Josep Campbell

Josep Campbell

“Uma mitologia pode ser compreendida como uma organização de figuras mitológicas, conotativas de estados mentais que não pertencem em última instância a esse ou àquele local, embora as figuras em si pareçam, na superfície, sugerir uma localização concreta. As linguagens metafóricas da mitologia e da metafísica não são denotativas de mundos e deuses reais, mas sim conotam níveis e entidades dentro da pessoa por elas tocada. As metáforas só parecem descrever o mundo exterior do tempo e lugar. Seu universo real é o mundo espiritual da vida interior. O Reino de Deus está dentro de você.”

Joseph Campbell

Já cansei de ver em vários sites de ateísmo, fotos ou a citação do nome Joseph Campbell como sendo um “ateu famoso”. Da mesma forma, já vi o nome dele em sites “nova era” ou que pregavam um pseudomisticismo fazerem o mesmo. Porém, você pode estar se perguntando, quem está com a razão? Bem, é esta a intenção deste post, esclarecer que ambos estão profundamente equivocados: o prof. Campbell não era a favor da “fé religiosa” como normalmente é compreendida e praticada, muito menos era ateu.

Sim, Joseph Campbell não era ateu.

Só faz uma alegação estapafúrdia de que ele era ateu, os ateus que jamais tocaram em um único livro de Campbell. Que nunca sequer leram um artigo ou uma entrevista dele. Ateus e céticos que se contentam com o que leram de um outro colega que também havia lido de outro que, por sua vez, achava que Campbell era ateu. Estranhamente, apesar de se julgarem tão “científicos” e “racionais”, cometem os mesmos pecados daqueles de fé cega em um Deus antropomorfizado: só lêem e vêem aquilo que desejam ler e ver, aquilo que é mais conveniente para a manutenção de suas crenças pessoais.

Pois bem. Joseph Campbell era ateu em relação à maneira convencional de se entender Deus. Ele era ateu para a definição de que Deus está no céu, é do sexo masculino, está vendo tudo o que está acontecendo, que escolhe um povo ao invés de outro, que diz que uma religião é mais certa do que outra, que pune os “pecadores” e “infiéis”, que faz o time da França ganhar e o do Brasil perder, entre outras. É à essa noção ridícula e risível de Deus que Joseph Campbell era ateu. Mas isso não quer dizer, em absoluto, que ele não acreditava em “deus”. Na verdade, pelo simples fato de ele ter sido um mitólogo, um dos mais renomados do mundo, a visão que ele tinha de “deus’, e portanto a sua crença “nele”, é completamente diferente.

Em “The Hero’s Journey”, dvd que fala um pouco sobre a vida e obra do professor, ele diz, de maneira bastante enfática (assim como repete várias vezes ao longo de seus livros): “Deus é uma metáfora. Uma metáfora que transcende toda e qualquer categoria de pensamento humano, incluindo a do ser e não-ser.” Ou seja, deus jamais será o que você pensa ou puder imaginar que é. Ele, apesar de utilizarmos o “ele”, não possui sexo. A partir do momento que o nomeamos, nós o limitamos, qualquer definição que possamos inventar nada mais será que uma tentativa pequena, incrivelmente medíocre, de tentar explicar algo que está em nós e muito além de nós. Um mistério muito além do nosso raciocínio. Um mistério realmente transcendental.

Mas para ilustrar melhor isso tudo que estou afirmando, resolvi transcrever um capítulo do livro “Tu és Isso: Transformando a Metáfora Religiosa”, de Joseph Campbell, em que ele conta uma passagem de sua vida (bem engraçada por sinal) em que se deu conta de porque ateus e crentes estão igualmente equivocados.

+++

O Significado do Mito

Deixe-me começar, explicando a história de meu impulso  para colocar a metáfora no centro de nossa exploração da espiritualidade ocidental.

Quando o primeiro volume do meu “Historical Atlas of World Mythology: The Way of Animal Powers” foi publicado, os editores me enviaram numa turnê publicitária. É o pior tipo de turnê possível porque você tem de se encontrar, sem a menor vontade, com locutores de rádio e repórteres, eles próprios indispostos a ler o livro sobre o qual devem conversar com o entrevistado, para gerar visibilidade.

A primeira pergunta que faziam era sempre: “O que é um mito?” É um bom começo para uma conversa inteligente. Em uma cidade, porém, entrei em uma estação de rádio para um programa de meia hora, ao vivo, em que o entrevistador era um jovem com ar de astuto e que imediatamente me alertou: “Sou difícil, já vou lhe avisando. Estudei Direito.”

A luz vermelha acendeu e ele começou, argumentativo: “A palavra ‘mito’ significa ‘uma mentira’. Mito é uma mentira.” Repliquei com a minha definição de mito. “Não, mito não é uma mentira. Uma mitologia completa é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metafóricas das possibilidades de experiência humana e da realização de determinada cultura em certo momento.”

“É uma mentira”, ele retrucou.

“É uma metáfora.”

“É uma mentira.”

Isso continuou por uns vinte minutos. Quatro ou cinco minutos antes do fim do programa, percebi que o entrevistador não sabia o que era uma metáfora. Resolvi tratá-lo da mesma maneira como estava sendo tratado.

“Não”, eu disse. “Eu lhe digo o que é metafórico. Dê-me um exemplo de metáfora.”

Ele respondeu: “Dê-me você um exemplo.”

Eu resisti. “Não, agora eu estou fazendo a pergunta.” Eu não tinha lecionado por trinta anos à toa. “E eu quero que você me dê um exemplo de uma metáfora.”

O entrevistador ficou totalmente pasmo e chegou a dizer: “Vamos chamar um professor”. Finalmente, depois de um minuto e meio, ele se recompôs e disse: “Vou tentar. Meu amigo John corre muito. Dizem que ele corre como um veado. Isso é uma metáfora.”

Enquanto se passavam os últimos segundos da entrevista, eu repliquei. “Isso não é uma metáfora. A metáfora seria: John é um veado.”

Ele revidou: “Isso é uma mentira.”

“Não”, eu disse. “Isso é uma metáfora.”

E  o programa terminou. O que esse incidente sugere sobre a nossa compreensão de metáfora?

Ele me fez refletir que metade da população mundial acha que as metáforas de suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos. E a outra metade afirma que não são fatos, de forma alguma. O resultado é que temos indivíduos que se consideram fiéis porque aceitam as metáforas como fatos, e outros que se julgam ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras.