“O Budismo possui as características do que se poderia esperar em uma religião cósmica para o futuro: transcende um Deus pessoal, evita dogmas e teologia, abrange tanto o natural como o espiritual; e é baseada num sentido religioso que almeja a experiência de todas as coisas, natural e espiritual, como uma unidade significativa.”

Albert Einstein

“Se existe alguma religião que estaria à altura das necessidades científicas modernas, esta seria o Budismo.”

Albert Einstein

Recentemente fiquei sabendo de um livro de autoria de Tenzin Gyatso, o Décimo Quarto Dalai Lama, chamado “O Universo em um Átomo – O encontro da ciência com a espiritualidade“. Resolvi comprá-lo, e assim que iniciei a leitura (por sinal até o momento estou adorando), encontrei umas passagens muito interessantes à respeito da questão Ciência x Budismo. Para quem não está familiarizado com o tema, um dos primeiros digamos, proponentes da idéia de que a Ciência (mais especificamente a Física e Mecânica Quântica) tem muito a ver com a filosofia oriental, mais do que se poderia imaginar, é o físico Fritjot Capra, que traçou o paralelo entre ciência e espiritualidade em seu famoso best-seller, “O Tao da Física“. Nesse livro, ele falava das recentes descobertas da Física Quântica, e observava com fascínio como muitas dessas descobertas, só eram mesmo “descobertas” para os ocidentais. Apesar de as religiões orientais as terem dito por maneiras mais metafóricas, alegóricas ou poéticas, há milhares de anos atrás, a verdade era a mesma. E em “O Universo em um Átomo”, Dalai Lama retoma essas discussões, do ponto de vista de um alto lama do budismo tibetano, mas que sempre se interessou por ciência. Abaixo, transcrevo algumas partes interessantes do capítulo “Encontro com a Ciência”:

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Como um resultado das conversas com pessoas, particularmente cientistas profissionais, sobre ciência, percebi certas similaridades no espírito de investigação entre a ciência e o pensamento budista – similaridades que ainda acho supreendentes. O método científico, como eu o entendo, parte da observação de determinados fenômenos no mundo material, leva a uma generalização teórica que prediz os eventos e resultados que surgirão se os fenômenos forem tratados de uma dada maneira e, então, testa a previsão com um experimento. O resultado será aceito como parte do corpo do conhecimento científico mais amplo se o experimento tiver sido realizado corretamente e puder ser repetido. Entretanto, se o experimento contradisser a teoria, então a teoria é que precisará ser adaptada – já que a observação empírica dos fenômenos tem prioridade. De fato, a ciência parte da experiência empírica via um processo de pensamento conceitual, que inclui a aplicação da razão e culmina em novas experiências empíricas para confirmar a interpretação oferecida pela razão. Há muito sou prisioneiro do fascínio pelos paralelos entre esta forma de investigação empírica e aquelas que aprendi em meu treinamento filosófico e prática contemplativa budistas.

Embora o budismo tenha evoluído como uma religião com um corpo característico de escrituras e rituais, nele, estritamente falando, a autoridade da escritura não pode ser mais importante que uma interpretação baseada na razão e experiência. De fato, o próprio Buda, numa declaração famosa (clique aqui para vê-la), debilita a autoridade escritural de suas palavras quando exorta seus seguidores a não aceitar a validade de seus ensinamentos simplesmente com base numa reverência a ele. Assim como um ourives experiente testaria a pureza de seu ouro por meio de um meticuloso processo de exame, Buda adverte que as pessoas devem testar a verdade daquilo que ele disse por meio do exame racional e experimento pessoal. Portanto, quando se trata de validar a verdade de uma afirmação, o budismo confere autoridade máxima à experiência, com a razão em segundo e a escritura em último. Os grandes mestres da escola nalanda do budismo indiano, do qual se originou o budismo tibetano, continuaram a aplicar o espírito do conselho de Buda no seu exame rigoroso e crítico dos próprios ensinamentos de Buda.

Num certo sentido, os métodos da ciência e do budismo são diferentes: a investigação científica avança pelo experimento, empregando instrumentos que analisam os fenômenos externos, enquanto a investigação contemplativa avança através do desenvolvimento de uma atenção refinada, que é então utilizada no exame introspectivo da experiência interior. Ambos têm em comum uma forte base empírica: se a ciência mostra que uma coisa existe ou que é não-existente (que não é o mesmo que não a descobrir), então devemos reconhecê-la como um fato. Se uma hipótese for testada e for constatada que é verdadeira, deveremos aceitá-la. Da mesma forma, o budismo deve aceitar os fatos – quer sejam descobertos pela ciência ou pelas concepções contemplativas. Se, ao investigarmos uma coisa, descobrirmos que existe razão e prova para ela, deveremos reconhecê-la como realidade – mesmo que esteja em contradição com uma explicação escritural literal que tenha sido imposta por muitos séculos ou em contradição com uma opinião ou ponto de vista profundamente defendido. Portanto, uma atitude fundamental que o budismo e a ciência têm em comum é o compromisso de manter a busca da realidade por meios empíricos e a disposição de descartar posturas aceitas ou de longa data se nossa pesquisa descobrir que a verdade é diferente.

Em contraste com a religião, uma característica significativa da ciência é a ausência da sedução pela autoridade da escritura como fonte para validação de asserções de verdade. Todas as verdades na ciência devem ser demonstradas por experimento ou prova matemática. A idéia de que uma coisa deve ser verdadeira porque Newton ou Einstein assim o disseram simplesmente não é científica. Portanto, uma investigação tem que avançar a partir de um estado de abertura com respeito à pergunta em questão e àquilo que a resposta possa ser, um estado de espírito que considero um ceticismo saudável. Este tipo de abertura pode tornar os indivíduos receptivos a concepções inéditas e novas descobertas; e quando é combinada com a busca humana natural pelo conhecimento, esta postura pode levar a uma profunda expansão de nossos horizontes. Naturalmente, isto não quer dizer que todos aqueles que praticam a ciência vivem de acordo com este ideal. De fato, alguns podem estar presos aos paradigmas anteriores.