a causa secreta...

Você já ouviu alguém (ou até si mesmo) falando que, quanto à morte, “todo mundo tem sua hora certa”? Pois bem, eu não só ouvi, mas também já observei muitas situações que se revelaram como evidências de que as pessoas parecem ter uma “hora certa”, praticamente inevitável, de morrer. Mesmo assim a idéia de que há uma espécie de destino nos guiando sempre me intrigou e fascinou. Por que grandes líderes, pensadores, pacificadores, religiosos, artistas e músicos possuem uma tendência a morrerem jovens, ou melhor, a morrerem um pouco depois de suas máximas realizações? Seja por assassinatos, doenças, acidentes ou ingestão de drogas, parece haver um motivo “maior” para que suas vidas sejam interrompidas tão cedo, e normalmente de maneira tão marcante? O que define o modo como iremos morrer?

O tema desse post é lúgubre, eu sei. Mas o que me fez escrever sobre uma suposta “hora de morrer” ou “modo de morrer”, foi a leitura de um insight impressionante de Joseph Campbell, em seu livro “Tu és Isso: Transformando a Metáfora Religiosa”, que já mencionei outras vezes aqui no site. Em um dos capítulos do livro, o autor estava discorrendo sobre as “emoções trágicas” (como diria James Joyce) de uma narrativa trágica, que seriam a “pena” e o “terror”. Enquanto Campbell diferenciava medo de terror, dizendo ser esse último “uma experiência extática do sublime, do que transcende a dor”, ele chega ao termo “causa secreta”, que seria a “chave de tudo”. O terror, segundo ele, seria a emoção “que detém a marcha do espírito na presença de tudo o que é grave e constante no sofrimento humano e o une à causa secreta”. É a partir daí que surge o tal insight impressionante que eu havia mencionado anteriormente, quando o autor explica o que faz uma tragédia ser uma tragédia. Transcrevo abaixo o trecho, do raciocínio brilhante do professor Campbell:

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Imagine que um homem negro leve um tiro e seja morto por um branco. Qual é a causa da morte? A bala? Ela é a causa instrumental. Se você resolver escrever sobre balas e como elas não deveriam existir, ou se é ou não bom vender armas em lojas, deixando-as facilmente acessíveis, pode estar compondo um ótimo artigo sobre controle de armas, mas não uma tragédia, por mais que você se esforce. O homem branco dá um tiro no homem negro.

A causa do assassinato foi o conflito racial nos Estados Unidos? Se você escrever sobre isso, também terá o preconceito como uma causa instrumental e não a causa secreta da morte de uma pessoa. Você pode compor um importante ensaio social, mas não será uma tragédia. É uma calamidade, mas não uma tragédia.

O motivo de eu estar falando de um homem branco e um homem negro é que penso especificamente em Martin Luther King Jr., e suas bravas palavras pouco antes de seu assassinato: “Sei que ao insistir na justiça e nessa causa estou desafiando a morte.” Essa é a causa secreta.

A causa secreta de sua morte é o seu destino. Toda vida tem uma limitação; e ao desafiar o limite, você se aproxima dele. Os heróis são aqueles que iniciam suas ações, não importa qual seja o destino resultante. O que acontece é, portanto uma função do que a pessoa faz. Isso se aplica a toda a vida. Esta é a revelação da causa secreta: o curso de sua vida é a causa secreta de sua morte.

Isso também faz com que este e não aquele evento se torne a ocasião da morte de uma pessoa. A casualidade de você morrer dessa forma e não em outro momento e lugar, é a realização de seu destino: todas essas mortes são secundárias. O que deve se manifestar através do evento é a magnificência da vida que foi vivida e da qual o evento faz parte. Na arte, você não diz “não”. Diz “sim”. Quando dizemos “espero morrer dessa maneira”, queremos de fato afirmar que gostaríamos de morrer com essa realização. Sob esse ponto de vista, a morte é compreendida como uma realização da direção e do propósito de nossa vida.