Resumidamente: uma piada de mal gosto.

Aquelas perguntinhas que a teoria criacionista da Bíblia nunca pôde responder, tentaram responder fazendo uma salada misturando lenda, mitologia, evidências científicas fósseis, deus e evolução. Conseguiram meter os dinossauros na Terra vivendo até questão de mais 2 mil anos atrás, colocaram dinossauros na Arca de Noé… esqueceram as datações do carbono 14 (meros detalhes sem importância né), esqueceram de explicar de onde vieram as outras etnias depois do dilúvio “universal” (certamente os chineses, japoneses, indianos, africanos, índios etc etc etc brotaram do chão… ou apareceram aqui por abiogênese!!! rs) além de outros esquecimentos convenientes.

Eu concordo que a teoria da evolução também tem furos, que não explica tudo (na verdade ela tem problemas sérios para explicar como a vida começou na Terra, além de não conseguir explicar como os seres humanos modernos apareceram, ainda falta o elo perdido, entre outros detalhes…). Mas mesmo assim é óbvio que há um tipo de evolução no planeta. Eu apenas acho que nós ainda estamos engatinhando no que diz respeito a compreende-la como de fato é. Falta-nos mais dados, mais descobertas, talvez uma mudança no paradigma científico vigente. É certo que a vida em nosso planeta não é estagnada, não está “pronta e acabada” há milhares de anos. E é uma lástima que ainda exista tanta gente, em pleno séx XXI, na era do conhecimento e da nanotecnologia, que ainda insiste em se ater a uma coletânea de lendas antigas ( = a Bíblia) para explicar algo que, na época em que os textos foram redigidos, as pessoas sequer tinham noção de coisas básicas como gravidade, eletricidade, sistema solar, via láctea etc etc etc. É colocar todos os esforços feitos ao longo dos dois últimos séculos em áreas como biologia, química, física, geologia, arqueologia, paleontologia, antropologia etc., no LIXO.

Querem saber no que eu de fato acredito?

Acredito que existe um momento certo para que algo possa ser de fato compreendido como realmente é. Lembram da história de que quando os barcos de Cristóvão Colombo estavam se aproximando da costa, os índios não fugiram por que (diz a lenda) não conseguiam vê-los? Na verdade, certamente os índios viram algo se aproximando no horizonte, o problema é que não estavam intelectualmente preparados para compreender o que era, já que desconheciam aquele tipo de embarcação. Joseph Campbell (o renomado mitólogo norte-americano) conta outra história de um antropólogo que foi visitar uma tribo de pigmeus que nunca tinham tido contato com a civilização, nem nunca tinham saído do coração da floresta em que moravam. Pois bem, lá pelas tantas, o antropólogo resolve levar um pigmeu daquela tribo para o alto de uma montanha. Quando os dois chegam no topo, e a vista do horizonte se mostra em toda a sua amplitude, o pigmeu ficou horrorizado. Ele não conseguia entender o horizonte, a visão que se estende ao longe, já que, por morar a vida toda numa floresta onde a paisagem está toda apinhada na sua frente, ele não tinha a noção de perspectiva adequada para compreender o que estava vendo. Para ele, as vacas que estavam pastando lá embaixo, na verdade, estavam na sua frente, e eram microvacas…(o termo eu acabei de cunhar… rs). Tudo o que ele via não fazia o menor sentido, mas ele via. O que acontece depois é que ele sai correndo em pânico de volta para o aconchego da selva.

Há uns anos atrás surgiu aquela brincadeira-teste de se ver o gorila, lembram? Era para demonstrar os “pontos cegos” do nosso cérebro. Basicamente, nosso cérebro apenas vê aquilo que espera ver. E para mostrar isso, psicólogos e neurocientistas testaram várias pessoas, fazendo-as assistir a vídeos ou a procurar sentenças em determinados textos, onde, é claro, colocavam algum dado ou imagem no meio, e esperavam para ver quantas pessoas realmente se davam conta daquilo. Então tinha um vídeo de quatro jovens jogando bolas uns para os outros por exemplo, e você deveria contar quantas vezes eles jogam a bola. Durante o vídeo, um homem vestido de gorila passava no meio dos jogadores, abanava para a câmera e ia embora. Praticamente nenhuma das pessoas que estavam assistindo ao vídeo, e claro, cuidando para contar as jogadas de bolas, viu que um gorila passou no meio da filmagem… O que se pode concluir disso? Que enquanto estamos esperando para ver algo (baseado em nossa crença/ideia/teoria já estabelecida), existe uma grande probabilidade de algo além da nossa atual compreensão e pretensão passar na nossa frente e nós sequer notarmos.

Aí também não posso deixar de mencionar os conceitos de RACIOCÍNIO e RACIONALIZAÇÃO. Um raciocínio é um processo pelo qual se busca uma resposta que ainda não se tem, e por isso, a sua mente se mantém aberta para qualquer tipo de possibilidade que possa surgir para explicar um determinado evento/situação. Já uma racionalização, é o processo em que se tenta provar que uma resposta que já se tem é a verdadeira. Apesar de muitas teorias e paradigmas científicos terem sido concebidos a partir de raciocínios válidos, a maioria se torna dogma e se perpetua apenas a partir de racionalizações. Ou seja, nós já temos a conclusão preferida, então o que podemos fazer/encontrar (e esconder/negar/fraudar) para que essa conclusão se mostre (ou continue se mostrando) lógica, coerente e acima de tudo, racional? É assim com a teoria da evolução, e certamente é assim com a teoria criacionista bíblica. A diferença é somente que na Ciência há um pouco mais de abertura para contestação, ampliação e evolução; e na religião ou você acredita (apesar de tudo) ou está fora… Ah, isso sem falar do fato de que a ciência se baseia numa observação/medição empírica, direta e concreta do mundo, enquanto que na mitologia religiosa, a observação dos fenômenos do mundo está invariavelmente misturada ao pensamento mágico, portanto fantasiosa.

Enfim. Tanto a ciência como a religião são feitas por seres humanos. Criaturas (ou não!) com preconceitos, crenças, opiniões, medos e acima de tudo, interesses…Talvez eu esteja esperando por uma “terceira teoria”. Ou talvez essa terceira teoria já exista (e esteja passando na nossa frente, abanando) mas é tão fantástica que ainda não tenhamos o arbouço intelectual necessário para compreendê-la. Mas, como diz a sabedoria popular, “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”. Então. A verdade só o tempo dirá… mas com a Ciência e a mente sempre aberta, teremos mais chance de descobrí-la… 😉

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A Dra. Tamaki Sato ficou um pouco confusa na ala dos dinossauros. Os cartazes descreviam os diversos dinossauros como originários de diferentes períodos geológicos – o estegossauro, do jurássico superior; o heterodontossauro, do jurássico inferior; o velociraptor, do cretáceo superior – , mas em cada um dos casos, a data de extinção oferecida na ficha de informações era a mesma: por volta de 2.438 AC.

“Eu fiquei curiosa quanto ao motivo para essa informação”, diz Sato, professora de geologia na Universidade Tokyo Gakugei, no Japão. Para paleontologistas como Sato, as camadas de rochas da crosta terrestre representam acumulações de centenas de milhões de anos, e o jurássico inferior é um período muito mais velho que o cretáceo superior.

Mas no Museu da Criação, em Petersburg, no norte do Estado do Kentucky, a Terra e o universo têm pouco mais de seis mil anos de idade, e foram criados por Deus. O lema do museu afirma que “fatos iguais, conclusões diferentes”, e interpreta os dados geológicos e paleontológicos de forma inequívoca: à luz de uma leitura literal da Bíblia.

Na interpretação criacionista do universo, as camadas de rochas foram todas formadas em um evento único – o dilúvio mundial no qual Deus decidiu limpar a terra de todas as criaturas exceto aqueles que estavam reunidas na arca de Noé – , e portanto todos os dinossauros morreram em 2348 AC, o ano do dilúvio.

“Isso foi uma das coisas que aprendi aqui”, disse Sato, depois de sua visita ao museu. Os mundos da paleontologia acadêmica e do criacionismo raramente convergem, mas o primeiro fez uma visita ao segundo na quarta-feira desta semana. A Universidade de Cincinatti estava promovendo a Convenção Paleontológica Norte-Americana, na qual os cientistas apresentam os resultados de suas mais recentes pesquisas sobre as fronteiras do passado distante. Os participantes deixaram de lado as palestras convencionais por uma tarde, no entanto, e 70 deles embarcaram em ônibus escolares para uma visita ao Museu da Criação, localizado do lado oposto do rio Ohio.

“Eu estou muito curioso, e fascinado”, disse o Dr. Stefan Bengtson, professor de paleozoologia no Museu Sueco de História Natural, antes da visita, “porque na Suécia não temos muitas coisas como essa”.

O Dr. Arnold Miller, professor de geologia na Universidade de Cincinatti e presidente do comitê de organização da convenção paleontológica, sugeriu a visita. “Os acadêmicos tendem a ignorar com demasiada frequência aquilo que acontece no mundo em torno deles”, ele afirmou. “Sinto que seria no mínimo valioso para os meus colegas descobrir um pouco sobre a forma pela qual os criacionistas estão retratando não só a mensagem deles mas a mensagem da paleontologia, e a da teoria da evolução”.

Desde que o museu abriu as portas, dois anos atrás, a instituição recebeu 750 mil visitantes, mas os visitantes da quarta-feira foram o primeiro grande grupo de paleontologistas a aparecer por lá. O museu recebeu o grupo de visitantes atípicos com a hospitalidade generosa que o caracteriza. “Deus seja louvado, estamos tão felizes por receber vocês”, disse Bonnie Mills, uma das recepcionistas do museu.

Os cientistas fizeram a visita pagando o preço de turnês em grupo, que dá direito a um almoço como bônus. O Dr. Terry Mortensen, professor e pesquisador da Answers in Genesis, a organização religiosa que construiu e opera o Museu da Criação, afirmou que não esperava que a visita resultasse em muitas mudanças de opinião. “Tenho certeza de que eles em geral terão opinião diferente daquela que é apresentada aqui”, disse Mortenson. “Mas lhes daremos a liberdade de ver tudo aquilo que desejarem”.

Perto da entrada das galerias do museu existe um display animado que inclui uma menina alimentando um esquilo com uma cenoura, sob o olhar de dois dinossauros posicionados nas proximidades, o que representa uma severa dissonância quanto à postura dos museus de história natural, segundo os quais os seres humanos viveram 65 milhões de anos depois dos dinossauros.

“Estou sem fala”, disse o Dr. Derek Briggs, diretor do Museu Peabody de História Natural, na Universidade Yale, que percorria as galerias com os braços cruzados à altura do peito e uma careta de espanto. “É bem assustador”.

Morteson e os demais funcionários do museu afirmam estudar as mesmas rochas e fósseis que os cientistas visitantes, mas que chegam a conclusões diferentes das de seus colegas porque partem de premissas diferentes. Por exemplo, eles afirmam que o dilúvio bíblico deu início a um gigantesco choque no interior da Terra que resultou na separação dos continentes e os conduziu às suas posições atuais, em lugar de acreditarem que o movimento dos continentes levou alguns bilhões de anos.

“Todo mundo trabalha com pressuposições sobre o que devem ser considerado e sobre que perguntas devem ser feitas”, diz Mortenson, que tem um doutorado em história da geologia pela Universidade de Coventry, Inglaterra. “As primeiras duas salas de nosso museu falam sobre essa questão dos pontos de partida e das suposições. Nós contestamos de maneira muito vigorosa a posição dos evolucionistas, a de que eles estão deixando que os fatos falem por si mesmos”.

A apresentação do museu atrai visitantes como Steve Leinberger e sua mulher Deborah, que vieram com um grupo da Igreja Luterana da Confissão, de Eau Claire, Wisconsin. “É isso que deveria ser ensinado até mesmo nas aulas de ciências”, ele afirma.

Os fundadores do museu decidiram instalá-lo na região de Cincinatti porque ela fica a um dia de viagem de carro de dois terços da população dos Estados Unidos. A área há muito atrai as atenções dos paleontologistas, porque apresenta algumas das rochas com maior presença de fósseis na América do Norte, e é fácil, em algumas regiões, encontrar bem perto da estrada fósseis datados de milhões de anos. As rochas são tão bem conhecidas que seu nome é “Série Cincinatti”, e representam um período de tempo que se estende de 453 milhões a 441 milhões de anos atrás.

Muitos dos paleontologistas consideram que o museu os representa de forma equívoca e ridiculariza, além de responsabilizá-los injustamente pelos males da sociedade.

“Creio que deveriam mudar o nome do museu, de Museu da Criação para Museu da Confusão”, disse Lisa Park, professora de paleontologia na Universidade Akron. “Infelizmente, eles agem dessa forma deliberadamente”, ela acrescenta. “Fico chocada. Como cristã, fico chocada“.

Bengtson aponta que para explicar como as poucas espécies que poderiam ter sido transportadas pela arca se transformaram na multidão de animais que hoje conhecemos em espaço de apenas alguns milhares de anos, o museu afirma simplesmente que “Deus ofereceu aos organismos ferramentas especiais para que mudassem rapidamente”.

“Ou seja, eles admitem em uma sentença que a evolução é real”, diz Bengtson, “mas precisam invocar a magia para explicar como ela funciona”.

No entanto, mesmo alguns dos que discordam sobre a informação e a mensagem do museu reconhecem que ele tem seus atrativos. “Odeio que isso aqui exista”, diz Jason Rosenhouse, matemático na Universidade da Virgínia que mantém um blog sobre questões evolutivas. “Mas, já que existe, tenho de admitir que é divertido. O espetáculo é bacana, se você for uma pessoa crédula.

Pelo final da visita à galeria dos dinossauros, Briggs parecia estar se divertindo. “Gostei dos dinossauros na arca”, diz. (Cerca de 50 espécies de dinossauros subiram à arca de Noé, o museu explica, mas depois pereceram por motivos desconhecidos.)

O museu, ele compreende, não deve mudar aquilo em que muita gente acredita. “Mas precisamos nos preocupar com as crianças”, afirma. Sato comparou a instituição a um parque de diversões. “Gostei tanto daqui quanto da Disneylândia”, ela comentou. E ela gostou da Disneylândia? “Não muito”, afirmou.

Autor: Kenneth Chang

Fonte: Terra/New York Times