SÃO PAULO – De todas as características do espiritismo, uma das mais intrigantes é a psicografia. Foi justamente o ato de escrever sob inspiração de espíritos que tornou Chico Xavier conhecido em todo o Brasil. Em 1932, ele publicou o livro “Parnaso de Além Túmulo”, com poemas que lhe teriam sido ditados por autores mortos como Castro Alves, Olavo Bilac e Augusto dos Anjos. Xavier escreveu um total de 412 livros, mas não se considerava autor de nenhum deles – todos teriam sido psicografados.

“No início, Chico Xavier dizia apenas ouvir vozes. Ele as transcrevia, às vezes até com dúvidas quanto à grafia correta, como se fosse um ditado”, explica Marcel Souto Maior, autor da biografia “As Vidas de Chico Xavier”. Posteriormente, essa relação com os “comunicantes” foi mudando. “Era uma escrita semiconsciente. Cada espírito tinha uma característica. Por exemplo, o Emanuel tem romances gigantescos atribuídos a ele. Já o André Luiz tem momentos que são quase ficção científica”, explica.

Segundo cálculos da Associação de Editoras, Distribuidoras e Divulgadores do Livro Espírita (Adeler), em 2009 foram vendidos dez milhões de livros ligados ao espiritismo. “A esmagadora maioria deles é psicografada”, explica o presidente da entidade, Ary Dourado. Ele explica que esse mercado está crescendo. “As editoras comerciais começaram a investir nesse setor, que historicamente é dominado por instituições espíritas”, diz. O centenário do nascimento de Chico Xavier, comemorado este ano, deve contribuir com esse crescimento. “Sempre que há algum evento de massa, como uma novela ou um filme, o interesse do público pelo espiritismo aumenta”.

Atualmente, o grande nome da psicografia é Zíbia Gasparetto. A médium de 83 anos afirma ter vendido 25 milhões de cópias de seus livros – ou melhor, dos livros psicografados por ela. O sucesso foi tal que ela fundou uma editora, a Vida e Consciência, especializada no filão espírita. Segundo a autora conta na introdução de “Eles Continuam Entre Nós”, seu dom manifestou-se através de um comichão. “Meu braço doía e a mão mexia contra minha vontade. Colocados papeis e lápis na minha frente, comecei a escrever rapidamente”, explica.

A escritora Zibia Gasparetto

A escritora Zibia Gasparetto

O relato aproxima-se da imagem tornada clássica por Chico Xavier: em transe, com uma mão cobre os olhos, enquanto a outra escreve de forma automática. Mas, hoje em dia, nem a própria Zibia Gasparetto age mais assim: ela prefere escrever no computador, porque assim consegue acompanhar mais rapidamente o que os espíritos lhe ditam. Há ainda casos em que nem as famosas vozes estão presentes. É o caso da escritora carioca Mônica de Castro, que só percebeu que seu primeiro livro havia sido psicografado depois de terminá-lo.

“Um dia eu acordei com um nome na cabeça, Rosali”, conta a autora. Junto com o nome, a vontade de escrever. Pouco tempo depois, o livro “Uma História de Ontem” estava pronto. “Quando eu terminei, o Leonel (comunicante de todas as obras psicografadas por Mônica) me passou uma mensagem. Eu nem imaginei que até aquele momento estava psicografando”, conta. Isso acontece por que Monica é, segundo suas próprias palavras, uma médium intuitiva. “Meu processo é todo mental, e o pensamento não precisa de palavras”, teoriza.

Fonte: IG