunta não havia mudado, mas supreendentemente a natureza parecia estar fornecendo respostas diferentes… Como explicar isso?

Bem, para não estender demais esse comentário, quero fechá-lo com a tradução dos últimos parágrafos do artigo de Jonah. Quem souber inglês, é um artigo altamente recomendável, porém é um pouco extenso para publicá-lo aqui na íntegra (5 páginas). Quem não souber, não há porque se preocupar: com a parte publicada aqui já dá para ter uma noção do “drama”. Vamos lá (tradução minha):

No final dos anos noventa, John Crabbe, um neurocientista da Oregon Health and Science University, conduziu um experimento que mostrou que eventos desconhecidos do acaso podem enviesar testes de replicabilidade. Ele realizou uma série de experimentos sobre comportamento dos ratos em três laboratórios científicos diferentes: em Albany, New York; Edmonton, Alberta; e Portland, Oregon. Antes de conduzir esses experimentos, ele tentou padronizar todas as variáveis que podia imaginar. As mesmas cepas de camundongos foram usadas em cada laboratório, enviadas no mesmo dia pelo mesmo fornecedor. Os animais foram criados no mesmo tipo de clausura, com o mesmo tipo de cama de serragem. Eles foram expostos ao mesmo tipo de luz incandescente, estavam vivendo com o mesmo número de companheiros de ninhada, e estavam sendo alimentados com o exato mesmo tipo de ração. Quando os ratos eram manuseados, era com o mesmo tipo de luva cirúrgica, e quando eram testados era com o mesmo equipamento, na mesma hora da manhã.

A premissa desse teste de replicabilidade, é claro, é que cada um dos laboratórios deveria gerar o mesmo padrão de resultados. “Se qualquer série de experimentos deve passar no teste, essa deve ser a nossa,” disse Crabbe. “Mas não foi isso que aconteceu.”  Em um experimento, Crabbe injetou uma determinada cepa de ratos com cocaína. Em Portland, os ratos que receberam a droga se moveram, em média, 600 centímetros a mais do que normalmente faziam; em Albany eles se moveram setecentos e um centímetro adicional. Mas em Edmonton eles se moveram mais de cinco mil centímetros adicionais. Desvios semelhantes foram observados em um teste de ansiedade. Além disso, essas inconsistências não seguiram nenhum padrão detectável. Em Portland, uma cepa de rato se mostrou mais ansiosa, enquanto que em Albany outra cepa ganhou essa distinção.

A implicação perturbadora do estudo de Crabbe é que um monte de dados científicos extraordinários não são nada mais do que barulho. A hiperatividade dos ratos drogados de Edmonton não foi um fato novo interessante, foi um caso isolado sem sentido, um subproduto de variáveis invisíveis que não compreendemos. O problema, é claro, é que tais resultados dramáticos são mais prováveis de serem publicados em periódicos de prestígio, já que os dados são estatisticamente significativos e inteiramente inesperados. Subsídios são oferecidos, estudos de seguimento são realizados. O resultado final é um acidente científico que pode levar anos para se desvendar.

Isto sugere que o efeito declínio é na verdade um declínio de uma ilusão. Enquanto Karl Popper imaginou a falsificação ocorrendo com um único e definitivo experimento – Galileu refutou a mecânica aristotélica em uma tarde – o processo se mostra bem mais confuso do que isso. Muitas teorias científicas continuam sendo consideradas verdade mesmo após falharem em numerosos testes experimentais. O “Ofuscamento verbal” (uma “descoberta” de Jonathan Schooler sobre a memória) pode exibir o efeito declínio, mas permanece amplamente invocado dentro do campo. O mesmo vale para qualquer número de fenômenos, desde o desaparecimento dos benefícios dos antipsicóticos de segunda geração até a fraca taxa de acoplamento exibido por nêutrons em decomposição, que parece ter caído em mais de dez desvios padrão entre 1969 e 2001. Mesmo a lei da gravidade não tem sido sempre perfeita para predizer fenômenos do mundo real. (Em um teste, físicos medindo a gravidade por meio de perfurações profundas no deserto de Nevada encontraram uma discrepância de dois e meio por cento entre as previsões teóricas e os dados reais.) Apesar desses resultados, os antipsicóticos de segunda geração são ainda amplamente prescritos, e o nosso modelo do nêutron não mudou. A lei da gravidade permanece a mesma.

Tais anomalias demonstram o quão traiçoeiro é o empirismo. Apesar de muitas ideias científicas gerarem resultados conflitantes e sofrerem de quedas de efeitos, elas continuam a ser citadas em livros didáticos e dirigirem a prática médica padrão. Por que? Porque essas ideias parecem verdadeiras. Porque elas fazem sentido. Porque nós não suportamos descartá-las. E é por isso que o efeito declínio é tão problemático. Não porque ele revela a falibilidade humana da ciência, em que os dados são alterados e crenças moldam percepções. (Essas deficiências não são surpreendentes, pelo menos para os cientistas.) E não porque revela que muitas das nossas teorias mais interessantes são modas passageiras que em breve serão rejeitadas. (Essa ideia tem estado por aí desde Thomas Kuhn.) O efeito declínio é problemático porque nos lembra o quão difícil é provar qualquer coisa. Nós gostamos de fingir que nossos experimentos definem a verdade para nós. Mas isso, frequentemente, não é o caso. Só porque uma ideia é verdade não quer dizer que ela possa ser provada. E só porque uma ideia pode ser provada não quer dizer que seja verdadeira. Quando os experimentos são feitos, nós ainda temos que escolher no que acreditar.

 

Pois é… e é isso!

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Artigo sobre percepção extrassensorial promete causar polêmica

Professor da Universidade de Cornell publicará este ano um paper que diz comprovar a existência de vidência e previsão de futuro

Daryl Bem, da Universidade Cornell, vai publicar artigo científico sobre percepção extrassensorial e capacidade de prever eventos futuros

Daryl Bem, da Universidade Cornell, vai publicar artigo científico sobre percepção extrassensorial e capacidade de prever eventos futuros

Uma das mais respeitadas revistas científicas de psicologia aceitou publicar um artigo apresentando o que seu autor descreve como uma das mais fortes provas da existência de percepção extrassensorial (ESP, na sigla em inglês), a habilidade em conhecer o futuro.

A decisão pode agradar os que acreditam nos chamados eventos paranormais, mas já divide a comunidade científica. Cópias antecipadas do trabalho, a ser publicado este ano no The Journal of Personality and Social Psychology, têm circulado amplamente entre acadêmicos nas últimas semanas, gerando um misto de divertimento e desprezo.

O artigo descreve nove experimentos de laboratório pouco comuns realizados na última década por seu autor, Daryl J. Bem, professor emérito da Universidade de Cornell, testando a capacidade de estudantes universitários perceberem com exatidão eventos ao acaso, como se um programa de computador irá fotografar do lado esquerdo ou direito da tela. Os estudos incluíram mais de mil pessoas.

Alguns cientistas dizem que o estudo merece ser publicado, em nome da investigação aberta; outros insistem que a sua aceitação só reforça falhas fundamentais na avaliação e revisão das pesquisas em ciências sociais.

“É loucura, loucura pura. Não posso acreditar que um periódico importante esteja aceitando este trabalho”, disse Ray Hyman, professor emérito de psicologia da Universidade de Oregon e crítico de longa data da pesquisa ESP. “Eu acho que é simplesmente um constrangimento para o campo inteiro da psicologia.”

O editor da revista, Charles Judd, psicólogo da Universidade do Colorado, disse que o artigo passou pelo processo regular de revisão da revista. “Quatro revisores fizeram comentários sobre o manuscrito”, disse ele, “e eles são pessoas muito confiáveis.”

Todos os quatro decidiram que o artigo cumpriu as normas editoriais da revista, acrescentou Dr. Judd, embora “não havia nenhum mecanismo pelo qual pudéssemos entender os resultados.”

Mas muitos especialistas dizem que é exatamente esse o problema. Afirmações que desafiam quase todas as leis da ciência são extraordinárias por definição e, portanto, exigem provas extraordinárias. Não levar isso em conta – como fazem as análises convencionais das ciências sociais – torna inúmeras descobertas parecerem muito mais significativas do que elas realmente são, afirmam especialistas.

“Várias revistas importantes publicam resultados apenas quando estes parecem apoiar uma hipótese ou inesperada ou que chama a atenção”, escreveu por e-mail Eric-Jan Wagenmakers, psicólogo da Universidade de Amsterdam. “Mas essa hipótese provavelmente constitui uma afirmação extraordinária, e deve passar por mais escrutínio antes que seja permitida a entrada em campo.”

Dr. Wagenmakers é co-autor de uma réplica ao trabalho, prevista para aparecer na mesma edição da revista.

Em entrevista, Daryl Bem, autor do artigo original e um dos pesquisadores em psicologia mais proeminentes de sua geração, disse que planejou cada experimento para simular um clássico estudo bem conhecido, “só que invertidos”.

Em um experimento clássico de memória, por exemplo, os participantes estudaram 48 palavras e, em seguida, dividiram um subconjunto de 24 delas em categorias, como alimento ou animal. O ato de categorizar reforça a memória, e em testes posteriores as pessoas têm uma chance maior de lembrar as palavras que eles praticaram do que as quais eles não praticaram.

Em sua versão, o doutor Bem aplicou um teste de memória para cem estudantes universitários antes que eles fizessem a categorização – e descobriu que eles eram significativamente mais propensos a lembrar as palavras que praticavam depois. “Os resultados mostram que a prática de um conjunto de palavras após o teste de memória, de fato, volta no tempo para facilitar a lembrança daquelas palavras”, conclui o artigo.

Em outro experimento, Bem pediu que indivíduos escolhessem qual das duas cortinas na tela do computador escondia uma fotografia; a outra cortina escondia apenas uma tela em branco.

Um programa de computador postava ao acaso uma imagem por trás de uma cortina ou de outra – mas somente depois que o participante tinha feito sua escolha. Mesmo assim, os participantes derrotaram o acaso, por 53 a 50 por cento, pelo menos quando as fotos postadas eram eróticas. Eles não foram melhor do que o acaso em fotos negativas ou neutras.

“O que mostrei foi que os indivíduos não selecionados podiam sentir as fotos eróticas,” disse Bem, “mas o meu palpite é que se você usar mais pessoas talentosas, que são boas nisso, elas podiam encontrar qualquer uma das fotos.”

Nas últimas semanas blogueiros de ciência, pesquisadores e variados céticos têm contestado de maneira contundente os métodos e estatísticas utilizados por Bem, levantando questões importantes no tratamento dos números. (Outros questionam suas intenções. “Ele tem um ótimo senso de humor”, disse Hyman, de Oregon. “Eu não descartaria que esta é uma brincadeira elaborada.”)

O autor do trabalho em geral respondeu na mesma moeda, algumas vezes acusando os críticos de ou não entender seu trabalho, ou de construir um forte viés em suas próprias re-avaliações dos dados.

Em certo sentido, é um padrão historicamente familiar. Por mais de um século, os pesquisadores realizaram centenas de testes para detectar ESP, telecinesia e outros fenômenos semelhantes, e quando tais estudos vieram à tona, os céticos têm sido rápidos em cobri-los de descrédito.

Mas por outro lado, Bem está longe de ser típico. Ele é amplamente respeitado por seu pensamento claro e original em psicologia social, e algumas pessoas familiarizadas com o caso dizem que sua reputação pode ter desempenhado um papel importante na aceitação do artigo.

A revisão por pares é normalmente um processo anônimo, com autores e revisores desconhecidos um do outro. Mas todos os quatro revisores deste trabalho foram psicólogos sociais, e todos saberiam de quem era o trabalho avaliado e teriam sido favoráveis à forma como foi fundamentado.

Talvez mais importante, nenhum era estatístico de primeira linha. “O problema foi que esse trabalho foi tratado como qualquer outro”, disse uma editora da revista, Laura King, psicóloga da Universidade de Missouri. “E ele não era.”

Muitos estatísticos dizem que as técnicas utilizadas pelas ciências sociais para analisar dados fazem uma suposição que é falsa e, no final, auto-enganadora: a de que os pesquisadores não sabem nada sobre a probabilidade da chamada hipótese nula.

Neste caso, a hipótese nula seria a de que a ESP não existe. Recusar a dar peso a essa hipótese não faz sentido, dizem esses especialistas; se a ESP existe, porque as pessoas não estão ficando ricas predizendo com segurança o movimento do mercado de ações ou o resultado dos jogos de futebol?

Em vez disso, esses estatísticos preferem uma técnica chamada análise bayesiana, que visa determinar se o resultado de um experimento em particular “muda as chances da hipótese ser verdadeira”, nas palavras de Jeffrey N. Rouder, psicólogo da Universidade de Missouri, que, com Richard D. Morey, da Universidade de Groningen, na Holanda, submeteu uma crítica ao artigo do Dr. Bem para a revista.

Física e biologia, entre outras disciplinas, esmagadoramente sugerem que os experimentos de Bem não mudaram essas chances, disse Dr. Rouder.

Até agora, pelo menos três tentativas de replicar os experimentos fracassaram. Mas o grupo pretende continuar trabalhando nisso, disse o professor de Cornell.

Fonte: Último Segundo/NYT