Um Buda é impossível para Freud

Texto de Osho, falando sobre a psicologia ocidental x psicologia oriental, e como no Ocidente somos condicionados a fundamentar e relacionar o nosso conhecimento do corpo e da mente humana a partir das doenças e desordens mentais. O que é normal é o que não é doente. Os orientais não olham pelo mesmo prisma. O estudo e o conhecimento do corpo e mente humanas se fundamenta no que pode ser considerado “supernormal”, ou seja, o estado búdico. Osho fala também sobre auto-realização e como muitas vezes podemos pensar que alguém tem tudo, enquanto a pessoa em questão sente como se não tivesse nada.

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O homem pode ser considerado de três maneiras: em termos do normal, do anormal e do supernormal. A psicologia ocidental está basicamente relacionada com o anormal, o patológico, com o homem que caiu do normal, que caiu da norma. A psicologia oriental, o tantra e o ioga, consideram o homem do ponto de vista do supernormal – daquele que foi além da norma. Ambos são anormais. Aquele que é patológico é anormal por que não é saudável e aquele que é supernormal é anormal porque é mais saudável do que qualquer ser humano normal. A diferença é entre negativo e positivo.

A psicologia ocidental se desenvolveu como parte da psicoterapia. Freud, Jung, Adler e outros psicólogos estavam tratando do homem anormal, do homem que está mentalmente doente. Devido a isso toda a atitude ocidental para com o homem se tornou errada. Freud estava estudando casos patológicos. Naturalmente, nenhum homem saudável chegaria até ele – somente quem estivesse mentalmente doente. Essas pessoas eram estudadas por ele e, por causa desse estudo, ele pensou que agora entendia o homem. Os homens patológicos não são verdadeiramente homens; eles estão doentes e qualquer coisa baseada em um estudo deles está fadada a ser profundamente errada e danosa. Isso demonstrou ser danoso porque o homem é olhado de um ponto de vista patológico. Se um estado mental particular é escolhido e esse estado é doente, patológico, então toda a imagem do homem se torna baseada na doença. Por causa dessa atitude, toda a sociedade ocidental caiu de nível – porque o homem doente torna-se a base – o pervertido se tornou a fundação.

E se você estuda apenas o anormal, você não pode conceber nenhuma possibilidade de seres supernormais. Um buda é impossível para Freud, inconcebível. Ele deve ser fictício, mitológico. Um buda não pode ser uma realidade. Freud entrou em contato somente com homens doentes que não eram nem mesmo normais e tudo o que ele diz sobre o homem normal está baseado no estudo do homem anormal. É como um médico que está fazendo um estudo. Nenhum homem saudável vai até ele, não há necessidade. Somente pessoas não saudáveis chegarão. Estudando tantas pessoas não saudáveis, ele cria uma imagem do homem em sua mente, mas essa imagem não pode ser do homem. Ela não pode ser, porque o homem não é apenas doente. E se você embasa sua concepção do homem na doença, toda a sociedade irá sofrer.

A psicologia oriental, particularmente o tantra e o ioga, também têm um conceito de homem, mas esse conceito está baseado no estudo do supernormal – Buda, Patanjali, Shankara, Nagarjuna, Kabir, Nanak -, em pessoas que atingiram o pico da potencialidade e possibilidade humana. O mais baixo não foi considerado, apenas o mais alto. Se você considera o mais alto sua mente se torna uma abertura; você pode crescer porque agora faculdades mais elevadas são possíveis. Se você considera o mais baixo, nenhum crescimento é possível. Não existe desafio. Se você é normal você se sente feliz. É suficiente que você não seja pervertido, que você não esteja em um asilo mental. Você pode se sentir bem, mas não há nenhum desafio.

Mas se você busca o supernormal, a mais alta possibilidade que você pode se tornar, se alguém realizou essa possibilidade, se essa possibilidade se tornou verdadeira para alguém, então uma possibilidade para crescer se abre. Você pode crescer. Um desafio chega até você e você não precisa ficar satisfeito consigo mesmo: faculdades mais elevadas são possíveis e elas o estão chamando. Isso precisa ser entendido profundamente. Somente então a psicologia do tantra será concebível. O que você é não é o final. Você está apenas no meio. Você pode cair, você pode se elevar. Seu crescimento não acabou. Você não é o produto final; você é apenas uma passagem. Alguma coisa está constantemente crescendo em você.

O tantra concebe e baseia todas as suas técnicas nesta possibilidade de crescimento. E lembre-se, a menos que você se torne aquilo que você pode se tornar, você não ficará realmente satisfeito. Você deve se tornar aquilo que você pode se tornar – isso é um dever! Do contrário, você ficará frustrado, você se sentirá sem sentido, sentirá que não existe nenhum propósito na vida. Você pode continuar, mas não existirá alegria nisso. E você pode ter sucesso em muitas outras coisas, mas irá fracassar consigo mesmo. E isso está acontecendo. Alguém se torna muito rico e todo mundo pensa que agora ele teve sucesso. Todo mundo, exceto ele mesmo, pensa que ele teve sucesso. Ele conhece o seu fracasso. A riqueza está presente, mas ele está fracassado. Um grande homem, um líder, um político – todo mundo pensa que eles são bem-sucedidos, mas eles fracassaram. Este mundo é estranho: você tem sucesso aos olhos de todo mundo, exceto aos seus próprios.

As pessoas chegam a mim diariamente. Elas dizem que têm tudo, mas e agora? Elas estão fracassadas. Mas onde elas fracassaram? No que concerne às coisas exteriores elas não fracassaram; assim, por que sentem esse fracasso? Sua potencialidade interior permaneceu potencial. Elas não floriram. Elas não atingiram o que Maslow chama “auto-realização”. Elas são fracassos – fracassos interiores. E, basicamente, o que os outros dizem é sem sentido. O que você sente é significativo. Se você sente que é um fracasso, os outros podem pensar que você é um Napoleão ou um Alexandre, o Grande, mas isso não faz diferença. Ao contrário, isso o deprime mais. Todo mundo pensa que você é um sucesso e agora você não pode dizer que você não é – mas você sabe que você não é. Você não pode enganar a si mesmo. No que se refere à auto-realização, você não pode se enganar. Mais cedo ou mais tarde você terá que visitar a si mesmo e olhar profundamente dentro de si, no que tem acontecido. A vida é desperdiçada. Você largou uma oportunidade e juntou coisas que não significam nada.

A auto-realização se refere ao mais alto pico de seu crescimento, onde você pode sentir um profundo contentamento, onde você pode dizer: “Este é meu destino, era por isso que eu estava esperando, é por isso que eu estou aqui na terra”.

Osho e os Relacionamentos

“Um relacionamento nunca cria nada.
Ele só pode trazer algo que já é existente.
Assim, nunca jogue a responsabilidade no outro.
O outro é, no máximo, uma ajuda para lhe mostrar as subcorrentes de sua mente.
Cada relacionamento é um espelho; ele revela sua identidade a você.”

Osho

Recebi por email este texto de Osho, tratando do tema das “projeções” que consciente e inconscientemente fazemos em relação às pessoas que entram em nosso convívio diário, ou que já fazem parte deste. É incrivelmente comum ouvir de pessoas, depois de terminarem um longo relacionamento amoroso, ou até mesmo uma amizade de muitos anos, dizerem que apesar de “passarem anos convivendo juntos, eu não conhecia realmente quem estava ao meu lado.” É o velho clichê do “dormindo com o inimigo.” E por que isso acontece? Porque o “amor” (nesse caso a palavra amor não estaria corretamente empregada, o ideal seria “paixão”. Amor é algo muito mais maduro, realista e pé no chão – não é pra qualquer um) é literalmente cego. ;-) Nós vemos apenas aquilo que queremos ver nos outros. A isso chamamos de “projeção”. Projetamos nossos desejos, ideais e sonhos nas outras pessoas o tempo todo. Evidentemente, não é ruim esperar sempre o melhor de todo mundo. O problema é quando se cria uma ilusão de perfeição ou se dá uma aura de divindade a uma pessoa tão humana quanto qualquer outra. Talvez até, demasiado humana (com a licença de Nietzsche), como qualquer outra. Enfim. Neste pequeno texto de Osho, ele resume sábia e didaticamente, a idéia do projetar o outro:

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As projeções

É um fato conhecido: você não se apaixona por alguém; você não se apaixona pela pessoa real, você se apaixona pela pessoa de sua imaginação. E enquanto vocês não vivem juntos,  e você vê o outro da sua sacada,  ou você o encontra na praia por alguns minutos, ou você segura suas mãos no cinema, você começa a sentir: “Somos feitos um para o outro” .

Mas ninguém é feito um para o outro. Você vai  projetando mais e mais imaginação sobre o outro, inconscientemente. Você cria um certa aura em torno dele e ele cria uma certa aura em torno de você. Tudo parece ser lindo, porque você faz tudo parecer lindo, sonhando, evitando a realidade.  E ambos ficam sonhando, tentando de todas as formas possíveis não perturbar a imaginação do outro.

Assim, a mulher se comporta do jeito que o homem quer que ela se comporte; o homem se comporta do jeito que a mulher quer que ele se comporte. Mas isso só pode durar alguns minutos ou algumas horas no máximo.

Uma vez que vocês se casem e tenham que viver juntos vinte e quatro horas por dia, torna-se uma carga pesada continuar fingindo alguma coisa que você não é.

Preencher a imaginação do homem ou da mulher, por quanto tempo você pode continuar representando? Mas cedo ou mais tarde torna-se um peso e você começa a se vingar. Você começa a destruir toda a imaginação que o homem criou em torno de você, porque você não quer ficar aprisionada nela; você quer se livrar daquilo e ser você mesma.

E a mesma é a situação com o homem: ele quer se livrar e ser ele mesmo. E esse é o conflito entre todos os amantes, em todas as relações.

A realidade é: somos sozinhos, somos estranhos e será muito melhor se aceitarmos a verdade básica de que somos estranhos. Podemos saber o nome um do outro, podemos ter visto o rosto um do outro muitas vezes – isso não importa. Nossos seres estão tão escondidos e tão lá no fundo, que não há como eu poder tocar o ser de alguém, ou possa ver o ser de alguém – e é aí que reside toda a estranheza. Mas não acho que isso seja uma catástrofe; pelo contrário sinto isso como uma benção. Se não fôssemos estranhos seríamos robôs. Nossa estranheza nos dá individualidade, singularidade.

Solitude x Solidão – parte 2

Continuando o texto de ontem, em que Osho falava sobre solitude e solidão:

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Somente a palavra “solitário” imediatamente lembra a você de que é algo como um machucado: algo é necessário para preenchê-lo. Há uma lacuna e ela dói: algo precisa preenchê-la. A própria palavra “solitude” não possui o mesmo sentido de um machucado, de uma lacuna que precisa ser preenchida. Solitude simplesmente significa completude. Você é um todo; não há necessidade de nenhuma outra pessoa para completá-lo.

Portanto tente encontrar o seu centro mais íntimo, onde você está sempre sozinho, sempre esteve sozinho. Em vida, em morte – onde estiver você estará sozinho. Mas é tão cheio – não é vazio, é tão cheio e tão completo, tão transbordante de todas as essências da vida, com todas as belezas e bênçãos da existência, que uma vez que você tenha experimentado a solitude a dor no coração irá desaparecer. No lugar dela, um novo ritmo de tremenda doçura, paz, alegria, felicidade estará lá.

Isto não significa que um homem que está centrado em sua solitude, completo em si-mesmo, não possa fazer amigos – na verdade, somente ele pode fazer amigos, por que não é mais uma necessidade, é somente um compartilhamento.  Ele tem tanto, ele pode compartilhar.

A amizade pode ser de dois tipos. Uma é a amizade em que você é um pedinte – você precisa de algo do outro para ajudar a sua solidão – e o outro também é um pedinte, ele quer o mesmo que você.  E naturalmente, dois pedintes não podem se ajudar. Em breve eles perceberão que seus pedidos de um pedinte duplicaram ou multiplicaram a sua necessidade. Ao invés de um pedinte, agora são dois. E se, infelizmente, tiverem crianças, então ali haverá uma companhia completa de pedintes que estão pedindo – e ninguém tem nada a dar.

Então todos estão frustrados e bravos, e todo mundo sente que foi traído, enganado.  E na verdade, ninguém está traindo e ninguém está enganando, pois o que você tem?

O outro tipo de amizade, o outro tipo de amor, possui uma qualidade totalmente diferente.  Não é de uma necessidade, ele vem do enorme tanto que você tem que quer compartilhar. Um novo tipo de alegria brotou no seu ser – a do compartilhamento, que você antes não estava consciente. Você esteve sempre pedindo.

Quando você compartilha, o apego é impossível. Você flui com a existência, com a mudança da vida, por que não importa com quem você compartilha. Pode ser a mesma pessoa amanhã – a mesma pessoa por toda a sua vida – ou podem ser diferentes pessoas. Não é um contrato, não é um casamento; é somente a partir da sua plenitude que você quer dar. Então independente de quem seja que esteja perto de você, você dá. E dar é uma grande alegria.

Pedir é uma miséria tão grande. Mesmo que você consiga alguma coisa pedindo, você irá permanecer miserável. Isso machuca. Isso machuca o seu orgulho, machuca a sua integridade. Mas compartilhar o faz ficar mais centrado, mais orgulhoso, mas não mais egoísta – mais orgulhoso de que a existência tem sido mais compassiva com você. Não é ego; é um fenômeno totalmente diferente… um reconhecimento que a existência permitiu a você algo que milhões de pessoas têm tentado, mas na porta errada. Você esteve na porta certa.

Você está orgulhoso de sua felicidade e por tudo que a existência deu a você. O medo desaparece, a escuridão desaparece, o sofrimento desaparece, o desejo por outros desaparece.

Você pode amar uma pessoa, e se a pessoa amar outra não haverá ciúme algum, porque você amou a partir de tanta alegria. Não era um apego. Você não estava segurando a pessoa na prisão. Você não estava preocupado que a pessoa poderia escapar pelos seus dedos, que alguém poderia começar um relacionamento amoroso…

Quando você está compartilhando a sua alegria, você não cria uma prisão para ninguém. Você simplesmente dá. Você sequer espera gratidão ou agradecimento por que você não deu para receber algo, nem mesmo gratidão. Você está dando por que está tão cheio que precisa dar.

Então se alguém for agradecido, você é agradecido a pessoa que aceitou o seu amor, que aceitou o seu presente. Ela aliviou você, ela permitiu que você a regasse com sua abundância. E quanto mais você compartilha, quanto mais dá, mais você tem. Então isso não faz você um avarento, não cria um medo de “eu posso perder isso”. Na verdade, quanto mais você perde, mais águas frescas irão fluir de fontes que você não tinha consciência antes.

Por isso eu não vou dizer nada para você fazer com a sua solidão.

Procure por sua solitude.

Esqueça a solidão, esqueça a escuridão, esqueça o sofrimento. Eles são apenas as ausências da solitude. A experiência da solitude irá dispersá-los instantaneamente. E o método é o mesmo: apenas observe a sua mente, seja consciente.  Se torne mais e mais cônscio, até que finalmente você seja somente consciência de si-mesmo. Este é o ponto quando você se torna consciente de sua solitude.

Você ficará surpreso que diferentes religiões deram nomes diferentes ao estado último da realização. As três religiões nascidas fora da Índia não possuem um nome para isso porque nunca foram longe na busca do si-mesmo. Elas permaneceram infantis, imaturas, apegadas a um Deus, apegadas à oração, apegadas a um salvador. Você entende o que eu quis dizer: elas são sempre dependentes – algum outro irá salvá-las.  Elas não são maduras. Judaísmo, Cristianismo, Islamismo – elas não são nem um pouco maduras e talvez seja essa a razão de terem influenciado a grande maioria do mundo, por que a maioria das pessoas do mundo são imaturas. Elas têm uma certa afinidade.

Mas as três religiões da Índia têm três nomes para esse estado último.  E eu lembrei disso por causa da palavra solitude. O Jainismo escolheu kaivalya, solitude, como o estado último do ser. Assim como o Budismo escolheu nirvana, não-ser, e o Hinduísmo escolheu moksha, liberdade, o Jainismo escolheu a solitude absoluta. Todas as três palavras são belas. São três aspectos diferentes de uma mesma realidade. Você pode chamar de liberação, liberdade; você pode chamar de solitude; você pode chamar de não-ser, nada – são somente indicadores diferentes em relação à última experiência para qual nenhum nome é suficiente.

Mas sempre procure ver se qualquer coisa que você estiver enfrentando como um problema é algo negativo ou algo positivo. Se for algo negativo, então não lute contra; não se preocupe nem um pouco com isso. Somente procure pelo positivo do problema, e você estará na porta certa.

A maioria das pessoas perde por que elas começam a brigar diretamente com a porta negativa.

Não existe porta; há somente escuridão, há somente ausência. E quanto mais elas brigam, mais encontram fracasso, mais se tornam deprimidas, pessimistas… e finalmente passam a achar que a vida não tem sentido, que é simplesmente tortura. Mas o seu erro é que entraram pela porta errada.

Então antes de enfrentar um problema, apenas olhe para ele: é a ausência de alguma coisa? E todos os seus problemas são a ausência de alguma coisa. E uma vez que você tenha encontrado a ausência de que eles se originam, então vá atrás do positivo. E no momento que você encontrar o positivo, a luz – a escuridão se foi.

The Path of the Mystic, capítulo 19.

Solitude x Solidão

Neste texto de Osho (o texto foi dividido em duas partes, uma que posto hoje, e outra que será postada amanhã), traduzido por mim, ele fala sobre o sentimento da solidão e porque a maioria das pessoas não consegue vencê-lo. É tão comum ouvir pessoas dizendo sentirem-se sós, mesmo em meio a uma multidão. O que é que provoca este tipo sensação?  Será o “estar sozinho” realmente um problema tão grande, algo a ser evitado a todo custo? Você já percebeu que todos os grandes pensadores, líderes e mestres, de todas as épocas e culturas, antes de se tornarem grandes e influentes, se isolaram? Ou preferiram vidas monásticas/eremitas/reclusas? Todos sacrificaram o social, para depois retornar e contribuir para a melhora e evolução deste mesmo social (mais ou menos como é definido no conceito do “monomito” – a jornada do Herói, por Joseph Campbell). Henrik Ibsen disse que “O homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só.” Proust, por sua vez disse que “A amizade não é mais que uma mentira que nos faz acreditar que não estamos irremediavelmente sós.” Não poderia deixar de citar o sussurro de Roberta Sparrow, no filme cult (e altamente recomendável!) Donnie Darko, em que ela diz à Donnie, em seu ouvido: “cada criatura nesta terra morre sozinha“. Isso tudo pode soar pessimista, ainda mais em uma sociedade em que se preza tanto o estilo “maria-vai-com-as-outras”, onde todos pensam o mesmo, fazem o mesmo, se divertem da mesma maneira – e acham que isso é viver a vida (o que na minha opinião é o pior). Acho que nunca na história da humanidade as aparências foram tão valorizadas, como nos séculos XX e XXI. Da mesma forma, nunca o planeta foi tão populoso. E mesmo assim, as pessoas se sentem, irremediavelmente, sós. Vejamos então, o que Osho diz sobre isso:

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Eu sofro imensamente de solidão. O que posso fazer sobre isso?

A escuridão da solidão não pode ser combatida diretamente. Isso é algo essencial que todos devem entender, que existem algumas coisas fundamentais que não podem ser modificadas. E este é um dos fundamentos: você não pode lutar com a escuridão diretamente, com a solidão diretamente, com o medo do isolamento diretamente. A razão é que nenhuma dessas coisas existe; elas são simplesmente ausências de alguma coisa, assim como a escuridão é ausência da luz.

Então o que você faz quando não quer que o quarto esteja escuro? Você não faz nada diretamente com a escuridão – ou faz? Você não pode empurrá-la para fora. Não há possibilidade de criar algum esquema para que a escuridão desapareça. Você deve fazer algo com a luz. E isso muda toda a situação; e é por isso que eu chamo de um dos essenciais, de fundamentos. Você sequer toca a escuridão; você não pensa nela. Não há porquê; ela não existe, é somente uma ausência.

Então apenas traga luz ao local e você não encontrará mais a escuridão, porque ela era a ausência da luz, simplesmente a ausência da luz – não algo material, com o seu próprio ser, não algo que exista.  Mas simplesmente  por que a luz não estava lá, você teve a falsa sensação de existência da escuridão.

Você pode ir em frente lutando com a escuridão por toda a sua vida e não será bem-sucedido, mas somente uma pequena vela é suficiente para dispersá-la. Você precisa trabalhar pela luz porque é positivo, existencial; ela existe por si própria. E uma vez que a luz vem, qualquer coisa que era a sua ausência desaparece.

A solidão é similar a escuridão.

Você não conhece a sua solitude. Você não experienciou a solitude e sua beleza, o seu tremendo poder, a sua força. Solitude e solidão no dicionário são sinônimos, mas a existência não segue os seus dicionários.  E ninguém ainda tentou fazer um dicionário existencial que não fosse contraditório à existência.

A solidão é ausência.

Por que você não conhece a sua solitude, existe o medo. Você se sente sozinho e então você quer se apegar a alguma coisa, a alguém, a algum relacionamento, só para manter a ilusão de que você não está sozinho. Mas você sabe que está – por isso a dor. Por um lado você está se apegando a algo que não é real, que é somente um arranjo temporário – um relacionamento, uma amizade.

E enquanto você está em um relacionamento você pode criar uma pequena ilusão para esquecer a sua solidão. Mas este é o problema: ainda que você possa esquecer por um momento a sua solidão, no momento seguinte você subitamente se torna consciente que o relacionamento ou a amizade não é permanente. Ontem você não conhecia este homem ou esta mulher, vocês eram desconhecidos. Hoje vocês são amigos – quem sabe o dia de amanhã? Amanhã vocês podem ser desconhecidos novamente – daí a dor.

A ilusão dá um certo consolo, mas não pode criar a realidade para que todos os medos desapareçam. Ela reprime o medo, então na superfície você se sente bem – ao menos você tenta se sentir bem.  Você finge se sentir bem para si mesmo: quão maravilhoso é esse relacionamento, quão maravilhoso é este homem ou esta mulher. Mas atrás da ilusão – e a ilusão é tão fina que você pode ver através dela – há dor no coração, porque o coração sabe perfeitamente bem que amanhã as coisas podem não ser as mesmas… e elas não são as mesmas.

Toda a sua vida confirma que as coisas vão se modificando. Nada permanece estável; você não pode se apegar a nada em um mundo de mudanças.  Você queria fazer da sua amizade algo permanente mas o seu querer está contra a lei da mudança, e esta lei não vai fazer exceções. Ela simplesmente vai em frente fazendo as suas coisas. Ela irá mudar – tudo.

Talvez no longo prazo você entenderá um dia que foi bom que ela não tenha te escutado, que a existência não se incomodou com você e foi em frente fazendo tudo o que queria fazer… não de acordo com o seu desejo.

Pode levar um pouco de tempo para você entender. Você quer que este amigo seja seu amigo para sempre, mas amanhã ele se torna um inimigo. Ou simplesmente – “Você se perdeu!” e ele não está mais com você. Alguma outra pessoa irá preencher a lacuna que é muito mais superior. Então, de repente você se dá conta que foi bom que a outra pessoa se mandou; de outro modo você estaria preso a ela. Mas mesmo assim a lição nunca vai fundo a ponto de você parar de pedir por permanência.

Você vai começar a pedir permanência com este homem, com esta mulher; agora isto não irá mudar. Você não aprendeu realmente a lição de que a mudança é a essência da vida. Você deve entendê-la e ir em frente com ela. Não crie ilusões; elas não irão ajudar. E todo mundo está criando ilusões de tipos diferentes.

Eu conhecia um homem que disse, “Eu confio somente no dinheiro. Não confio em mais ninguém.”

Eu disse, “Você está fazendo uma afirmação muito significativa.”

Ele disse, “Todo mundo muda. Você não pode contar com ninguém. E conforme você envelhece, somente o seu dinheiro é seu. Ninguém se importa – nem mesmo o seu filho, nem mesmo a sua esposa. Se você tem dinheiro todos eles se importam, todos o respeitam, por que você tem dinheiro. Se você não tem dinheiro, se torna um pedinte.”

A declaração dele de que a única coisa confiável no mundo é o dinheiro vem de uma longa experiência de vida, de ser traído uma vez, e outra vez pelas pessoas que ele confiava – e ele pensou que elas a amavam mas estavam todos ao seu redor por causa do dinheiro.

“Mas”, eu disse a ele, “no momento da morte o dinheiro não vai estar com você. Você pode ter uma ilusão de que pelo menos o dinheiro está com você, mas quando a sua respiração pára, o dinheiro não está mais com você. Você pode ter ganhado alguma coisa mas será deixado desse lado; você não pode carregá-lo depois da morte. Você irá mergulhar em uma profunda solidão que você tem escondido atrás da fachada do dinheiro.”

Existem pessoas que estão atrás do poder, mas o motivo é o mesmo: quando elas estão no poder tantas pessoas estão com elas, milhões de pessoas estão sob o seu domínio. Elas não estão sozinhas. Elas são grandes líderes políticos e religiosos. Mas o poder muda. Um dia você o tem, no outro dia se foi, e subitamente toda a ilusão desaparece. Você está sozinho como ninguém mais está, por que os outros estão acostumados a estarem sozinhos. Você não está acostumado… a sua solidão dói mais.

A sociedade tem inventado maneiras para que você esqueça a solidão. Casamentos arranjados são somente um esforço para que você saiba que sua esposa está com você. Todas as religiões resistem ao divórcio pela simples razão que se o divórcio for permitido, então o propósito básico pelo qual o casamento foi inventado é destruído. O propósito básico era te dar uma companhia, uma companhia vitalícia.

Mas mesmo que a sua esposa ou seu marido fique com você a sua vida inteira, isso não significa que o amor continua o mesmo. Na verdade, ao invés de te darem uma companhia, eles te deram um fardo para carregar. Você estava sozinho, já com problemas, e agora você deve carregar outra pessoa que está sozinha. E nesta vida não há esperança, por que uma vez que o amor desaparece vocês dois estão sozinhos, e ambos tem que se tolerar. E isto não é uma questão de estar encantando um pelo outro; no máximo vocês podem pacientemente se tolerar um ao outro. A sua solidão não foi mudada pela estratégia social do casamento.

As religiões tem tentado fazê-lo um membro de um grupo organizado de religião para que você esteja sempre na multidão. Você sabe que existem 600 milhões de católicos; você não está sozinho, 600 milhões de católicos estão com você. Jesus Cristo é o seu salvador. Deus está com você. Sozinho você poderia estar errado – a dúvida pode ter sido levantada – mas 600 milhões de católicos não podem estar errados. Um pouco de apoio… mas mesmo isso se foi porque há milhões que não são católicos. Há pessoas que crucificaram Jesus. Há pessoas que não acreditam em Deus – e seu número não é menor do que o de católicos, é maior do que o de católicos. E há outras religiões com conceitos diferentes.

É difícil para uma pessoa inteligente não duvidar. Você pode ter milhões de pessoas seguindo um certo sistema de pensamento, mas mesmo assim você não pode estar certo de que eles estão com você, de que você não está sozinho.

(…)

O que estou tentando dizer é que todo o esforço que foi dirigido para evitar a solidão falhou, e irá falhar, porque é contra os fundamentos da vida. O que é necessário não é algo que você possa evitar a sua solidão. O que é necessário é que você se torne consciente da sua solitude, o que é a realidade. E é tão belo experienciá-la, senti-la, por que é a sua liberdade da multidão, do outro. É a sua liberdade do seu medo de estar sozinho.

(fim da primeira parte)

LIVRO E DVD RECOMENDADO:

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O Comum e o Extraordinário

Carl Gustav Jung, o famoso psiquiatra suíço, (criador da Psicologia Analítica) dizia que “todos nascemos originais e morremos cópias”. Nada mais verdadeiro. As pessoas freqüentemente tendem a se enganar achando que são “mais uma” em meio a multidão. Na verdade, é este exato pensamento que as faz sofrer e as faz permanecer estagnadas em suas limitações auto-impostas. Em parte querem ser mais especiais dos que os outros (muitas vezes sentem que é assim), em parte querem apenas ser comuns, como todo mundo. A questão é que você nunca se sentirá feliz, seja se achando mais especial do que os outros, seja se achando comum. Você só se sentirá feliz de verdade quando finalmente se der conta de que é extraordinário… como todo mundo, e ao mesmo tempo, à sua maneira.

E vejamos o que Osho diz sobre isso:

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“Osho, por favor, ajude-me a ser feliz, a ser comum. Eu descobri que todas as minhas preocupações, conflitos e tormentos, têm a ver com esse desejo de ser especial e nada mais.

“Sudha, é impossível ajudá-la, porque você não é comum – ninguém o é, ninguém pode ser. Todo mundo é único e extraordinário. O problema surge quando você começa a tentar ser aquilo que você já é. Aí você fracassa. Se você fosse comum, não haveria nenhuma dificuldade em alcançar o extraordinário. Haveria toda possibilidade. Mas, o peixe está no oceano e ele está tentando estar no oceano. O fracasso será total, ele está condenado a fracassar.

Como você pode ser comum? Toda essa existência é extraordinária. Cada grão de areia numa praia é extraordinário, cada folhinha de grama é extraordinária. E eu não estou falando apenas de lótus e rosas – naturalmente, elas também são extraordinárias – mas uma flor comum de um capim não é comum. Tudo o que existe é divino, como pode ser comum?

Não tente ser comum, caso contrário você vai fracassar e você irá criar miséria para si mesma. Eu mesmo não posso ajudar, eu não posso ir contra o Tao, contra a lei fundamental da vida. Deus só cria o extraordinário. Toda essa existência é especial. Essas gotas de chuva, essa manhã, as pessoas ao seu redor – este momento é extraordinário, ele não pode ser repetido novamente, não, nunca, nem mesmo em toda a eternidade ele poderá ser repetido novamente. Você nunca encontrará essas gotas de chuva caindo novamente, esse som, essa manhã, essas pessoas. Toda essa situação é extraordinária. Ela só acontece uma vez.

Em todo o mundo você não encontrará uma outra Sudha. Você pode seguir procurando, e não apenas neste momento presente, mesmo no passado ou no futuro, e nenhuma Sudha jamais será repetida. É assim que nós somos. E se você começar a tentar ser extraordinária, você estará em dificuldades.

Aceite a si mesma como você é, e aceite o todo como ele é – se você puder compreender que tudo é extraordinário – então você terá se tornado comum.

Sudha, não é que você queira ser extraordinária, você quer ser especial comparada com as outras pessoas. Isso também é absurdo, nenhuma comparação é possível. Como você pode ser comparada com outro alguém? Ninguém é como você. Você não compara um cachorro com um papagaio, ou compara? Não há qualquer similaridade, não há qualquer semelhança, como você pode comparar um cachorro com um papagaio? Ou uma árvore com um homem? Ou uma pedra com um rio? Na verdade, dois indivíduos não são iguais, por isso eles são incomparáveis. Você é você e o outro é o outro.

Compreender isso é ser ambos: comum e extraordinário. Extraordinário no sentido de que a existência somente cria pessoas únicas, e comum no sentido de que todo mundo é extraordinário. Não há nada extraordinário em ser extraordinário, todo mundo é. A comparação desaparece e quando não há comparação, não existe possibilidade de ego.
Você me pede: por favor, ajude-me a ser feliz… Eu só posso ajudá-la a não ser miserável. Eu não posso ajudar você a ser feliz. Mas se você não for miserável, você será feliz. Mas nenhum caminho direto é possível para fazê-la feliz. Se isso fosse possível, eu já teria feito você feliz há muito tempo atrás. Eu não sou miserável, eu já teria dado isso a você se fosse possível. Mas não há qualquer possibilidade.

A felicidade não é algo que possa acontecer com você a partir de fora. Uma vez que você pare de ser miserável, a felicidade acontece, a felicidade brota dentro do seu ser. Ela simplesmente cresce a partir de você, você começa a florescer e os obstáculos são removidos.

E esse parece ser o seu maior obstáculo: você quer ser extraordinária. Eu lhe declaro: Sudha, você é extraordinária. Mas lembre-se de que todo mundo também é. Por isso, agora não há necessidade de se preocupar. Eu lhe garanto, você não precisa provar isso. Deixe que esse obstáculo desapareça. Aceite a sua qualidade de ser extraordinária, curta isso, celebre isso. Walt Whitman diz ‘Eu celebro a mim mesmo, eu canto a mim mesmo…’ Celebre e cante. Você é extraordinária. Deus não fez outra pessoa como você e nunca fará outra pessoa como você. Somente por uma vez Deus existe como você, em você, nessa forma. Essa forma não se repete.

Então, o que está faltando? Toda a sua miséria está surgindo porque você está tentando se tornar extraordinária. E essa já é a qualidade do seu ser. Tornar-se, não se aplica neste caso. E então, de repente, você verá… Se você puder ver o ponto… Não pense a respeito disso, simplesmente veja o ponto – ele é tão cristalino – e um grande fardo sobre o seu peito irá desaparecer. Assim, você é extraordinária! Respire fundo, relaxe e, de repente, a felicidade está ali.

Felicidade não é alguma coisa que tenhamos que fazer ou produzir por ela. Ela é natural, ela é espontânea. Eu posso ajudá-la a não estar na miséria. A miséria é criação sua, enquanto a felicidade é criação de Deus. Miséria é um presente que você tem dado a si mesma, enquanto felicidade é um presente que Deus tem lhe dado. Mas você se agarra à miséria e quando você se agarra, você a alimenta com esse agarrar.Abandone isso. Comece a dançar e cantar e celebrar. Ponha um fim nisso agora. E não diga ‘amanhã’, porque o amanhã nunca vem. E não diga ‘eu vou pensar mais sobre isso’. Pensar não vai ajudar. Isso é um fato simples. Ou você compreendeu ou você perdeu o ponto.

Deixe-me repetir de novo: todo mundo é extraordinário, assim, ninguém precisa tentar. Não sofra com essa inferioridade desnecessária. E se sofrer com isso, você poderá seguir sofrendo anos e anos, e você continuará criando, e você continuará encontrando novas maneiras e meios. Alguém tem um nariz mais comprido que o seu, aí você se sentirá inferior. Alguém tem o cabelo louro, aí você se sentirá inferior. Alguém tem aqueles belos olhos, aí você se sentirá inferior. Alguém é mais inteligente, aí você se sentirá inferior. Alguém é um pouco mais alto, aí você se sentirá inferior. Se você continuar procurando e buscando miséria, ela estará disponível. Você pode encontrá-la em qualquer pessoa com quem você cruze, você encontrará uma coisa ou outra que está faltando em você. Mas é essa sua maneira de ver as coisas que cria a miséria.

Esqueça todo mundo e simplesmente olhe dentro de você, as dádivas que Deus tem lhe dado. E a gratidão irá surgir. Na verdade não existe razão alguma, nenhuma razão para essa existência existir, nenhuma razão para essa chuva, para essa manhã, para essa melodia, para essa bela canção que as nuvens estão cantando ao seu redor. Se essas coisas não estivessem aí, nós não poderíamos reclamar. Se essas coisas não estivessem aí, nós não poderíamos solicitar que elas estivessem. Essas coisas simplesmente estão aí, sem a nossa solicitação. Elas estão aí. Nós nem mesmo temos que bater na porta, e a porta está aberta. E milhões de dádivas estão sendo derramadas sobre você, simplesmente olhe para essas dádivas e você se surpreenderá. Você se surpreenderá ao ver como você tem perdido essas coisas. Só a alegria de respirar é suficiente para estar agradecido, só a alegria de encontrar um amigo é suficiente para estar agradecido, só a alegria de se sentar em silêncio, sem nada fazer… A alegria de uma manhã ou de um entardecer, a alegria de uma noite… Simplesmente siga procurando por essas alegrias e você as encontrará.

Você só encontra aquilo que você procura.

Você tem estado procurando por miséria, daí você ter criado misérias. Hoje está chovendo e amanhã não estará chovendo, então amanhã você poderá se sentir miserável. Você dirá: ‘porque não está chovendo hoje?’ E quando estava chovendo, você não estava agradecido.

Comece a se sentir agradecido. A felicidade estará cada vez mais próxima, quanto mais você se tornar agradecido. A gratidão funciona como um magnetismo. A mente reclamante repele a felicidade, ela fecha as portas. Tudo depende de você. Eu posso mostrar para você o caminho, mas é você que terá que caminhar nele. Buda disse ‘os budas podem apenas apontar o caminho, eles não podem caminhar por você. Você terá que caminhar. Eu estou mostrando a você o caminho, mas você se tornou muito esperta, eficiente em criar miséria para você mesma. Mude a direção de sua energia, canalize-a em direção à alegria, à beleza… esse cuco cantando lá longe. E pouco a pouco você verá tantas coisas que sempre estiveram ali, mas que você não as estava vendo. Seus olhos estavam cheios de miséria, por isso você estava perdendo tudo isso. Seus olhos estavam anuviados, eles estavam nebulosos, nevoentos. É por isso que você estava perdendo tudo isso.

E a pessoa pode perder por uma pontinha, a pessoa pode perder por um pequeno pensamento. Um pequeno pensamento pode se tornar uma barreira e você pode perder toda a beleza do vasto Himalaia. Você pode estar ali, observando os belos picos do Himalaia e o sol se pondo sobre as neves do Himalaia espalhando um dourado por toda parte, e um pensamento vem à sua mente e o Himalaia desaparece, o pensamento anuvia você. Você se lembra de alguma coisa: no outro dia alguém havia insultado você e isso foi o bastante. Ou você começa a fazer planos para o futuro: ‘amanhã eu vou ter que partir’ e, aí, o Himalaia desaparece. E o pensamento era tão pequeno, e o Himalaia tão grande… Mas mesmo um pequeno pensamento pode impedir. O pensamento está tão próximo de você e ele pode se colocar no meio. Uma simples partícula de pó pode cair em seus olhos, e só uma pequena partícula, quase invisível, pode tornar você cego, e você não consegue abrir os olhos e não pode ver o sol brilhando.

Sudha, faça apenas uma coisa: comece a abandonar esse conceito de inferioridade, esse conceito de que você tem que ser extraordinária. Veja que mesmo essa sua pergunta contém isso. Você assinou a pergunta assim: …uma buda comum, Sudha. Mesmo ali, o ego está reivindicando que ‘eu não sou algum buda comum. Eu sou um buda comum”. Você consegue perceber? ‘Os budas são pessoas extraordinárias. Eu não sou como eles. Eu sou um buda comum.’ Isso é reivindicar ser extraordinário.

Ajude-me a ser comum.

Você quer ser extraordinariamente comum. O ego pode continuar jogando, jogos sutis. Você terá que olhar completamente, do início ao fim. Simplesmente lembre-se de duas coisas: uma, que você já é aquilo que quer ser, então não há necessidade de fazer qualquer coisa para isso. Você pode chamar isso de comum ou pode chamar de extraordinário, não faz qualquer diferença. Você já é isso e você não conseguirá ser nada além disso. Como você chama isso, não importa. Se você está amando a palavra ‘comum’ então todo mundo é comum. Se você estiver amando a palavra ‘extraordinário’ então todo mundo é extraordinário. Lembre-se de mais uma coisa: o que quer que seja que você esteja reivindicando para você, você terá que reivindicar para o todo.E esse é o problema, você gostaria de ser especial, não ser como todo mundo.

Aconteceu…
Existe uma bela parábola…

Um homem adorava Deus por muito anos e sempre ele pedia ’satisfaça apenas um de meus desejos.’ Deus já devia estar cansado, aborrecido. Um dia ele apareceu e lhe disse ‘OK, você não me deixa em paz. De manhã, de noite, você segue batendo na mesma tecla ’satisfaça um de meus desejos’. ‘OK, eu estou aqui, qual é o seu desejo?’

E o homem disse: ‘o que quer que eu peça, deverá imediatamente ser dado a mim, esse é o meu desejo.’ O homem era muito esperto! Deus, em sua inocência, deve ter pensado que ele iria pedir uma só coisa, mas ele pediu tudo. Ele disse que só tinha um pedido e que era “o que quer que eu peça deverá ser dado imediatamente a mim.’ Mas você não pode derrotar Deus, porque a esperteza nunca derrota a inocência. Deus disse ‘perfeitamente certo, será como você pede, mas lembre-se de uma coisa: o que quer que você pedir, ao seu vizinho será dado em dobro.’

Agora o homem estava acabado. Meses se passaram e Deus retornava sucessivas vezes. ‘Você nada pede…?’ Ele parou de rezar e Deus continuava retornar várias vezes, de manhã, de tarde e ele dizia ‘O que? Você ainda não pediu?’ E o homem ficou muito cheio de Deus. Ele pensou e pensou, mas qualquer coisa que ele tivesse, os vizinhos teriam em dobro. ‘Isso não terá fim’. Ele sempre quis ter um belo palácio, “mas qual é o sentido agora? Os vizinhos terão grandes palácios em dobro.’ Uma simples idéia estava esmagando ele, estava matando ele. Ele perdeu toda a alegria de viver. Agora não havia qualquer possibilidade de um dia ser feliz, e esse Deus voltava de manhã e de tarde para torturá-lo. Assim, um dia ele disse: ‘OK, me dê um belo palácio dourado.’Imediatamente a sua choupana se tornou um palácio dourado, e ele viu que toda a cidade ficou cheia de palácios dourados – palácios maiores, palácios duplos, todos dourados – e o seu era o mais pobre de todos.

Ele procurou então por um advogado, porque a quem você recorre quando algum problema legal surge? O advogado lhe disse: ‘não se preocupe.’ E naturalmente Deus não poderia vencer um advogado. O advogado lhe disse: ‘você peça: faça agora um grande poço em frente à minha casa, sem um muro.’ Assim um grande poço apareceu diante de seu palácio e dois poços apareceram diante dos palácios dos demais. O advogado disse: ‘agora peça: faça com que um dos meus olhos desapareça.’ O homem disse: ‘o que você está dizendo?’ E o advogado disse: ’simplesmente espere. Lei é lei.’ Um de seus olhos desapareceu e ambos os olhos de seus vizinhos desapareceram. Agora, toda a cidade ficou cega… e com dois poços diante de cada palácio dourado… as pessoas começaram a cair nos poços e as pessoas começaram a morrer. E o homem ficou muito feliz. Ele disse ‘agora o meu desejo foi satisfeito’.

Assim, eu sei, Sudha, que você estará em dificuldades, pois eu declaro que você é extraordinária, mas todo mundo, todos os seus vizinhos, inclusive o Pramod, são duplamente extraordinários.

E, por favor, não procure por um advogado!”

LIVRO RECOMENDADO:

Intuição: o Saber Além da Lógica

Intuição: o Saber Além da Lógica

A vida não é uma aula de filosofia!

Existe um koan zen (um koan é uma pequena história ou frase  que inicialmente aparenta ser paradoxal, mas sua função é alterar a nossa percepção da realidade), um dos meus preferidos, que diz: “A própria mente desencaminha a mente, acautele-se contra a mente.” (Inclusive, citei este mesmo koan em outro post, “Criando a própria vida“, sobre o poder dos nossos pensamentos na criação de nossa realidade). Novamente, este koan tem tudo a ver com o texto abaixo, “A vida não é uma aula de filosofia“, de Osho, traduzido por mim. Neste texto ele fala de como estamos sempre criando confusões por causa de nossa mania de estar sempre querendo ter respostas para tudo. E pior: por acharmos que precisamos ter respostas… um texto para muita reflexão… ou não!

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Resolver os seus problemas significa lhe dar uma resposta que intelectualmente o satisfaça; e para dissolver o seu problema é dar-lhe um método que o faça se tornar consciente de que não há problema algum: (observação minha: there is no spoon… “a colher não existe”… Matrix roubando a cena… ;-) ) os problemas são criações nossas e não há necessidade de resposta alguma.

A consciência iluminada não possui respostas.

A sua beleza é o não ter respostas.

Todos os seus questionamentos foram dissolvidos, desapareceram. As pessoas pensam o contrário: elas pensam que o homem iluminado precisa ter uma resposta para tudo. A realidade é que ele não tem resposta alguma. Ele não tem perguntas. Sem perguntas, como ele pode ter respostas?

Gertrude Stein, uma grande poeta, estava morrendo, rodeada pelos seus amigos, quando de repente ela abriu os olhos e perguntou: “Qual é a resposta?”

Alguém disse: “Mas nós não temos a pergunta, como poderemos ter a resposta?”

Ela abriu os seus olhos, uma última vez e disse: “Ok, então qual é a pergunta?” e então morreu. Uma estranha última declaração.

É belíssimo descobrir as últimas palavras de poetas, pintores, dançarinos e cantores. Eles possuem algo tremendamente significativo dentro deles.

Primeiro ela perguntou: “Qual é a resposta?”… como se a pergunta não pudesse ser diferente para seres humanos diferentes. A pergunta precisa ser a mesma; não há necessidade de articulá-la. E ela estava com pressa, então ao invés de seguir o caminho apropriado – fazer a pergunta e então ouvir a resposta – ela simplesmente perguntou, “Qual é a resposta?”

Mas as pessoas não compreendem que cada ser humano está na mesma posição: a mesma pergunta é a pergunta de todos. Então alguma pessoa estúpida perguntou, “Mas nós não temos a pergunta, como poderemos ter a resposta?”

Parece lógico, mas não é: é simplesmente estúpido -e para uma pessoa morrendo… Mas a pobre mulher abriu seus olhos mais uma vez. Ela disse, “Ok, qual é a pergunta?” E então fez-se silêncio.

Ninguém conhece a pergunta, ninguém conhece a resposta. Na verdade não há nenhuma pergunta e não há nenhuma resposta; há somente um modo de viver em confusão, na mente. E lá há milhões de perguntas e milhões de respostas, e cada resposta acarreta em centenas de perguntas a mais, e não há fim para isso.

Mas há um outro modo de vida: viver em consciência – e aí não há resposta e não há pergunta.

Se eu estivesse presente quando Gertrude Stein estava morrendo diria a ela, “Este não é o momento para se incomodar com perguntas e respostas. Lembre-se de que não há pergunta e que não há resposta: a existência é totalmente silenciosa à respeito de perguntas e respostas. Ela não é uma aula de filosofia. Morra sem nenhuma pergunta e sem nenhuma resposta; simplesmente morra silenciosa, consciente e pacificamente.”

Do livro: The Path of the Mystic.

Você é realmente você mesmo?

Um texto de Osho, falando sobre as máscaras que usamos para esconder o nosso verdadeiro eu dos outros, e toda a infelicidade que essa atitude acarreta em nossas vidas.

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Querido Osho,
Quando estou só e leio seus livros ou ouço suas fitas, eu me sinto imensamente feliz, choro e danço sozinho. Mas eu não consigo expressar meus sentimentos na presença dos outros, embora eu queira muito fazer isso. Por favor, diga-me o que fazer.

“Kishor Bharti, este é um dos problemas humanos básicos, porque toda a nossa educação cria uma divisão na nossa própria mente. Você tem que mostrar uma face para a sociedade, para a multidão, para o mundo – ela não precisa ser a sua face verdadeira; na verdade ela não deve ser a sua face verdadeira. Você tem que mostrar a face que as pessoas gostam, que as pessoas apreciam, que seja aceitável para elas – para suas ideologias e suas tradições – e a sua face original, você tem que guardá-la para si mesmo.

Essa divisão o torna muito desconectado porque a maior parte do tempo você está na multidão, encontrando pessoas, se relacionando com pessoas – muito raramente você está só. Naturalmente, as máscaras se tornam muito mais parte de você do que a sua própria natureza.

E a sociedade cria um medo em todo mundo: o medo da rejeição, o medo de que alguém possa rir de você, o medo de perder a respeitabilidade, o medo do que as pessoas dirão. Você tem que se ajustar a todo tipo de pessoas cegas e inconscientes. Até agora, esta tem sido a nossa tradição básica em todo o mundo: não se permite a ninguém ser ele próprio. E é por causa disso que o problema surge – este é um problema de todo mundo.

Você está perguntando, ‘Quando estou só e leio seus livros ou ouço suas fitas, eu me sinto imensamente feliz, choro e danço sozinho. Mas eu não consigo expressar meus sentimentos na presença dos outros, embora eu queira muito fazer isso. Por favor, diga-me o que fazer’
No momento em que o outro está na sua frente, você está pouco preocupado consigo mesmo; você está mais preocupado é com a opinião que ele terá a seu respeito. Quando você está só no seu banheiro, você se torna quase igual a uma criança – algumas vezes você faz caretas diante do espelho. Mas se você de repente percebe que está sendo observado pelo buraco da fechadura, até mesmo por uma criancinha, imediatamente você muda: você volta novamente ao seu velho e comum ego – sério, sóbrio, como as pessoas esperam que você seja.

E a coisa mais incrível é que você tem medo daquelas pessoas e elas têm medo de você – todo mundo tem medo de todo mundo. Não se permite a ninguém seus sentimentos, sua realidade, sua autenticidade – mas todo mundo quer isso, porque é um ato muito suicida continuar reprimindo a sua face original.

Você não está vivendo; ao contrário, você está simplesmente representando. E porque todo mundo está observando, os seus prolongados séculos de inconsciência o puxam para trás: não se expresse, não saia das máscaras de sua personalidade. Todo mundo está se escondendo atrás de alguma coisa falsa – isso machuca.

Ser desonesto e hipócrita consigo mesmo é a pior punição que você pode se dar. E você não vai fazer algo prejudicial a quem quer que seja – você simplesmente quer chorar e suas lágrimas serão de alegria; você quer dançar e isto não é pecado, nem é crime. Você simplesmente quer compartilhar a sua felicidade – você está sendo generoso. Apesar disso, o medo é de que as pessoas possam não aceitar a sua felicidade. Alguém pode dizer que ela é falsa, que você está apenas representando, podem dizer que você está hipnotizado.

Uma coisa estranha é que se você está miserável, ninguém lhe diz coisa alguma, você está perfeitamente encaixado. Mas onde todo mundo é miserável, você fica fora de sintonia com a multidão se, de repente, começar a dançar.

Você quer expressar a sua alegria, mas não é corajoso o suficiente para estar só… Mas, na verdade, quem vai se importar? No máximo, talvez as pessoas pensem que você está um pouco maluco, e uma vez que elas aceitem que você está um pouco maluco, então não há do que ter medo.

O que há de errado em ser chamado de maluco? O mundo tem conhecido tantas pessoas malucas bonitas… Na verdade, todas as grandes pessoas no mundo têm sido um pouco malucas – malucas aos olhos da multidão.

Elas expressaram suas maluquices porque elas não eram miseráveis, eles não estavam na ansiedade, não tinham medo da morte, não se preocupavam com trivialidades. Elas estavam vivendo cada momento com totalidade e intensidade, e por causa dessa totalidade e intensidade, suas vidas se tornaram lindas flores – cheias de fragrância, amor, vida e riso.

Mas isto certamente machuca milhões de pessoas que estão ao seu redor. Elas não podem aceitar a idéia de que você alcançou alguma coisa que elas perderam. Elas tentarão de toda maneira tornar você miserável, para destruir a sua dança, para tirar a sua alegria – de modo que você possa voltar novamente ao rebanho.

É preciso reunir coragem. E se as pessoas disserem que você está maluco, curta a idéia. Diga a elas, ‘Vocês estão certos; neste mundo somente as pessoas malucas podem ser felizes e alegres. Eu escolhi a loucura com alegria, com felicidade, com dança; vocês têm escolhido a sanidade com miséria, angústia e inferno – nossas escolhas são diferentes. Seja são e permaneça miserável; mas deixe-me só na minha loucura. Não se sintam ofendidos; eu não estou me sentindo ofendido por vocês – tantas pessoas sãs no mundo e eu não estou me sentindo ofendido.’

Isto é apenas uma questão de pouco tempo. Uma vez que eles o aceitem como sendo maluco, logo deixarão de se procupar com você; então você poderá entrar na luz completa com seu ser original – você pode abandonar todas as suas falsidades.

Eu era um estudante da universidade… Eu não escolhi a universidade por ela em si, mas por causa de um professor que era muito vivo, muito cheio de amor e sem medo do mundo. Eu escolhi o professor e ele estava naquela universidade. Ele convidou-me a entrar na universidade em que ele lecionava… E ele disse que facilitaria tudo que fosse possível para mim.

Ele me amava imensamente porque todos os anos eu costumava ir àquela universidade para uma competição de debates entre universidades; por quatro anos consecutivos eu fui o vencedor. No primeiro ano ele era um dos juízes. Ele chamou-me de lado e disse, ‘Eu não posso dizer isto para as outras pessoas, mas eu também não consigo guardar só para mim. Eu só posso dizer isto para você: eu lhe dei a pontuação de noventa e nove por cento no debate, e eu sinto muito porque eu queria ter-lhe dado cem por cento. Mas, eu não tive coragem, porque as pessoas poderiam pensar que eu estava comprometido, que eu estava favorecendo. Eu fiquei com medo. Mas, perdoe-me por ter tirado um por cento da pontuação que era sua.’

Todo ano ele era um dos juízes e no quarto ano, quando eu me graduei, ele me convidou para entrar na universidade para minha pós-graduação. Eu lhe disse. ‘ Eu estou vindo aqui apenas por sua causa.’
No primeiro dia ele levou-me ao vice-reitor e no caminho me disse, ‘Não entre em qualquer discussão – porque este homem, o velho vice-reitor, é muito teimoso e é preciso ser muito diplomático com ele.’
Eu disse, ‘Você pode ser diplomático com ele, eu simplesmente vou ser eu mesmo.’
Ele disse, ‘O que você quer dizer?’

Eu disse, ‘Ser diplomático significa ser uma outra pessoa, diplomacia é um outro nome para hipocrisia. Seja você diplomático – eu simplesmente serei eu mesmo. E o pior que pode acontecer será, no máximo, ele não me garantir o dinheiro para os dois anos de estudo, e também pode não me garantir outras facilidades – mas só por tais facilidades, eu não posso ser desonesto comigo mesmo.’
Ele disse, ‘Pelo menos você pode permanecer em silêncio? Não dizer coisa alguma? Eu conversarei com ele no seu lugar.’

Eu disse, ‘Eu não posso prometer, pois se ele disser alguma coisa estúpida, eu não vou resistir à tentação de lhe dizer que ele é estúpido.’
Ele disse, ‘Eu nunca tinha notado que você é uma pessoa tão difícil.’
Eu disse, ‘É bom saber desde o início. Este é o primeiro dia; ainda há tempo: você pode simplesmente me dizer e eu vou embora.’

‘Não,’ ele disse, ‘vamos tentar.’ Ele levou-me ao vice-reitor.
Eu sempre vivi do meu próprio jeito, e o vice-reitor tinha sido professor em Oxford, viveu quase toda a sua vida na Inglaterra e quase se tornou um verdadeiro inglês. Ele disse algo a respeito da minha barba, que eu estava deixando crescer. ‘Por que você não faz a sua barba?’ Meu professor ficou com medo de que este fosse o começo do fim.

Eu disse, ‘Você está formulando uma pergunta errada; na verdade eu deveria lhe perguntar porque você faz a sua barba – porque eu não estou fazendo a minha crescer; ela cresce por si mesma. A sua pergunta é sem sentido – Você poderia me perguntar porque eu não cortei os meus dedos, ou perguntar alguma outra coisa. É natural que um homem deva ter a sua barba, você está sendo antinatural. Você tem que me responder – por que você faz a sua barba?’

Meu pobre professor, que estava sentado ao meu lado, começou a me cutucar com o cotovelo. Eu tive que lhe dizer, ‘Pare de me cutucar. Não me interessam todas as facilidades para as quais você me trouxe aqui diante do vice-reitor neste momento. Minha única preocupação é que ele deve aceitar que formulou uma pergunta errada.’

Por um momento, fez-se um grande silêncio e o velho homem disse, ‘Na verdade, você está logicamente correto. E neste momento eu não tenho resposta alguma, porque ninguém jamais questionou isso em minha vida. – eu nunca pensei a respeito.’

Eu lhe disse, ‘Esta é a sua barba e você a tem cortado e se barbeado talvez por cinqüenta anos, sem mesmo pensar sobre o que estava fazendo.’ Então eu disse, ‘OK, você pode ter o seu tempo. Eu virei aqui todos os dias, às onze horas, quando a secretaria abre; você poderá me encontrar em frente à secretaria. Você tem que encontrar uma resposta.’

Mas meu professor disse, ‘Nós não viemos aqui para discutir sobre barba! A questão aqui é o seu estudo complementar, a sua pós-graduação e ele é o homem que pode decidir’.

Eu disse, ‘Eu não estou preocupado com isso. Neste presente momento, a minha única preocupação é fazê-lo perceber que ele viveu uma vida inconsciente.’

O velho homem disse, ‘Da barba você chegou a ‘uma vida inconsciente’? Ele perguntou ao meu professor, ‘Quais são as exigências? Eu vou lhe garantir uma escolaridade por dois anos.’ Hospedagem gratuita, alimentação gratuita, ele assinou tudo e disse, ‘Só não fique parado diante da minha porta todos os dias! Se você precisar de alguma coisa simplesmente venha e me diga, eu prometo que não vou lhe perguntar nada – foi uma falha minha.’

Então eu disse, ‘Está decidido? Uma vez que você me formulou uma pergunta, aquilo se tornou a minha prioridade para aquele momento, qualquer coisa que eu tiver que sacrificar, eu sacrificarei.’

Ele disse, ‘Eu prometo e o seu professor é testemunha.’ Mas era difícil para ele – e seria difícil para qualquer um, porque eu costumava usar um robe sem botão algum, de modo que meu peito ficava exposto… E na vez seguinte, eu fui até ele porque eu queria permissão para levar tantos livros quanto eu quisesse da biblioteca para a minha sala, e a regra que era apenas um livro de cada vez não deveria ser aplicada a mim.

Ele disse, ‘Nós podemos conversar a respeito disso, mas onde estão os seus botões?’
Eu disse, ‘Você está procurando problemas; você se esqueceu de sua promessa. Na verdade, eu deveria perguntar novamente, por que num país quente como a Índia – e nós estamos no verão – você está transpirando e ainda está usando essa gola fechada e esse sobretudo? Eu não uso botões porque quero que meu peito receba a brisa fresca. Isto é algo errado?’

Ele disse, ‘Isto não é errado.’
Eu disse, ‘Algo imoral? Algo contra as regras da universidade?Por que você deveria se preocupar com isso? O peito é meu e eu quero que ele receba brisa, o tanto que for possível.
Ele disse, ‘Eu esqueci minha promessa. Você tem a permissão para levar quantos livros queira. Eu nem mesmo vou perguntar porque você quer tantos livros, pois eu não quero entrar em nenhuma discussão. Uma coisa está decidida: é melhor não discutir com você.’

A primeira reunião em que eu compareci, na qual ele iria falar, era no aniversário de Goutama Buda. Ele era um grande orador e também um bom ator. Quando ele estava falando sobre Goutama Buda, as lágrimas rolaram de seus olhos e ele disse, ‘Eu sempre senti que se eu vivesse no tempo de Goutama Buda, eu teria ido sentar-me aos seus pés para aprender a arte de alcançar mais consciência, de se tornar iluminado.’

Eu estava sentado no meio e me levantei. Quando me viu de pé, ele disse, ‘Eu disse algo errado?’
Eu disse, ‘Você não apenas disse algo errado, você está se comportando muito falsamente. Pelo menos diante de seus alunos você não deveria faltar com a sinceridade. O que você disse não tem significado para você, as suas lágrimas são falsas.’

Todos os professores da universidade estavam presentes assim como toda a comunidade de alunos. Todos ficaram chocados por eu ter dito ao vice-reitor, ‘Você faltou com a sinceridade.’
Eu disse, ‘Você já ouviu o nome Ramana Maharshi?’
Ele disse, ‘Sim, eu já ouvi.’

‘Você foi alguma vez sentar-se aos seus pés? – porque ele é do mesmo calibre e da mesma consciência que Goutama Buda. E eu posso dizer com autoridade que mesmo no tempo de Goutama Buda você não iria até ele. Este século também tem pessoas iluminadas. Você tem que retirar suas palavras.’
As pessoas costumavam achar que ele era uma pessoa muito teimosa… Mas talvez ele nunca tenha encontrado alguém tão autenticamente sincero que pudesse trazer ao público a sua face original. Ele chorou, suas lágrimas rolaram, e disse, ‘Talvez você esteja certo – eu não teria ido. Isto foi apenas uma retórica e nada mais; foram palavras sem significado. Em toda esta reunião talvez você seja a única pessoa que está ouvindo – não apenas as palavras, mas também o significado por trás delas.
‘Eu gostaria que você jantasse comigo hoje à noite, porque eu gostaria de discutir um pouco mais. Eu nunca encontrei alguém em toda a minha vida que trouxesse a minha face original diante da multidão. E algo é muito estranho – eu não fiquei bravo com você, eu simplesmente sinto uma tristeza profunda por mim mesmo. Por que eu não consigo ser verdadeiro? Jamais alguém mostrou isso a mim.’
Todas as pessoas no mundo querem ser verdadeiras, pois só por serem verdadeiras, isso já lhes traz muita alegria e uma abundância de felicidade. Por que alguém deveria ser falso? Você precisa ter coragem para chegar a um insight um pouco mais profundo: Por que você tem medo? O que o mundo pode fazer com você? As pessoas podem rir de você; isso fará bem para elas – rir é sempre medicinal, é saudável. As pessoas podem pensar que você é louco… Você não vai ficar louco só porque elas pensam que você está louco.

E se você é autêntico quanto à sua alegria, suas lágrimas, sua dança – mais cedo ou mais tarde aparecerão pessoas que compreenderão você, que poderão começar a se juntar à sua caravana. Eu mesmo comecei sozinho no caminho, e depois as pessoas foram chegando e isso se tornou uma caravana do tamanho do mundo. E eu não convidei ninguém; eu apenas fazia aquilo que sentia que estava vindo de meu coração.

A minha responsabilidade é com o meu coração, não com as outras pessoas no mundo. Assim, a sua responsabilidade é apenas com o seu próprio ser. Não vá contra ele, porque ir contra ele é cometer suicídio, é destruir a si próprio. E qual é o ganho? Mesmo se as pessoas lhe derem respeito e acharem que você é sóbrio, respeitável, honorável, essas coisas não irão nutrir o seu ser. Elas não irão lhe dar qualquer insight a mais sobre a vida e sua imensa beleza.

E, além disso, todo mundo está tão preocupado com seus próprios problemas, quem irá se procupar se você está rindo e dançando? Quem tem tempo para isto? É apenas a sua mente que está pensando que todo o mundo está pensando a seu respeito. A minha própria experiência é: todo mundo está muito cheio, muito preocupado com a correria de pensamentos sobre si mesmo, sua vida, seus problemas. Você acha que alguém tem tempo até mesmo para olhar para você ou pensar a seu respeito?

Um médico judeu para outro colega: ‘Ao longo de todo o dia, eu escuto histórias de dor e sofrimento: ‘Doutor, minhas costas… Doutor, meu estômago…Doutor, minha esposa.’ Eu lhe digo que isso é terrível. Diga-me, Sam, como você consegue aparentar serenidade depois de um dia escutando os problemas do mundo?’
O segundo médico: ‘Quem escuta?’

Você não deve se preocupar, de jeito algum. Todos estão preocupados com seu próprio mundo, eles não têm tempo nem energia para se preocupar com você. E mesmo se eles tiverem alguma opinião, isso é problema deles. Você está sozinho no mundo: sozinho você veio ao mundo, sozinho está aqui e sozinho deixará este mundo. Todas as opiniões deles ficarão para trás; somente os seus sentimentos originais, as suas experiências autênticas irão com você, mesmo depois da morte.

Nem mesmo a morte poderá lhe tirar a dança, as suas lágrimas de alegria, a sua pureza na solitude, o seu silêncio, a sua serenidade, o seu êxtase. Aquilo que a morte não pode tirar de você é o único tesouro verdadeiro; e aquilo que pode ser tirado pelas outras pessoas não é um tesouro, é apenas tolice.

Quantos milhões de pessoas viveram antes de você neste planeta? Você nem mesmo sabe o nome delas; se elas viveram ou não, não faz qualquer diferença. Existiram santos e pecadores, existiram pessoas muito respeitáveis e todo tipo de excêntricos e malucos, mas todos eles desapareceram – nem mesmo um rastro permaneceu sobre a terra.

A sua única preocupação deve ser em cuidar e proteger aquelas qualidades que você pode levar consigo quando a morte destruir o seu corpo e a sua mente, porque essas qualidades serão as suas únicas companhias. Elas são os únicos valores verdadeiros e as pessoas que as alcança – somente elas – vivem; as outras fingem que vivem.

Numa noite escura, a KGB bateu na porta do Yussel Finkelstein. Yussel abriu a porta. O homem da KGB bradou, ‘O Yussel Finkelstein vive aqui?’
‘Não,’ respondeu Yussel, de pé com seu pijama esfarrapado.
‘Não? Então qual é o seu nome?’
‘Yussel Finkelstein.’ O homem da KGB jogou-o ao chão e disse, ‘Você não disse que não vivia aqui?’
Yussel responde, ‘E você chama isso vida?’

Só viver nem sempre é viver. Olhe para a sua vida. Você pode dizer que ela é uma benção? Você pode dizer que ela é um presente da existência? Você gostaria que essa vida lhe fosse dada repetidas vezes? Ela está tão vazia. Por causa de seu vazio, as suas preces são vazias. Você não consegue preencher suas preces com gratidão. Gratidão, por que? Você nada mais está fazendo senão representando papéis em uma novela, você não está sendo você mesmo.

Eu me lembro… Uma mulher jovem e muito bonita foi ver o grande pintor Picasso. E lá ela viu uma fotografia de Picasso pendurada na parede. Ela lhe perguntou, ‘É sua a fotografia? Aquele é você?’
Picasso disse, ‘Não.’

A mulher disse, ‘Estranho. Parece exatamente como você. Você tem um irmão gêmeo? Ele é totalmente igual.’

Picasso disse, ‘Ele pode ser como eu, mas ele não está vivo. E se ele fosse eu, já teria saltado da moldura para lhe dar um beijo. Certamente não sou eu.’

Você é realmente você mesmo? Ou está apenas fingindo ser alguém que a multidão ao seu redor queria que você fosse?

Para mim, um buscador da verdade deveria começar por abandonar tudo o que é falso nele, porque o falso não pode buscar a verdade. O falso é a barreira entre você e a verdade. Se tudo o que é falso for abandonado, você não precisa buscar pela verdade – a verdade virá até você. Na verdade, quando eu digo, ‘A verdade virá até você’, isto são apenas palavras. Quando tudo o que é falso é abandonado, você é a verdade.

Nada vem e nada vai.
Não existe jornada.

OSHO – The Hidden Splendor – Cap. 15

Vivendo sem medo

Osho, sobre tudo o que fazemos ou deixamos de fazer, motivados pelo medo. Traduzido por mim.

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Vivendo sem medo

Eu sinto como se houvesse uma armadura ao meu redor, que me impede de me aproximar mais das pessoas. Eu não sei de onde ela vem. Como dissolvê-la?

Todo mundo tem esse tipo de armadura.

Há razões para isso. Primeiramente, a criança nasce tão completamente indefesa num mundo em que nada sabe. Naturalmente, ela tem medo do desconhecido que a cerca. Ela ainda não esqueceu aqueles nove meses de proteção, segurança absolutas, onde não havia problema, responsabilidade ou preocupação com o amanhã.

Para nós esses são apenas nove meses, mas para a criança são a eternidade. Ela não sabe nada do calendário, nem das horas, minutos, dias, meses. Ela viveu uma eternidade em absoluta segurança e proteção, sem nenhuma responsabilidade, e então subitamente é lançada a um mundo desconhecido, em que depende de tudo dos outros. É natural que ela sinta medo. Todos são maiores e mais poderosos, e ela não consegue viver sem a ajuda de outros. Ela sabe que é dependente; perdeu sua independência, sua liberdade. Pequenos incidentes podem ter dado a ela um gostinho da realidade que irá enfrentar no futuro.

Napoleão Bonaparte foi derrotado por Nelson, mas, de fato o crédito não deveria ir para Nelson. Napoleão Bonaparte foi derrotado por um pequeno incidente de sua infância. A História não olha para as coisas dessa maneira, mas para mim está absolutamente claro.

Quando ele tinha apenas seis meses de idade, um gato selvagem pulou nele. A criada que estava cuidando dele havia saído para fazer algo na casa; ele estava no jardim no ar fresco e sol da manhã, deitado, e o gato selvagem pulou em cima dele. O animal não o machucou – talvez estivesse apenas querendo brincar – mas para a mente da criança isso foi quase a morte. Desde então, ele não temia leões ou tigres, poderia lutar com um leão sem armas, sem medo. Mas um gato? Aí era um caso diferente. Ele era completamente indefeso. Ver um gato praticamente o congelava, ele se tornava novamente uma criança de seis meses, sem defesas, sem capacidade de lutar. Nos olhos daquela pequena criança aquele gato deve ter parecido muito grande; era um gato selvagem. O gato pode ter olhado nos olhos da criança.

Algo na sua psique ficou tão impressionado pelo incidente que Nelson o explorou. Nelson não se comparava a Napoleão, e Napoleão nunca foi derrotado em sua vida, esta havia sido sua primeira e última derrota. Ele não teria sido derrotado, mas Nelson trouxe setenta gatos para a linha de frente do exército.

No momento que Napoleão viu aqueles setenta gatos selvagens a sua mente parou de funcionar. Os seus generais não conseguiam entender o que havia acontecido. Ele não era mais o grande guerreiro; estava praticamente congelado de medo, tremendo.  Ele nunca havia permitido que nenhum de seus generais organizasse o exército, mas hoje ele disse, com lágrimas nos olhos, “Eu não consigo pensar – vocês organizem o meu exército. Eu estarei aqui, mas sou incapaz de lutar. Alguma coisa deu de errado para mim.”

Ele foi afastado, mas sem Napoleão seu exército não tinha capacidade para lutar contra Nelson, e vendo a situação de Napoleão, todos de suas tropas começaram a ficar com um pouco de medo: alguma coisa muito estranha estava acontecendo.

Uma criança é fraca, vulnerável, insegura. Autonomamente ela começa a criar uma armadura, uma proteção, em diferentes formas. Por exemplo, ela tem que dormir sozinha. Está escuro e ela está com medo, mas ela tem seu ursinho de pelúcia, e acredita que não está sozinho, que seu amigo está ali. Você vai ver crianças arrastando seus ursinhos em aeroportos, em metrôs. Você pensa que é somente um brinquedo? Para você é, mas para a criança é um amigo. E é um amigo quando ninguém mais é útil – na escuridão da noite, sozinha na cama, ainda assim ele está com ela. Ela irá criar ursinhos de pelúcia psicológicos.

É preciso lembrá-lo que apesar de um homem crescido achar que não tem ursinhos de pelúcia, ele está errado. O que é o seu Deus?  Somente um ursinho. Partindo de seu medo de infância o homem criou uma figura paternal que sabe tudo, que é tudo – poderoso, que está presente em qualquer lugar; se você tiver fé suficiente nele ele irá protegê-lo. Mas a própria idéia de proteção, a própria idéia de que um protetor é necessário, é infantil. Então você aprende a rezar; estas são somente partes da sua armadura psicológica. Prece é para lembrar a Deus que você está aqui, sozinho no escuro.

Na minha infância eu estava sempre me perguntando… Eu amava o rio, que era ali perto, a somente dois minutos de caminhada da minha casa. Centenas de pessoas costumavam tomar banho ali, e eu estava sempre me perguntando… No verão quando mergulhavam no rio não repetiam o nome de Deus – “Hare Krishna, Hare Rama”. Ele não cria ursinhos de pelúcia. Mas no frio do inverno eles repetem “Hare Krishna, Hare Rama”. Dão um rápido mergulho, repetindo “Hare Krishna, Hare Rama”.

Eu me perguntava, a estação faz diferença? Eu costumava perguntar aos meus pais, “Se esses são devotos de ‘Hare Krishna Hare Rama’, então o verão é tão bom quanto o inverno”.

Mas eu não acho que seja Deus, a prece ou a religião: é somente o frio! Eles estão criando armaduras com “Hare Krishna Hare Rama”. Estão divertindo suas mentes. É muito frio e uma diversão é necessária – e isso ajuda. No verão não há necessidade; eles simplesmente esquecem tudo o que estavam fazendo durante todo o inverno.

Nossas preces, nossos cânticos, nossos mantras, nossas escrituras, nossos deuses, nossos sacerdotes, são todos partes de nossa armadura psicológica. É muito sutil. Um cristão acredita que será salvo – e mais ninguém. Esse é o seu sistema de defesa. Todo mundo irá cair no inferno, exceto ele, porque ele é cristão. Mas todas as religiões acreditam da mesma maneira, que só eles irão ser salvos.

Não é uma questão de religião. É uma questão de medo e de ser salvo do medo, então é natural de certa maneira. Mas em um certo ponto de sua maturidade, a inteligência demanda que isso precisa ser largado. Era bom quando você era criança, mas um dia você precisa abandonar o seu ursinho, da mesma maneira que um dia você terá que abandonar o seu Deus, da mesma forma que você terá que abandonar um dia o seu cristianismo, o seu hinduísmo. Finalmente, o dia que você soltar todas as suas armaduras significará que você largou a vida de medo.

E que tipo de vida pode ser vivida fora do medo? Uma vez que armadura é solta você pode viver a partir do amor, você pode viver de uma maneira madura. O homem totalmente maduro não tem medo, não tem defesa; ele é psicologicamente completamente aberto e vulnerável.

Em um certo ponto a armadura pode ser uma necessidade… talvez seja. Mas conforme você cresce, se você não estiver somente envelhecendo mas também crescendo, crescendo em maturidade, então você começará a perceber o que está carregando consigo. Por que você acredita em Deus? Um dia você terá que ver por si mesmo que nunca viu Deus, que nunca teve nenhum contato com Deus, e acreditar em Deus é viver uma mentira: você não está sendo sincero.

Que tipo de religião pode existir quando não há sinceridade, não há autenticidade? Você sequer pode dar razões para as suas crenças, mas continua se apegando a elas.

Olhe com mais atenção e você verá medo por trás delas.

Uma pessoa madura deve se desconectar de qualquer coisa que a conecte com o medo. É desse modo que a maturidade surge.

Apenas observe todos os seus atos, todas as suas crenças, e descubra onde eles realmente se fundamentam, se na realidade, experiência ou no medo. E qualquer coisa baseada no medo deve ser largada imediatamente, sem pensar duas vezes. É a sua armadura. Eu não posso dissolvê-la. Eu apenas posso mostrar como você pode largá-la.

Nós continuamos vivendo a partir do medo – e é por isso que continuamos a envenenar qualquer outra experiência. Nós amamos alguém, mas a partir do medo: ele estraga, envenena. Nós procuramos a verdade, mas se a busca vem do medo então você não irá encontrá-la.

Qualquer coisa que faça, lembre-se do seguinte: pelo medo você não irá crescer. Você somente irá diminuir e morrer. O medo está a serviço da morte.

Mahavira está certo: ele tornou a falta de medo um fundamento da pessoa destemida. E eu entendo o que ele quer dizer com destemido. Ele quer dizer largar todas as armaduras. Uma pessoa destemida tem tudo que a vida dá como um presente. Aqui não há barreira. Você será coberto de presentes, e seja o que fizer, você terá a força, o poder, a certeza, um sentimento tremendo de autoridade.

Um homem vivendo pelo medo está sempre tremendo por dentro. Ele está continuamente a ponto de ficar louco, porque a vida é grande, e se você está continuamente com medo… E há todo tipo de medo. Você pode fazer uma lista grande e irá se surpreender com quantos medos há ali – e você ainda assim está vivo! Há infecções por todos os lados, doenças, perigos, seqüestros, terroristas… e uma vida tão pequena. E finalmente há a morte, que você não pode evitar. A sua vida inteira se tornará escura.

Abandone o medo! O medo foi colocado em você pelo seu inconsciente infantil; agora o consciente abandona isso e se torna maduro. E então a vida pode ser uma luz que vai se aprofundando, conforme você vai crescendo.


Beyond Psychology

LIVRO RECOMENDADO:

Maturidade: a Responsabilidade de Ser Você Mesmo

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Semelhante atrai Semelhante

Um excelente texto de Osho, sobre amor e atração x solidão. Traduzido por mim.

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Semelhante atrai Semelhante

Somente uma pessoa amorosa – alguém que já esteja amando – pode encontrar o(a) companheiro(a) certo.

Esta é a minha observação: se você é infeliz, encontrará alguém que também é infeliz. Pessoas infelizes são atraídas por pessoas infelizes. E isso é bom, é natural. É bom que as pessoas infelizes não se atraiam por pessoas felizes; caso contrário iriam destruir sua felicidade. É perfeitamente certo.

Somente pessoas felizes se atraem por pessoas felizes.

O igual atrai o igual. Pessoas inteligentes são atraídas por pessoas inteligentes; pessoas estúpidas são atraídas por pessoas estúpidas.

Você conhece pessoas do mesmo plano. Então, a primeira coisa a lembrar é: um relacionamento está destinado a ser amargo quando nasce da infelicidade. Seja primeiro feliz, alegre, celebrante, e então você encontrará uma outra alma celebrante, e aí será um encontro de duas almas dançantes e uma grande dança nascerá dali.

Não peça por um relacionamento a partir da solidão, não. Dessa forma você estará se movendo na direção errada. Desse jeito o outro será utilizado como um meio e o outro utilizará você como um meio. E ninguém quer ser usado como um meio! Cada indivíduo é um fim em si mesmo. É imoral utilizar qualquer pessoa como um meio.

Primeiro aprenda a ser sozinho. A meditação é um meio de ficar sozinho.

Se você consegue ser feliz enquanto está sozinho, você aprendeu o segredo de ser feliz. Agora você pode ser feliz com alguém. Se você é feliz, então tem algo a compartilhar, a dar. E quando você dá, você ganha; e não o contrário. Então, nasce um desejo de amar alguém.

Ordinariamente, a necessidade é a de ser amado por alguém. É uma necessidade errada. É uma necessidade infantil; você não é maduro. É uma atitude de criança.

Uma criança nasce. É claro, a criança não pode amar a mãe; ela não sabe ainda o que é o amor e ela não sabe quem é a mãe e quem é o pai. Ela é totalmente impotente. O seu ser ainda precisa ser integrado. Ela não é um inteiro; não está junta ainda. Ela é somente uma possibilidade. A mãe precisa amar, o pai precisa amar, a família precisa regar a criança com amor. Dessa forma ela aprende uma coisa: todo mundo tem que amá-la. Ela nunca aprende que ela tem que amar. Então a criança irá crescer, e se ela permanecer presa a essa atitude de que todo mundo tem que amá-la, ela irá sofrer por toda a vida. O seu corpo terá crescido, mas a sua mente terá permanecido imatura.

Uma pessoa amadurecida é aquela que conhece a outra necessidade: a de que agora eu tenho que amar alguém.

A necessidade de ser amado é infantil, imatura. A necessidade de amar é madura.

E quando você está pronto para amar alguém, um belo relacionamento irá crescer daí, de outra maneira, não.

É possível que duas pessoas em um relacionamento sejam más uma com a outra?” Sim, isso é o que está acontecendo no mundo todo. Ser bom é muito difícil. Você não é bom nem consigo mesmo. Como você pode ser bom para outra pessoa?

Você sequer ama a si mesmo! Como poderá amar alguém? Ame a si mesmo, seja bom para consigo.

Os seus chamados santos religiosos têm ensinado que nunca se deve amar a si, nunca ser bom para si mesmo. Seja duro com você! Eles têm ensinado que você deve ser agradável com os outros e duro consigo. Isso é absurdo.

Eu ensino que a primeira e mais importante coisa a fazer é ser amoroso com você mesmo. Não seja duro; seja suave. Preocupe-se consigo. Aprenda a se perdoar – mais e mais e mais uma vez – sete vezes, setenta e sete vezes, setecentas e setenta e sete vezes. Aprenda como se perdoar. Não seja duro; não seja hostil em relação a si mesmo. E então você irá florescer.

Nesse florescimento você irá atrair uma outra flor. Isso é natural. Pedras atraem pedras; flores atraem flores. Então haverá um relacionamento em que há graça, há beleza, em que há uma benção. Se você conseguir encontrar um relacionamento assim, o seu relacionamento crescerá em uma prece; o seu amor se tornará um êxtase e pelo amor você saberá o que é o divino.

Quem é você?

Osho, falando sobre tudo o que acreditamos “ser”.

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QUEM É VOCÊ?

A mente é passado, é memória, todas as experiências acumuladas, num certo sentido. Tudo o que você já fez, tudo o que já pensou, tudo o que já desejou, tudo o que já sonhou – tudo, seu passado inteiro, sua memória – mente é memória. E, a menos que se livre da memória, você não conseguirá dominar a mente.

Como se livrar da memória? Ela está sempre ali, seguindo você. Na verdade, você é a memória, então como se livrar dela? Quem é você sem as suas lembranças? Quando eu pergunto “Quem é você?”, você me diz seu nome – isso é uma lembrança. Seus pais lhe deram um nome um tempo atrás. Eu pergunto “Quem é você?”  e você me fala de sua família, do seu pai, da sua mãe – isso é uma lembrança. Eu pergunto “Quem é você?” e você me conta o que estudou, seu nível de instrução, que fez mestrado em Artes ou que tem doutorado ou que é engenheiro ou arquiteto. Isso é uma lembrança.

Quando eu pergunto “Quem é você?”, se você de fato olhar para dentro, só terá uma resposta: “Não sei”. Tudo o que disser será apenas uma lembrança, não você de verdade. A única resposta verdadeira, autêntica, só pode ser “Não sei”, pois conhecer a si próprio é a última coisa que você faz. Eu posso dizer quem sou, mas não digo. Você não pode dizer quem é, mas se apressa em dar a resposta. Aqueles que sabem quem são guardam silêncio sobre isso. Pois, se toda a memória for descartada e toda a linguagem for descartada, então quem eu sou não pode ser dito. Eu posso olhar dentro de você, posso dar a você um gesto; posso ficar com você, com todo o meu ser – essa é a minha resposta.

Mas a resposta não pode ser expressa em palavras, pois tudo que é expresso em palavras faz parte da memória, da mente, não da consciência.

Como se livrar das lembranças? Observe-as, testemunhe-as. E lembre-se sempre: “Isso aconteceu comigo, mas isso não sou eu.” É claro que você nasceu numa determinada família, mas isso não é você; aconteceu com você, é um acontecimento externo a você. Alguém lhe deu um nome; você o tem usado, mas ele não é você. É claro que você tem uma forma, mas a forma não é você; ela é só a casa em que por acaso você está. A forma é só o corpo em que por acaso você está. E o corpo lhe foi dado por seus pais – é uma dádiva, mas não é você.

Observe e tenha discernimento. Isso é o que no Oriente chamam de vivek, discernimento - você usa o tempo todo a sua capacidade de discernir. Continue fazendo isso – chegará um momento em que você terá eliminado tudo o que não é você. De repente, nesse estado, você se olha pela primeira vez e encontra seu próprio ser. Continue jogando fora todas as identidades que não são você – a família, o corpo, a mente. Nesse vazio, quando tiver jogado fora tudo o que não for você, de repente seu ser vem à tona. Pela primeira vez você encontra si mesmo, e esse encontro passa a ser o domínio.

Livro: Consciência – A Chave para Viver em Equilíbrio – Osho.

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