“O verdadeiro autor é aquele cuja obra é anônima, pois deste modo ninguém se interpõe entre o aluno e o que deve ser estudado”.

Amil-Baba (um dervixe desconhecido do séc. XVII)

Em um outro post, eu havia falado um pouco sobre a Sabedoria Cômica do Mullah Nasruddin, que acredito ser um dos sábios sufis mais conhecidos do público leigo ocidental. Apesar de não se saber ao certo se Nasruddin de fato existiu ou não, suas histórias divertidas continuam atuais e populares.

O sufismo é uma filosofia mística do Islã, que busca o autoconhecimento e uma experiência direta de “Deus”. Para atingir esses objetivos, os sufis, ou sufistas, utilizam a música, poesia, danças, meditação e retiro espiritual. Ao contrário do que muitos pensam, o sufismo não é bem uma religião, e os adeptos sufis acreditam que qualquer pessoa, independente do credo religioso, pode ter um contato direto com a divindade. Tanto por isso que foram perseguidos até pelos muçulmanos esotéricos, já que a ideia que os sufis fazem de “Deus” é diferente do que é convencional e tradicionalmente aceito. Na verdade, acho que posso dizer que o tipo de perseguição que os sufis sofrem ou sofreram é do mesmo tipo que qualquer místico sofre. Entendendo-se  por místico aqui, aquele que busca uma experiência ou contato direto com a divindade, e que por isso, não precisa “ter fé”… Segundo a Wikipedia,

Hallaj (séc. X), um dos grandes representantes do sufismo, foi executado, pois ensinou, em estado de êxtase, que Deus e ele eram um; que havia atingido a identidade suprema. Como o ideal do sufismo era ascético, acreditavam que Jesus era tão importante quanto Maomé, que o Alcorão era tão essencial quanto a Bíblia ou a Torá. Quase um século e meio depois, Ghazali, um dos maiores pensadores do mundo e seguidor sufi, disseminava a idéia de que a verdade mística não pode ser aprendida, mas sim experimentada por meio do êxtase.

As origens da palavra “sufi” remontam ao idioma egípcio antigo, e significa “pureza”. Essa filosofia mística islâmica nasceu no Oriente Médio, no século VIII. Para quem se interessou em saber mais sobre o sufismo, há um artigo muito bom, entitulado:  Quando o homem se confunde com Deus, de Débora F. Lerrer.

No Youtube há bastante vídeos dos “dervixes rodopiantes” (a palavra dervixe quer dizer monge maometano), que são os sufis da Ordem Mevlevi (existem várias correntes e ordens dentro do sufismo). Esses dervixes tem como parte da sua meditação, um tipo de dança em que rodopiam de braços abertos. Para quem não conhece, encontrei um vídeo de uma apresentação muito bonita dos Dervixes Rodopiantes de Damasco (The Whirling Derwishes of Damascus) , na Holanda:

Mas bem! Voltando aos textos sufis. Selecionei alguns, de vários sábios, incluindo o nosso querido Mullah Nasruddin para a sua diversão… e reflexão! 😉

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É por isso que lhe dão valor

“Nunca dê as pessoas coisa alguma que peçam, até que ao menos um dia tenha se passado”, disse o Mullá.

“Por que não, Nasrudin?”

“A experiência mostra que só dão valor a algo, quando têm a oportunidade de duvidar se irão ou não consegui-la.”

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Isto Também Passará

Um dervishe, depois de uma árdua e longa viagem através do deserto, chegou por fim à civilização. O povoado se chamava Colinas Arenosas e era quente e seco. Não havia muito verde, exceto feno para o gado e alguns arbustos. As vacas eram o principal meio de vida das pessoas de Colinas Arenosas. O dervishe perguntou educadamente a alguém que passava se havia algum lugar onde poderia encontrar comida e abrigo para aquela noite.

– Bem, disse o homem coçando a cabeça – não temos um lugar assim no povoado, mas estou certo de que Shakir ficará encantado de lhe brindar com sua hospitalidade esta noite.

Então o homem indicou o caminho da fazenda de propriedade de Shakir, cujo nome significa “o que agradece constantemente ao Senhor”.
No caminho até a fazenda, o dervishe parou perto de um pequeno grupo de anciões que estavam fumando cachimbo e eles confirmaram a direção. Eles disseram que Shakir era o homem mais rico da região. Um dos homens disse que Shakir era dono de mais de mil vacas.

– E isso é maior do que a riqueza de Haddad, que vive no povoado ao lado.

Pouco tempo depois o dervishe estava parado em frente a casa de Shakir a admirando. Shakir, que era uma pessoa muito hospitaleira e amável, insistiu para que o dervishe ficasse por alguns dias em sua casa.

A mulher e as filhas de Shakir eram igualmente amáveis e deram o melhor para o dervishe. Inclusive, ao final de sua estadia, lhe deram uma grande quantidade de comida e água para sua viagem.

No seu caminho de volta para o deserto, o dervishe não conseguia parar de se perguntar o significado das últimas palavras de Shakir. No momento da despedida o dervishe havia dito:

– Dê Graças a Deus pela riqueza que tens.

– Dervishe – havia respondido Shakir – não se engane pelas aparências, porque isto também passará.

Durante o tempo em que havia passado no caminho Sufi, o dervishe havia compreendido que qualquer coisa que ouvisse ou visse durante sua viagem lhe oferecia uma lição para aprender, e portanto, valia a pena considerá-la. Além de tudo, essa era a razão pela qual havia feito a viagem, para aprender mais. As palavras de Shakir ocuparam seus pensamentos e ele não estava seguro de ter compreendido completamente o seu significado.

Quando estava sentado sob a sombra de um arbusto para rezar e meditar, recordou do ensinamento Sufi sobre guardar silencio e não se precipitar em tirar conclusões para finalmente alcançar a resposta. Quando chegasse o momento, compreenderia, já que havia sido ensinado a permanecer em silêncio e sem fazer perguntas. Para tanto, fechou a porta dos seus pensamentos e submergiu sua alma em um estado de profunda meditação.

E assim se passaram mais cinco anos, viajando por diferentes terras, conhecendo pessoas novas e aprendendo com suas experiências no caminho. Cada nova aventura oferecia uma lição a ser aprendida. Entretanto, como requeria o costume Sufi, permanecia em silêncio, concentrado nas ordens do seu coração.

Um dia, o dervishe voltou a Colinas Arenosas, o mesmo povoado onde havia passado alguns anos antes. Se lembrou de seu amigo Shakir e perguntou por ele.

– Está vivendo no povoado ao lado, a dez milhas daqui. Agora trabalha para Haddad – respondeu um homem do povoado.

O dervishe lembrou surpreendido que Haddad era o outro homem rico da região. Contente com a idéia de voltar a ver Shakir outra vez, se apressou para ir ao povoado vizinho. Na maravilhosa casa de Haddad, o dervishe foi bem recebido por Shakir, que agora parecia muito mais velho e estava vestido em andrajos.

– O que lhe aconteceu? – quis saber o dervishe.

Shakir respondeu que uma enchente três anos antes o havia deixado sem vacas e sem casa; assim ele e sua família se tornaram empregados de Haddad, que sobreviveu à enchente e agora desfrutava da posição de homem mais rico da região. Entretanto, esta alteração na sorte não havia mudado o caráter amistoso e atencioso de Shakir e de sua família.Cuidaram amavelmente do dervishe na sua cabana durante os dois dias e lhe deram comida e água antes dele sair. Na despedida, o dervishe disse:

– Sinto muito pelo que aconteceu com você e sua família. Mas sei é que Deus tem um motivo para aquilo que faz..
– Mas não se esqueça, isto também passará.

A voz de Shakir ressoou como um eco nos ouvidos do dervishe. O rosto sorridente do homem e seu espírito tranqüilo não abandonavam seu pensamento.

– O que ele quer dizer com esta frase desta vez?

O dervishe sabia agora que as últimas palavras de Shakir na sua visita anterior se anteciparam às mudanças que ocorrerem. Mas dessa vez, se perguntava o que poderia justificar um comentário tão otimista. Assim deixou a frase de lado outra vez, preferindo esperar pela resposta.
Passaram meses e anos, e o dervishe, que estava ficando velho, continuou viajando sem nenhuma intenção de parar.

Curiosamente, suas viagens sempre o levavam de volta ao povoado onde vivia Shakir. Assim sendo, demorou sete anos para voltar a Colinas Arenosas e Shakir estava rico outra vez. Agora vivia na casa principal da propriedade de Haddad e não na pequena cabana.

– Haddad morreu há dois anos – explicou Shakir – e, como não tinha herdeiro, decidiu deixar sua fortuna para mim como recompensa dos meus leais serviços.

Quando estava terminando sua visita, o dervishe se preparou para a viagem mais importante de sua vida: cruzaria a Arábia Saudita para fazer sua peregrinação a pé até Meca, uma antiga tradição entre seus companheiros. A despedida de seu amigo não foi diferente das outras vezes. Shakir repetiu sua frase favorita:

– Isto também passará.

Depois da peregrinação, o dervishe viajou à Índia. Ao voltar a sua terra natal, Pérsia, decidiu visitar Shakir mais uma vez para ver o que havia acontecido com ele. Assim, mais uma vez se pós em marcha para Colinas Arenosas. Mas em vez de de encontrar seu amigo Shakir, lhe mostraram uma humilde tumba com a inscrição “Isto também passará”. O dervishe ficou ainda mais surpreendido do que das outras vezes, quando o próprio Shakir havia pronunciado estas palavras.

– As riquezas vem e as riquezas se vão – pensou o dervishe – mas, como pode trocar um túmulo?

A partir de então o dervishe adquiriu o costume de visitar a tumba de seu amigo de tantos anos e passava algumas horas meditando na morada de Shakir. Entretanto, em uma de suas visitas o cemitério e a tumba haviam desaparecido, arrasados por uma enchente. Agora, o velho dervishe havia perdido o único vestígio deixado por um homem que havia marcado tão excepcionalmente as experiências de sua vida. O dervishe permaneceu durante horas nas ruínas do cemitério, olhando o chão fixamente. Finalmente, levantou a cabeça em direção ao céu e então, como se houvesse descoberto um significado mais elevado, abaixou a caberá em sinal de confirmação e disse:

– Isto também passará.

Finalmente o dervishe ficou muito velho para viajar, decidindo se fixar e viver tranqüilo e em paz pelo resto de sua vida.

Os anos se passaram e o ancião se dedicava a ajudar a quem se acercava dele para os quais aconselhava e a compartilhar suas experiências com os jovens. Vinha gente de todas as partes para beneficiar-se de sua sabedoria. Finalmente, sua fama chegou até o grade conselheiro do rei, que casualmente estava buscando alguém com grande sabedoria.

O fato era que o rei desejava que lhe fizessem um anel. O anel teria de ser especial: devia ter uma inscrição de tal forma que quando o rei se sentisse triste, olhasse o anel e ficaria contente e se estivesse feliz, ao olhar o anel se entristeceria.

Os melhores joalheiros foram contratados e muitos homens e mulheres se apresentaram para dar sugestões sobre o anel, mas o rei não gostava de nenhuma. Então o conselheiro escreveu para o dervishe explicando a situação, pedindo ajuda e o convidando para ir ao palácio. Sem abandonar sua casa, o dervishe enviou sua resposta.

Poucos dias mais tarde, um anel foi feito com uma esmeralda e foi entregue ao rei. O rei, que havia estado deprimido por vários dias, mal o recebeu, botou o anel no dedo e olhando-o, deu um suspiro de decepção. Logo começou a sorrir e, pouco depois, ria às gargalhadas.

No anel que usava estavam escritas as palavras “Isto também passará“.

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Quando um dervixe saúda a outro, ele não diz “Como estas?”
O derviche faz uma leve reverência e logo diz: “que maravilhoso ver a Deus manifesto em teus olhos!”
Logo, o segundo dervixe poderia responder: “Ah! Se não fora pelo Amor em teu coração, não seria possível a você ver a Deus em meus olhos.”
Ah! Poderia dizer de novo o primeiro dervixe “porém se não fora pelo Amor Divino, mostrado através de ti, não seria possível para ti dizer o que disseste, que o Amor estava mostrando-se no meu coração.”
Ah! poderia dizer o segundo dervixe “se não fora pela Presença Divina não poderíamos ser conscientes um do outro.”
Eles logo se abraçariam e seguiriam seus caminhos.
A Presença Divina está sempre, em todo o lugar, ao mesmo tempo.
Assim tem sido sempre e assim sempre será.
Nada se perde no Absoluto, está sempre ali.
Quando somos conscientes, estamos apaixonados.

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Um Fiel e Meio…

NARRADOR: Dizem que os soberanos estão melhor situados para penetrar as obscuridades da mente. Porém para isso é necessário que a sua esteja clara. A Tradição Sufi nos conta o seguinte: Um sultão ouviu falar de um grande sheik, um mestre muito respeitado, que vivia em Anatólia e que contava com centenas de milhares de fiéis. O sultão, assustado por aquela força, pela qual se sentia ameaçado, convocou ao sheik a Istambul e lhe perguntou:

SULTÃO: O que é que ouço dizer? Que tens centenas de milhares de homens dispostos a morrer por ti?

SHEIK: Oh, não! – disse o sheik – Somente tenho um e meio.

SULTÃO: Então, por que me contam que poderias sublevar todo o país? Vamos ver. Que todos os homens se reúnam amanhã de manhã no campo, fora da cidade.

NARRADOR: Por toda a parte se proclamou que os fiéis do sheik teriam que reunir-se na manhã seguinte no campo, porque ali estaria o sheik em pessoa. Numa parte alta, que dominava o campo, o sheik fez instalar uma tenda. Dentro prendeu vários cordeiros, que ninguém podia ver. Os fiéis acudiram em grande número. O sultão, que estava de pé diante da tenda com o sheik, lhe disse:

SULTÃO: Tu me disseste não ter mais que um fiel e meio. Olha! Há milhares deles! Dezenas de milhares!

SHEIK: Não. Eu só tenho um fiel. Agora verás. Anuncia que cometi um crime e que irás condenar-me à morte, a menos que um de meus fiéis se sacrifique por mim.

NARRADOR: O sultão assim o fez, provocando um grande murnúrio entre a multidão. Um homem se adiantou e declarou:

HOMEM: Ele é meu Mestre. Devo-lhe tudo o que sei. Eu dou minha vida por ele.

NARRADOR: O sultão o fez entra na tenda e ali, imediatamente, seguindo as indicações do sheik, cortaram o pescoço de um cordeiro. Todos os assistentes viram aparecer sangue por baixo da tenda. Naquele instante o sultão declarou:

SULTÃO: Uma vida não é suficiente. Algum outro fiel está disposto a sacrificar-se pelo sheik?

NARRADOR: Por trás do silêncio sepulcral que se seguiu e durou vários minutos, uma mulher avançou e se declarou disposta. A fizeram entrar na tenda e cortaram o pescoço de outro cordeiro. A multidão, ao ver o sangue, começou a dispersar-se. Em pouco tempo não restou ninguém no campo. O sheik disse ao sultão:

SHEIK: Vês? Somente tenho um fiel e meio.

SULTÃO: Então, o homem é o fiel verdadeiro e a mulher meio?

SHEIK: Não, não – contestou – Ao contrário. Porque o homem não sabia que lhe iriam cortar o pescoço na tenda. Já a mulher viu o sangue e sem dúvida avançou. Ela é a verdadeira fiel.

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Aprendizado

“Como foi que você aprendeu tanto, Mullá ?”, perguntaram certa vez a Nasrudin.

“Falando muito”, respondeu ele.

“Vou colocando em sequência todas as palavras que me ocorram. Quando eu fico interessante, posso ver o respeito no rosto das outras pessoas. Na hora em que isso acontece, começo a tomar nota mentalmente do que disse”.

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A luta dos cegos

Certa manhã, quando dirigia-se ao mercado, Nasrudin viu alguns cegos e,fazendo tilintar as moedas em sua bolsa, disse em voz alta:

– Amigos, amigos, peguem estas moedas. Tu, toma esta, tu, esta, e vocêsrepartam o resto – e enquanto fazia isso, fazia tilintar as moedas em sua bolsa.

É evidente e seria até demais esclarecer, que não repartiu um só tostão. Produzida a cena, afastou-se para observar a seguinte situação:

Os cegos começaram a precipitar-se uns sobre os outros, exclamando e gritando: ” deutudo para ti”. Ou então:” Vocês ficaram com tudo ao invés de repartir”. Ou:” Eu nada recebi”, ” mentes”, ” dá-me a minha parte”, etc. etc.

Isso transformou-se em empurrões, socos, chutes, insultos, xingamentos, terminando em uma grande batalha indescritível, dada a cegueira total
reinante.

Nasrudin, que seguia de perto as peripécias da batalha, murmurou:

Isto é o que poderia chamar-se de uma ” uma luta de cegos por motivo inexistente”.

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Iogurte

Como se sabe, uma pequena porção de iogurte, quando misturada no leite, pode fermentar este último e torná-lo também iogurte. Acontece que em dada ocasião, Nasrudin estava a beira de um lago misturando iogurte no lago, quando um amigo passava:
-Nasrudin, o que está fazendo?
-Estou misturando iogurte no lago, assim teremos um lago de iogurte.
-Mas isso não funciona, Nasrudin.
-Sei que não funciona, mas já pensou se isso dá certo?

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Encontro com o Diabo

(Ou de como nossos condicionamentos e preconceitos podem distorcer a visão correta das coisas)

Certo homem devoto, convencido de que era um sincero Buscador da verdade, submeteu-se a uma longa seqüência de disciplina e estudo.

Por um período considerável de tempo, teve muitas experiências, tanto em sua vida interior, como exterior, junto a vários mestres.

Um dia, meditando, viu subitamente o diabo sentado ao seu lado.

– Afasta-te, demônio – gritou -, não tens nenhum poder para me causar dano, pois estou seguindo o Caminho dos Eleitos. – A aparição se esfumou.

Um verdadeiro sábio que por ali passava, disse-lhe, com tristeza:

– Ah, meu amigo. Assentaste teus esforços sobre bases tão inseguras, tais como teu medo inalterado, tua avareza e tua auto-estima, que chegaste a tua última experiência possível.

– E por quê? – perguntou o buscador.

– Esse diabo é, na realidade, um anjo. Diabo é como tu o viste.

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O Valor de um Tesouro Escondido

Vivia na China um sacerdote rico e avarento. Amava jóias e as colecionava, acrescentando constantemente novas peças ao seu maravilhoso tesouro escondido, que guardava a sete chaves, oculto de olhos que não fossem os seus.

O sacerdote tinha um amigo, que um dia o visitou e manifestou interesse em ver as jóias.

– Seria um prazer tirá-las do esconderijo, e assim eu poderia olhá-las também.

A coleção foi trazida, e os dois deleitaram os olhos com o tesouro maravilhoso por longo tempo, perdidos em admiração.

Quando chegou o momento de partir, o convidado disse:

– Obrigado por me dar o tesouro.

– Não me agradeça por uma coisa que você não recebeu – disse o sacerdote. – Como não lhe dei as jóias, elas não são suas, absolutamente.

– Como você sabe – respondeu o amigo, – senti tanto prazer admirando os tesouros quanto você, por isso não há essa diferença entre nós como pensa. Só que os gastos e o problema de encontrar, comprar e cuidar das jóias são seus…

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Entre os Amigos e o Burro

Nasrudin ia montado em seu burro pelo povoado, pensando no que pensar, quando de repente uns amigos lhe chamaram.

O mestre, ao escutar o chamado, desce do burro e vai ter com eles.

Quando chega, estes começam a recriminá-lo pelo que havia feito, ou não havia feito.

Nasrudin, nesse momento, volta até seu burro e com um sorriso lhe diz:
– Que sorte que não falas!

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Quando a Sinceridade Fala Primeiro

Certo dia, um juiz perguntou ao mestre Nasrudin:

– Mestre, no caso de você ter de escolher entre a justiça e o dinheiro, o que você escolheria?

– O dinheiro, é claro – respondeu Nasrudin, sem pestanejar.

– O quê! – disse o juiz. Pois eu escolheria a justiça sem pensar duas vezes, porque
a justiça não é fácil de ser encontrada, enquanto o dinheiro, este não é tão raro assim. Podemos encontrá-lo por aí sem grandes dificuldades. Estou sinceramente espantado com a sua opção, Nasrudin. Não o julgava capaz de uma ambição, sendo um mestre!

– Meritíssimo, cada um deseja aquilo que mais lhe falta! – respondeu tranqüilamente o mestre Nasrudin.

Fonte: Poesia Sufi