Mais uma notícia sobre o avanço – já considerado de proporção epidêmica –  da Depressão no mundo todo.

Antes de mais nada, é preciso frisar que PREDISPOSIÇÃO GENÉTICA NÃO É DESTINO.

Interessante ler a reportagem, e apenas observar suposições e “possibilidades possíveis” para explicar as causas do “fenômeno”… “Ah, existe a tendência genética, ah o estresse também colabora, ah a ansiedade também.” Nossa… quem poderia imaginar?!  E sinceramente, o que isso realmente explica qualquer coisa??? (…)

Então, falando sério, qual é a raiz de tudo isso? O que desencadeia a ansiedade, o estresse, ou ativa a “predisposição genética” e culmina numa depressão?

Mais interessante ainda foi observar que todas as suposições, o tal termo “multifatorial” que seria a resposta médica segundo o artigo – o que provoca a “instabilidade emocional” – frequentemente dizem respeito a coisas exteriores: o lar desfeito, desestrutura familiar, mãe ausente… talvez poderíamos acrescentar aí dificuldades financeiras, violência urbana, mortes de pessoas queridas, desemprego, competitividade, rejeição, padrões estéticos inalcançáveis, falência, traição… ou coisas que você não tem um controle, como sua “tendência genética”.  Seráááá? Isso não parece um pouco confortável demais?

É óbvio que não dá para descartar os “estímulos externos” ou uma “predisposição genética”. Existem casos e casos… Só preciso frisar que os estímulos externos servem apenas como gatilhos, a causa é sempre interior, o buraco é sempre mais embaixo…

Mas, no geral, o que faz uma pessoa ter uma estrutura emocional melhor do que a outra? Se olharmos pelos exemplos de causas externas que citei anteriormente (algumas utilizadas como exemplo de fatores que favorecem a instabilidade emocional, que por sua vez favorecem a depressão), bem, somos 6 bilhões de pessoas com problemas… não existe “lar perfeito”, nem “criação perfeita”, porque somos humanos, oras. Cada um faz o que pode (de preferência o melhor) dentro de suas circunstâncias e entendimento. Mas, convenhamos, o “fazer o melhor pelos filhos” é algo extremamente relativo. Portanto, o que favorece uma melhor estrutura emocional também o é. Como dar garantias? Ahh, e nós temos necessidades evolutivas diferentes… não dá pra padronizar todo mundo.

Além disso, dizer que estresse pode causar (ou causa) depressão – uma resposta padrão de muitos profissionais da saúde – ainda e igualmente não explica o porquê do estresse. E portanto não esclarece verdadeiramente o porquê da depressão. Por que eu me estresso? Por que? Por que me sinto ansiosa (o)? Isso são efeitos, afinal, quais são as causas?

O corpo é o palco da mente.

Normalmente, as crises depressivas se arrastam anos até a pessoa tomar uma providência e procurar ajuda, como o artigo bem exemplifica. Não é uma doença silenciosa que um belo dia “salta” na sua mente e corpo. Os sinais são dados durante um tempo (variável de acordo com a pessoa). Mas nós temos o hábito de ignorá-los, afinal, temos coisas mais importantes com que nos preocupar. Além do mais, se apresentarmos sintomas muito incômodos, basta tomar um remédio. Não apresentando mais os sintomas, é como se nem estivesse mais doente… E seja lá o que for que realmente estava provocando aqueles sinais, nós damos um jeito de enterrar bem fundo em nossas mentes.

Só que a vida não é assim simples… E chega aquele momento em que algo acontece (como a morte de alguém próximo ou significativo, por exemplo), e tudo aquilo que estava latente, “explode” em nós e nos pega de surpresa… Você se vê e se sente completamente subjugado, oprimido… por si mesmo! Mas quando foi que você realmente esteve no controle? Quando foi que esteve verdadeiramente consciente do momento, de si mesmo? Quando foi que de fato agiu ao invés de continuamente reagir? Você esteve o tempo todo no piloto automático e precisou chegar ao extremo – a depressão, por exemplo – para ter uma noção real disso: a vida inconsciente que você empurrou (com os seus “devos”, “tenhos”, “esperam isso de mim”, etc, que na verdade não possuem significado para você ) até este momento.

As doenças abrem portas inestimáveis ao autoconhecimento. Só que é preciso reconhecê-las como oportunidades, ao invés de problemas ou obstáculos…

Ah, uma última observação! Será que o fato de que todos os “esforços” empreendidos para conter a epidemia da Depressão – como os novos medicamentos, campanhas, acesso a tratamentos psiquiátricos – serem insuficientes (ou, quem sabe, em sua maioria inúteis) em seus intentos convencerá as pessoas de que talvez esse não seja o melhor caminho para a prevenção e/ou cura da doença? De que a raiz do problema, no geral, está muito além do que os tratamentos convencionais podem atingir?

Tomara…

“Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der.”

( Carl Gustav Jung)

 

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Doença é causada por uma combinação de fatores e requer diferentes frentes de tratamento

A depressão avança rapidamente mundo afora, apesar dos inúmeros esforços para contê-la.

Novos medicamentos, campanhas mundiais e mais acesso aos tratamentos psiquiátricos não parecem suficientes para evitar projeções bem negativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O mundo tem hoje 121 milhões de pessoas deprimidas, sendo cerca de 17 milhões no Brasil. Nos próximos 20 anos, a doença deve se tornar tão comum que pode ultrapassar câncer e AIDS.

Depressão atinge mais mulheres

Depressão atinge mais mulheres

“Concordo que vá piorar. O ser humano é biopsicológico e social, as causas da depressão também”, avalia Geraldo Possendoro, psiquiatra e professor da Unifesp.

Se um paciente perguntar ao médico porque está deprimido, a resposta não será simples. Mas em algum momento da explicação, certamente, o médico usará o termo “multifatorial”.

“Existe a tendência genética, mas é só isso. Ansiedade e estresse também exercem um papel muito importante”, aponta o especialista. Os estímulos do cotidiano ao qual a pessoa está inserida podem favorecer uma eventual predisposição genética.

Além da relação entre ambiente e genética, existe o fator emocional. A estrutura psicológica da pessoa dá suporte aos desafios do dia a dia. Se ela tiver uma boa estrutura, terá mais facilidade em superar situações difíceis e lidar com frustrações. “É sua estratégia de enfrentamento”, esclarece a psiquiatra Alexandrina Meleiro, doutora em psiquiatria pela USP.

A médica explica que a família exerce um papel fundamental na construção das bases emocionais da pessoa. “Família desestruturada, lar desfeito e mãe ausente, tudo isso favorece a instabilidade”, enumera.

Início sutil

Mesmo quando tudo joga contra a pessoa, a depressão não surge do dia para a noite. É um processo lento. Ninguém dorme feliz e acorda deprimido, embora seja justamente essa a primeira impressão de alguns pacientes.

A engenheira Bernardete Araújo, hoje com 56 anos, era uma consultora bem-sucedida quando se deparou com uma crise de estresse, há oito anos. O desgaste era tanto, que surgiram dores no estômago, nas pernas e na coluna. “Fiz uma avaliação médica e descobri que era depressão”, recorda.

No primeiro momento, o diagnóstico foi uma surpresa e pareceu mesmo uma consequência do cotidiano estressante. Mas a história da doença, na verdade, era bem maior. Uma observação mais atenta ao passado de Bernardete revelou que ela já sofria crises desde a adolescência. “Mas não sabia o que era”, conta.

Casos como o da engenheira são mais frequentes do que se imagina. “Adolescentes podem ter depressão combinada com ansiedade”, aponta Alexandrina. Isso dá um comportamento atípico ao paciente, diferente da tristeza e apatia que geralmente se espera de alguém deprimido.

Início marcante

Érica Priscila Coronato, de 39 anos, durante oficina de pintura, no Parque Ibirapuera
Érica Priscila Coronato, de 39 anos, durante oficina de pintura, no Parque Ibirapuera

No outro extremo da depressão, Érica Priscila Coronato, de 39 anos, sempre soube muito bem quando sua doença começou.

“Tive uma crise em 1997, depois que minha mãe morreu”, conta.

O trauma exigiu seis meses de tratamento feito em hospital, combinado com uso de medicamentos e terapia particular. “Parei de trabalhar. Fechamos um restaurante que era administrado pela minha família”, recorda-se.

A dedicação ao tratamento passou a ser quase integral. Por recomendação da terapeuta, Érica passou a frequentar o Centro de Convivência Cooperativa (Cecco) do Parque Ibirapuera, em São Paulo. “Ia todo dia. Fazia mosaicos, terapia em grupo, pintura em tela e bordados. Adorava os artesanatos”, diz.

Ficar triste pela morte da mãe é uma reação esperada em qualquer pessoa, mas isso não significa que a morte de um parente querido sempre causará depressão. “Tristeza é um sentimento natural e fisiológico. É uma resposta a um estímulo”, esclarece Alexandrina. A persistência do sentimento é que configura algo patológico. “Isso gera alterações neuroquímicas e caminha para um quadro de depressão”, explica.

Não é uma escolha

Quando a pessoa adoece, ela não está simplesmente triste e precisando de algo para se distrair e ganhar ânimo. Depressão interfere na produção de noradrenalina e serotonina, neurotransmissores importantes para o bom funcionamento do cérebro.

Outros neurotransmissores também podem ter seus níveis alterados e, com isso, a pessoa passa a ter dificuldade para desempenhar algumas atividades. Bernardete, por exemplo, tinha dificuldade para se concentrar e não conseguia tomar decisões.

“Até coisas simples eram difíceis. Minhas amigas me convidam para o cinema, e não sabia se ia ou não”, recorda.

Falta de concentração, tristeza e dificuldade para tomar decisões são alguns dos sintomas mais conhecidos da depressão. Contudo, existem outros. “Homens somatizam mais e podem ter AVC (acidente vascular cerebral) e infarto. Outras especialidades médicas não estão preparadas (para diagnosticar esses sintomas como depressão), embora exista uma consciência maior sobre a doença”, avalia Alexandrina.

A médica defende que toda especialidade médica deve saber como diagnosticar, ou ao menos como levantar a suspeita, de que seu paciente esteja deprimido. Em consultórios de ortopedistas, a reclamação de dor pode ter origem na depressão. O mesmo pode acontecer em consultas com endocrinologistas, cardiologistas e até cirurgiões plásticos.

“A pessoa quer mudar o nariz, faz a cirurgia e até fica feliz no primeiro ano. Mas a causa da depressão ainda está lá”, alerta a psiquiatra. “A chance de suicídio é maior em mulheres com prótese mamária, dez anos após o implante”, alerta Alexandrina.

Na opinião da especialista, ainda existe uma banalização dos problemas com fundo emocional. “Isso é visto como se não fosse algo sério”, afirma. Uma das implicações disso é o diagnóstico tardio da depressão, quando o paciente já passou por algumas crises e tem a doença cronificada. “A chance de precisar de medicação para o resto da vida fica maior”, diz a médica.

Se a detecção da depressão for bem precoce, há boas chances dela ser controlada apenas com terapia, sem qualquer medicação. Isso é que desejam os especialistas, mas a realidade é diferente. “Quem sofre da doença tem de cinco a dez episódios na vida”, afirma o psiquiatra Primo Paganini, gerente médico de grupos de produtos da Pfizer.

Fonte: Último Segundo/IG