
Uma pintura do sábio sufi, Nasruddin
Há muitos anos atrás eu tive o meu primeiro contato com uma das histórias protagonizadas e contadas por um sábio sufi, chamado Nasruddin. Essas histórias, normalmente curtinhas e no melhor estilo “parábola”, apesar de serem simples e cômicas, eram capazes de fazer o leitor refletir por horas (a mim até por dias), a respeito das profundas verdades que encerram.
O “Mullah Nasruddin”, como ficou famoso, na realidade é um personagem desconhecido, que muitos dizem ter existido e vivido durante o século 13 na Anatólia (segundo a Wikipedia em inglês, ele nasceu no vilarejo de Hortu em Sivrihisar, Eskisehir; depois morou em Aksehir e mais tarde em Konya, onde por fim morreu). Alguns alegam que ele tenha sido apenas um personagem mitológico. Entretanto, várias nações do Oriente Próximo, Oriente Médio e Ásia Central reivindicam o sábio como seu (Afeganistão, Turquia, Irã, Índia etc).
Independente de ter realmente existido ou não, e onde, a sabedoria de Nasruddin continua fresca mesmo nos dias de hoje. Ele pode ser considerado um “filósofo popular”, pois não é necessário nenhum tipo de conhecimento especial ou estudo para compreender suas histórias. E já que estou falando das histórias, o que as torna mais interessante é o fato de serem verdadeiros paradoxos. O comportamento do Mullah é ilógico porém com lógica… é irracional de modo racional. É bizarro e normal ao mesmo tempo!
Osho dizia; “nunca eu amei alguém como amei Nasruddin. Ele é um dos homens que aproximou a religião do riso.” É realmente difícil não simpatizar com as sábias anedotas do Mullah. Por isso, no post de hoje trago algumas das minhas preferidas!
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A felicidade não está onde se procura
Nasrudin encontrou um homem desconsolado sentado à beira do caminho e perguntou-lhe os motivos de tanta aflição.
“Não há nada na vida que interesse, irmão”, disse o homem. “Tenho dinheiro suficiente para não precisar trabalhar e estou nesta viagem só para procurar algo mais interessante do que a vida que levo em casa. Até agora, eu nada encontrei.”
Sem mais palavra, Nasrudin arrancou-lhe a mochila e fugiu com ela estrada abaixo, correndo feito uma lebre. Como conhecia a região, foi capaz de tomar uma boa distância.
A estrada fazia uma curva e Nasrudin foi cortando o caminho por vários atalhos, até que retornou à mesma estrada, muito à frente do homem que havia roubado. Colocou a mochila bem do lado da estrada e escondeu-se à espera do outro.
Logo apareceu o miserável viajante, caminhando pela estrada tortuosa, mais infeliz do que nunca pela perda da mochila. Assim que viu sua propriedade bem ali, à mão, correu para pegá-la, dando gritos de alegria.
“Essa é uma maneira de se produzir felicidade”, disse Nasrudin.
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Como Nasrudin criou a verdade
“Estas leis não tornam melhores as pessoas”, disse Nasrudin ao Rei; “elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente.”
O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade.
O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem.
Um édito foi proclamado: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado.”
Nasrudin deu um passo à frente.
“Aonde vai?”
“Estou a caminho da forca”, respondeu Nasrudin calmamente.
“Não acreditamos em você!”
“Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!”
“Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!”
“Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!”
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Os melhores conselhos
Nasrudin começou a construir uma casa : seus amigos, que tinham cada um sua própria casa, e eram carpinteiros, pedreiros, o rodearam de conselhos. Mullá estava radiante. Um após outro, e às vezes todos juntos, disseram-lhe o que fazer. Nasrudin seguia docilmente as instruções que cada um lhe dava.
Quando a construção terminou, ela não se parecia em nada com uma casa.
- Que curioso! – disse Nasrudin – e contudo eu fiz exatamente aquilo que cada um de vocês me tinha dito para fazer!
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O barco e o homem letrado
Em dada ocasião, Nasrudin estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá disse algo que contrariava as regras gramaticais:
- Você nunca estudou gramática? – perguntou o estudioso.
- Não, nunca – respondeu Nasrudin.
- Nesse caso, metade de sua vida se perdeu – retrucou o outro.
Nasrudin ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:
- Você nunca aprendeu a nadar? – disse o Mullá ao homem letrado.
- Não, nunca – este respondeu.
- Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.
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O anúncio
Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão:
“Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?”
Logo juntou-se um grande número de pessoas, com todo mundo gritando: “Queremos, queremos!”
“Excelente!”, disse o Mullá. “Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim.”
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Há mais luz por aqui
Alguém viu Nasrudin procurando alguma coisa no chão.
“O que é que você perdeu, Mullá?”, perguntou-lhe
“Minha chave”, respondeu o Mullá.
Então, os dois se ajoelharam para procurá-la.
Um pouco depois, o sujeito perguntou:
“Onde foi exatamente que você perdeu esta chave?”
“Na minha casa.”
“Então por que você está procurando por aqui?”
“Porque aqui tem mais luz.”
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O Tolo que era Sábio
Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque:
Mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. A história correu pelo condado.
Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:
- Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.
Nasrudin lhe respondeu:
- O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque.
E cheio de sabedoria acrescentou:
- Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.
“Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!”
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O sermão de Nasrudin
Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita.
Ele concordou.
Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou:
“Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?”
“Não, não sabemos”, responderam em uníssono.
“Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja”, disse o Mullá, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.
Desceu do púlpito e foi para casa.
Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na Sexta-feira seguinte, dia de oração.
Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes.
Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:
“Sim, sabemos”.
“Neste caso”, disse o Mullá, “não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora.” E voltou para casa.
Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
“Sabem ou não sabem?”
A congregação estava preparada.
“Alguns sabem, outros não.”
“Excelente”, disse Nasrudin, “então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem.”
E foi para casa.
Submarino:
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Olá, gostei muito e já conhecia algumas parábolas do Mullah! Aliás, parabéns pelo site, está cada vez mais interessante!!
Tendo existido ou não, Nasrudin é um figuraça, um grande gozador que nos faz rir e pensar. Há alguns anos ouvi dizer que ia ser lançado um compêndio só com histórias dele em português. Alguém sabe se o livro já foi editado?
Olá Márcia, Olá Murilo!!
Antes de tudo, muito obrigada!
Murilo, respondendo a sua pergunta, não sei se estamos a falar do mesmo livro, mas há um título com as párabolas e contos do Mullah em português, chamado “As Parábolas e contos de Nasrudin”. O autor é Alexandre Rangel.
No submarino tem em estoque:
http://www.submarino.com.br/produto/1/266824/parabolas+e+contos+de+nasrudin,+as/?franq=269293
Ainda hoje eu releio as histórias de Nasruddin num livro muito velhinho que herdei de algum tetra avô. Foi ficando na familia e em criança meu avô lia para mim e para meus primos como historinhas para rir. Um macro na minha formação.
Cada vez gosto mais do seu site. Tudo de bom.
Muito bom, Karina!
Depois posta mais sobre isso!
Abraços!
Leitão
http://leitaoemacao.wordpress.com
Oi Anat!!
Brigadão pela força!
Oi Leitão!!
Sim, sempre que eu ver outra “historinha” legal, posto aqui sim!
[...] http://inconscientecoletivo.net/a-sabedoria-comica-do-mullah-nasruddin/ [...]
era bom indicar as fontes… tem muitos livros em português…why not????
Nasrudim, o grande mestre de Osho , é sempre bom encontra-lo. Namastê
Oi Sathya!
Obrigada
[...] 13/10/2009 às 7:27 pm · Arquivado em Espiritualidade, Sufismo and etiquetado: Espiritualidade, islamismo, Nasrudim, Sufismo Do site http://inconscientecoletivo.net/a-sabedoria-comica-do-mullah-nasruddin/ [...]