” A história que temos no Ocidente, na medida em que se baseia na Bíblia, baseia-se numa visão do universo que pertence ao primeiro milênio antes de Cristo. Não está de acordo nem com nossa concepção do universo, nem com nossa concepção da dignidade humana. Pertence inteiramente a algum outro lugar.

Hoje, temos que reaprender o antigo acordo com a sabedoria da natureza e retomar a consciência de nossa fraternidade com os animais, a água e o mar. Dizer que a divindade modela o mundo e todas as coisas é condenado como panteísmo. Mas panteísmo é uma palavra enganadora. Sugere que um deus pessoal supostamente habita o mundo, mas a ideia em absoluto não é essa. A ideia é transteológica, de um mistério indefinível, inconcebível, admitido como um poder, isto é, como a fonte, o fim e o fundamento de toda a vida e todo o ser.

(…)

Deus (na tradição bíblica) está separado da natureza, e a natureza é condenada por Deus. Está tudo lá, no Gênesis: estamos destinados a ser os senhores do mundo.

Mas se você pensar em nós como vindos da terra, não como tendo sido lançados aqui, de alguma parte, verá que nós somos a terra, somos a consciência da terra. Este são os olhos da terra, e esta é a voz da terra.”

(Joseph Campbell – mitólogo norte-americano, em “O Poder do Mito“)

“O ser humano cultuará algo, não tenha dúvidas sobre isso. Podemos pensar que nosso tributo é pago em segredo no recesso escuro de nossos corações, mas ele se revelará. Aquilo que domina nossas imaginações e nossos pensamentos determinará nossa vida e nosso caráter. Portanto, cabe a nós ter cuidado com o que adoramos, pois o que nós estamos venerando nós estamos nos tornando.”

(Ralph Waldo Emerson – filósofo e poeta norte-americano)

“O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza antes de se dominarem a si mesmos.”

(Albert Schweitzer – teólogo, médico e filósofo alsaciano)

Planeta Terra

“Os índios se dirigiam a todo ser vivente como ‘vós’ – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como ‘vós’, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um ‘vós’ não é o mesmo que vê uma ‘coisa’. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em ‘coisas’.”

(Joseph Campbell, em “O Poder do Mito“)

O modo como você trata a natureza diz muito sobre você, pois apenas reflete o modo como você trata a si mesmo. Não há como maltratar ou ser indiferente a ela sem agir antes, desse mesmo modo, consigo mesmo.

A ideia desse post surgiu de alguns comentários feitos em outro post a respeito da ignorância humana e sua consequente maldade (oriunda do medo e lapidada por aquela mesma ignorância) em relação a tudo aquilo que é diferente ou desconhecido. Principalmente no que se refere ao modo de ver e tratar a natureza, um tema que ultimamente tem aparecido como nunca na mídia.

Nós não estamos mais, somente, caminhando para a nossa própria destruição como espécie. Nós estamos encarando a nossa possível extinção nos olhos, há um bom tempo.

Mas eu não quero dedicar esse post a reclamações inúteis do tipo “ninguém preserva a natureza” ou “ninguém recicla”, ou ainda “ninguém respeita os animais”. Pois ficar fazendo essas constatações do óbvio também não muda situação alguma. Além de ser clichê, é mais uma manutenção do conformismo reinante.

Quando me deparo com um problema, a minha primeira preocupação é encontrar a origem, a fonte do conflito, onde tudo começou. E no caso dos problemas com relação a natureza, sejam eles quais forem, todos têm uma origem comum: a nossa cultura. O problema não está na falta de educação. O problema é a educação. Nós somos criados, principalmente no Ocidente, para não só “crescer e se multiplicar” pela terra, mas para “dominar a natureza” e “colocá-la a nosso serviço”. É como diz o grande mitólogo Joseph Campbell na citação que introduz este texto, “está tudo lá, no Gênesis: estamos destinados a ser os senhores do mundo“. A nossa cultura, que se fundamenta na tradição judaico-cristã, e que é uma mitologia socialmente orientada, vê a natureza como algo a ser controlado. A natureza é a coisa que deve nos servir. É por isso que é tão “chocante” para nós ver imagens de um país como a Índia, em que vacas, por exemplo, são tratadas como deuses.

Mas tudo fica muito diferente, a maneira como se trata todos os seres do mundo, quando se olha para tudo e se vê um “vós” ao invés de “coisas” e “issos”. Ao olhar para um animal e ver um “vós”, você não mata por diversão. Ao olhar para uma árvore e ver um “vós”, você não desmata inutilmente. Ao olhar para a água e ver um “vós” você não despeja químicos em rios e oceanos. Você só faz tudo isso quando vê a natureza como uma coisa a ser subjugada. Algo a ser controlado visando somente os seus interesses. Uma máquina servindo a propósitos artificiais.

O nosso problema com o mundo está na maneira como olhamos para o mundo. E mesmo percebendo que esse modo de ver e agir não está gerando bons frutos, continuamos passando para as novas gerações o mesmo tipo de educação errônea que recebemos como “tradição”. Mas, a culpa não é daquelas pessoas que escreveram os textos bíblicos… Elas não tinham como saber. Elas nada mais eram do que frutos de suas próprias limitações de época, ambiente e conhecimento. Mas, milênios se passaram e nós não podemos nos esconder atrás da mesma desculpa…

E é para ilustrar exatamente essa ideia que resolvi transcrever a famosa carta do Chefe Seattle, escrita por volta de 1852 e endereçada ao presidente dos Estados Unidos, que na época havia feito um inquérito sobre a aquisição das terras indígenas para serem ocupadas pelos imigrantes que chegavam ao país.

Chefe Seattle

Chefe Seattle

A carta do Chefe Seattle entrou para a História por ser uma das mais (se não a mais) belas declarações de amor à Natureza, não só escrita, mas verdadeiramente sentida e vivida, por um ser humano.

Fica como um exemplo de que toda mudança social e global é primeiro uma mudança individual. A tal “sociedade” nada mais é que um coletivo de indivíduos humanos.

Que essa carta sirva de inspiração para a mudança individual, a boa e velha mudança interior que verdadeiramente tem poder para melhorar o mundo:

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“O Presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A ideia nos é estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los?

Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência  do meu povo.

Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, pertencem todos à mesma família.

A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar-se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias na vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.

Os rios são nossos irmãos. Eles saciam a nossa sede, conduzem nossas canoas e alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se dedicaria a um irmão.

Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. O vento, que deu ao nosso avô seu primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.

Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece  a todos os filhos da terra.

O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo.

Uma coisa sabemos: nosso deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens, todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência.

Quando o último pele-vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem, e a sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície… estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?

Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na, como Deus nos ama a todos.

Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos.”

Texto integral retirado do livro “O Poder do Mito“.