A Necessidade de Aprovação e Reconhecimento

Para fechar este ano com chave de ouro, um texto de Osho, em que ele fala da louca necessidade que as pessoas têm por reconhecimento, reconhecimento esse que acaba sendo mais importante do que o amor pelo trabalho em si, ou do que a realização pessoal. Por que precisamos tanto de reconhecimento? Por que só nos motivamos a buscar um objetivo pensando em como seremos admirados ou premiados por ele? A maior parte das pessoas só se esforça verdadeiramente em um trabalho, quando têm a esperança de um reconhecimento. Isso, evidentemente, quando não escolhem um determinado trabalho só pela possibilidade de admiração que possam obter com ele. É o caso do jovem que tem um talento incrível na cozinha, mas que larga a alegria de cozinhar para se tornar advogado, e com isso ser mais “respeitado”. Ou pior, com a desculpa de “ganhar mais dinheiro”. Ou da moça que gostaria de dar aulas, mas os pais e familiares sempre sonharam que ela deveria ser médica, e ela acaba por ingressar em medicina. Coisas que acontecem todos os dias, em todos os lugares.

Por que procuramos tão desesperadamente pela aprovação dos outros? Será que todo mundo realmente sabe o que é melhor para você?  Quando alguém insiste que sua vida deveria de ser de uma maneira e não de outra, ou que você será mais respeitado ou admirado sendo de um jeito e não do seu jeito, pare para observar se essa pessoa é realmente alguém que você poderia considerar “realizado” ou “feliz”. Pois só tenta convencer quem não está convencido. O fato de uma pessoa tentar te convencer a algo que você não sente como sendo o ideal para você, significa que esta pessoa quer que você acredite no que ela diz para que assim ela mesma possa acreditar. A sua crença na ilusão criada (ou alimentada) por ela, faz com que esta mesma ilusão pareça mais verdadeira ou realista do que realmente é. Uma mentira, quando contada muitas vezes, acaba se tornando verdade, não é? Por isso que é tão difícil quebrar com uma tradição. Por mais ultrapassada, obsoleta ou inútil que seja, ela é importante pelo simples poder da repetição e da crença cega. É a história de que ter uma formação acadêmica garante um futuro melhor (lembre-se que a maior parte das pessoas consideradas ricas não possuem diploma de ensino superior!), ou que “um bom partido” (para casar!) é aquele que tem dinheiro, ou “status”… E quantas pessoas destróem suas vidas, apagam suas potencialidades e se limitam por causa dessas idéias, porque pensam que agindo em conformidade com elas serão felizes e farão felizes as pessoas de sua família e convívio social… É a loucura do reconhecimento: é impossível agradar todo mundo, e quando se tenta, acaba desagradando mais ainda a todos e pior, a si mesmo.

Que as palavras de Osho sirvam como reflexão e renovação de promessas (desta vez voltadas para a sua verdadeira felicidade interior) para este novo ano, que em breve se iniciará! Um excelente  2009 para todos os leitores do Inconsciente Coletivo! :-)

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Querido Osho,

Por que sinto necessidade de obter aprovação e de ser reconhecido, especialmente em meu trabalho? Isso me coloca numa armadilha – eu não consigo fazer as coisas sem isso. Eu sei que estou nessa armadilha, mas eu fui pego nela e não vejo como sair.

Você poderia me ajudar a encontrar a porta?

“A questão é do Kendra.

É preciso lembrar que a necessidade de obter aprovação e de ser reconhecido é uma questão que diz respeito a todo mundo. A estrutura de toda a nossa vida é essa que nos foi ensinada: a menos que exista um reconhecimento, nós somos ninguém, nós não temos valor. O trabalho não é o importante, mas sim o reconhecimento. E isso coloca as coisas de cabeça para baixo. O trabalho deveria ser o importante – uma alegria em si mesmo. Você deveria trabalhar, não para ser reconhecido, mas porque você curte ser criativo, você ama o trabalho em si mesmo.

Existiram poucas pessoas como Vincent Van Gogh, capazes de escapar da armadilha que a sociedade lhes impingiu. Ele continuou pintando – com fome, sem casa, sem agasalhos, sem remédios, doente – mas ele continuou pintando. Nem uma pintura sequer estava sendo vendida, não havia reconhecimento de parte alguma, mas o estranho era que em tais condições ele ainda era feliz – feliz porque era capaz de pintar o que queria pintar. Reconhecido ou não, o seu trabalho era intrinsecamente valioso.

Aos trinta e três anos ele cometeu suicídio – não por causa de alguma miséria ou angústia, mas simplesmente porque ele havia pintado o seu último quadro, um pôr-do-sol, no qual havia trabalhado por quase um ano. Ele tentou dezenas de vezes e destruiu, porque não havia atingido aquele seu padrão. Finalmente ele conseguiu pintar o pôr-do-sol da maneira como desejava.

Ele cometeu suicídio escrevendo uma carta para seu irmão, ‘Eu não estou cometendo suicídio por desespero. Eu estou cometendo suicídio por não mais existir qualquer motivo para continuar vivendo – o meu trabalho está concluído. Além disso, tem sido difícil encontrar alternativas para meu sustento. Até aqui as coisas estavam indo bem, porque eu tinha algum trabalho para fazer, algum potencial dentro de mim precisava se exteriorizar, tinha que florescer. De modo que agora, não há sentido em viver como um mendigo. Eu ainda não tinha pensado e nem mesmo tinha olhado para isso, mas agora essa é a única coisa a ser feita. Eu floresci até o meu limite máximo, eu estou realizado, e agora parece ser apenas uma estupidez ficar me arrastando, procurando alternativas de sustento. Por que razão? Para mim isso não é um suicídio; eu apenas cheguei a uma realização, a um ponto final e alegremente estou deixando o mundo. Alegremente eu vivi e alegremente estou deixando o mundo.’

Agora, após quase um século, cada uma de suas pinturas vale milhões de dólares. Existem apenas duzentas pinturas disponíveis. Ele deve ter pintado milhares, mas elas foram destruídas; e ninguém prestou atenção nelas.

Agora, ter um quadro de Van Gogh significa que você tem um senso estético. O quadro dele traz um reconhecimento para você. O mundo não deu qualquer reconhecimento ao trabalho dele, mas ele nunca se preocupou com isso. E esta deve ser a maneira de ver as coisas: você deve trabalhar se amar aquele trabalho.

Não peça reconhecimento. Se ele vier, aceite-o tranqüilamente; se ele não vier não pense a respeito. A sua realização deve estar no próprio trabalho. E se todos aprendessem esta simples arte de amar o seu trabalho, seja qual ele for, curtindo-o sem pedir por qualquer reconhecimento, nós teríamos um mundo mais belo e mais celebrante. Do jeito que o mundo é, vocês têm estado presos num padrão miserável. O que você faz é bom, não porque você ama fazê-lo, não porque você o faz perfeitamente, mas porque o mundo o reconhece, lhe dá uma premiação, lhe dá medalhas de ouro, prêmios Nobel.

Eles têm tirado todo o valor intrínseco da criatividade e destruído milhões de pessoas – pois você não pode dar prêmios Nobel a milhões de pessoas. E têm criado o desejo por reconhecimento em todo mundo, de modo que ninguém consegue trabalhar em paz, curtindo qualquer coisa que esteja fazendo. E a vida consiste em pequenas coisas. Para as pequenas coisas não existem premiações, nenhum título concedido pelos governos, nenhuma graduação honorária dada pelas universidades.

Um dos grandes poetas do século XX, Rabindranath Tagore, viveu em Bengala, Índia. Ele publicou suas poesias e seus romances em bengali – mas não recebeu qualquer reconhecimento. Então ele traduziu um pequeno livro, GITANJALI, Oferta de Canções, para o inglês. E ele estava consciente de que o original tinha uma beleza que a tradução não tinha e não conseguiria ter – porque essas duas línguas, o bengali e o inglês têm estruturas diferentes, maneiras diferentes de expressar.

O bengali é muito doce. Mesmo se estiver brigando, vai parecer que você está envolvido numa conversação agradável. É uma linguagem muito musical, cada palavra é musical. Essa qualidade não existe no inglês, não pode ser trazida para ele. O inglês tem qualidades diferentes. Mas de alguma maneira ele conseguiu traduzir e a tradução – que é pobre comparada com o original – recebeu o prêmio Nobel. Então, de repente, toda a Índia ficou sabendo. O livro esteve disponível em bengali e em outros idiomas indianos por anos, e ninguém prestava atenção nele.

Todas as universidades quiseram lhe dar um título de Doutor. Calcutá, onde ele vivia, foi a primeira universidade a lhe conceder o título de Doctor of Letters. Ele recusou, dizendo, ‘Vocês não estão dando uma graduação a mim nem estão reconhecendo o meu trabalho, vocês estão dando reconhecimento ao prêmio Nobel, porque o livro esteve aqui de uma forma muito mais bela e ninguém se preocupou em escrever ao menos uma crítica’. Ele recusou-se a receber qualquer doutorado honorário. Ele dizia, ‘Isso é um insulto para mim’.

Jean-Paul Sartre, um dos grandes romancistas e homem de tremendo insight sobre a psicologia humana, recusou o prêmio Nobel. Ele disse, ‘Eu recebi recompensa suficiente enquanto estava criando o meu trabalho. Um prêmio Nobel não consegue acrescentar coisa alguma a isso – ao contrário, ele me joga para baixo. Ele é bom para amadores que estão em busca de reconhecimento, eu já sou bastante velho, eu já desfrutei o suficiente. Eu amei tudo o que fiz. Essa foi a minha própria recompensa, eu não quero qualquer outra recompensa, porque nada pode ser melhor do que aquilo que eu já recebi.’ E ele estava certo. Mas as pessoas certas são poucas no mundo. O mundo está cheio de pessoas vivendo dentro das armadilhas.

Por que você deve se preocupar com reconhecimento? Preocupação com reconhecimento somente faz sentido se você não ama o seu trabalho, nesse caso ele não tem significado, então o reconhecimento parece ser um substituto. Você detesta o trabalho, não gosta dele, mas você o faz porque será reconhecido, será apreciado e aceito. Ao invés de pensar no reconhecimento, reconsidere o seu trabalho. Você gosta dele? – então ponto final. Se você não gosta, então, troque-o!

Os pais e os professores estão sempre reforçando que você deve ser reconhecido, que deve ser aceito. Esta é uma estratégia muito esperta para manter as pessoas sob controle.

Quando eu cursava a universidade, me disseram repetidas vezes, ‘Você deve parar de fazer essas coisas… Você continua formulando perguntas que sabe perfeitamente bem que não podem ser respondidas e que colocam o professor numa situação embaraçosa. Você tem que parar com isso, caso contrário essas pessoas irão se vingar. Elas têm o poder e poderão reprová-lo.’

Eu dizia, ‘Não me preocupo com isso. Neste momento eu estou curtindo formular perguntas e fazê-los sentirem-se ignorantes. Eles não são corajosos o bastante para simplesmente dizer, ‘Eu não sei.’ Desse modo, não haveria qualquer embaraço. Mas eles querem fingir que sabem tudo. Eu estou curtindo isso; a minha inteligência está sendo aguçada. Quem se preocupa com exames? Eles poderão me reprovar apenas quando eu aparecer nos exames – e quem vai aparecer? Se eles estiverem com essa idéia de que podem me reprovar, eu não entrarei nos exames, e repetirei a mesma série. Eles terão que me aprovar pelo simples medo de ter que me encarar por mais um ano novamente.’

Todos eles me aprovaram e me ajudaram a passar porque queriam ficar livres de mim. Aos olhos deles, eu estava destruindo os outros estudantes, porque eles começaram a questionar coisas que, por séculos, eram aceitas sem questionamentos.

Quando eu estava ensinando na universidade, a mesma coisa aconteceu, sob um ângulo diferente. Agora eu estava formulando perguntas aos estudantes para trazer a atenção deles ao fato de que todo o conhecimento que eles tinham acumulado era emprestado e que eles nada sabiam. Eu lhes dizia que não me importava com a graduação deles, eu me importava com a experiência autêntica deles – e eles não tinham nenhuma. Eles estavam simplesmente repetindo os livros, que estavam desatualizados, que já tinha sido provado que estavam errados há muito tempo. Agora as autoridades da universidade estavam ameaçando-me, ‘Se você continuar por esse caminho, atormentando os alunos, você será colocado para fora da universidade.’

Eu disse, ‘Isso é estranho – eu era um estudante e não podia formular perguntas aos professores; agora eu sou um professor e não posso formular perguntas aos estudantes! Então, qual função esta universidade está preenchendo? Este deve ser um lugar onde as perguntas são formuladas, onde os questionamentos começam. As respostas devem ser encontradas na vida e na existência, não nos livros.

Eu disse, ‘Vocês podem me colocar para fora da universidade, mas lembrem-se, estes mesmos estudantes, em nome de quem vocês estão me colocando para fora, irão reduzir a cinzas toda a universidade. Eu disse ao vice-reitor, ‘Você deve vir e ver a minha sala’.

Ele não conseguiu acreditar – na minha sala havia pelo menos duzentos estudantes… E não havia espaço, de modo que eles sentavam em qualquer lugar que encontrassem – nas janelas, no chão. Ele disse, ‘O que está acontecendo, pois tem apenas dez alunos matriculados na sua matéria?’

Eu disse, ‘Essas pessoas vêm para ouvir. Elas abandonam as suas aulas e adoram estar aqui. Esta aula é um diálogo. Eu não sou superior a eles e eu não posso recusar ninguém que queira vir à minha aula. Se ele é meu aluno ou não, não importa, se ele vem me ouvir, então é meu aluno. Na verdade, você deveria me permitir utilizar o auditório. Estas salas de aula são muito pequenas para mim.’

Ele disse, “Auditório? Você quer dizer, toda a universidade reunida no auditório? O que, então, os outros professores estarão fazendo?’

Eu disse, ‘Isso é bom para eles pensarem a respeito. Eles deveriam ir embora e se enforcar! Eles deveriam ter feito isso há muito tempo. Ao ver que seus alunos não estavam indo assistir suas aulas, isso já era uma indicação suficiente.’

Os professores ficaram com raiva e as autoridades também. Finalmente eles tiveram que me ceder o auditório, mas com muita relutância, porque os alunos ficaram pressionando. Mas eles disseram, ‘Isto é estranho, alunos que nada têm a ver com filosofia, religião ou psicologia, por que eles devem estar indo lá?’

Muitos alunos disseram ao vice-reitor, ‘Nós gostamos disso. Não sabíamos que filosofia, religião e psicologia poderiam ser tão interessantes, tão intrigantes, senão já teríamos nos inscrito nelas. Nós pensávamos que essas matérias eram secas e que somente um tipo de pessoas muito ligado a livros se inscreveria nelas. Nós nunca tínhamos visto pessoas com muita energia se inscrevendo nessas matérias. Mas esse homem fez com que essas matérias ficassem tão significantes que parece que mesmo se formos reprovados em nossas próprias matérias, isso não vai importar. O que nós estamos fazendo está tão correto e está tão claro para nós, que nem pensamos em mudar isso.’

Contra o reconhecimento, contra a aceitação, contra as graduações… Mas, finalmente eu tive que deixar a universidade, não por causa de suas ameaças, mas porque eu reconheci que aquilo era um desperdício, pois milhares de estudantes poderiam ser ajudados por mim. Eu poderia ajudar milhões de pessoas do lado de fora, no mundo. Por que eu deveria permanecer apegado a uma pequena universidade? O mundo inteiro poderia ser a minha universidade.

E você pode ver. Eu fui condenado.
Esse foi o único reconhecimento que eu recebi.

Eu fui descrito de maneira totalmente incorreta. Tudo o que pode ser dito contra uma pessoa, foi dito contra mim; tudo o que pode ser feito contra um homem foi feito contra mim. Você acha que isso é reconhecimento? Mas eu amo o meu trabalho. Eu o amo tanto que nem mesmo o chamo de trabalho; eu simplesmente o chamo de minha alegria.

E todas as pessoas mais velhas, bem reconhecidas, me diziam, ‘O que você está fazendo não irá lhe trazer qualquer respeitabilidade no mundo.’

Mas eu dizia, ‘Eu nunca pedi por isso e não vejo o que poderei fazer com a respeitabilidade. Eu não posso comê-la nem bebê-la.’

Aprenda uma coisa básica. Faça o que você quer fazer, o que ama fazer, e nunca peça por reconhecimento. Isso é mendicância. Por que alguém deve pedir por reconhecimento? Por que alguém deve ansiar por aceitação?

Olhe no fundo de si mesmo. Talvez você não goste do que está fazendo, talvez você tenha medo de encarar que está no caminho errado. A aceitação irá ajudá-lo a achar que está certo. O reconhecimento irá fazê-lo achar que está indo para o objetivo correto.

A questão diz respeito aos seus próprios sentimentos internos, ela nada tem a ver com o mundo externo. Por que depender dos outros? Todas essas coisas dependem dos outros – você está se tornando dependente.

Eu não aceitarei qualquer prêmio Nobel. Toda essa condenação de todas as nações ao redor do mundo, de todas as religiões, é mais valiosa para mim. Aceitar o prêmio Nobel significa que eu estou me tornando dependente – agora eu não estarei mais satisfeito comigo mesmo, mas sim com o prêmio Nobel. Neste exato momento eu só posso estar satisfeito comigo mesmo, nada mais existe com que eu possa me satisfazer.

Dessa maneira você se torna um indivíduo. Para ser um indivíduo, viva em total liberdade, apoiado em seus próprios pés, beba a sua própria fonte. Isso é o que torna um homem verdadeiramente centrado, enraizado. Este é o início do seu florescimento supremo.

Essas pessoas tidas como reconhecidas, honradas, estão cheias de lixo e de nada mais. Mas elas estão cheias do lixo que a sociedade quer que elas estejam repletas – e a sociedade as compensa lhes dando premiações.

Qualquer homem, que tem algum senso de sua individualidade, vive pelo seu próprio amor, pelo seu próprio trabalho, sem se preocupar com o que os outros pensam a respeito. Quanto mais valioso for o seu trabalho, menor será a chance de obter alguma respeitabilidade para com ele. E se o seu trabalho for o trabalho de um gênio, então você não verá nenhum respeito enquanto viver. Você será condenado enquanto viver… Depois de dois ou três séculos, erguerão estátuas para você, os seus livros serão respeitados – porque demora quase dois ou três séculos para a humanidade compreender o tamanho da inteligência que um gênio tem hoje. O espaço de tempo é grande.

Sendo respeitado por idiotas, você terá que se comportar de acordo com suas maneiras e expectativas. Para ser respeitado por essa humanidade doente, você terá que ser mais doente que ela. Então eles irão respeitá-lo. Mas, o que você irá ganhar? Você perderá a sua alma e nada ganhará.

É preciso coragem para ser feliz…

“Siga a sua felicidade e o Universo irá abrir portas para você onde antes só haviam paredes.”

Joseph Campbell

Neste texto de Osho, ele fala como nos esforçamos para manter a nossa infelicidade e como somos covardes frente à mudança que pode nos trazer a felicidade. Em outros posts, eu havia trago outros trechos dos discursos de Osho, sobre como as pessoas utilizam a própria infelicidade para serem mais aceitas pelos outros (A sua felicidade incomoda todo mundo). Parece que quando somos miseráveis (não só no sentido financeiro) os outros nos tratam melhor.  Conheço pessoas que são doentes “crônicos”, não porque realmente há algo de errado com sua saúde ou seu corpo, mas porque foi essa a única maneira que conseguiram para chamar a atenção de familiares, para fazer amigos ou até para manter um cônjuge ao seu lado. Pior do que isso, é que o estado de infelicidade é comumente admitido como sendo, na verdade, o estado “normal” de um indivíduo (Um Buda é impossível para Freud). No texto de hoje, Osho fala que não é preciso nada, além de um pouco mais de coragem para ser feliz e que a primeira atitude corajosa que uma pessoa decidida a ser feliz deve ter é se responsabilizar por absolutamente tudo que acontece em sua vida. Tomando essa primeira atitude, as coisas simplesmente passam a acontecer para você, de modo a reforçar ainda mais o caminho que você escolheu para ser feliz.

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A coragem para ser feliz

Continuamos a perder muitas coisas na vida só por  causa da falta de coragem. Na verdade, nenhum esforço é necessário para conquistar – só é preciso coragem – e as coisas começarão a vir até você, em vez de você ir atrás delas. Pelo menos no mundo interior é assim.

E para mim, ser feliz é a maior coragem. Ser infeliz é uma atitude muito covarde. Na realidade, para ser infeliz, não é preciso nada. Qualquer covarde pode ser, qualquer tolo pode ser. Todo mundo é capaz de ser infeliz; para ser feliz é preciso coragem – é um risco tremendo.

Não temos o costume de pensar assim. Nós pensamos: “ O que é preciso para ser feliz? Todo mundo quer ser feliz.” Isso está absolutamente errado. É muito raro uma pessoa estar pronta para ser feliz – as pessoas investem tanto na infelicidade! Elas adoram ser infelizes. Na verdade, elas são felizes por serem infelizes.

Há muitas coisas para se entender – sem entendê-las é muito difícil se livrar da mania de ser infeliz. A primeira coisa é: ninguém está prendendo você; é você que decidiu ficar na prisão da infelicidade. Ninguém prende ninguém. O homem que está pronto para sair dela, pode sair quando quiser. Ninguém mais é responsável. Se uma pessoa é infeliz, é ela mesma a responsável. Mas a pessoa infeliz nunca aceita a responsabilidade – é por isso que continua infeliz. Ela diz: “ Estão me fazendo infeliz” .

Se outra pessoa está fazendo com que você seja infeliz, naturalmente não há nada que você possa fazer. Se você mesmo está causando a sua infelicidade, alguma coisa pode ser feita… alguma coisa pode ser feita imediatamente. Então ser ou não ser infeliz está nas suas mãos. Todavia as pessoas ficam jogando nos outros a responsabilidade – às vezes na mulher, às vezes no marido, às vezes na família, no condicionamento, na infância, na mãe, no pai… outras vezes na sociedade, na história, no destino, em Deus – mas não param de jogar nos outros. Os nomes são diferentes, mas o truque é sempre o mesmo.

Um homem torna-se realmente um homem quando aceita a responsabilidade total – é responsável pelo quer que seja. Essa é a primeira forma de coragem, a maior delas. É muito difícil aceitá-la porque a mente vai continuar dizendo: “Se você é responsável, porque criou isso?”.  Para evitar isso, dizemos que os outros são responsáveis: “O que eu posso fazer? Não tem jeito… sou uma vítima! Sou jogado daqui para ali por forças maiores que eu e  não posso fazer nada. Posso no máximo chorar porque sou infeliz e ficar ainda mais infeliz chorando”. E tudo cresce – se você cultiva uma coisa, ela cresce. Então você vai cada vez mais fundo… mergulha cada vez mais fundo.

Ninguém, nenhuma outra força, está fazendo nada a você. É você e só você. Isso resume toda a filosofia do karma – que é o seu fazer; karma significa ‘fazer’. Você fez e pode desfazer. E não é preciso esperar, postergar. Não é preciso tempo – você pode simplesmente pular fora disso.

Mas nós nos habituamos. Se pararmos de ser infelizes, nos sentiremos muito sozinhos, perderemos nossa maior companhia. A infelicidade virou nossa sombra – nos segue por toda a parte. Quando não há ninguém por perto, pelo menos a infelicidade está ali presente  – você se casa com ela. E trata-se de um casamento muito, muito longo; você está casado com a sua infelicidade há muitas vidas.

Agora chegou a hora de se divorciar dela. Isto é o que eu chamo de a grande coragem – divorciar-se da infelicidade, perder o hábito mais antigo da mente humana, a companhia mais fiel.

OSHO, The Buddha Disease, # 27

Não dá para acreditar: eu sou feliz

Texto de Osho, que dispensa apresentações, sobre a arte de ser verdadeiramente feliz: não se desvie daquilo que você é, da sua essência. (em outro post, trouxe um texto relativamente parecido, que vale a pena ser lido também: “A sua felicidade incomoda todo mundo”.) Os grifos são meus…

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“Meu médico insistiu para que eu viesse vê-lo’, disse o paciente ao psiquiatra. ‘Não sei o porquê – pois eu sou feliz no casamento, tenho segurança no meu trabalho, muitos amigos, nenhum problema…’   ‘Hmmmm,’ disse o psiquiatra, procurando por seu caderno de anotações, ‘e há quanto tempo você vem se sentindo assim?’

Felicidade não é algo fácil de se acreditar. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você falar sobre sua tristeza, depressão e miséria, todo mundo irá acreditar. Isso parece ser natural. Mas se você falar sobre a sua felicidade, ninguém acreditará em você – isso parece ser não-natural.

Sigmund Freud, depois de quarenta anos de pesquisas a respeito da mente humana, trabalhando com milhares de pessoas, observando milhares de distúrbios mentais, chegou à conclusão de que a felicidade é uma ficção: o homem não pode ser feliz. No máximo, nós podemos fazer coisas um pouco mais confortáveis, e isso é tudo. No máximo, nós podemos tornar a infelicidade um pouco menor, e isso é tudo. Mas, feliz, o homem não pode ser.

Isso parece ser muito pessimista, mas se olharmos para o homem moderno, veremos que é exatamente assim; parece que isso é um fato.

Buda diz que o homem pode ser feliz, tremendamente feliz. Krishna canta canções sobre a felicidade suprema – satchitanand. Jesus fala a respeito do Reino de Deus. Mas como você pode acreditar em tão poucas pessoas, as quais podemos contar nos dedos, contra toda a massa, milhões e milhões de pessoas ao longo dos séculos, que permanecem infelizes, caminhando mais e mais em direção à infelicidade. Toda a vida dessas pessoas é uma história de miséria e nada mais. E depois vem a morte! Como acreditar naquelas poucas pessoas?

Ou elas estão mentindo, ou elas estão enganadas. Ou elas estão mentindo por algum motivo, ou elas são meio malucas, enganadas pelas próprias ilusões. Elas devem estar vivendo para satisfazer um desejo. Elas queriam ser felizes e começaram a acreditar que elas eram felizes. Mais do que um fato, isso parece uma crença, uma crença desesperada, Mas como aconteceu dessas poucas pessoas se tornarem felizes?

Se você deixar o homem de lado, se você não prestar muita atenção ao homem, então Buda, Krishna, Cristo irão parecer que são mais verdadeiros. Se você olhar para as árvores, se você olhar para os pássaros, se você olhar para as estrelas, então verá que tudo está vibrando em tremenda felicidade. Parece que a felicidade é a matéria-prima com a qual a existência é feita. E somente o homem é infeliz.

No fundo, alguma coisa está errada.

Buda não está enganado, nem está mentindo. E eu digo isso a você, não com base na autoridade da tradição; eu digo isso a você com base na minha própria autoridade. O homem pode ser feliz, mais feliz que os pássaros, mais feliz que as árvores, mais feliz que as estrelas, porque o homem tem algo que nenhuma árvore, nenhum pássaro, nenhuma estrela tem. O homem tem consciência.

Mas quando você tem consciência, então duas alternativas são possíveis: ou você pode tornar-se infeliz, ou você pode tornar-se feliz. A escolha é sua. As árvores simplesmente estão felizes porque elas não podem ser infelizes. A felicidade delas não é liberdade; elas têm que ser felizes.  Elas não sabem como ser infelizes, não existe outra alternativa.

Esses pássaros gorjeando nas árvores, eles são felizes. Não porque eles tenham escolhido ser felizes; eles simplesmente são felizes porque eles não conhecem outra maneira de ser. A felicidade deles é inconsciente. Ela é simplesmente natural.

O homem pode ser tremendamente feliz, e tremendamente infeliz. Ele é livre para escolher. Essa liberdade é um risco. Essa liberdade é muito perigosa, porque você se torna responsável. E algo aconteceu com essa liberdade. Alguma coisa está errada. O homem está, de uma certa maneira, de cabeça para baixo.

Você veio até a mim, procurando por meditação. A meditação é necessária somente porque você não escolheu ser feliz. Se você tivesse escolhido ser feliz, não haveria nenhuma necessidade de meditação. A meditação é medicinal: se você está doente, então o medicamento é necessário. Os Budas não precisam de meditação. Uma vez que você começou a escolher a felicidade, uma vez que você decidiu que você tem que ser feliz, então nenhuma meditação é necessária. A meditação começará a acontecer naturalmente, por ela mesma.

A meditação é uma função do estar feliz. A meditação segue o homem feliz como uma sombra: em qualquer lugar que ele for, qualquer coisa que ele estiver fazendo, ele estará meditativo. Ele estará intensamente centrado.

A palavra ‘meditação’ e a palavra ‘medicação’ têm a mesma raiz; e isso é muito significativo. A meditação também é medicinal. Você não carrega vidros de remédios nem receitas médicas se você estiver com saúde. Naturalmente, quando você não está com saúde, você tem que ir ao médico. Ir ao médico não é uma grande coisa para ficar fazendo alarde. A pessoa deve se sentir feliz se o médico não for necessário.

Existem muitas religiões, porque existem muitas pessoas infelizes. Uma pessoa feliz não precisa de religião. Uma pessoa feliz não precisa de templo, nem de igreja, porque para uma pessoa feliz, todo o universo é um templo, toda a existência é uma igreja. Uma pessoa feliz não tem nada parecido com uma atividade religiosa, porque toda a sua vida já é religiosa.

Qualquer coisa que você fizer com felicidade será uma prece; seu trabalho se tornará um culto, a sua própria respiração terá um esplendor, uma graça. Não que você repita constantemente o nome de Deus – somente as pessoas tolas fazem isso – porque Deus não tem nome algum, e por repetir algum suposto nome você simplesmente tornará estúpida a sua mente. Por repetir o Seu nome você não irá a lugar algum. Um homem feliz simplesmente vê Deus em todo lugar. E você precisa de olhos felizes para ver Deus.

Se você quer ser feliz, então comece a fazer escolhas naturais. Há muitas ocasiões em que você terá que ser desobediente – seja!  Haverá muitas ocasiões em que você terá que ser rebelde – seja!  Não há nenhum desrespeito implícito nisso. Seja respeitoso com seus pais. Mas lembre-se de que a sua mais profunda responsabilidade é com o seu próprio ser.

Todo mundo está sendo empurrado e manipulado. Ninguém sabe qual é o seu destino. O que você realmente sempre quis fazer, foi deixado de lado. E como você pode ser feliz? Alguém que poderia ter sido um poeta, tornou-se simplesmente um emprestador de dinheiro. Alguém que poderia ter sido um pintor, tornou-se um médico. Alguém que poderia ter sido um médico, um belo médico, é agora um homem de negócios. Todo mundo está fora do lugar. Todo mundo está fazendo alguma coisa que nunca quis fazer; daí a infelicidade.

A felicidade acontece quando a sua vida se encaixa com o que você é, quando se encaixa tão harmoniosamente que qualquer coisa que você fizer será pura alegria. Então, de repente, você descobrirá que a meditação segue você. Se você ama o trabalho que está fazendo, se você ama a maneira como está vivendo, então você está meditativo. Então nada irá desviar você. Quando você se desvia de certas coisas, isso simplesmente demonstra que você não está realmente interessado naquelas coisas.

Nós temos nos desviado por motivos não naturais: dinheiro, prestígio, poder. Ouvir o pássaro cantar não vai lhe dar dinheiro. Ouvir o pássaro cantar não vai lhe dar poder e prestígio. Observar uma borboleta não irá ajudá-lo economicamente, politicamente, socialmente. Essa coisas não lhe trarão remuneração, mas essas coisas irão fazê-lo feliz.

Uma pessoa verdadeira tem coragem de se voltar para as coisas que a fazem feliz. Se com isso ela permanecer pobre, ela permanecerá pobre; ela não reclamará disso, ela não guardará nenhum rancor. Ela dirá: ‘Eu escolhi o meu caminho, eu escolhi o cantar dos pássaros e as borboletas e as flores. Eu posso não ser rico, tudo bem, mas eu sou rico porque eu sou feliz.’

Esse tipo de homem não necessita de qualquer método para se centrar, por que não é preciso, ele está centrado. Seu centramento está por toda a sua vida. Vinte e quatro horas por dia ele está centrado.
Em qualquer lugar que você vê dinheiro, você já não é mais você mesmo. Em qualquer lugar que você vê poder e prestígio, você já não é mais você mesmo. Em qualquer lugar que você vê respeitabilidade, você já não é mais você mesmo. Imediatamente você esquece tudo – você esquece os valores intrínsecos de sua vida, a sua felicidade, a sua alegria, o seu deleite.

Você sempre escolhe algo do lado de fora, e você barganha com algo do lado de dentro. Você perde o interior e ganha o lado de fora. Mas o que você vai fazer com isso? Mesmo se você tiver todo o mundo aos seus pés, mas se você tiver perdido a si mesmo; mesmo se você tiver conquistado todas as riquezas do mundo, mas se você tiver perdido seu próprio tesouro interior, o que você fará com tudo aquilo? Essa é a miséria.

Se você puder aprender uma coisa comigo, então que essa coisa seja: esteja alerta, consciente a respeito de seus próprios motivos mais internos, a respeito de seu próprio destino mais interno. Nunca perca você mesmo de vista, de outra maneira você será infeliz. E quando você estiver infeliz, as pessoas irão dizer: ‘medite e você se tornará feliz!’ Elas dirão: ‘Esteja centrado e você se tornará feliz; ore e você se tornará feliz; vá ao templo, seja religioso, seja um cristão ou um hindu, e você será feliz’. Tudo isso é tolice.
Seja feliz! e a meditação virá em seguida. Seja feliz, e a religião virá em seguida. Felicidade é a condição básica. As pessoas se tornam religiosas somente quando elas estão infelizes; então a religião delas é falsa. Tente entender porque você está infeliz.

Muitas pessoas vêm a mim e dizem que elas são infelizes, e elas querem que eu lhes dê alguma meditação. Eu digo: primeiro, a coisa básica é compreender porque vocês estão infelizes. E se vocês não removerem todas as causas básicas de sua infelicidade, eu posso lhes dar uma meditação, mas isso não vai ser de grande ajuda, porque as causas básicas permanecem aí.

Um certo homem poderia ter sido um grande e belo dançarino, mas ele está sentado num escritório arquivando fichas. Sem qualquer possibilidade para a dança. O homem poderia ter curtido dançar sob as estrelas, mas ele segue simplesmente acumulando contas bancárias. E ele diz que está infeliz: ‘me dê alguma meditação.’ Eu posso dar a ele, mas o que essa meditação irá fazer? O que se espera que ela possa fazer? Ele vai permanecer o mesmo homem: acumulando dinheiro e sendo competitivo no mercado. A meditação poderá ajudar da seguinte maneira: poderá fazer com que ele fique um pouco mais relaxado para seguir fazendo essas tolices, e de uma maneira ainda melhor.

Então, o meu chamado é somente para aqueles que são realmente ousados, aqueles que desafiam o demônio, aqueles que estão prontos para mudar os seus próprios padrões de vida, aqueles que estão prontos para apostar tudo – porque na verdade você nada tem para apostar: somente a sua infelicidade, a sua miséria. Mas as pessoas se agarram até mesmo a isso.
O que mais você tem para apostar? Só a miséria. E o único prazer que você tem é falar a respeito dela. Observe as pessoas falando a respeito de suas misérias: quão felizes elas se tornam! Elas pagam por isso: elas vão aos psicanalistas para falar a respeito de suas misérias – e elas pagam por isso! Alguém as escuta atentamente, e elas se sentem felizes.

As pessoas seguem falando a respeito de suas misérias, repetidamente. Elas até mesmo exageram, elas enfeitam, elas fazem com que as suas misérias pareçam ainda maiores. Elas fazem com que elas pareçam maiores do que a duração de suas vidas. Por que? Você nada tem para apostar. Mas as pessoas se apegam ao conhecido, ao que é familiar. A miséria é tudo o que elas têm conhecido; isso tem sido a vida delas. Nada têm a perder, mas com tanto medo de perder…

Comigo, a felicidade vem primeiro, a alegria vem primeiro. A atitude celebrativa vem primeiro. Uma filosofia afirmativa de vida vem primeiro. Curta! E se você não puder curtir o seu trabalho, mude. Não espere! Porque todo o tempo que você está esperando, você está esperando por Godot. E Godot nunca vem. A pessoa simplesmente espera, e desperdiça sua própria vida. Por quem e por que você está esperando?
Se você puder ver o ponto, que você está miserável dentro de um certo padrão de vida, e que todas as velhas tradições dizem: Você está errado. Eu gostaria de dizer que o padrão é que está errado. Tente entender a diferença na ênfase: Você não está errado! É só o seu padrão, a maneira de viver que você aprendeu é que está errado. As motivações que você aprendeu e aceitou como suas, não são suas. Elas não irão realizar o seu destino. Elas vão contra a sua essência, elas vão contra o que lhe é elementar.

Lembre-se disso: ninguém mais pode decidir por você. Todos os mandamentos deles, todas as ordens deles, todas as moralidades deles, são simplesmente para matar você. Você tem que decidir ser você mesmo. Você tem que tomar sua vida em suas próprias mãos. De outra maneira a vida vai seguir batendo em sua porta e você nunca estará lá; você estará sempre em algum outro lugar.

Se você tinha que ser um dançarino, a vida virá por aquela porta, porque ela pensa que você é um dançarino. Ela bate na porta, mas você não está lá; você é um bancário. E como a vida vai saber que você se tornou um bancário? Deus vem a você da maneira que ele quer você seja; ele conhece apenas aquele endereço. Mas você nunca é encontrado lá, você está sempre em algum outro lugar, escondendo-se atrás da máscara de alguém que não é você, com os trajes de alguém que não é você e usando o nome de alguém que não é você.
Como você espera que Deus possa encontrá-lo? Ele segue procurando por você. Ele sabe o seu nome, mas você abandonou aquele nome. Ele conhece o seu endereço, mas você nunca morou lá. Você permitiu que o mundo desviasse você.

Por que na cabeça de todo mundo surge essa idéia de que a meditação traz felicidade? De fato, sempre que eles encontram uma pessoa feliz, eles encontram uma mente meditativa, essas duas coisas estão associadas. Sempre que eles encontram uma bela atmosfera meditativa circundando um homem, eles sempre descobrem que ele estava tremendamente feliz; vibrante com a alegria, radiante. Essas coisas se tornaram associadas. E eles pensam que a felicidade vem quando você está meditativo. E é exatamente o oposto: a meditação é que vem quando você está feliz.

Mas ser feliz é difícil e aprender a meditar é fácil. Ser feliz significa uma drástica mudança em sua maneira de viver, uma mudança abrupta, porque não há nenhum tempo a perder. Uma mudança súbita, um repentino estrondo de trovão (a sudden clash of thunder), uma descontinuidade.

Isso é o que eu entendo por sânias: uma descontinuidade com o passado. Um repentino estrondo de trovão, e você morre para o velho e então, revigorado, você recomeça do bê-a-bá. Você nasce de novo. Você começa de novo a sua vida, como você começaria se os padrões não tivessem sido impostos a você pelos seus pais, pela sociedade, pelo Estado; como se ninguém tivesse desviado você. Mas você foi desviado.
Você tem que deixar de lado todos os padrões que foram impostos a você, e você tem que encontrar a sua própria chama interior.

Não se preocupe muito com o dinheiro, porque ele é o maior desvio da felicidade. E a ironia das ironias é que as pessoas pensam que elas serão felizes quando elas tiverem dinheiro. Dinheiro nada tem a ver com felicidade. Se você é feliz e você tem dinheiro, você pode usá-lo para a felicidade. Se você é infeliz e tem dinheiro, você usará aquele dinheiro para mais infelicidades. Porque o dinheiro é simplesmente uma força neutra.

Eu não sou contra o dinheiro, lembre-se. Não me interprete mal. Eu não sou contra o dinheiro, eu não sou contra nada. Dinheiro é um meio. Se você for feliz e você tiver dinheiro, você se tornará mais feliz. Se você for infeliz e tiver dinheiro, você se tornará mais infeliz, por que o que você fará com o seu dinheiro? O dinheiro vai realçar o seu padrão, seja qual ele for. Se você for miserável e tiver poder, o que você fará com o seu poder? Você irá envenenar a si próprio ainda mais com o seu poder, você se tornará mais miserável.

Mas as pessoas seguem atrás do dinheiro como se o dinheiro fosse trazer felicidade. As pessoas seguem procurando por respeitabilidade como se respeitabilidade fosse lhe dar felicidade. As pessoas estão prontas a qualquer momento, para mudar os seus padrões, para mudar os seus caminhos, desde que haja mais dinheiro disponível em algum outro lugar.

Uma vez que o dinheiro esteja ali, então de repente você não é mais você mesmo, você está pronto para mudar.

Esse é o caminho do homem mundano. Eu não digo que pessoas mundanas são aquelas que têm dinheiro. Eu chamo de pessoas mundanas aquelas que mudam os seus motivos por causa do dinheiro. Eu não digo que as pessoas que não tem dinheiro não sejam mundanas. Elas podem ser simplesmente pobres. Eu digo que as pessoas não são mundanas quando elas não mudam seus motivos por causa de dinheiro. Só por ser pobre não equivale a ser espiritual. E só por ser rico não é equivalente a ser um materialista. O padrão materialista de vida é aquele em que o dinheiro predomina acima de tudo. A vida não materialista é aquela em que o dinheiro é simplesmente um meio; a felicidade predomina, a alegria predomina, a sua própria individualidade predomina. Você sabe quem você é, e para onde está indo, e você não está se desviando. Então, de repente, você vê que a sua vida adquiriu uma qualidade meditativa.

Mas em algum ponto do caminho, todo mundo se perdeu. Você foi educado por pessoas que não se realizaram. Você foi educado por pessoas que não tinham saúde. Você pode sentir pena delas. Eu não estou lhe dizendo para ser contra elas. Eu não as estou condenando, lembre-se. Simplesmente sinta compaixão por elas. Os pais, os professores do colégio e da universidade, os chamados líderes da sociedade, eles foram pessoas infelizes. Eles criaram um padrão infeliz em você.

E você ainda não assumiu a sua própria vida. Eles viveram segundo uma interpretação errada, e essa foi a miséria deles. E você também está vivendo segundo uma interpretação errada.

A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa feliz. A meditação ocorre naturalmente a uma pessoa alegre. A meditação é muito simples para uma pessoa que pode celebrar, que pode curtir a vida. Mas você tem tentado isso de uma outra maneira, e assim não é possível.

Os 10 Mandamentos de Osho

Osho

Osho

Post atrasado de hoje, com os “10 Mandamentos de Osho”. Lembrando que Osho não se considerava guru, mestre, “avatar”, profeta ou o que for. Esses “mandamentos” são apenas um resumo, uma conclusão de tudo o que ele tentava mostrar para as pessoas em seus discursos e palestras.

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Em 1970 perguntaram a Osho  pelos   seus 10   mandamentos.

Esta foi sua resposta:

Você pergunta pelos meus dez mandamentos. Isso é muito difícil, porque eu sou contra qualquer tipo de mandamento. Todavia, só pela brincadeira, eu estabeleço o que se segue:

1.      Não obedeça a ordens, exceto àquelas que venham de dentro.

2.      O único Deus é a própria vida.

3.      A verdade está dentro, não a procure em nenhum outro lugar.

4.      O amor é a oração.

5.      O vazio é a porta para a verdade, é o meio, o fim e a realização.

6.      A vida é aqui e agora.

7.      Viva completamente acordado.

8.      Não nade, flutue.

9.      Morra a cada momento para que você possa se renovar a cada momento.

10.    Pare de buscar. O que é, é: pare e veja.

Osho, A Cup of Tea, 123

Palavras têm poder

As palavras têm muito poder. Neste pequeno texto de Osho, ele fala como o ato de escolher melhor as palavras (e aqui eu estenderia a “regra” também para os pensamentos) é capaz de mudar sua vida.

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Palavras não são apenas palavras. Elas têm disposições de ânimo, climas próprios.

Quando uma palavra se aloja dentro de você, ela traz um clima diferente à sua mente, uma abordagem diferente, uma visão diferente. Chame a mesma coisa de um nome diferente e perceberá: algo fica imediatamente diferente.

Existem as palavras dos sentimentos e as palavras intelectuais. Abandone cada vez mais as palavras intelectuais, use cada vez mais palavras dos sentimentos. Existem palavras políticas e palavras religiosas. Abandone as palavras políticas. Existem palavras que imediatamente criam conflito. No momento em que você pronuncia, surgem discussões. Assim, nunca use uma linguagem lógica e argumentativa. Use a linguagem do afeto, do carinho, do amor, para que não surja discussão alguma.

Se você começar a ficar consciente disso, perceberá uma imensa mudança surgindo. Se você estiver um pouco alerta na vida, muitas infelicidades poderão ser evitadas. Uma única palavra pronunciada na inconsciência pode criar uma longa corrente de aflição. Uma leve diferença, apenas uma virada muito pequena, e isso cria mudança. Você deveria ser muito cuidadoso e usar as palavras quando absolutamente necessário. Evite palavras contaminadas. Use palavras arejadas, não controversas, que não são argumentos, mas apenas expressões de suas impressões.

Se você puder se tornar um especialista em palavras, toda a sua vida será totalmente diferente. Se uma palavra trouxer infelicidade, raiva, conflito ou discussão, abandone-a. Qual é o sentido de carregá-la? Substitua-a por algo melhor. O melhor é o silêncio, depois é o canto, a poesia, o amor.

Picos e Vales

Neste pequeno texto de Osho, ele fala sobre os “Picos e Vales” da vida, e que aqueles que aprendem a conviver com esses altos e baixos, por fim acabam se “livrando” deles. A única maneira de se viver equilibradamente, em harmonia, é pelo auto-conhecimento. Só assim a vida passa a ter um real sentido, e os picos e vales da existência se tornam apenas características já esperadas do “relevo da vida”, cada qual com suas riquezas e aprendizados.

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A evolução da consciência passa através de muitos altos e baixos. Muitas vezes ela descerá apenas para subir mais alto que antes. Ela passa através de vales para alcançar picos, e cada pico é apenas o início de uma nova peregrinação, porque um pico ainda mais alto está adiante. Mas para alcançar o pico mais elevado, você terá que descer novamente. Uma vez que você tenha entendido que isso é natural, todo o sofrimento, todas as nuvens simplesmente se dispersarão.

Assim, a primeira coisa a ser lembrada é: nunca fique preocupado quando chegam os dias de descer; mantenha sempre seus olhos nas estrelas mais distantes.

Os vales fazem parte das montanhas. Não se pode acabar com os vales e deixar apenas as montanhas. Uma vez que você entenda isso profundamente, você irá passar através dos vales dançando e cantando, sabendo perfeitamente bem que há um pico mais alto à sua espera.

E não há fim para essa peregrinação. Assim como cada dia é seguido por uma noite, cada elevação é seguida por uma descida. A pessoa deve aprender a exultar-se não apenas durante o dia, mas durante a noite também – ela tem a sua própria beleza.

Os picos têm sua glória, os vales têm sua riqueza. Mas se você habitua-se apenas aos picos, você começa a escolher,  e uma consciência que começa a escolher cria um problema. Permaneça sem escolha e, não importa o que aconteça, aceite isso como parte natural do crescimento.

A noite pode tornar-se até mesmo mais escura, mas quanto mais escura a noite, mais perto está a alvorada.  Sendo assim, exulte-se na noite escura e aprenda a ver a beleza da escuridão, das estrelas, porque durante o dia você não encontrará as estrelas. E nunca compare o que foi, o que deveria ser, ou o que é. O que existe deve ser celebrado.

Osho, The New Dawn,# 2

Um Buda é impossível para Freud

Texto de Osho, falando sobre a psicologia ocidental x psicologia oriental, e como no Ocidente somos condicionados a fundamentar e relacionar o nosso conhecimento do corpo e da mente humana a partir das doenças e desordens mentais. O que é normal é o que não é doente. Os orientais não olham pelo mesmo prisma. O estudo e o conhecimento do corpo e mente humanas se fundamenta no que pode ser considerado “supernormal”, ou seja, o estado búdico. Osho fala também sobre auto-realização e como muitas vezes podemos pensar que alguém tem tudo, enquanto a pessoa em questão sente como se não tivesse nada.

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O homem pode ser considerado de três maneiras: em termos do normal, do anormal e do supernormal. A psicologia ocidental está basicamente relacionada com o anormal, o patológico, com o homem que caiu do normal, que caiu da norma. A psicologia oriental, o tantra e o ioga, consideram o homem do ponto de vista do supernormal – daquele que foi além da norma. Ambos são anormais. Aquele que é patológico é anormal por que não é saudável e aquele que é supernormal é anormal porque é mais saudável do que qualquer ser humano normal. A diferença é entre negativo e positivo.

A psicologia ocidental se desenvolveu como parte da psicoterapia. Freud, Jung, Adler e outros psicólogos estavam tratando do homem anormal, do homem que está mentalmente doente. Devido a isso toda a atitude ocidental para com o homem se tornou errada. Freud estava estudando casos patológicos. Naturalmente, nenhum homem saudável chegaria até ele – somente quem estivesse mentalmente doente. Essas pessoas eram estudadas por ele e, por causa desse estudo, ele pensou que agora entendia o homem. Os homens patológicos não são verdadeiramente homens; eles estão doentes e qualquer coisa baseada em um estudo deles está fadada a ser profundamente errada e danosa. Isso demonstrou ser danoso porque o homem é olhado de um ponto de vista patológico. Se um estado mental particular é escolhido e esse estado é doente, patológico, então toda a imagem do homem se torna baseada na doença. Por causa dessa atitude, toda a sociedade ocidental caiu de nível – porque o homem doente torna-se a base – o pervertido se tornou a fundação.

E se você estuda apenas o anormal, você não pode conceber nenhuma possibilidade de seres supernormais. Um buda é impossível para Freud, inconcebível. Ele deve ser fictício, mitológico. Um buda não pode ser uma realidade. Freud entrou em contato somente com homens doentes que não eram nem mesmo normais e tudo o que ele diz sobre o homem normal está baseado no estudo do homem anormal. É como um médico que está fazendo um estudo. Nenhum homem saudável vai até ele, não há necessidade. Somente pessoas não saudáveis chegarão. Estudando tantas pessoas não saudáveis, ele cria uma imagem do homem em sua mente, mas essa imagem não pode ser do homem. Ela não pode ser, porque o homem não é apenas doente. E se você embasa sua concepção do homem na doença, toda a sociedade irá sofrer.

A psicologia oriental, particularmente o tantra e o ioga, também têm um conceito de homem, mas esse conceito está baseado no estudo do supernormal – Buda, Patanjali, Shankara, Nagarjuna, Kabir, Nanak -, em pessoas que atingiram o pico da potencialidade e possibilidade humana. O mais baixo não foi considerado, apenas o mais alto. Se você considera o mais alto sua mente se torna uma abertura; você pode crescer porque agora faculdades mais elevadas são possíveis. Se você considera o mais baixo, nenhum crescimento é possível. Não existe desafio. Se você é normal você se sente feliz. É suficiente que você não seja pervertido, que você não esteja em um asilo mental. Você pode se sentir bem, mas não há nenhum desafio.

Mas se você busca o supernormal, a mais alta possibilidade que você pode se tornar, se alguém realizou essa possibilidade, se essa possibilidade se tornou verdadeira para alguém, então uma possibilidade para crescer se abre. Você pode crescer. Um desafio chega até você e você não precisa ficar satisfeito consigo mesmo: faculdades mais elevadas são possíveis e elas o estão chamando. Isso precisa ser entendido profundamente. Somente então a psicologia do tantra será concebível. O que você é não é o final. Você está apenas no meio. Você pode cair, você pode se elevar. Seu crescimento não acabou. Você não é o produto final; você é apenas uma passagem. Alguma coisa está constantemente crescendo em você.

O tantra concebe e baseia todas as suas técnicas nesta possibilidade de crescimento. E lembre-se, a menos que você se torne aquilo que você pode se tornar, você não ficará realmente satisfeito. Você deve se tornar aquilo que você pode se tornar – isso é um dever! Do contrário, você ficará frustrado, você se sentirá sem sentido, sentirá que não existe nenhum propósito na vida. Você pode continuar, mas não existirá alegria nisso. E você pode ter sucesso em muitas outras coisas, mas irá fracassar consigo mesmo. E isso está acontecendo. Alguém se torna muito rico e todo mundo pensa que agora ele teve sucesso. Todo mundo, exceto ele mesmo, pensa que ele teve sucesso. Ele conhece o seu fracasso. A riqueza está presente, mas ele está fracassado. Um grande homem, um líder, um político – todo mundo pensa que eles são bem-sucedidos, mas eles fracassaram. Este mundo é estranho: você tem sucesso aos olhos de todo mundo, exceto aos seus próprios.

As pessoas chegam a mim diariamente. Elas dizem que têm tudo, mas e agora? Elas estão fracassadas. Mas onde elas fracassaram? No que concerne às coisas exteriores elas não fracassaram; assim, por que sentem esse fracasso? Sua potencialidade interior permaneceu potencial. Elas não floriram. Elas não atingiram o que Maslow chama “auto-realização”. Elas são fracassos – fracassos interiores. E, basicamente, o que os outros dizem é sem sentido. O que você sente é significativo. Se você sente que é um fracasso, os outros podem pensar que você é um Napoleão ou um Alexandre, o Grande, mas isso não faz diferença. Ao contrário, isso o deprime mais. Todo mundo pensa que você é um sucesso e agora você não pode dizer que você não é – mas você sabe que você não é. Você não pode enganar a si mesmo. No que se refere à auto-realização, você não pode se enganar. Mais cedo ou mais tarde você terá que visitar a si mesmo e olhar profundamente dentro de si, no que tem acontecido. A vida é desperdiçada. Você largou uma oportunidade e juntou coisas que não significam nada.

A auto-realização se refere ao mais alto pico de seu crescimento, onde você pode sentir um profundo contentamento, onde você pode dizer: “Este é meu destino, era por isso que eu estava esperando, é por isso que eu estou aqui na terra”.

Osho e os Relacionamentos

“Um relacionamento nunca cria nada.
Ele só pode trazer algo que já é existente.
Assim, nunca jogue a responsabilidade no outro.
O outro é, no máximo, uma ajuda para lhe mostrar as subcorrentes de sua mente.
Cada relacionamento é um espelho; ele revela sua identidade a você.”

Osho

Recebi por email este texto de Osho, tratando do tema das “projeções” que consciente e inconscientemente fazemos em relação às pessoas que entram em nosso convívio diário, ou que já fazem parte deste. É incrivelmente comum ouvir de pessoas, depois de terminarem um longo relacionamento amoroso, ou até mesmo uma amizade de muitos anos, dizerem que apesar de “passarem anos convivendo juntos, eu não conhecia realmente quem estava ao meu lado.” É o velho clichê do “dormindo com o inimigo.” E por que isso acontece? Porque o “amor” (nesse caso a palavra amor não estaria corretamente empregada, o ideal seria “paixão”. Amor é algo muito mais maduro, realista e pé no chão – não é pra qualquer um) é literalmente cego. ;-) Nós vemos apenas aquilo que queremos ver nos outros. A isso chamamos de “projeção”. Projetamos nossos desejos, ideais e sonhos nas outras pessoas o tempo todo. Evidentemente, não é ruim esperar sempre o melhor de todo mundo. O problema é quando se cria uma ilusão de perfeição ou se dá uma aura de divindade a uma pessoa tão humana quanto qualquer outra. Talvez até, demasiado humana (com a licença de Nietzsche), como qualquer outra. Enfim. Neste pequeno texto de Osho, ele resume sábia e didaticamente, a idéia do projetar o outro:

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As projeções

É um fato conhecido: você não se apaixona por alguém; você não se apaixona pela pessoa real, você se apaixona pela pessoa de sua imaginação. E enquanto vocês não vivem juntos,  e você vê o outro da sua sacada,  ou você o encontra na praia por alguns minutos, ou você segura suas mãos no cinema, você começa a sentir: “Somos feitos um para o outro” .

Mas ninguém é feito um para o outro. Você vai  projetando mais e mais imaginação sobre o outro, inconscientemente. Você cria um certa aura em torno dele e ele cria uma certa aura em torno de você. Tudo parece ser lindo, porque você faz tudo parecer lindo, sonhando, evitando a realidade.  E ambos ficam sonhando, tentando de todas as formas possíveis não perturbar a imaginação do outro.

Assim, a mulher se comporta do jeito que o homem quer que ela se comporte; o homem se comporta do jeito que a mulher quer que ele se comporte. Mas isso só pode durar alguns minutos ou algumas horas no máximo.

Uma vez que vocês se casem e tenham que viver juntos vinte e quatro horas por dia, torna-se uma carga pesada continuar fingindo alguma coisa que você não é.

Preencher a imaginação do homem ou da mulher, por quanto tempo você pode continuar representando? Mas cedo ou mais tarde torna-se um peso e você começa a se vingar. Você começa a destruir toda a imaginação que o homem criou em torno de você, porque você não quer ficar aprisionada nela; você quer se livrar daquilo e ser você mesma.

E a mesma é a situação com o homem: ele quer se livrar e ser ele mesmo. E esse é o conflito entre todos os amantes, em todas as relações.

A realidade é: somos sozinhos, somos estranhos e será muito melhor se aceitarmos a verdade básica de que somos estranhos. Podemos saber o nome um do outro, podemos ter visto o rosto um do outro muitas vezes – isso não importa. Nossos seres estão tão escondidos e tão lá no fundo, que não há como eu poder tocar o ser de alguém, ou possa ver o ser de alguém – e é aí que reside toda a estranheza. Mas não acho que isso seja uma catástrofe; pelo contrário sinto isso como uma benção. Se não fôssemos estranhos seríamos robôs. Nossa estranheza nos dá individualidade, singularidade.

Solitude x Solidão – parte 2

Continuando o texto de ontem, em que Osho falava sobre solitude e solidão:

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Somente a palavra “solitário” imediatamente lembra a você de que é algo como um machucado: algo é necessário para preenchê-lo. Há uma lacuna e ela dói: algo precisa preenchê-la. A própria palavra “solitude” não possui o mesmo sentido de um machucado, de uma lacuna que precisa ser preenchida. Solitude simplesmente significa completude. Você é um todo; não há necessidade de nenhuma outra pessoa para completá-lo.

Portanto tente encontrar o seu centro mais íntimo, onde você está sempre sozinho, sempre esteve sozinho. Em vida, em morte – onde estiver você estará sozinho. Mas é tão cheio – não é vazio, é tão cheio e tão completo, tão transbordante de todas as essências da vida, com todas as belezas e bênçãos da existência, que uma vez que você tenha experimentado a solitude a dor no coração irá desaparecer. No lugar dela, um novo ritmo de tremenda doçura, paz, alegria, felicidade estará lá.

Isto não significa que um homem que está centrado em sua solitude, completo em si-mesmo, não possa fazer amigos – na verdade, somente ele pode fazer amigos, por que não é mais uma necessidade, é somente um compartilhamento.  Ele tem tanto, ele pode compartilhar.

A amizade pode ser de dois tipos. Uma é a amizade em que você é um pedinte – você precisa de algo do outro para ajudar a sua solidão – e o outro também é um pedinte, ele quer o mesmo que você.  E naturalmente, dois pedintes não podem se ajudar. Em breve eles perceberão que seus pedidos de um pedinte duplicaram ou multiplicaram a sua necessidade. Ao invés de um pedinte, agora são dois. E se, infelizmente, tiverem crianças, então ali haverá uma companhia completa de pedintes que estão pedindo – e ninguém tem nada a dar.

Então todos estão frustrados e bravos, e todo mundo sente que foi traído, enganado.  E na verdade, ninguém está traindo e ninguém está enganando, pois o que você tem?

O outro tipo de amizade, o outro tipo de amor, possui uma qualidade totalmente diferente.  Não é de uma necessidade, ele vem do enorme tanto que você tem que quer compartilhar. Um novo tipo de alegria brotou no seu ser – a do compartilhamento, que você antes não estava consciente. Você esteve sempre pedindo.

Quando você compartilha, o apego é impossível. Você flui com a existência, com a mudança da vida, por que não importa com quem você compartilha. Pode ser a mesma pessoa amanhã – a mesma pessoa por toda a sua vida – ou podem ser diferentes pessoas. Não é um contrato, não é um casamento; é somente a partir da sua plenitude que você quer dar. Então independente de quem seja que esteja perto de você, você dá. E dar é uma grande alegria.

Pedir é uma miséria tão grande. Mesmo que você consiga alguma coisa pedindo, você irá permanecer miserável. Isso machuca. Isso machuca o seu orgulho, machuca a sua integridade. Mas compartilhar o faz ficar mais centrado, mais orgulhoso, mas não mais egoísta – mais orgulhoso de que a existência tem sido mais compassiva com você. Não é ego; é um fenômeno totalmente diferente… um reconhecimento que a existência permitiu a você algo que milhões de pessoas têm tentado, mas na porta errada. Você esteve na porta certa.

Você está orgulhoso de sua felicidade e por tudo que a existência deu a você. O medo desaparece, a escuridão desaparece, o sofrimento desaparece, o desejo por outros desaparece.

Você pode amar uma pessoa, e se a pessoa amar outra não haverá ciúme algum, porque você amou a partir de tanta alegria. Não era um apego. Você não estava segurando a pessoa na prisão. Você não estava preocupado que a pessoa poderia escapar pelos seus dedos, que alguém poderia começar um relacionamento amoroso…

Quando você está compartilhando a sua alegria, você não cria uma prisão para ninguém. Você simplesmente dá. Você sequer espera gratidão ou agradecimento por que você não deu para receber algo, nem mesmo gratidão. Você está dando por que está tão cheio que precisa dar.

Então se alguém for agradecido, você é agradecido a pessoa que aceitou o seu amor, que aceitou o seu presente. Ela aliviou você, ela permitiu que você a regasse com sua abundância. E quanto mais você compartilha, quanto mais dá, mais você tem. Então isso não faz você um avarento, não cria um medo de “eu posso perder isso”. Na verdade, quanto mais você perde, mais águas frescas irão fluir de fontes que você não tinha consciência antes.

Por isso eu não vou dizer nada para você fazer com a sua solidão.

Procure por sua solitude.

Esqueça a solidão, esqueça a escuridão, esqueça o sofrimento. Eles são apenas as ausências da solitude. A experiência da solitude irá dispersá-los instantaneamente. E o método é o mesmo: apenas observe a sua mente, seja consciente.  Se torne mais e mais cônscio, até que finalmente você seja somente consciência de si-mesmo. Este é o ponto quando você se torna consciente de sua solitude.

Você ficará surpreso que diferentes religiões deram nomes diferentes ao estado último da realização. As três religiões nascidas fora da Índia não possuem um nome para isso porque nunca foram longe na busca do si-mesmo. Elas permaneceram infantis, imaturas, apegadas a um Deus, apegadas à oração, apegadas a um salvador. Você entende o que eu quis dizer: elas são sempre dependentes – algum outro irá salvá-las.  Elas não são maduras. Judaísmo, Cristianismo, Islamismo – elas não são nem um pouco maduras e talvez seja essa a razão de terem influenciado a grande maioria do mundo, por que a maioria das pessoas do mundo são imaturas. Elas têm uma certa afinidade.

Mas as três religiões da Índia têm três nomes para esse estado último.  E eu lembrei disso por causa da palavra solitude. O Jainismo escolheu kaivalya, solitude, como o estado último do ser. Assim como o Budismo escolheu nirvana, não-ser, e o Hinduísmo escolheu moksha, liberdade, o Jainismo escolheu a solitude absoluta. Todas as três palavras são belas. São três aspectos diferentes de uma mesma realidade. Você pode chamar de liberação, liberdade; você pode chamar de solitude; você pode chamar de não-ser, nada – são somente indicadores diferentes em relação à última experiência para qual nenhum nome é suficiente.

Mas sempre procure ver se qualquer coisa que você estiver enfrentando como um problema é algo negativo ou algo positivo. Se for algo negativo, então não lute contra; não se preocupe nem um pouco com isso. Somente procure pelo positivo do problema, e você estará na porta certa.

A maioria das pessoas perde por que elas começam a brigar diretamente com a porta negativa.

Não existe porta; há somente escuridão, há somente ausência. E quanto mais elas brigam, mais encontram fracasso, mais se tornam deprimidas, pessimistas… e finalmente passam a achar que a vida não tem sentido, que é simplesmente tortura. Mas o seu erro é que entraram pela porta errada.

Então antes de enfrentar um problema, apenas olhe para ele: é a ausência de alguma coisa? E todos os seus problemas são a ausência de alguma coisa. E uma vez que você tenha encontrado a ausência de que eles se originam, então vá atrás do positivo. E no momento que você encontrar o positivo, a luz – a escuridão se foi.

The Path of the Mystic, capítulo 19.

Solitude x Solidão

Neste texto de Osho (o texto foi dividido em duas partes, uma que posto hoje, e outra que será postada amanhã), traduzido por mim, ele fala sobre o sentimento da solidão e porque a maioria das pessoas não consegue vencê-lo. É tão comum ouvir pessoas dizendo sentirem-se sós, mesmo em meio a uma multidão. O que é que provoca este tipo sensação?  Será o “estar sozinho” realmente um problema tão grande, algo a ser evitado a todo custo? Você já percebeu que todos os grandes pensadores, líderes e mestres, de todas as épocas e culturas, antes de se tornarem grandes e influentes, se isolaram? Ou preferiram vidas monásticas/eremitas/reclusas? Todos sacrificaram o social, para depois retornar e contribuir para a melhora e evolução deste mesmo social (mais ou menos como é definido no conceito do “monomito” – a jornada do Herói, por Joseph Campbell). Henrik Ibsen disse que “O homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só.” Proust, por sua vez disse que “A amizade não é mais que uma mentira que nos faz acreditar que não estamos irremediavelmente sós.” Não poderia deixar de citar o sussurro de Roberta Sparrow, no filme cult (e altamente recomendável!) Donnie Darko, em que ela diz à Donnie, em seu ouvido: “cada criatura nesta terra morre sozinha“. Isso tudo pode soar pessimista, ainda mais em uma sociedade em que se preza tanto o estilo “maria-vai-com-as-outras”, onde todos pensam o mesmo, fazem o mesmo, se divertem da mesma maneira – e acham que isso é viver a vida (o que na minha opinião é o pior). Acho que nunca na história da humanidade as aparências foram tão valorizadas, como nos séculos XX e XXI. Da mesma forma, nunca o planeta foi tão populoso. E mesmo assim, as pessoas se sentem, irremediavelmente, sós. Vejamos então, o que Osho diz sobre isso:

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Eu sofro imensamente de solidão. O que posso fazer sobre isso?

A escuridão da solidão não pode ser combatida diretamente. Isso é algo essencial que todos devem entender, que existem algumas coisas fundamentais que não podem ser modificadas. E este é um dos fundamentos: você não pode lutar com a escuridão diretamente, com a solidão diretamente, com o medo do isolamento diretamente. A razão é que nenhuma dessas coisas existe; elas são simplesmente ausências de alguma coisa, assim como a escuridão é ausência da luz.

Então o que você faz quando não quer que o quarto esteja escuro? Você não faz nada diretamente com a escuridão – ou faz? Você não pode empurrá-la para fora. Não há possibilidade de criar algum esquema para que a escuridão desapareça. Você deve fazer algo com a luz. E isso muda toda a situação; e é por isso que eu chamo de um dos essenciais, de fundamentos. Você sequer toca a escuridão; você não pensa nela. Não há porquê; ela não existe, é somente uma ausência.

Então apenas traga luz ao local e você não encontrará mais a escuridão, porque ela era a ausência da luz, simplesmente a ausência da luz – não algo material, com o seu próprio ser, não algo que exista.  Mas simplesmente  por que a luz não estava lá, você teve a falsa sensação de existência da escuridão.

Você pode ir em frente lutando com a escuridão por toda a sua vida e não será bem-sucedido, mas somente uma pequena vela é suficiente para dispersá-la. Você precisa trabalhar pela luz porque é positivo, existencial; ela existe por si própria. E uma vez que a luz vem, qualquer coisa que era a sua ausência desaparece.

A solidão é similar a escuridão.

Você não conhece a sua solitude. Você não experienciou a solitude e sua beleza, o seu tremendo poder, a sua força. Solitude e solidão no dicionário são sinônimos, mas a existência não segue os seus dicionários.  E ninguém ainda tentou fazer um dicionário existencial que não fosse contraditório à existência.

A solidão é ausência.

Por que você não conhece a sua solitude, existe o medo. Você se sente sozinho e então você quer se apegar a alguma coisa, a alguém, a algum relacionamento, só para manter a ilusão de que você não está sozinho. Mas você sabe que está – por isso a dor. Por um lado você está se apegando a algo que não é real, que é somente um arranjo temporário – um relacionamento, uma amizade.

E enquanto você está em um relacionamento você pode criar uma pequena ilusão para esquecer a sua solidão. Mas este é o problema: ainda que você possa esquecer por um momento a sua solidão, no momento seguinte você subitamente se torna consciente que o relacionamento ou a amizade não é permanente. Ontem você não conhecia este homem ou esta mulher, vocês eram desconhecidos. Hoje vocês são amigos – quem sabe o dia de amanhã? Amanhã vocês podem ser desconhecidos novamente – daí a dor.

A ilusão dá um certo consolo, mas não pode criar a realidade para que todos os medos desapareçam. Ela reprime o medo, então na superfície você se sente bem – ao menos você tenta se sentir bem.  Você finge se sentir bem para si mesmo: quão maravilhoso é esse relacionamento, quão maravilhoso é este homem ou esta mulher. Mas atrás da ilusão – e a ilusão é tão fina que você pode ver através dela – há dor no coração, porque o coração sabe perfeitamente bem que amanhã as coisas podem não ser as mesmas… e elas não são as mesmas.

Toda a sua vida confirma que as coisas vão se modificando. Nada permanece estável; você não pode se apegar a nada em um mundo de mudanças.  Você queria fazer da sua amizade algo permanente mas o seu querer está contra a lei da mudança, e esta lei não vai fazer exceções. Ela simplesmente vai em frente fazendo as suas coisas. Ela irá mudar – tudo.

Talvez no longo prazo você entenderá um dia que foi bom que ela não tenha te escutado, que a existência não se incomodou com você e foi em frente fazendo tudo o que queria fazer… não de acordo com o seu desejo.

Pode levar um pouco de tempo para você entender. Você quer que este amigo seja seu amigo para sempre, mas amanhã ele se torna um inimigo. Ou simplesmente – “Você se perdeu!” e ele não está mais com você. Alguma outra pessoa irá preencher a lacuna que é muito mais superior. Então, de repente você se dá conta que foi bom que a outra pessoa se mandou; de outro modo você estaria preso a ela. Mas mesmo assim a lição nunca vai fundo a ponto de você parar de pedir por permanência.

Você vai começar a pedir permanência com este homem, com esta mulher; agora isto não irá mudar. Você não aprendeu realmente a lição de que a mudança é a essência da vida. Você deve entendê-la e ir em frente com ela. Não crie ilusões; elas não irão ajudar. E todo mundo está criando ilusões de tipos diferentes.

Eu conhecia um homem que disse, “Eu confio somente no dinheiro. Não confio em mais ninguém.”

Eu disse, “Você está fazendo uma afirmação muito significativa.”

Ele disse, “Todo mundo muda. Você não pode contar com ninguém. E conforme você envelhece, somente o seu dinheiro é seu. Ninguém se importa – nem mesmo o seu filho, nem mesmo a sua esposa. Se você tem dinheiro todos eles se importam, todos o respeitam, por que você tem dinheiro. Se você não tem dinheiro, se torna um pedinte.”

A declaração dele de que a única coisa confiável no mundo é o dinheiro vem de uma longa experiência de vida, de ser traído uma vez, e outra vez pelas pessoas que ele confiava – e ele pensou que elas a amavam mas estavam todos ao seu redor por causa do dinheiro.

“Mas”, eu disse a ele, “no momento da morte o dinheiro não vai estar com você. Você pode ter uma ilusão de que pelo menos o dinheiro está com você, mas quando a sua respiração pára, o dinheiro não está mais com você. Você pode ter ganhado alguma coisa mas será deixado desse lado; você não pode carregá-lo depois da morte. Você irá mergulhar em uma profunda solidão que você tem escondido atrás da fachada do dinheiro.”

Existem pessoas que estão atrás do poder, mas o motivo é o mesmo: quando elas estão no poder tantas pessoas estão com elas, milhões de pessoas estão sob o seu domínio. Elas não estão sozinhas. Elas são grandes líderes políticos e religiosos. Mas o poder muda. Um dia você o tem, no outro dia se foi, e subitamente toda a ilusão desaparece. Você está sozinho como ninguém mais está, por que os outros estão acostumados a estarem sozinhos. Você não está acostumado… a sua solidão dói mais.

A sociedade tem inventado maneiras para que você esqueça a solidão. Casamentos arranjados são somente um esforço para que você saiba que sua esposa está com você. Todas as religiões resistem ao divórcio pela simples razão que se o divórcio for permitido, então o propósito básico pelo qual o casamento foi inventado é destruído. O propósito básico era te dar uma companhia, uma companhia vitalícia.

Mas mesmo que a sua esposa ou seu marido fique com você a sua vida inteira, isso não significa que o amor continua o mesmo. Na verdade, ao invés de te darem uma companhia, eles te deram um fardo para carregar. Você estava sozinho, já com problemas, e agora você deve carregar outra pessoa que está sozinha. E nesta vida não há esperança, por que uma vez que o amor desaparece vocês dois estão sozinhos, e ambos tem que se tolerar. E isto não é uma questão de estar encantando um pelo outro; no máximo vocês podem pacientemente se tolerar um ao outro. A sua solidão não foi mudada pela estratégia social do casamento.

As religiões tem tentado fazê-lo um membro de um grupo organizado de religião para que você esteja sempre na multidão. Você sabe que existem 600 milhões de católicos; você não está sozinho, 600 milhões de católicos estão com você. Jesus Cristo é o seu salvador. Deus está com você. Sozinho você poderia estar errado – a dúvida pode ter sido levantada – mas 600 milhões de católicos não podem estar errados. Um pouco de apoio… mas mesmo isso se foi porque há milhões que não são católicos. Há pessoas que crucificaram Jesus. Há pessoas que não acreditam em Deus – e seu número não é menor do que o de católicos, é maior do que o de católicos. E há outras religiões com conceitos diferentes.

É difícil para uma pessoa inteligente não duvidar. Você pode ter milhões de pessoas seguindo um certo sistema de pensamento, mas mesmo assim você não pode estar certo de que eles estão com você, de que você não está sozinho.

(…)

O que estou tentando dizer é que todo o esforço que foi dirigido para evitar a solidão falhou, e irá falhar, porque é contra os fundamentos da vida. O que é necessário não é algo que você possa evitar a sua solidão. O que é necessário é que você se torne consciente da sua solitude, o que é a realidade. E é tão belo experienciá-la, senti-la, por que é a sua liberdade da multidão, do outro. É a sua liberdade do seu medo de estar sozinho.

(fim da primeira parte)

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