Interessante a campanha da ATEA…

Gostei particularmente do anúncio “Religião não define caráter“. Nada mais verdadeiro!!!

Mas esse é o tipo de notícia que não dá pra deixar passar sem fazer algum comentário.

Primeiramente, é muito interessante ver a reação das pessoas frente a esse tipo de anúncio. Convenhamos, vemos o tempo inteiro outdoors dizendo “Deus é Fiel”, “Só Jesus salva” e coisas semelhantes e está tudo certo. Mas quando alguém resolve por num outdoor que todo mundo é ateu em relação ao “deus/deuses”  dos outros (o que é a mais pura e realista verdade quando estamos nos referindo ao senso comum em relação a deus e fé) as pessoas acham que é provocação. Por que?

Não há nada de errado nos anúncios, inclusive, não são mais  desrespeitosos do que um enorme “Só Jesus é a verdade” – que já vi por aí . Muito pelo contrário, são sacadas bem inteligentes que mostram o outro lado da moeda em relação a religião. É uma tentativa de conscientizar as pessoas de que nem todo mundo sente necessidade de acreditar num  “deus”, muito menos de seguir uma religião. Qual o problema nisso?

Só me chamou a atenção o fato do presidente da ATEA comparar o preconceito contra ateus com o preconceito contra negros, mulheres ou homossexuais. Menos… sério, bem menos… Se é pra falar em preconceito, vamos falar em preconceito religioso no geral ok? Eu não acho que os ateus sofrem muito mais preconceito do que os muçulmanos, ou até mesmo do que um católico perdido em meio a uma multidão evangélica (e vice-versa – e olha que o Jesus é o mesmo!!!)…

Além do mais, sejamos honestos. Já que o problema é preconceito, acesse sites ateus/céticos, assista os documentários do Dawkins ou vá a feiras/encontros/congressos desses grupos e veja o tipo de provocação sarcástica que costumam fazer em relação as pessoas que acreditam em “deus” ou são religiosas. São piadas extremamente agressivas, normalmente insinuando que só ignorantes ou pessoas praticamente irracionais (ou que gostam de nutrir o pensamento mágico, como preferirem) podem conseguir acreditar numa fábula como “deus” ou seguir uma religião. Tem até canal ateu (com vídeos no Youtube) praticamente dedicado a tirar sarro da crença alheia. Uma boa ideia para os ateus que se sentem vítimas de preconceito é talvez controlar o seu próprio preconceito em relação a crença dos outros. Dar o exemplo, sabe?

Então temos o seguinte: os ateus acham os religiosos/espiritualistas ilógicos e irracionais e esses, por sua vez, acham os ateus amorais e possivelmente perversos. Bem, tendo em vista que os ateus normalmente se consideram mais intelectualizados/eruditos/lógicos e racionais do que o restante das pessoas (vide o teor das piadas/livros/artigos/comentários/documentários que criam), não seria mais lógico que ao invés de lamentarem o “enorme” preconceito supostamente sofrido eles dessem o exemplo, sendo pessoas verdadeiramente morais, éticas, humanistas, dedicadas a defenderem seus pontos de vista sem que para isso precisem ridicularizar ou até mesmo agredir as crenças dos outros? (Essa campanha é legal porque faz exatamente isso: defende de maneira educada outro ponto de vista… melhor assim)

Convenhamos, nós entendemos as razões dos religiosos em serem assim… A maioria das pessoas segue uma religião por puro condicionamento, tradição, criação, meio. Nasci no Brasil, sou católica (ou de alguma outra religião cristã), nasci na Índia sou hinduísta etc. Normalmente a religião é tão acidental quanto a língua que a pessoa fala. E como a religião demanda uma crença absoluta, e como por séculos esteve não apenas  associada, mas era quem criava e observava as regras de conduta, é óbvio que na mente da maioria religião é sinônimo de ordem, moralidade, ética. Não é da noite pro dia que se muda a mentalidade das pessoas, ainda mais uma mentalidade que é antiga…Eu só penso que a melhor forma de fazer as pessoas entenderem um pensamento diferente, como no caso do ateísmo, é pelo exemplo. Fazer piada ou comparações cínicas normalmente só fazem com que o preconceito se aprofunde ainda mais. É possível criticar um pensamento, argumentar contra, sem insinuar que a pessoa autora do pensamento é burra ou um macaco melhorado. Sério.

Particularmente também não defendo religião, mas sou plenamente a favor da religiosidade, da espiritualidade. Sei que espiritualidade não é algo em que se acredita, mas que se vive, se experimenta e sente. “Deus” não precisa de religião, e os mensageiros jamais devem ser mais importantes do que a mensagem (logo, a idolatria ao mensageiro é uma forma de perder a verdade que ele intencionava que fosse compreendida).

Já disse isso no Inconsciente outras vezes e repito: as brigas sobre “deus” nada mais são do que brigas por conceitos. Um concorda com determinado conceito, outro não. Isso só é problema quando deus é crença, é religião, é sistema filosófico, é o que o pai ou a mãe ensinou. E os ateus provam que são também crentes na inexistência de deus no momento que acham que é um problema o conceito oposto. Dois lados, uma única e mesma moeda. Precisa mais lógica que isso?

Ah,  e pra fechar meu comentário, gostaria de enumerar alguns grandes cientistas e filósofos da História, que eram também dedicados a “crenças religiosas irracionais”, numa tentativa de esclarecer que crença religiosa tem muito pouco ou mesmo nada a ver com nível intelectual ou estudo –  frequentemente é uma crença puramente emocional.

Dá pra fazer boa Ciência mesmo sendo religioso, viu? Alguém avise o Dawkins. Vamos lá:

– Isaac Newton: astrônomo, físico e… Alquimista e Teólogo;

– Nicolau Copérnico: astrônomo, matemático e… Astrólogo e Cônego da Igreja Católica;

– Johannes Kepler: astrônomo, matemático e… Astrólogo;

– Blaise Pascal – físico, matemático, filósofo e… Teólogo;

– Guilherme de Ockham – criador da teoria “Navalha de Occam” (idolatrada por céticos e ateus do mundo todo), foi um lógico (sim, pasme), teólogo e frade franciscano;

– Francis Bacon – filósofo, considerado o “fundador da Ciência Moderna” e… Rosacruz e Alquimista;

– Giordano Bruno – inesquecível, além de filósofo e contestador do status quo, foi Teólogo e Frade Dominicano;

Se alguém lembrar mais nomes, por favor, comente!!! 😉

+++

“Somos a encarnação do mal para grande parte da sociedade”, diz presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA)

A campanha era para ser veiculada na parte traseira dos ônibus, mas empresas de São Paulo, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre se recusaram a fazê-lo. A saída foi utilizar outdoors. Pelo menos em Porto Alegre, que desde o começo do mês é a primeira cidade brasileira a exibir uma campanha que defende o ateísmo.

Afinal, o que há de tão problemático com os anúncios? De acordo com Daniel Sottomaior, presidente da organização responsável pela campanha, o que incomoda é o conteúdo. Ele diz que as mensagens foram feitas com o objetivo de conscientizar a população de que o ateísmo pode conviver com outras religiões e não deve ser encarado como uma deficiência moral. “Todos os grupos que sofrem algum tipo de preconceito procuram fazer campanhas educativas para tentar minimizar o problema. Foi o que fizemos”, afirma.

Diante das mensagens veiculadas nos outdoors, as reações foram variadas. “Foram interpretadas como provocação por alguns grupos religiosos. Além disso, muitos acharam de mau gosto ou preconceituoso. Acho que isso foi coisa de quem não entendeu ou não quis entender”, diz. Daniel diz que seu objetivo é mostrar que ser ateu é difícil. “As pessoas ficam chocadas quando você revela que não acredita em um deus. Muitos chegam a perder emprego e, principalmente, amigos”.

Punição
Para o sociólogo americano e estudioso das religiões Phil Zuckerman o ateísmo ainda é fonte de muito preconceito. Segundo ele, ateus sofrem até mesmo perseguições. “Mesmo atualmente, em algumas nações, ser ateu é passível de punição com pena de morte. Nos Estados Unidos existe um forte estigma em ser ateu, principalmente no sul, onde a religiosidade é mais forte”, conta.

No Brasil, um país laico, a intolerância pode aparecer nas situações mais improváveis. A professora da Universidade Federal de Minas Gerais Vera Lucia Menezes de Oliveira e Paiva perdeu um filho de dois anos, atropelado. Diante do sofrimento da família no velório da criança, Vera escutou uma frase que a deixou bastante magoada. “Uma amiga me disse: ‘Quem sabe isso não aconteceu para você aprender a ter fé?’. Isso apenas reforçou minha convicção de que eu não queria acreditar em nenhum deus que pudesse levar o meu filho inocente”, revela.

Apesar de tudo, Vera afirma que não se perturba com comentários acerca de sua escolha. “Acho natural que uma pessoa religiosa queira demonstrar sua fé. Entendo e convivo com pessoas bastante religiosas sem problema algum. Só não gosto quando ficam argumentando sobre o quanto é maravilhoso acreditar em Deus. Tenho direito a ter minha crença pessoal.Ou a falta dela.”

Daniel diz que atitudes como estas, vindas de amigos e familiares, fazem com que ateus não “saiam do armário”. Ele afirma que esta expressão, usada inicialmente para descrever homossexuais que ainda não se assumiram, encaixa-se perfeitamente no momento pelo qual o ateísmo vem passando. “Estamos atrasados uns 30 anos em relação à luta contra o preconceito, se compararmos com homossexuais ou negros. Sou bastante cético, mas tenho a esperança de que possamos alcançar o mesmo patamar daqui a algumas décadas”, revela.

Exagero
Há quem veja afirmações como as dada por Daniel como exagero. O filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), considera ações como as desenvolvidas pela ATEA como marketing. “O preconceito diminuiu muito, principalmente nos meios universitários e empresariais. Acho a comparação de ateus com negros e homossexuais um exagero. Tem um pouco de marketing aí.”

Pondé admite que muitas pessoas ainda têm dificuldade em enxergar a possibilidade de uma vida sem um deus. “Muitos associam moral pública à religião. Isso também é um absurdo. Pessoas matam umas as outras acreditando ou não em Deus. O que acontece é que muitos ateus ficam alardeando coisas assim, mas acho que hoje o cenário já é bem diferente”, afirma.

Apesar de não ser tão enfático, Zuckerman admite que em alguns lugares do mundo o ateísmo não é mais visto como algo depreciativo. “Em muitas sociedades, como no Canadá e na Suíça, ser ateu não tem nada de mais. A Austrália, por exemplo, tem um primeiro-ministro ateu. Cada país tem uma dinâmica diferente.”