A Terra não pertence ao homem…

” A história que temos no Ocidente, na medida em que se baseia na Bíblia, baseia-se numa visão do universo que pertence ao primeiro milênio antes de Cristo. Não está de acordo nem com nossa concepção do universo, nem com nossa concepção da dignidade humana. Pertence inteiramente a algum outro lugar.

Hoje, temos que reaprender o antigo acordo com a sabedoria da natureza e retomar a consciência de nossa fraternidade com os animais, a água e o mar. Dizer que a divindade modela o mundo e todas as coisas é condenado como panteísmo. Mas panteísmo é uma palavra enganadora. Sugere que um deus pessoal supostamente habita o mundo, mas a ideia em absoluto não é essa. A ideia é transteológica, de um mistério indefinível, inconcebível, admitido como um poder, isto é, como a fonte, o fim e o fundamento de toda a vida e todo o ser.

(…)

Deus (na tradição bíblica) está separado da natureza, e a natureza é condenada por Deus. Está tudo lá, no Gênesis: estamos destinados a ser os senhores do mundo.

Mas se você pensar em nós como vindos da terra, não como tendo sido lançados aqui, de alguma parte, verá que nós somos a terra, somos a consciência da terra. Este são os olhos da terra, e esta é a voz da terra.”

(Joseph Campbell – mitólogo norte-americano, em “O Poder do Mito“)

“O ser humano cultuará algo, não tenha dúvidas sobre isso. Podemos pensar que nosso tributo é pago em segredo no recesso escuro de nossos corações, mas ele se revelará. Aquilo que domina nossas imaginações e nossos pensamentos determinará nossa vida e nosso caráter. Portanto, cabe a nós ter cuidado com o que adoramos, pois o que nós estamos venerando nós estamos nos tornando.”

(Ralph Waldo Emerson – filósofo e poeta norte-americano)

“O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza antes de se dominarem a si mesmos.”

(Albert Schweitzer – teólogo, médico e filósofo alsaciano)

Planeta Terra

“Os índios se dirigiam a todo ser vivente como ‘vós’ – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como ‘vós’, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um ‘vós’ não é o mesmo que vê uma ‘coisa’. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em ‘coisas’.”

(Joseph Campbell, em “O Poder do Mito“)

O modo como você trata a natureza diz muito sobre você, pois apenas reflete o modo como você trata a si mesmo. Não há como maltratar ou ser indiferente a ela sem agir antes, desse mesmo modo, consigo mesmo.

A ideia desse post surgiu de alguns comentários feitos em outro post a respeito da ignorância humana e sua consequente maldade (oriunda do medo e lapidada por aquela mesma ignorância) em relação a tudo aquilo que é diferente ou desconhecido. Principalmente no que se refere ao modo de ver e tratar a natureza, um tema que ultimamente tem aparecido como nunca na mídia.

Nós não estamos mais, somente, caminhando para a nossa própria destruição como espécie. Nós estamos encarando a nossa possível extinção nos olhos, há um bom tempo.

Mas eu não quero dedicar esse post a reclamações inúteis do tipo “ninguém preserva a natureza” ou “ninguém recicla”, ou ainda “ninguém respeita os animais”. Pois ficar fazendo essas constatações do óbvio também não muda situação alguma. Além de ser clichê, é mais uma manutenção do conformismo reinante.

Quando me deparo com um problema, a minha primeira preocupação é encontrar a origem, a fonte do conflito, onde tudo começou. E no caso dos problemas com relação a natureza, sejam eles quais forem, todos têm uma origem comum: a nossa cultura. O problema não está na falta de educação. O problema é a educação. Nós somos criados, principalmente no Ocidente, para não só “crescer e se multiplicar” pela terra, mas para “dominar a natureza” e “colocá-la a nosso serviço”. É como diz o grande mitólogo Joseph Campbell na citação que introduz este texto, “está tudo lá, no Gênesis: estamos destinados a ser os senhores do mundo“. A nossa cultura, que se fundamenta na tradição judaico-cristã, e que é uma mitologia socialmente orientada, vê a natureza como algo a ser controlado. A natureza é a coisa que deve nos servir. É por isso que é tão “chocante” para nós ver imagens de um país como a Índia, em que vacas, por exemplo, são tratadas como deuses.

Mas tudo fica muito diferente, a maneira como se trata todos os seres do mundo, quando se olha para tudo e se vê um “vós” ao invés de “coisas” e “issos”. Ao olhar para um animal e ver um “vós”, você não mata por diversão. Ao olhar para uma árvore e ver um “vós”, você não desmata inutilmente. Ao olhar para a água e ver um “vós” você não despeja químicos em rios e oceanos. Você só faz tudo isso quando vê a natureza como uma coisa a ser subjugada. Algo a ser controlado visando somente os seus interesses. Uma máquina servindo a propósitos artificiais.

O nosso problema com o mundo está na maneira como olhamos para o mundo. E mesmo percebendo que esse modo de ver e agir não está gerando bons frutos, continuamos passando para as novas gerações o mesmo tipo de educação errônea que recebemos como “tradição”. Mas, a culpa não é daquelas pessoas que escreveram os textos bíblicos… Elas não tinham como saber. Elas nada mais eram do que frutos de suas próprias limitações de época, ambiente e conhecimento. Mas, milênios se passaram e nós não podemos nos esconder atrás da mesma desculpa…

E é para ilustrar exatamente essa ideia que resolvi transcrever a famosa carta do Chefe Seattle, escrita por volta de 1852 e endereçada ao presidente dos Estados Unidos, que na época havia feito um inquérito sobre a aquisição das terras indígenas para serem ocupadas pelos imigrantes que chegavam ao país.

Chefe Seattle

Chefe Seattle

A carta do Chefe Seattle entrou para a História por ser uma das mais (se não a mais) belas declarações de amor à Natureza, não só escrita, mas verdadeiramente sentida e vivida, por um ser humano.

Fica como um exemplo de que toda mudança social e global é primeiro uma mudança individual. A tal “sociedade” nada mais é que um coletivo de indivíduos humanos.

Que essa carta sirva de inspiração para a mudança individual, a boa e velha mudança interior que verdadeiramente tem poder para melhorar o mundo:

+++

“O Presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A ideia nos é estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los?

Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência  do meu povo.

Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, pertencem todos à mesma família.

A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar-se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias na vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.

Os rios são nossos irmãos. Eles saciam a nossa sede, conduzem nossas canoas e alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se dedicaria a um irmão.

Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. O vento, que deu ao nosso avô seu primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.

Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece  a todos os filhos da terra.

O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo.

Uma coisa sabemos: nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens, todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência.

Quando o último pele-vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem, e a sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície… estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?

Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na, como Deus nos ama a todos.

Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos.”

Texto integral retirado do livro “O Poder do Mito“.

A Causa Secreta

a causa secreta...

Você já ouviu alguém (ou até si mesmo) falando que, quanto à morte, “todo mundo tem sua hora certa”? Pois bem, eu não só ouvi, mas também já observei muitas situações que se revelaram como evidências de que as pessoas parecem ter uma “hora certa”, praticamente inevitável, de morrer. Mesmo assim a idéia de que há uma espécie de destino nos guiando sempre me intrigou e fascinou. Por que grandes líderes, pensadores, pacificadores, religiosos, artistas e músicos possuem uma tendência a morrerem jovens, ou melhor, a morrerem um pouco depois de suas máximas realizações? Seja por assassinatos, doenças, acidentes ou ingestão de drogas, parece haver um motivo “maior” para que suas vidas sejam interrompidas tão cedo, e normalmente de maneira tão marcante? O que define o modo como iremos morrer?

O tema desse post é lúgubre, eu sei. Mas o que me fez escrever sobre uma suposta “hora de morrer” ou “modo de morrer”, foi a leitura de um insight impressionante de Joseph Campbell, em seu livro “Tu és Isso: Transformando a Metáfora Religiosa”, que já mencionei outras vezes aqui no site. Em um dos capítulos do livro, o autor estava discorrendo sobre as “emoções trágicas” (como diria James Joyce) de uma narrativa trágica, que seriam a “pena” e o “terror”. Enquanto Campbell diferenciava medo de terror, dizendo ser esse último “uma experiência extática do sublime, do que transcende a dor”, ele chega ao termo “causa secreta”, que seria a “chave de tudo”. O terror, segundo ele, seria a emoção “que detém a marcha do espírito na presença de tudo o que é grave e constante no sofrimento humano e o une à causa secreta”. É a partir daí que surge o tal insight impressionante que eu havia mencionado anteriormente, quando o autor explica o que faz uma tragédia ser uma tragédia. Transcrevo abaixo o trecho, do raciocínio brilhante do professor Campbell:

+++

Imagine que um homem negro leve um tiro e seja morto por um branco. Qual é a causa da morte? A bala? Ela é a causa instrumental. Se você resolver escrever sobre balas e como elas não deveriam existir, ou se é ou não bom vender armas em lojas, deixando-as facilmente acessíveis, pode estar compondo um ótimo artigo sobre controle de armas, mas não uma tragédia, por mais que você se esforce. O homem branco dá um tiro no homem negro.

A causa do assassinato foi o conflito racial nos Estados Unidos? Se você escrever sobre isso, também terá o preconceito como uma causa instrumental e não a causa secreta da morte de uma pessoa. Você pode compor um importante ensaio social, mas não será uma tragédia. É uma calamidade, mas não uma tragédia.

O motivo de eu estar falando de um homem branco e um homem negro é que penso especificamente em Martin Luther King Jr., e suas bravas palavras pouco antes de seu assassinato: “Sei que ao insistir na justiça e nessa causa estou desafiando a morte.” Essa é a causa secreta.

A causa secreta de sua morte é o seu destino. Toda vida tem uma limitação; e ao desafiar o limite, você se aproxima dele. Os heróis são aqueles que iniciam suas ações, não importa qual seja o destino resultante. O que acontece é, portanto uma função do que a pessoa faz. Isso se aplica a toda a vida. Esta é a revelação da causa secreta: o curso de sua vida é a causa secreta de sua morte.

Isso também faz com que este e não aquele evento se torne a ocasião da morte de uma pessoa. A casualidade de você morrer dessa forma e não em outro momento e lugar, é a realização de seu destino: todas essas mortes são secundárias. O que deve se manifestar através do evento é a magnificência da vida que foi vivida e da qual o evento faz parte. Na arte, você não diz “não”. Diz “sim”. Quando dizemos “espero morrer dessa maneira”, queremos de fato afirmar que gostaríamos de morrer com essa realização. Sob esse ponto de vista, a morte é compreendida como uma realização da direção e do propósito de nossa vida.

Crentes e Ateus: unidos pelo equívoco

Josep Campbell

Josep Campbell

“Uma mitologia pode ser compreendida como uma organização de figuras mitológicas, conotativas de estados mentais que não pertencem em última instância a esse ou àquele local, embora as figuras em si pareçam, na superfície, sugerir uma localização concreta. As linguagens metafóricas da mitologia e da metafísica não são denotativas de mundos e deuses reais, mas sim conotam níveis e entidades dentro da pessoa por elas tocada. As metáforas só parecem descrever o mundo exterior do tempo e lugar. Seu universo real é o mundo espiritual da vida interior. O Reino de Deus está dentro de você.”

Joseph Campbell

Já cansei de ver em vários sites de ateísmo, fotos ou a citação do nome Joseph Campbell como sendo um “ateu famoso”. Da mesma forma, já vi o nome dele em sites “nova era” ou que pregavam um pseudomisticismo fazerem o mesmo. Porém, você pode estar se perguntando, quem está com a razão? Bem, é esta a intenção deste post, esclarecer que ambos estão profundamente equivocados: o prof. Campbell não era a favor da “fé religiosa” como normalmente é compreendida e praticada, muito menos era ateu.

Sim, Joseph Campbell não era ateu.

Só faz uma alegação estapafúrdia de que ele era ateu, os ateus que jamais tocaram em um único livro de Campbell. Que nunca sequer leram um artigo ou uma entrevista dele. Ateus e céticos que se contentam com o que leram de um outro colega que também havia lido de outro que, por sua vez, achava que Campbell era ateu. Estranhamente, apesar de se julgarem tão “científicos” e “racionais”, cometem os mesmos pecados daqueles de fé cega em um Deus antropomorfizado: só lêem e vêem aquilo que desejam ler e ver, aquilo que é mais conveniente para a manutenção de suas crenças pessoais.

Pois bem. Joseph Campbell era ateu em relação à maneira convencional de se entender Deus. Ele era ateu para a definição de que Deus está no céu, é do sexo masculino, está vendo tudo o que está acontecendo, que escolhe um povo ao invés de outro, que diz que uma religião é mais certa do que outra, que pune os “pecadores” e “infiéis”, que faz o time da França ganhar e o do Brasil perder, entre outras. É à essa noção ridícula e risível de Deus que Joseph Campbell era ateu. Mas isso não quer dizer, em absoluto, que ele não acreditava em “deus”. Na verdade, pelo simples fato de ele ter sido um mitólogo, um dos mais renomados do mundo, a visão que ele tinha de “deus’, e portanto a sua crença “nele”, é completamente diferente.

Em “The Hero’s Journey”, dvd que fala um pouco sobre a vida e obra do professor, ele diz, de maneira bastante enfática (assim como repete várias vezes ao longo de seus livros): “Deus é uma metáfora. Uma metáfora que transcende toda e qualquer categoria de pensamento humano, incluindo a do ser e não-ser.” Ou seja, deus jamais será o que você pensa ou puder imaginar que é. Ele, apesar de utilizarmos o “ele”, não possui sexo. A partir do momento que o nomeamos, nós o limitamos, qualquer definição que possamos inventar nada mais será que uma tentativa pequena, incrivelmente medíocre, de tentar explicar algo que está em nós e muito além de nós. Um mistério muito além do nosso raciocínio. Um mistério realmente transcendental.

Mas para ilustrar melhor isso tudo que estou afirmando, resolvi transcrever um capítulo do livro “Tu és Isso: Transformando a Metáfora Religiosa”, de Joseph Campbell, em que ele conta uma passagem de sua vida (bem engraçada por sinal) em que se deu conta de porque ateus e crentes estão igualmente equivocados.

+++

O Significado do Mito

Deixe-me começar, explicando a história de meu impulso  para colocar a metáfora no centro de nossa exploração da espiritualidade ocidental.

Quando o primeiro volume do meu “Historical Atlas of World Mythology: The Way of Animal Powers” foi publicado, os editores me enviaram numa turnê publicitária. É o pior tipo de turnê possível porque você tem de se encontrar, sem a menor vontade, com locutores de rádio e repórteres, eles próprios indispostos a ler o livro sobre o qual devem conversar com o entrevistado, para gerar visibilidade.

A primeira pergunta que faziam era sempre: “O que é um mito?” É um bom começo para uma conversa inteligente. Em uma cidade, porém, entrei em uma estação de rádio para um programa de meia hora, ao vivo, em que o entrevistador era um jovem com ar de astuto e que imediatamente me alertou: “Sou difícil, já vou lhe avisando. Estudei Direito.”

A luz vermelha acendeu e ele começou, argumentativo: “A palavra ‘mito’ significa ‘uma mentira’. Mito é uma mentira.” Repliquei com a minha definição de mito. “Não, mito não é uma mentira. Uma mitologia completa é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metafóricas das possibilidades de experiência humana e da realização de determinada cultura em certo momento.”

“É uma mentira”, ele retrucou.

“É uma metáfora.”

“É uma mentira.”

Isso continuou por uns vinte minutos. Quatro ou cinco minutos antes do fim do programa, percebi que o entrevistador não sabia o que era uma metáfora. Resolvi tratá-lo da mesma maneira como estava sendo tratado.

“Não”, eu disse. “Eu lhe digo o que é metafórico. Dê-me um exemplo de metáfora.”

Ele respondeu: “Dê-me você um exemplo.”

Eu resisti. “Não, agora eu estou fazendo a pergunta.” Eu não tinha lecionado por trinta anos à toa. “E eu quero que você me dê um exemplo de uma metáfora.”

O entrevistador ficou totalmente pasmo e chegou a dizer: “Vamos chamar um professor”. Finalmente, depois de um minuto e meio, ele se recompôs e disse: “Vou tentar. Meu amigo John corre muito. Dizem que ele corre como um veado. Isso é uma metáfora.”

Enquanto se passavam os últimos segundos da entrevista, eu repliquei. “Isso não é uma metáfora. A metáfora seria: John é um veado.”

Ele revidou: “Isso é uma mentira.”

“Não”, eu disse. “Isso é uma metáfora.”

E  o programa terminou. O que esse incidente sugere sobre a nossa compreensão de metáfora?

Ele me fez refletir que metade da população mundial acha que as metáforas de suas tradições religiosas, por exemplo, são fatos. E a outra metade afirma que não são fatos, de forma alguma. O resultado é que temos indivíduos que se consideram fiéis porque aceitam as metáforas como fatos, e outros que se julgam ateus porque acham que as metáforas religiosas são mentiras.

Por que ler Joseph Campbell…

“Aí está o esboço de uma fábula que será popular entre os jovens de toda a parte: um homem viaja muito, está quase sempre sozinho. Procura consolo espiritual e evita serviços chatos. É mais inteligente que os pais e a maioria das pessoas que ele conhece. Topa com diversas pistas, estranhamente encantadoras, de que o consolo espiritual pode mesmo ser encontrado.”

(Kurt Vonnegut)

Prof. Campbell, 1984

Prof. Campbell, 1984

Já em outros posts falei um pouco sobre Joseph Campbell: num, traduzi uma lista de livros que ele recomendava aos seus alunos de faculdade, e noutro trouxe os “mandamentos para se ler mitos“. Porém, esses posts serviam mais aos que já conhecem ou estão familiarizados com a obra de Campbell do que àqueles que nunca ouviram falar dele.

Pois bem! O prof. Campbell é muito conhecido no hemisfério norte, particularmente nos EUA, onde nasceu. Ficou famoso por ser um estudioso de mitos que entendeu a mitologia de uma maneira muito mais profunda e universalista. O seu trabalho ficou mundialmente conhecido com a publicação de “O Herói de Mil Faces” em 1949, (livro de cabeceira de roteiristas, produtores e diretores de cinema e televisão, o mais conhecido sendo George Lucas) onde ele esboça pela primeira vez a sua teoria do “Monomito” (termo esse que pegou emprestado de James Joyce, um de seus autores favoritos), que é também conhecida como a “Jornada do Herói”. Segundo Campbell, todos os mitos seguem a estrutura do “monomito”, em algum grau. A tal estrutura é dividida em três fases: Partida (ou separação), Iniciação e Retorno. É a história básica do herói que recebe o “chamado para a aventura”, parte em busca do desconhecido, aprende coisas especiais/novas durante sua jornada, e depois retorna, para compartilhar com os outros o que aprendeu. É simples, porém extremamente eficaz: todo mundo se identifica com o herói que tem sua história contada a partir dessas três fases.

Mas neste post não pretendo discorrer sobre a tese de Campbell. A minha idéia aqui é dar um gostinho do que se pode encontrar em suas obras, especialmente a famosa entrevista que o jornalista Bill Moyers fez com o professor nos anos 80. Esta entrevista,  foi publicada tanto em livro como em DVD e se chama “O Poder do Mito“, e é considerada a melhor maneira de ser “iniciado” na obra de Campbell. Aqui, trago alguns trechos da entrevista, escolhidos por mim (sei que há muitos anos tem na internet uma seleção de trechos, mas o que trago aqui são algumas das partes que mais gostei do livro) para quem quiser saber por que deveria se importar com mitologia, e mais ainda, ler Joseph Campbell!

“A grande questão é quando você estará apto a dizer um sim sincero à sua aventura.”

(Joseph Campbell)

“Nós precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para que possamos ter a vida que espera por nós.”

(Joseph Campbell)

Vamos ao prometido:

- “Para ele, (Joseph) mitologia era a ‘canção do universo’, ‘a música das esferas’ – música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Ouvimos seus refrões, ‘quer quando escutamos, com altivo enfado, a ladainha ritual de algum curandeiro do Congo, quer quando lemos, com refinado enlevo, traduções de poemas de Lao Tsé, ou rompemos a casca de um argumento de S.Tomás de Aquino, ou apreendemos, num relance, o sentido radiante e bizarro de uma lenda esquimó.” (Bill Moyers)

“No Japão, durante um congresso internacional sobre religião, Campbell entreouviu outro delegado norte-americano, um filósofo social de Nova York, dizendo a um monge xintoísta: ‘Assistimos já a um bom número de suas cerimônias e vimos alguns dos seus santuários. Mas não chego a perceber a sua ideologia. Não chego a perceber a sua teologia.’ O japonês fez uma pausa, mergulhando em profundo pensamento, e então balançou lentamente a cabeça: ‘Penso que não temos ideologia’, disse. ‘Não temos teologia. Nós dançamos.” (Bill Moyers)

“A mitologia tem muito a ver com os estágios da vida, as cerimônias de iniciação, quando você passa da infância para as responsabilidades do adulto, da condição de solteiro para a de casado. Todos esses rituais são ritos mitológicos. Todos têm a ver com o novo papel que você passa a desempenhar, com o processo de atirar fora o que é velho para voltar com o novo, assumindo uma função responsável.” (Campbell)

“… Isto se chama desenvolvimento de uma religião. É como se vê na Bíblia. No início, Deus era apenas o mais poderoso entre vários deuses. Era apenas um Deus tribal, circunscrito. Então, no século VI, quando os judeus estavam na Babilônia, foi introduzida a noção de um Salvador do mundo, e a divindade bíblica migrou para uma nova dimensão. A única maneira de conservar uma velha tradição é renová-la em função das circunstâncias da época. No tempo do Velho Testamento, o mundo era um pequeno bolo de três camadas, que consistia de algumas centenas de milhas em torno dos centros do Oriente Próximo. Ninguém tinha ouvido falar dos astecas ou dos chineses. Quando o mundo se altera, a religião tem que se transformar.” (Campbell)

“A mitologia é a música. É a música da imaginação, inspirada nas energias do corpo. Uma vez um mestre zen parou diante de seus discípulos, prestes a proferir um sermão. No instante em que ele ia abrir a boca, um pássaro cantou. E ele disse: ‘O sermão já foi proferido.’” (Campbell)

“A única mitologia válida hoje é a do planeta – e nós não temos essa mitologia. Aquilo que mais se aproxima de uma mitologia planetária, pelo que sei, é o budismo, que vê todas as coisas como tendo a natureza do Buda. O único problema é chegar ao reconhecimento disso. Não há nada a fazer. A tarefa é apenas reconhecer e então agir em relação à irmandade de todas as coisas.” (Campbell)

“Todos os homens são dotados de razão. Esse é o princípio fundamental da democracia. Como toda a mente é capaz de adquirir um conhecimento verdadeiro, não é preciso que uma autoridade especial, ou uma revelação especial, lhe diga como as coisas deveriam ser.” (Campbell)

“… Os Hindus, por exemplo, não acreditam em revelação especial. Eles falam de um estado em que os ouvidos se abriram para a música do universo.” (Campbell)

“A história que temos no Ocidente, na medida em que se baseia na Bíblia, baseia-se numa visão de universo que pertence ao primeiro milênio antes de Cristo. Não está de acordo nem com nossa concepção do universo, nem com nossa concepção de dignidade humana. Pertence inteiramente a algum outro lugar.” (Campbell)

Uma coisa que se revela nos mitos é que, no fundo do abismo, desponta a voz da salvação. O momento crucial é aquele em que a verdadeira mensagem de transformação está prestes a surgir. No momento mais sombrio, surge a luz.” (Campbell)

“Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda a vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer-se a si mesma! A vida vive de vidas, e a conciliação da mente e da sensibilidade humanas com esse fato fundamental é uma das funções de alguns daqueles ritos brutais, cujo ritual consiste basicamente em matar – por imitação daquele primeiro crime primordial, a partir do qual se gestou este mundo temporal, do qual todos participamos. A conciliação entre a mente humana e as condições da vida é fundamental em todas as histórias da criação. Quanto a isso, todas se parecem muito.” (Campbell)

“- E o que sugere a idéia de reencarnação? (pergunta Moyers)

- Sugere que você é mais do que pensa. Existem dimensões do seu próprio ser e um potencial de realizações e ampliação da consciência que não estão incluídos no conceito que você faz de si mesmo. Sua vida é mais profunda e ampla do que você a concebe, aqui. O que você está vivendo é só uma fração infinitesimal daquilo que realmente se abriga no seu interior, aquilo que lhe dá vida, alento e profundidade. E você pode viver em termos dessa profundidade, e quando chega a essa experiência, você percebe, instantaneamente, que é disso que falam todas as religiões.” (Campbell).

“Nem em corpo nem em alma habitamos o mundo daquelas raças caçadoras do milênio paleolítico, a cujas vidas e caminhos de vida, no entanto, devemos a própria forma de nossos corpos e a estrutura das nossas mentes. Lembranças de suas mensagens animais devem estar adormecidas, de algum modo, em nós, pois ameaçam despertar e se agitam quando nos aventuramos em regiões inexploradas. Elas despertam com o terror do trovão. E voltam a despertar, com uma sensação de reconhecimento, quando entramos numa daquelas grandes cavernas pintadas.” (Campbell)

“Os índios se dirigiam a todo ser vivente como ‘vós’ – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como ‘vós’, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um ‘vós’ não é o mesmo que vê uma ‘coisa’. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em ‘coisas’.” (Campbell)

Nossa vida desperta o nosso caráter. Você descobre mais a respeito de você mesmo à medida que vai em frente. Por isso é bom estar apto a se colocar em situações que despertem o mais elevado e não o mais baixo da sua natureza. ‘Não nos deixei cair em tentação’. ” (Campbell)

“Siga a sua felicidade e o Universo abrirá portas para você onde antes só havia paredes.”

Joseph Campbell

Os Dez Mandamentos Para se Ler Mitos, por Joseph Campbell

Desconheço a fonte deste texto, mas para todos os que gostam de Mitologia ou se interessam pelo trabalho de Campbell (como eu), esse texto diz tudo, e em poucas palavras.

Dez Mandamentos Para Ler Mitos
Joseph Campbell’s Ten Commandments for Reading Myths

1

Read myths with the eyes of wonder: wonder the meaning; wonder the source.

Leia mitos com um olhar de mistério: maravilhe-se com o significado, maravilhe-se com a origem.

2

Read myths in the present tense: Eternity is now.
Leia mitos no tempo presente: a Eternidade é agora.
3

Read myths in the first person plural: the Gods and Goddesses of all mythology live within us all.
Leia mitos no plural: os Deuses e Deusas de todas as mitologias vivem dentro de nós.

4

Any interesting myth draw, or repel, or both. All these feelings are yours to explore.
Todo mito interessante atrai, repele, ou ambos. Todos esses sentimentos são seus para explorar.

5

Look, hear and feel the pattern; that is what myths are for.
Olhe, ouça e sinta a forma; é para isso que os mitos existem.

6

There is sacred in the secular.
O sagrado existe também no profano.

7

Myths can be generated anywhere, anytime, by anything: the Buddha also
lives in the computer chip.

Mitos podem ser gerados em qualquer lugar, a qualquer tempo, por qualquer coisa: o Buda vive também no chip de computador.

8

Know your tribe! Myths never arise in a vacuum; they are the connective
tissue of the social body synergistically relating private myths (dreams) and rituals (public myths).

Conheça sua tribo! Os mitos nunca surgem no vácuo; eles são o tecido de ligação do corpo social sinergisticamente relacionando mitos pessoais (sonhos) e rituais (mitos públicos).

9

Myths mean:The earth is our home and humankind is our family.
Os mitos significam: a Terra é nossa casa e a humanidade é nossa família.

10

Imagination quickens. Myths are for life.
A imaginação desperta. Os mitos são para a vida.

Literatura Recomendada por Joseph Campbell

A partir de uma lista oficial de livros recomendada pelo prof. Joseph Campbell às suas alunas da faculdade Sarah Lawrence, encontrada no site da Fundação Joseph Campbell ( http://www.jcf.org ), criei esta lista com os títulos que encontrei publicados em Português. A maioria dos livros aqui citados podem ser encontrados em livrarias virtuais. Na lista aparece primeiro o nome do autor, seguido do nome da obra e a editora. Esta mesma lista disponibilizei no fórum oficial em língua portuguesa da Fundação: http://www.jcf.org/forum/viewforum.php?forum=36 .

________________________________________________________________

1- OVÍDIO – Metamorfoses – Editora: Hedra

2 – JAMES GEORGE FRAZER – O ramo de ouro – Editora: LTC

3 – EMILE DURKHEIM – As Formas Elementares da Vida Religiosa – Editora: Martins Fontes.

4 – SIGMUND FREUD – Interpretação dos Sonhos – Editora: Imago
Moisés e o Monoteísmo – Editora: Imago
Totem e Tabu – Editora: Imago
É interessante talvez olhar as Coleções Completas de Freud, também publicadas pela Imago.

5 – CARL GUSTAV JUNG – O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinesa. Editora: Vozes
Para quem se interessa por Jung, a Editora Vozes também publicou uma coleção de obras dele (não está completa).
Dos livros de Jung, eu recomendo (para os leigos):
MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES – Editora Nova Fronteira
O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS – Editora Nova Fronteira

6 – W.Y. EVANS-WENTZ – O livro tibetano dos mortos. – Editora: Pensamento

7 – BHAGAVAD GITA – Editora: Companhia das Letras ou Martin Claret

8 – ALAN W. WATTS – O Espírito do Zen. Editora: Cultrix.

9 – EUGEN HERRIGEL – A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen – Editora: Pensamento

10 – LAO TSE – Tao Te Ching: o Livro do Caminho e da Virtude – Editora: Mauad

11 – SUN TZU – A Arte da Guerra – Editora: Martin Claret

12 – CONFUCIO – Os Analectos – Editora: L&PM, Martins Fontes.

13 – FRIEDRICH NIETZSCHE – A Origem da Tragédia – Editora: Centauro, Madras.

14 – Bíblia – Novo Testamento, Evangelho de Lucas.

15 – ESQUILO – Prometeu Acorrentado – Editora: Martin Claret.

16 – EURIPEDES – Alceste Electra Hipólito – Editora: Martin Claret

17 – SOFOCLES – Édipo Rei; Antígona – Editora: Martin Claret

18 – PLATÃO – Fedro – Editora: Martin Claret

19 – O Alcorão

20 – Beowulf – Pode ser encontrado a história desse herói no livro: Mitos Universais: Mitos e Lendas dos Povos Europeus, de Jean Lang, Editora: Landy

21 – Edda em Prosa: Textos da Mitologia Nórdica de Snorri Sturluson. Editora: Numen
Edda em Verso ou Poética – não achei livros em português, mas na internet até que tem bastante informações.

22 – O Mabinogion – Não achei livros, mas achei um site com a tradução completa desse texto para o português: http://www.livrosparatudo.org/6D626E673130/

23 – WILHEM KARL GRIMM & JACOB LUDWIG KARL GRIMM – Contos de Grimm. – Editora: Cia das Letrinhas.

24 – FRANZ BOAS – Antropologia Cultural – Editora: Jorge Zahar

25 – THOMAS MANN – Morte em Veneza e Tonio Kröger – Editora: Nova Fronteira

26 – HERMAN MELVILLE – Taipi, Paraíso de Canibais – Editora: L&PM.

27 – LEO FROBENIUS – A Gênese Africana: Contos, Mitos e Lendas da África. – Editora: Landy.

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