“Não faças nunca depender a tua felicidade de algo que não dependa de ti.”

Huberto Rohden

No post de hoje trago um texto excelente de Huberto Rohden, a respeito dos “Cultores da Mediocridade”. Nesse pequeno texto, Rohden, um filósofo brasileiro ainda um tanto desconhecido, descreve as melhores coisas a fazer (ou a deixar de fazer!) para se tornar um medíocre perfeito, e consequentemente, ser muito admirado por todos por sua prudência, tradição, conservadorismo e apego a ideias pequenas porém muito seguras…

Vamos lá gente… todo mundo tomando muuuito cuidado pra não ser muito diferente da maioria!!!  😉

Leia também o post A voz do povo NÃO é a voz de Deus, que traz uma reflexão sobre esse mesmo tema.

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Meu ignoto amigo. Se quiseres ser impenitente cultor da rotina e mediocridade, guia-te pelas normas seguintes:

– Antes de pensar, informa-te sempre o que deve ser pensado, a fim de não introduzir no mundo o contrabando de ideias novas.

– Não penses nunca com o próprio cérebro — mas sempre com a cabeça dos outros.

– Dize sempre sim quando os outros dizem sim — e não quando os outros dizem não.

– Lê cada manhã, ao café, o teu jornal, para saberes o que deve ser pensado naquelas 24 horas.

– Quando vier alguém com ideias novas, evita-o como um perigo social e tem-no em conta de herege e demolidor.

– Não te exponhas ao perigo de fazer o que o vizinho não faz — mas lembra-te da comprovada sapiência burguesa: o seguro morreu de velho.

– Sê amigo dedicado da tua tépida poltrona — e não te exponhas a vertigens de vastos horizontes.

– Prefere sempre as paredes maciças dum cárcere e as grades duma gaiola às incertezas dum vôo estratosférico.

– Não abras nunca portas fechadas — abre tão somente portas abertas.

– Não explores caminhos novos, como os bandeirantes — anda sempre por estradas batidas e sobre trilhos previamente alinhados.

– Vai sempre com o grosso do rebanho, como os bons carneiros — e não procures caminho à margem da rotina geral.

Em suma, meu insigne cultor da mediocridade: Deixa tudo como está para ver como fica.

– Destarte, conservarás a saúde e a tranqüilidade dos nervos e poderás tomar, cada dia, com sossego, teu chope ou coquetel — e passar por homem de bem.

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Se, porém, resolveres, um dia, sair da rotina tradicional e expor-te ao perigo mortífero dum ideal superior, então lê com atenção o que te diz um homem que conhece a vida:

– Vai às margens do Ganges e pede ao mais robusto dos elefantes que te ceda a sua pele paquidérmica, para com ela revestires a tua alma.

– Vai as praias do Nilo e arranca ao mais velho dos crocodilos a sua impenetrável couraça e faze dela o invólucro do teu coração.

– Senta-te aos pés de mestre Zenon, rei dos Estóicos, e pede que te ensine à filosofia de ser pedra in bloco de gelo, cadáver ambulante, indiferença absoluta.

– E, depois de assim encouraçares a tua alma, sai por este mundo afora e dize aos homens da honesta mediocridade que vives por um ideal que não está no estômago, nem nos nervos nem no sangue — e verás que eles te declararão guerra de morte.

– Pois, deves saber, meu amigo, que o mundo não sacrifica um só ídolo por um ideal.

– Desde que o mais arrojado idealista da história foi crucificado, morto e sepultado — são todos os idealistas crucificados pelos culto da mediocridade.

– Nada de grande acontece no mundo sem que o mundo se revolte.

– Tudo que é belo e grande — acaba fatalmente entre os braços da cruz.

– É esta a gloriosa tragédia dos homens superiores.

Retirado do livro: De alma para alma