Muito improvável que sejam realmente os restos de São João Batista. Parece que o arqueólogo responsável pela “descoberta”  se precipitou ao tirar conclusões.

Concordo com o historiador Dr. Christopher Rollston (leia a crítica dele aqui – em inglês), faltam (muitos) dados para alegar qualquer coisa a respeito do relicário. Dados como:

1- Uma tradição antiga de confiança, de preferência a partir do final do século primeiro ou bem no início do segundo século dC, afirmando que os ossos de João Batista haviam sido transferidos para uma ilha no Mar Negro.

2 – Uma inscrição no relicário que indicasse algo como “Os ossos de João Batista” (ie, nome e título … algo como “John” não seria suficiente).

3 – Uma data paleográfica para a própria  inscrição que fosse do final do primeiro século ou muito no início do segundo século (afinal, sem dúvida nenhuma, ninguém nos séculos posteriores seria capaz de localizar com precisão o local do enterro de João Batista na Palestina e pode ser que, mesmo no final do século primeiro, ninguém teria sido capaz de ter feito isso!).

4 – Datação dos ossos pelo carbono 14  que resultou em uma data do século 1 dC.

Mas fica registrada aqui a notícia como uma curiosidade e até que mais pesquisas sejam feitas, é só pura especulação.

Leia também a notícia na CNN.com e veja mais fotos, clicando aqui (em inglês).

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Relicário com fragmentos de ossos do santo, que batizou Jesus Cristo, foi encontrado em mosteiro na costa da cidade de Sozopol

No fim de julho, uma pequeno relicário de alabastro com alguns pedaços de ossos encontrada numa ilhota do Mar Negro, na costa búlgara, agitou a comunidade científica do país do leste europeu. Baseados apenas em provas circunstanciais e inscrições, arqueólogos do país afirmam que se trata dos ossos de uma das figuras mais importantes do Cristianismo: São João Batista.

De acordo com a Bíblia, o santo reconheceu Jesus Cristo como o Messias e o batizou nas águas do rio Jordão. Foi decapitado a mando de Herodes, governador da Palestina, no ano 36. O santo é bastante reverenciado na Igreja Ortodoxa, predominante na Bulgária.

Imagem de São João Batista na ingreja de São Estevão, em Nesebar, Bulgária
Imagem de São João Batista na ingreja de São Estevão, em Nesebar, Bulgária

Um dente e fragmentos de osso do crânio e braço foram encontrados dentro do relicário pela equipe do arqueólogo Kazimir Popkonstantin em um altar de um templo do século 5 localizado na ilha de Sveti Ivan, perto da cidade costeira de Sozopol. No local, havia uma inscrição que atribuía as relíquias ao santo e mencionava o dia de seu nascimento, 24 de junho. Na ilha (cujo nome traduzido do búlgaro significa São João) houve posteriormente uma igreja dedicada a São João, datada do século 11. Essas são as provas, no momento, que garantem a procedência dos ossos. Eventualmente, testes de carbono 14 deverão ser feitos para estabelecer a idade das relíquias.

Definitivamente, a ilha búlgara não está sozinha em reclamar parte do esqueleto de São João Batista para si: na Grande Mesquita de Damasco, na Síria e a catedral de Amiens, na França, reclamam para si a cabeça do santo, e seu suposto braço direito está em um museu em Istambul.

Polêmica

Kazimir Popkonstantinov, segurando o suposto relicário.
Kazimir Popkonstantinov, segurando o suposto relicário.

A pressa em considerar os artefatos como genuínos causou tensão entre membros do governo búlgaro e a comunidade científica do país. Ao comentar a reação de arqueólogos não envolvidos com a descoberta, que afirmavam que seria necessário fazer alguns testes para assegurar a idade dos ossos antes declará-los autênticos, o ministro da Diáspora Búlgara Bozhidar Dimitrov se exaltou e usou de palavras de baixo calão para se referir aos “dissidentes”.

Segundo a agência de notícias local Novinite, o fato gerou uma crise política que quase causou sua expulsão do Partido Socialista búlgaro. Dimitrov emitiu uma declaração pública de desculpas a um dos arqueólogos envolvidos, Nikolay Ovcharov. Os ossos estão agora em uma igreja em Sozopol, que espera se tornar um centro de turismo religioso na região.

Fonte: Último Segundo