“O homem que apenas crê e não procura refletir esquece-se de que é alguém constantemente exposto à dúvida, seu mais íntimo inimigo, pois onde a fé domina, ali também a dúvida está sempre à espreita. Para o homem que pensa, porém, a dúvida é sempre bem recebida, pois ela lhe serve de preciosíssimo degrau para um conhecimento mais perfeito e mais seguro”.

Carl Gustav Jung (psiquiatra suíço)

“Tudo o que aprendi levou-me, passo a passo, a uma inabalável convicção sobre a existência de Deus. Eu só acredito naquilo que sei. E isso elimina a crença. Portanto, não baseio a Sua existência na crençaeu sei que Ele existe.”

(idem)

Já falei do excelente documentário independente chamado “One” (traduzido para o Brasil como “Somos todos Um“) em outro post. Hoje, trago um trecho dessa produção em que é pedido a vários místicos que descrevam “Deus”.

Para quem não conhece, “One” foi um projeto independente que pretendeu buscar respostas para algumas das perguntas (espirituais e filosóficas) que mais preocupam os seres humanos. O mais legal desse documentário, a grande sacada mesmo, é que os autores do projeto não se limitaram a mostrar apenas um tipo de opinião ou pensamento. Eles entrevistaram desde grandes “gurus” e autores, como Deepak Chopra, à ateus e pessoas comuns, na rua. Para conhecer as perguntas que eles fizeram, clique aqui.

Então. O vídeo em questão extraí do próprio documentário, e penso ser um dos pontos altos de todo o filme. Aqui, vários mestres e místicos espirituais, de diversas religiões e filosofias, tentam nos explicar o que seria “Deus”. O mais interessante dessas respostas, é que por mais que todos eles sejam diferentes em suas crenças, todos possuem a mesma resposta para “Deus”.

É como Gandhi dizia:

“As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguirmos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?”

Neste trecho, podemos perceber que existe uma diferença enorme entre “saber” e “acreditar”. Tem essa anedota, contada por Robert Thurman durante o filme, em que ele diz algo como:

“O padre pergunta ao Joãzinho se ele sabe o que é fé. Joãzinho responde que sim: Fé é acreditar em algo mesmo sabendo que não é verdade.”

Taí a grande diferença entre o Místico (ou Iluminado) e a pessoa religiosa (ou que tem fé): o místico é aquele que experimenta a realidade divina. É aquele que sabe, portanto, não crê. Por isso, não existe religião, filosofia ou caminho mais “certo”. O que existe são pessoas que sabem não só escolher, mas percorrer o caminho… E como diria o sábio brujo Don Juan,

“(…) você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve seguí-lo, não deve permanecer nele, sob nenhuma circunstância. Para ter uma clareza dessas, é preciso levar uma vida disciplinada. Só então você saberá que qualquer caminho não passa de um caminho, e não há afronta, para si nem para os outros, em largá-lo se é isso que o seu coração lhe manda fazer.”

Antes de passarmos ao vídeo, coloco aqui uma pequena descrição de cada um dos “mestres” entrevistados neste trecho, por ordem de aparição:

Sadhguru Jaggi Vasudev:


Um dos entrevistados mais carismáticos do projeto One, Sadhguru é um reconhecido Mestre indiano, Místico e Yogi. É considerado um visionário e humanista cujo trabalho transcende todas as fronteiras. Desenvolveu a Isha Yoga, uma série de programas cientificamente estruturados que visam promover uma profunda experiência do Self (“si-mesmo”). Sadhguru é um místico incomum. Da mesma forma que Osho, ele não possui apego a nenhuma tradição em particular, e  utiliza apenas o que há de mais válido para a vida atual dentro das ciências iogues. Partindo do princípio de que não pode haver transformação universal sem a transformação individual, este místico tem dedicado a sua vida a apresentar poderosos métodos de autotransformação para pessoas de todos os credos e filosofias. A sua visão e  entendimento dos problemas sociais e econômicos modernos já o levaram a ser entrevistado por diversos canais de televisão, como BBC, Bloomberg, CNBC, CNNfn, e Newsweek International. As palestras e meditações de Sadhguru normalmente reúnem multidões de mais de 300.000 pessoas. Ele possui centros de Isha Yoga na Índia, nos EUA e no Líbano.

Site oficial: http://www.ishafoundation.org/

Thich Nhat Hanh:


Thich Nhat Hanh é um monge budista vietnamita, poeta, erudito e ativista pela paz que fundou a Igreja Budista Unificada na França, durante a guerra do Vietnã, em 1969. Já escreveu mais de setenta e cinco livros de prosa, poesia e preces. Sua filosofia não está limitada a estruturas religiosas pré-existentes, mas fala ao desejo do indíviduo por totalidade e paz interior. Exatamente por isso, as palestras de Thây (“professor”, como é mais conhecido pelos seus seguidores) atraem não somente budistas, mas cristãos, judeus e até mesmo ateus.  Martin Luther King Jr. nomeou-o ao Prêmio Nobel da Paz em 1967.

Site oficial: http://www.plumvillage.org/

Padre Thomas Keating:

O Padre Thomas Keating é a figura central de um movimento entre classes religiosas cristãs para a revitalização da prática cristã contemplativa conhecida como “centering prayer” (um método de prece contemplativa que dá grande ênfase ao silêncio interior). Passou vinte anos como abade da abadia de St. Joseph, um monastério trapista localizado em Spencer, Massachusetts. Ele é o co-fundador do Contemplative Outreach (uma organização dedicada a introduzir as práticas contemplativas cristãs à pessoas de todos os credos e filosofias) e autor de vários livros, entre eles: “Open Mind, Open Heart” (tradução livre minha: “Mente Aberta, Coração Aberto”) e “Intimacy with God” (tradução minha: “Intimidade com Deus”). Ele já conheceu e estudou com líderes espirituais de várias linhagens Hindu e Budistas, e ajudou a criar, há 15 anos atrás, a “Snowmass Interreligious Conference“, que reúne regularmente professores de diferentes tradições para comparar visões e ideias e para avaliar objetivamente os benefícios ou defeitos da práticas de cada um deles.

Site oficial: http://www.snowmass.org/keating.htm

Barbara Brodsky:


Barbara pratica meditação desde 1960. Possui duas raízes religiosas, uma Budista e outra Quaker, e seus ensinamentos refletem essas duas tradições. Ensina a meditação vipassana, ou insight, e práticas derivadas das tradições dzogchen, para pessoas de todos os credos e filosofias. Em Ann Arbor, Michigan, em 1989, Barbara fundou o “Deep Spring Center” e tem sido a professora principal dessa organização. Ela é surda há mais de 30 anos e o silêncio tem grande influência em seus ensinamentos. Barbara é também uma médium, canal de uma entidade chamada “Aaron”.

Site oficial: http://www.deepspring.org/

Llewellyn Vaughn-Lee:

Vaughn-Lee é um Xeque da Ordem Sufi Naqshbandi. Nascido em Londres, em 1953, segue a tradição sufi Naqshbandi desde os 19 anos, depois de ter conhecido Irina Tweedie, autor de “Chasm of Fire and Daughter of Fire: a Diary of a Spiritual Training with a Sufi Master“. Ele tem se especializado na área de trabalho com sonhos, integrando a antiga abordagem Sufi sobre sonhos aos insights da psicologia moderna. Ele é autor de vários livros, incluindo “Love is a Fire: The Sufi’s Mystical Journey Home” e “The Face Before I Was Born: A Spiritual Autobiography”. Llewellyn tem lecionado extensivamente nos EUA, Canadá e Europa.

Atualmente, o foco de seus ensinamentos e escritos está na responsabilidade espiritual em nosso atual período de transição e a conscientização global emergente em relação à Unicidade.

Site oficial: http://www.goldensufi.org/

Irmã Chan Khong:

Chan Khong é uma monja budista vietnamita, mestre Zen,  ativista pela paz que trabalha e auxiliou Thich Nhat Hanh na criação do centro Plum Village, além de ajudar a conduzir retiros espirituais internacionalmente.

Site oficial: http://www.plumvillage.org/

O vídeo está dividido em duas partes:

Parte 1:


Parte 2:

Abaixo, e introduzindo o pensamento de Sadhguru aos leitores do Inconsciente Coletivo, traduzi um pequeno texto, retirado da coluna do jornal indiano “The Navhind Times” de 12 de julho de 2009:

+++

Espiritualidade e Vida Material

A distinção entre vida material e espiritual advém de um certo nível de ignorância. O que é material? O que é espiritual? Poderemos separar seja lá o que você se refere como espírito do corpo? Como você pode separar o material e o espiritual? Esta separação em si mesma é ignorância. Ser materialista ou espiritual é somente uma ideia. Não há espírito sem a matéria, não há matéria sem o espírito.

Os seus lares, relacionamentos, dinheiro, são todos arranjos externos que você cria para conveniência, conforto e alegria. Similarmente, você cria arranjos para o seu bem-estar espiritual interior. Você consegue viver com arranjos externos fantásticos quando internamente você está uma confusão? Isso resolve o seu problema? E se internamente você estiver feliz, mas não tem alimento para comer, isso resolve o seu problema? Ambos precisam ser organizados, mas você precisa decidir como equilibrar.

A soma de prioridade que você dá ao sem bem-estar exterior e seu bem-estar interior é escolha sua. Fazer uma distinção entre os dois provém de ignorância.

A vida surge como uma unidade. Não faça divisão da vida em material e espiritual. A própria distinção  causa um conflito desnecessário. Se você fizer essa distinção entre o materialismo e o espiritual, irá sofrer. Já de princípio eles não são divididos. Então a questão de que se o material e o espiritual são compatíveis não aparece. Quando você existe como uma vida, dividí-la e tentar encontrar compatibilidade entre os dois lados é algo muito tolo de se fazer.

+++

O filme completo, legendado, pode ser visto abaixo:

http://video.google.com/videoplay?docid=7459042650018594670#