Concluir é sempre melhor do que acreditar. Não há como discutir isso. Por isso, resolvi trazer no post de hoje, um texto do filósofo brasileiro Huberto Rohden (parafraseado de uma de suas palestras) a respeito da “experiência de Deus”, ou da constatação de um “Deus pessoal”. Aqui no blog eu tenho dado preferência a esse tipo de filosofia mística, que desmistifica (com o perdão do trocadilho aparentemente paradoxal -rs) o conceito popular de “deus” como sendo um fantasmão genioso vivendo no céu, que escolhe ouvir algumas preces em detrimento de outras, que supostamente diz para os representantes e teólogos de todas as religiões (que supostamente “Ele” inspirou) que as religiões deles é que são as verdadeiras ou que seus livros sagrados são os únicos e verdadeiros… com consequências que todos já conhecemos, certo? Há uma citação de Einstein (não é a toa que ele é tão citado pelos proponentes da Nova Ciência…) que gosto muito e que já tinha transcrito em outro post. É uma em que ele fala de sua “crença em Deus” e a diferencia da maneira popular :

“A opinião comum de que sou ateu repousa sobre grave erro. Quem a pretende deduzir de minhas teorias científicas não as entendeu.

Creio em um Deus impessoal e posso dizer que, nunca, em minha vida, cedi a uma ideologia atéia.

Não há oposição entre a ciência e a religião. Apenas há cientistas atrasados, que professam idéias que datam de 1880.

Aos dezoito anos, eu já considerava as teorias sobre o evolucionismo mecanicista e casualista como irremediavelmente antiquadas. No interior do átomo não reinam a harmonia e a regularidade que estes cientistas costumam pressupor. Nele se depreendem apenas leis prováveis, formuladas na base de estatísticas reformáveis. Ora, essa indeterminação, no plano da matéria, abre lugar à intervenção de uma causa, que produza o equilíbrio e a harmonia dessas reações dessemelhantes e contraditórias da matéria.

Há, porém, várias maneiras de se representar Deus.

  • Alguns o representam como o Deus mecânico, que intervém no mundo para modificar as leis da natureza e o curso dos acontecimentos. Querem pô-lo a seu serviço, por meio de fórmulas mágicas. É o Deus de certos primitivos, antigos ou modernos.
  • Outros o representam como o Deus jurídico, legislador e agente policial da moralidade, que impõe o medo e estabelece distâncias.
  • Outros, enfim, como o Deus interior, que dirige por dentro todas as coisas e que se revela aos homens no mais íntimo da consciência.”

É por isso que o físico alemão considerava as religiões como crenças primitivas… Só é estranho como essa citação aparece em sites e blogs religiosos…(risos) Nessas a gente vê como as pessoas têm dificuldade para interpretar o que leem. As pessoas pensam que Einstein (que era agnóstico, diga-se de passagem) está defendendo um ponto de vista teológico. O que ele diz nada tem a ver com a confirmação de alguma teologia, liturgia, dogma ou pior, validação da fé religiosa (independente de qual for)… Basicamente o que Einstein diz aí é que religiões não são necessárias nem nada têm a ver com ” Deus”. A própria ideia de Deus que as religiões propagam é uma ideia ignorante, primitiva, absurda e altamente preconceituosa. Uma ideia que visa objetivos bem específicos e nada relacionados a amor ou compaixão (ao contrário do que gostam de afirmar): poder. Amai ao próximo desde que ele seja da mesma igreja/congregação, sabe? 😉 Deixando claro que nem todos os religiosos possuem esses defeitos, eu jamais faria uma generalização do tipo. Uma pena que os que não se encaixam na descrição acima sejam uma minoria diminuta…

Mas é desse Deus interior, como explicado por Einstein acima, que Huberto Rohden fala, no texto de hoje. Na verdade, o simples uso da palavra “Deus”, no contexto aqui, é complicado. O sentido comum dado para a ideia de “deus” é tão popularmente arraigado que fica difícil explicá-lo sem usar contradições (paradoxos) como um que tentei recentemente: “deus não é deus…porque deus não existe…é diferente” (risos)

E novamente, descobrimos neste texto também porque a meditação é tão importante! Os grifos são meus.

O texto faz pensar… o que existe no intervalo entre dois pensamentos?

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Neste milênio em que estamos atravessando, uma grande parte da humanidade, não a parte da humanidade massa, mas, uma pequenina humanidade elite, está entrando numa nova dimensão de consciência. Está ultrapassando a crença, sem cair na descrença. Há uma grande elite que não está dispensando a crença para cair na descrença, o que seria uma involução, um regresso. Está ultrapassando a crença para descobrir uma nova dimensão do espírito, a qual eu chamo a experiência pessoal de Deus. Não a crença num deus do passado, num deus à distância, para além da via Láctea e das galáxias do universo, o que seria a crença, que é necessário para a humanidade dos principiantes, pois é melhor a crença do que a descrença. Mas quando a humanidade chega a certa altura da sua maturidade espiritual, a humanidade está ultrapassando a crença de um deus longínquo, de um deus do futuro ou do passado e está entrando da experiência de um Deus presente, de um Deus aqui e um Deus agora. Essa é a grande humanidade que está acontecendo nos últimos.

Há uma elite cada vez maior na humanidade, dentro e fora do cristianismo, pessoas que já entram na experiência direta e imediata de Deus, que estão começando a realizar a consciência de Deus aqui e agora e que vão continuar por toda a eternidade.

Naturalmente nesta experiência de Deus, ao invés de uma crença de Deus, supõe que se tem uma idéia mais exata de Deus do que o grosso da humanidade. O grosso da humanidade só conhece o deus do passado e o deus do futuro; só conhece o deus ausente, não conhece nada do Deus presente. Mas, se é verdade que Deus esta Onipresente e a Sua Presença não está localizada em algum espaço de tempo, se Deus está Onipresente, presente aqui e acolá, igualmente Presente em toda parte, então Deus é espírito Universal e não pode ser uma pessoa individual, pois uma pessoa não pode estar onipresente. Mas o Espírito pode estar Onipresente; pode estar no mineral, no vegetal e no homem, pode estar em qualquer tempo e espaço do Universo.

Quando se tem a consciência dessa Onipresença de Deus, pode-se então, chegar a uma experiência direta de Deus. Por que se Deus está presente em mim, porque é que eu não poderia ter uma experiência direta, real e verdadeira deste Deus presente em mim?

Muitas pessoas falam de Deus; Deus é a palavra mais usada e mais abusada que existe na humanidade. Todo mundo fala de Deus, prós ou contras. Também os ateus falam de Deus: eles têm uma absoluta certeza de que Deus não existe, mas falam sempre em Deus para rejeitar. Os crentes falam de Deus para aceitar. Muitos falam de Deus, mas isso não resolve nada. Falar de Deus seja pró, ou seja, contra, não resolve os problemas da humanidade. Outros até falam com Deus, o que eles chamam rezar, orar. Isto já é um pouco melhor do que falar de Deus, pois é um prelúdio, mas não é uma solução definitiva. Nem falar de Deus e nem falar com Deus, resolve o problema central da humanidade.

Vejamos uma terceira atitude que não é nem falar de Deus e nem falar com Deus: permitir que Deus nos fale. Essa é uma grande coisa que apenas alguns descobriram… Permitir que Deus nos fale! Esses são os grandes iniciados, que são poucos por enquanto, mas que existiram em todos os tempos. Moisés, Elias, Jesus, Francisco de Assis, Buda, Mahatma Gandhi, todos mantinham momentos de silêncio para permitir o ambiente interno necessário para que Deus pudesse lhes falar. Todos estes grandes místicos que descobriram que a solução de todos os problemas da vida consiste em permitir que Deus nos fale. Mas esta é uma arte muito difícil! Não há 1% da humanidade, nem da cristandade, que consiga aprender sofrivelmente esta arte de se calar, porque para que Deus me possa falar, eu me devo calar. Enquanto eu falo, Deus se cala. Só se eu me calar, então Deus tem a oportunidade para me falar. Mas é muito difícil a gente se calar! Você pensa que é fácil? Você está calado agora, o que não adianta nada! Este ficar calado materialmente não resolve nem um pouco, pois calar fisicamente é muito fácil. A gente vai para um deserto, uma floresta, uma caverna ou se isola entre quatro paredes e estamos fisicamente em silêncio. Não resolve nada o silêncio físico, porque nós carregamos conosco nosso ruído mental: nossos pensamentos! Você pode desfazer-se dos seus pensamentos durante cinco minutos, meia hora, uma hora… Ou durante vários dias, como fizeram vários destes místicos citados no texto acima? Você é capaz de ficar mentalmente silencioso durante um determinado período de tempo? Isto é muito difícil para o grosso da humanidade porque somos bombardeados constantemente pelos nossos próprios pensamentos. A grande maioria não consegue se esvaziar de seus próprios pensamentos nem por cinco minutos.

Este é o ruído mental que impede que Deus nos fale. Deus não fala enquanto eu não me calar mentalmente! Mesmo que eu cale fisicamente, não resolve! É preciso entrar num silêncio mental. Alguns conseguem evitar o barulho mental, que se chama pensamentos, mas não conseguem se livrar de um outro ruído que se chama ruído emocional: os nossos queridos desejos, as nossas afetividades de todas as espécies! Sempre desejamos alguma coisa e enquanto nós desejamos, queremos alguma coisa, não estamos em nosso vazio e Deus não tem licença para nos visitar. Deus não pode nos falar enquanto nós não nos calarmos mentalmente e emocionalmente durante certo período de nossa vida e isso é muito difícil para o grosso da humanidade.

Mahatma Gandhi, o grande libertador místico da Índia e dos nossos tempos, dizia aos seus amigos:

“Reduzi a nada os vossos sentimentos. Reduzi a nada, os vossos pensamentos. Reduzi a nada, os vossos desejos”.

E depois de ouvir isto, os amigos de Mahatma Gandhi lhe diziam:

Depois desses três nadas, o que é que sobra de mim? Se eu reduzir a nada o meu ego físico-mental e emocional, o que é que sobra de mim?

E Mahatma Gandhi, sorrindo lhes respondia:

Sobra Deus e chega!

Mas os discípulos de Mahatma Gandhi não podiam compreender isto tão depressa. Aparentemente não sobra nada, porque quando nós não sentimos, pensamos e não queremos nada, parece que não existimos mais – não temos mais consciência de nós. Porque nós vivemos na estranha ilusão de que quando não se pensa nada, então a gente não tem consciência. Muitos quando não pensam e não querem nada, adormecem, caem no transe ou na auto-hipnóse. Isso não resolve nada. Isto não tem o poder de resolver nenhum dos problemas da nossa vida espiritual.

Mas alguns já descobriram que podemos nos esvaziar de qualquer pensamento, desejo e apesar disso, ficar plenamente consciente em espírito e verdade. É preciso ficar 100% consciente e 0% pensante. Quando se afirma isso, muitos que estão adentrando no mundo da prática meditativa, afirmam que o que está sendo pedido é demais, que se está pedindo por “um círculo-quadrado”. Muitos principiantes pensam que quando não pensamos nada, não estamos conscientes, mas, com o decorrer da prática, descobrem que se pode ficar sem pensar e desejar nada e ficar plenamente consciente do espírito e da verdade. No entanto, esta descoberta não vem logo no princípio: ela vem aos poucos! E quando descobrimos que podemos ficar 100% consciente no nosso Eu-espiritual, sem nenhum processo de pensamento e de emoção em nosso Ego-mental-emocional, então ocorre a grande experiência do despertar espiritual, a grande libertação, a verdadeira iniciação.

Então, estes iniciandos e iniciados, tem a experiência da presença de Deus. Então, sabem por experiência própria, que crer em Deus é muito bom, mas que ter certeza de Deus, não é apenas crer em Deus. Por que eu posso crer em Deus hoje, e descrer amanhã. Eu posso fazer ida e volta; muitos fazem isso: hoje são crentes, amanhã são descrentes. Da crença, passam para a descrença, do teísmo, passam para o ateísmo. Isto acontece a todos os humanos, quando ainda se encontram no período da crença, onde pode existir a ida-e-volta da crença. Mas, quando se tem a experiência direta de Deus, não há mais ida-e-volta… só há ida! Ninguém pode ter a experiência de Deus hoje e perdê-la amanhã. Isso é absolutamente impossível! A Experiência dá a certeza absoluta de Deus. A crença nos enche de dúvidas. Por isso se faz necessário transpor os limites da crença para a experiência.

A experiência dá a certeza de que Deus é uma Realidade, de que a vida após morte é uma realidade, que a minha alma é uma realidade. Porque se eu tenho a experiência de alguma coisa eu nunca mais posso ignorar amanhã, o que eu sei hoje! Isso é tão certo como 2X2 são 4. A experiência dá a certeza absoluta e eterna em todas as condições.

Por isso, é de absoluta necessidade que todo homem que queira ter paz, tranqüilidade, firmeza e felicidade em sua vida interior, deve, cedo ou tarde, passar da crença para a experiência. Esta é a única coisa necessária: ter a certeza pela experiência direta de Deus. De maneira que, se isso é tão importante para a nossa tranqüilidade interior, segurança, firmeza e felicidade, mesmo em meio de sofrimentos, não valeria a pena, tratarmos seriamente de adquirir experiência e certeza absoluta de Deus, não por uma crença vaga e longínqua, mas por uma experiência direta e imediata? Mas como é que se faz isso?

Hoje, todo mundo fala em meditação. Nunca se fez tanta meditação como hoje em dia. Em outros tempos, meditação era só para os Indianos, para os jovens do Oriente, para Frades e Freiras dos conventos, mas para o homem da indústria, do comércio, da ciência, da universidade, dos laboratórios… Eles faziam outras coisas. Hoje em dia, estes mesmos homens, dedicam pelo menos meia hora do seu dia à meditação.

Meditação não é outra coisa a não ser calar-se para que Deus possa nos falar. Deus não fala pelo barulho, só fala pelo silêncio. Se alguém não consegue ficar silencioso, nunca vai saber nada de Deus; pode crer em Deus, e é bom que o faça, mas nunca vai ter nenhuma certeza de Deus, pois a certeza vem com a experiência, conseguida pela meditação em silêncio. Meditação não é pensar em alguma coisa. É esvaziar-se de todos os pensamentos e desejos próprios e ficar plenamente consciente.

Segundo Leis eternas, onde há uma vacuidade acontece uma plenitude. Se eu me esvazio dos meus desejos e dos meus pensamentos é absolutamente certo que me vai acontecer uma experiência direta de Deus, capaz de trazer a plenitude. A plenitude de Deus flui para dentro da minha vacuidade. Onde há um ego-esvaziamento, ocorre uma Téo-plenificação. O problema não e a plenificação, pois esta sempre vai acontecer, o nosso problema está no ego-esvaziamento: Como é que eu vou me esvaziar dos meus conceitos, crença e condicionamentos da minha egoidade humana, dos meus pensamentos, dos meus desejos, para que a Graça de Deus possa me plenificar com a sua riqueza? Este é o nosso grande problema!

Se queremos obter a certeza através da experiência, temos que prestar atenção onde estão acertando os religiosos. Estudar a vida daqueles que o conseguiram. As grandes experiências meditativas nos vem do Oriente. Existe hoje em dia, uma pequena elite que está descobrindo cada vez mais a alma da mensagem destes grandes homens, destas grandes “setas orientadoras”. “Conhecereis a Verdade”, disse um dos maiores mestres, “e a Verdade vos libertará!” A libertação pela Verdade, pelo Conhecimento e pela vivência da Verdade. O conhecimento da Verdade se chama mística e a vivência da Verdade se chama ética. Toda lei da vida prática e toda a experiência de todos os grandes experientes da inspiração mística resumem-se na expressão: “Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo!”. Esta é a maior mensagem espiritual dita nestes últimos dois mil anos. Esta experiência traça uma linha vertical e uma linha horizontal; a linha vertical da mística e a linha horizontal da ética. A linha vertical: o amor entre o homem e Deus. A linha horizontal: o amor entre o homem e todas as criaturas humanas. A consciência da paternidade/maternidade única de Deus, transbordando na vivência da fraternidade universal dos homens. Esta foi a maior mensagem já proclamada neste planeta Terra nestes dois mil anos. Amor para cima e amor para todos os lados… Mística e ética.

Estamos diante de uma nova humanidade. Uma pequenina elite está entrando cada vez mais na experiência de Deus. Mas esta elite é qualidade e não quantidade. A qualidade sempre será mais importante que toda quantidade. Para fazer parte da elite espiritual, é absolutamente necessário a cada dia, somente 2% do seu tempo, o que representa meia hora do seu tempo diário, para se encontrar conscientemente com Deus. Quem se dedicar a esta prática diária terá mudanças em toda as áreas de sua vida: espiritual, mental, emocional, social, afetiva e doméstica… Tudo vai melhor! Mas quem quer se dedicar isto? Hoje, para muitos de nós, às 24 horas do dia são divididas da seguinte maneira: 8 para o trabalho obrigatório, 8 horas para o sono e 8 horas para os divertimentos. Se continuarmos com este programa horário, continuaremos a ser “eternos analfabetos espirituais”: nunca saberemos nada, nem de nós e muito menos de Deus. Não seria bom mudar um pouco este programa horário para que a vida se torne mais qualitativa em sua horizontalidade? Será que não vale a pena se ausentar por meia hora de todas as coisas do nosso ego humano, físico, mental e emocional e se concentrar totalmente no Eu espiritual, de forma constante, na melhor meia hora do dia? Qual é a melhor meia hora do seu dia? Estabelecer um grande e verdadeiro silêncio interno, uma vacuidade, um ego-esvaziamento… para experimentar uma Cosmo-plenitude… a transformação da vida pela ação da Graça!

Esta é a experiência de todos os grandes místicos, de todos os grandes homens realmente felizes que tem vivido na face deste planeta. Eles fizeram justamente isto e verificaram que deu certo. Então, porque continuamos a ser eternos analfabetos desta arte sublime do nosso contato consciente com Deus? Entramos neste mundo no marco zero.

Quando entramos neste mundo pelo nascimento, não tínhamos nada. Nossos pais nos deram o primeiro impulso para o nosso corpo, e depois que nascemos, tivemos que completar nosso corpo nos alimentando. Tiramos da natureza as energias necessárias para completar o nosso corpo. Nosso corpo é um produto dos nossos pais e da natureza e será devolvido daqui a pouco à natureza. Nosso corpo foi emprestado e o que foi emprestado pela natureza, deve ser devolvido. E depois? Se entramos no marco zero durante nosso nascimento e se vamos sair novamente no marco zero quando da hora de nossa morte, para que viver tantos anos? Para passar de um zero para outro zero? Não podemos levar nada do exterior juntamente conosco. O grosso da humanidade passa toda a sua existência somente nos “teres da vida”, vivendo em vão. Sobre o grosso desta humanidade, devia-se colocar uma lápide sepultural depois da morte e escrever na mesma o seguinte:

“Aqui jaz os restos mortais de fulano, que viveu durante tantos anos sem saber o porque!”

Que coisa triste! Declaração de falência total! Não seria bom sairmos deste patético modo de vida? Será que posso levar comigo alguma coisa? POSSO!… não daquilo que eu tenho, mas sim, daquilo que eu sou! Não daquilo que eu recebi de fora, mas sim daquilo que eu mesmo fiz de dentro de mim. Valores espirituais eu posso levar comigo, objetos não posso levar! Dizia Einstein: “Do mundo dos objetos, não há nenhum caminho que conduza ao mundo dos valores, por que os valores vem de outra região!“. Os objetos vêm de fora, os valores vem de dentro. Logo, devíamos pensar seriamente em criar valores. Valores são coisas criadas pela nossa consciência. Não são fabricados pela nossa inteligência que só pode produzir objetos, fatos da natureza. Só podemos levar conosco valores da nossa consciência. Mas o que é isso? Valor não é um fato, não é um objeto, não tem peso, não tem cor, não tem tamanho… Ninguém pode dizer quantos peso tem um valor, quantos metros tem um valor… Valor é uma criação da nossa consciência: Verdade, Justiça, Honestidade, Sinceridade, Amizade… Isto são valores! Somos criadores de valores e descobridores de fatos! Mas os fatos estão entre o 0 do nascimento e o outro 0 da morte e nenhum fato pode nos acompanhar! Nada pode nos acompanhar a não ser os valores. Por isso dizia um grande mestre: “Uma só coisa é necessária!”

Einstein, em um dos seus livros dizia:

Por que é que todas as Igrejas prometem o céu aos bons e não aos inteligentes?”

E depois ele responde:

As Igrejas tem razão… os inteligentes descobrem os fatos da natureza que já existiam antes deles, mas os bons, criam os valores da sua consciência que não existiam antes deles e que eles criaram. Por isso é muito mais importante criar valores que descobrir fatos“.

Até parece um místico falando e não um matemático, se bem que o matemático também é um místico ao seu modo, porque a mística não é outra coisa do que a consciência da realidade e a matemática também o é.

O homem bom é um criador de valores dentro de si. Um homem inteligente é apenas um descobridor de fatos fora de si. O que está fora de nós, não podemos levar conosco, o que está dentro de nós, podemos levar conosco. Valores são eternos, fatos são coisas temporárias. Ninguém pode criar valores dentro de si, eternos e indestrutíveis se não tiver experiência da realidade espiritual. Esta Realidade se chama de Deus, que está fora de nós, e de alma que está dentro de nós e que é a mesma coisa. Um Deus transcendente se chama “a divindade” e um Deus imanente se chama Deus em nós, a nossa alma. E nós, levamos conosco somente o nosso Deus imanente, a nossa alma. Por isso dizia o maior dos iniciados: “Que proveito há para o homem em ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” Uma sabedoria lógica e matematicamente certa!

A nova humanidade é a humanidade da experiência. Mas a experiência é absolutamente impossível no nosso programa diário se nós não modificarmos profundamente nosso programa de cada dia, nossas 24 horas, nós nunca vamos ultrapassar a crença infantil para adentrar na experiência da adultes espiritual. Não é possível por que a crença vem de fora, vem da aceitação de testemunhos alheios, mas a experiência vem de dentro, é a aceitação da nossa própria certeza interior, que nos dá absoluta firmeza, tranqüilidade e felicidade indestrutível. Mas esta experiência do mundo espiritual não é possível dentro do programa da nossa vida diária que muitos estão levando até agora! Se não tomarmos a sério a modificação do nosso programa diário, nunca poderemos chegar a experiência do despertar espiritual.

Todo mundo hoje em dia quer começar a meditar, mas os livros complicam tanto a meditação, que as pessoas ficam com medo da meditação. Quase todos os livros que conheço sobre a meditação desanimam o leitor desde o principio porque exigem “técnicas meditativas…” técnica A, técnica B, técnica C… e assim por diante. Não há nenhuma técnica! Se existe uma técnica é o silêncio e não é nenhuma técnica: é simplesmente se esvaziar de todos os conteúdos humanos e ficar à disposição do Infinito… uma disponibilidade espiritual em face ao Infinito, nada mais é necessário. Fazer de si uma completa vacuidade…

Isso exige algum exercício porque os nossos pensamentos são tirânicos! No geral, não pensamos aquilo que queremos. Somos bombardeados pelos nossos pensamentos! O nosso cérebro é uma praça pública por onde passam milhões de homens, mulheres e automóveis buzinando por todo lado! O nosso cérebro é uma praça pública invadido por todos os pensamentos sem a nossa licença! Os pensamentos entram e saem como todos os vagabundos entram e saem pela praça pública. E nós permitimos a passagem dos pensamentos pelo nosso cérebro. Desse modo, é impossível ter a experiência direta de Deus. É preciso transformar a praça pública do nosso cérebro num santuário silencioso de Deus! Você pensa que é fácil? Isto é um grande problema, mas é possível!

Os nossos pensamentos não nos obedecem. Não somos capazes de inicio, de ficar um só minuto sem pensar em nada. Nossos pensamentos são tirânicos e nós amamos os nossos queridos tiranos chamados pensamentos. Os pensamentos nos maltratam e nos tiranizam de todos os modos e mesmo assim, gostamos deles. Pior ainda as nossas emoções, as nossas afetividades. Somos tiranizados pelas nossas emoções. Nós não temos controle sobre nossas emoções, somos eternos adictos de nossas emoções.

Quando é que vamos nos libertar, proclamar a nossa independência mental e emocional? Quando é que vamos proclamar o nosso “treze de maio emocional”? Nós não somos donos dos nossos pensamentos, somos escravos dos mesmos! A grande mudança é poder ter os pensamentos que queremos ter e não os que devo. É não obedecer aos pensamentos, mas dar ordem aos mesmos. É não obedecer as minhas emoções, mas dar ordens às mesmas. É dizer aos pensamentos e as emoções: “vocês podem entrar na minha cabeça mas eu não vou dar vida à vocês!”.

Enquanto não formos capazes de discriminar entre pensamentos e emoções, positivos e negativos, seremos eternos joguetes dos mesmos. O grande problema está em transformar escravidão em liberdade. A impotência em domínio. Por que sem isto não é possível fazer meditação. Primeiro temos que ser donos dos nossos pensamentos, sentimentos e emoções. Declarar nossa independência. Quem não declara independência sucumbe à tirania dos seus pensamentos. Portanto, temos que fazer isto! E com o exercício permanente conseguimos chegar a isto. No princípio, ninguém consegue ficar um minuto sem ser bombardeado pelos seus pensamentos e emoções. Depois de muito exercício, conseguimos um minuto. A alma passa a mandar porque existe alguém dentro de nós que É maior do que todos os nossos pensamentos: a nossa consciência espiritual, que também pode ser chamada de Eu, Cristo, Buda, Alma… tudo isto é a mesma coisa!

Mas, poucos conseguem entregar às rédeas do seu governo à sua consciência espiritual. Depois de muito exercício fracassado, conseguem colocar disciplina, ordem e obediência em seus pensamentos, sentimentos e emoções. E pouco a pouco, se torna fácil pensar no que queremos e no que não queremos; mandar embora os pensamentos e ficar só com a consciência… A consciência sozinha, sem os pensamentos! E quando os pensamentos obedecem à consciência, a mesma pode dar licença para os pensamentos entrar. Se ele é bom, pode entrar, se não é bom, pode ir embora! Pouco a pouco, nossos pensamentos e emoções se tornam obedientes servidores de confiança de nossa majestade divina: a nossa consciência. E então nós podemos passar a aceitar os nossos pensamentos e emoções que queremos, porque eles são crianças obedientes e dóceis de nossa consciência.

Então, passamos a nos sentir soberanos e felizes por não sermos mais escravizados por nossos pensamentos e emoções. Passamos a ser donos de nossos pensamentos e emoções, isso depois de muito tempo! E não precisamos mais viver em solidão…por que no principio temos a necessidade de nos retirarmos para locais de solidão para a pratica da meditação (que é uma meditação), ou à solidão de um retiro espiritual. Isso se faz necessário para os principiantes: a solidão e o silêncio. Mas, para as pessoas que já ultrapassaram o ABC, isto pode ser feito no meio da sociedade, no meio do escritório, da escola, da casa, transporte, da praça publica, das ruas, a gente pode estar rodeado de barulhos, em profundo silêncio. Pode estar silencioso por dentro e ruidoso por fora. E o ruído não faz mal porque já não é mais venenoso como no principio, tornou-se um ruído sadio. Podemos permitir todos os ruídos da sociedade, sem sermos envenenados pelos ruídos porque nos acostumamos a dar ordem aos nossos pensamentos, sentimentos e emoções.

A grande libertação começa no Silêncio e termina no trabalho em meio ao barulho da sociedade. Para os principiantes é necessário fazer meditação e retiro espiritual em silêncio. Mas para os finalizantes, isto é possível no meio da sociedade, porque tudo que estamos fazendo e que hoje chamamos de autoconhecimento e de autorealização, não é outra coisa se não Libertação.

Libertação não quer dizer fuga, não quer dizer o abandono da sociedade. Libertação começa com silêncio e com solidão, mas termina no meio da sociedade. Para o princípio nós precisamos do silêncio e da solidão, para nos consolidarmos no domínio espiritual, mas quando estamos devidamente consolidados no domínio espiritual, nós podemos voltar ao meio da sociedade e a sociedade já não nos faz mal, porque não podemos mais ser derrotados pela sociedade, pois já somos senhores da sociedade, senhores dos pensamentos e senhores das emoções.

Isto é o que eu chamo da passagem da crença para a experiência de Deus, ou seja, a passagem da escravidão para a liberdade. Todos nós gostamos de liberdade; ninguém gosta de escravidão. Entretanto, poucos são os que fazem algo para se desescravizar e para se libertar.

Para quem não conhece, Huberto Rohden foi um filósofo, teólogo e educador catarinense, que chegou a ser padre jesuíta durante um tempo. Nem preciso dizer que as ideias dele não foram muito populares dentro da Igreja Católica né? (risos)